quarta-feira, 11 de abril de 2018

A selfista

Numa mão, ela segurava o vistoso cone de sorvete, acabado de receber da balconista, uma mulher de rosto arredondado e sorriso fácil. O sorvete tinha duas bolas de cores vivas, cada uma com um sabor diferente, feito de frutas frescas. O cone de biscoito crocante resistia ao frio da sobremesa gelada e emprestava a esta uma aparência de gula. Na outra mão, o smartphone estava pronto para tirar a esperada foto. Não era raro um cliente deixar de fotografar o sorvete antes de comê-lo. Na casquinha ou no copinho, eles eram perfeitos para se fotografar, e antes que sumissem, já estavam eternizados nas redes sociais, recebendo muitos “likes”.

A moça, prevendo que iria tirar uma foto com o sorvete, parecia que tinha saído de casa preparada para a ocasião. Vestia-se com uma roupa bonita bem justa que delineava o seu corpo, modelado em academia de ginástica. O rosto estava tão maquiado que era quase impossível se avaliar a sua idade, mas ela não era nenhuma mocinha. Os cabelos, muito louros, não eram uma herança genética e, provavelmente, tinham sido adquiridos numa elegante caixa na farmácia.

A primeira foto que a moça tirou era do ilustre sorvete, empunhado em sua mão como um troféu gastronômico. Ela o levantou à altura dos olhos e mirou a máquina, ou melhor, o smartphone, e tirou a primeira foto. Foi um gesto rápido com a ajuda do polegar. Em seguida, ela analisou a foto com um olhar crítico, para depois esbouçar um sorriso de satisfação. Aquela servia! Ela já estava craque em tirar fotos, mesmo não sendo uma profissional no assunto. Sabia, por exemplo, qual o melhor ângulo posicionar a máquina para que a foto não saísse distorcida, e que posição da luz era a mais adequada para que, no final, a foto não parecesse desbotada. Antes de apertar o disparador, ela segurava a câmera com firmeza e prendia a respiração por um instante, para que a foto não saísse tremida. Tudo aquilo ela aprendeu sozinha, fotografando tudo que aparecia pela frente.

Do próprio smartphone, ela transferiu a foto para a rede social, acompanhada de uma legenda que ela mesma criou naquele momento e que lhe pareceu muito original: “Delícia!”

A foto seguinte, ela sabia, não seria assim tão fácil. A ideia era que ela e o sorvete aparecessem no mesmo plano, dando a entender que, enquanto os outros pobres mortais davam duro no trabalho àquela hora da tarde, ela desfrutava do prazer de estar numa elegante sorveteria merendando. Era uma satisfação pessoal que ela se permitia, provocar nos amigos um pingo de inveja. Alguns, no entanto, torciam o nariz com uma nesga de desprezo.

A moça colocou o sorvete próximo à boca entreaberta, os olhos cheios de desejo, como se estivesse na eminência de abocanhá-lo, enquanto a outra mão posicionava a câmera. E clique, a foto foi tirada. Em seguida, ela analisou a foto como fizera da primeira vez. No entanto, desta vez ela foi mais rigorosa. Achou a foto um pouco demais sugestiva e imaginou os comentários maldosos que talvez alguns de seus seguidores na rede social não resistiriam em fazer. Não, aquela foto estava fora de questão. Tentou novamente. Desta vez, ela colocou o sorvete um pouco mais de lado, para que este não impedisse as pessoas de reconhecê-la. Manteve a boca fechada, desta vez, mas ensaiou um largo sorrido que expunha a brancura e perfeição de seus dentes – estes, resultado do sacrifício de usar por dois anos aparelhos ortodônticos.  O sorvete, nesta foto, saíra inclinado para o outro lado e, por isso, seria necessário mais uma tentativa. Os cabelos loiros, também, estavam um pouco desalinhados. A moça, então, pôs mais um sorriso fabricado, arrumou os cabelos, posicionou o sorvete no ângulo correto e tirou a foto. Desta vez o sorriso lhe pareceu muito forçado. Talvez se ela abrisse a boca só um pouquinho e sorrisse, o resultado final fosse mais do seu agrado. E foi justamente o que ela fez. A foto foi mais uma vez tirada e posteriormente analisada com o olhar de quem procura algum defeito. Não estava perfeita, mas estava próxima do desejado. O sorvete, por outro lado, agora dava a impressão de que em breve começaria a se render ao calor e escorrer por sua mão. Só faltava mais uma coisa, antes de comê-lo. Postou a foto imediatamente na rede social com a intrigante legenda: “Aceitam um sorvete?”


Rio Vermelho, 10 de abril de 2018.




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Fábula Carnavalesca

A duas semanas do carnaval, Roberval tomou uma decisão difícil. Resolveu passar o feriado no mato. Em razão de seu temperamento, esta lhe pareceu a decisão mais sensata a tomar, agora que se casara com Dolores e ela estava com uma barriga enorme de sete meses. Depois que soube que ia ser pai, dois meses depois do enlace nupcial, Roberval resolveu tomar tenência na vida. De agora em diante, ia demonstrar dedicação ao trabalho, para não ser posto na rua, e manter-se longe das brigas de rua.

— Preto, você devia ficar e pular o carnaval, e eu vou para a roça ficar com mamãe. Se eu for brincar com a barriga deste tamanho, Júnior corre o risco de nascer antes da hora, no meio da avenida. Ai você vai ter um filho que vai ser um tremendo folião! Olhe, faça assim, considere este o seu carnaval de despedida, antes do menino nascer.

Apesar do jeito carinhoso da mulher o chamar, a pele de Roberval era branca como o leite. Por mais que ele tentasse pegar um bronzeado na praia, o máximo que ele conseguia era um vermelhidão disforme que se espalhava pelos braços, ombros, costas e peito, e que se desfazia um dia depois, transformando-o novamente no branquelo de sempre.

— Mãe, você sabe que eu só vou pra estas festas para brigar. – e querendo impressionar a mulher, acrescentou. – Eu prometi a mim mesmo, agora que vou ser pai, ficar longe das brigas.

Quem olhasse para Roberval, dificilmente acreditaria que ele era o arruaceiro que proclamava ser. Ele um tipo baixo e gorducho que mal cabia nas camisas que usava. Os cabelos bem escuros eram mantidos curtos à moda militar, o rosto quadrado, porém, tinha uma expressão afável, por traz de um par de óculos de armação quadrada e pesada. Ele mais parecia um menino amarelo que um valentão.

— Menino, você não consegue conter este seu temperamento e divertir como uma pessoa normal? – perguntou Dolores que considerava o marido um doce de pessoa, um homem que jamais tinha levantado a voz para ela ou a tivesse ameaçado com a mão. Ela não compreendia de onde vinha aquele gênio dele de brigar em gangue por causa de bobagem.

— Você sabe como eu sou, eu só sei me divertir desse jeito, tenho o pavio curto e pronto.

No final, Dolores até ficou satisfeita com a decisão do marido. No fundo, era isso mesmo que ela desejava. Tê-lo ao seu lado durante o feriado tranquilizava o seu coração. Vai que o menino quisesse nascer no meio da noite, quem a levaria de carro até o posto de saúde?

Roberval passou a semana calado e pensativo. Saía cedo para o trabalho, como de costume, e voltava diretamente para casa. Cumpria religiosamente o seu papel de bom esposo, resignado. Doía-lhe o coração saber que ia ficar de fora das festas de agora em diante. O verão era o melhor período de festas do ano, e havia pelo menos uma ou duas acontecendo em algum lugar da cidade até antes do carnaval. Havia os ensaios dos blocos, Senhor do Bonfim, a festa de Itapuã e de Iemanjá e os pré-carnavais. Roberval era um jovem rapaz e a decisão de se casar com Dolores foi repentina. Os dois já estavam juntos há dois anos e as coisas entre eles iam tão bem que numa manhã, depois que fizeram amor, ele disse as palavras para ela: que acha de a gente casar no final do ano? Bem, não foi como um pedido de casamento, mas pareceu um. Entretanto, a pergunta encheu de felicidade Dolores, que respondeu sem pestanejar com um sonoro sim!

Agora, com uma criança a caminho e Dolores tendo de deixar de trabalhar alguns anos para poder se dedicar ao filho deles, Roberval já pensava em arranjar um segundo emprego durante a noite, só até Dolores poder voltar a trabalhar novamente. Depois que a criança nascesse, ela ainda tinha direito a uma licença remunerada de quatro meses, e quando este tempo chegasse ao fim, seu primo lhe prometera um emprego de meio expediente à noite em sua empresa de segurança. O seu plano era este e tinha tudo para dar certo.

Naquela semana que antecedia ao carnaval, Roberval pensava nas palavras de Dolores quanto a ser esta a sua última chance de poder pular como ele gostava, antes da criança nascer. De fato, ela tinha razão, depois que ele se tornasse pai, ele não podia mais se comportar como um moleque, brigando toda vez que fosse a uma festa. Aquele poderia ser realmente o seu último carnaval de verdade. Mas ele já lhe dera a sua palavra que iria com ela para a roça. Ele não era nem fã de carnaval. Não era um folião na expressão da palavra, seu prazer de ir para a rua era se juntar com os amigos e se meterem numa boa briga.

Foi próximo ao final do expediente que Olegário, um amigo e companheiro de briga, telefonou para Roberval. A turma ia se encontrar no pré-carnaval na Barra e contavam com a sua ilustre presença. Este era o tipo de incentivo que Roberval esperava. Ele, então, ponderou todos os seus pensamentos daquela semana e chegou à conclusão de que ir ao pré-carnaval, quando muito, poderia ser um bom prêmio de consolação. Ao se decidir ir, seu ânimo encheu-se de entusiasmo, iria se divertir como no carnaval e ainda poderia manter a sua palavra com Dolores.

Não era ainda nove da noite quando Roberval estacionou seu carro numa viela mal iluminada, não muito longe do Farol da Barra. Ele, como era de se imaginar numa noite de festa como aquela, teve dificuldade em encontrar uma vaga para seu carro numa rua próxima, já todas tomadas por carros e guardadores que não hesitavam em cobrar preços abusivos pelas vagas. Ele, então, se lembrou daquela rua com calçamento esburacado e de seu único poste iluminado. Havia uma vaga perfeita entre duas entradas de garagem, onde cabia perfeitamente um automóvel de pequenas proporções como o seu. Mal ele se preparava para descer do carro, quando se aproximou um rapaz alto e forte se dizendo guardador e querendo receber adiantado. Aquela inoportuna intromissão deixou Roberval irritado. Ele não estava disposto a pagar por uma vaga num local que ele próprio descobrira e onde ninguém mais teve a ideia de ir procurar. Ele achou aquilo um abuso, aquela esquecida viela estava fora dos pontos tradicionais de estacionamento. Não, não ia pagar coisa alguma, decidiu enfrentar o guardador. Um diálogo tenso de palavras grosseiras foi travado pelos dois homens no meio da rua deserta. Isto foi o bastante para aflorar o gênio violento de Roberval, mas sem o apoio e incentivo do espirito de grupo que a cumplicidade de sua turma de brigões proporcionava, sozinho, ele não era tão corajoso para enfrentar com os punhos outro homem que era o dobro de seu tamanho. Portanto, Roberval limitou-se à agressão verbal. Insultou o guardador e seguiu o seu caminho ao encontro dos amigos. Enfurecido com a afronta, o guardador só precisou dar três passos quando Roberval lhe deu as costas, e agilmente lhe aplicou uma rasteira, pegando-o desprevenido. Roberval caiu de mal jeito, batendo a cabeça no meio-fio. Teve morte instantânea ao fraturar a cervical. Talvez algum um dia ele tivesse desejado morrer brigando, mas o seu fim terminou sendo inglório, ao rés da sarjeta. Foi-se um valentão.

Rio Vermelho, 15 de fevereiro de 2018.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Enquanto Formos Úteis

Era noite silenciosa, e na hora mais adiantada do sono, fui acordado pelo chamado de minha mãe. Pedia ajuda para levantar-se da cama e segurá-la no caminho até o banheiro. Isto é rotina de todas as noites, e quando não acontece, fico até preocupado. Em seu atual estado de fragilidade, consequência da idade avançada, ela soltou um lamento, não era útil para mais nada e dependia das pessoas para tudo. Desculpou-se por dar trabalho àquela hora da noite.

A mulher nascida na pobreza do sertão, que desde criança aprendeu a defender-se, pois no colégio interno em que foi estudar, na capital, não tinha nem pai nem mãe ou irmão mais velho que olhasse por ela, a de espírito voluntarioso que preferiu ser excomungada, a deixar de ir viver com o homem que amava, mas que já fora casado uma vez – numa época em que o Deus uniu, o homem não separava –, a que já foi comparada como a viga mestra da família, a que esteve sempre ao lado do companheiro dedicado ao seu trabalho como artista, para tirar do cavalete o sustendo para a grande família, a que criou sete filhos e netos, lamentava agora estar dando trabalho.

Para quem criou filhos e netos só contando com a ajuda do companheiro e, na maioria das vezes, nem com isso, fico imaginando as incontáveis vezes que ela levantou-se no meio da noite para trocar fraldas ou levar crianças semiacordadas para o banheiro, ou forrando com jornal velho a cama que ficou molhada para que a criança prosseguisse no sono, confortável, até o amanhecer. Agora os papéis se inverteram, e chegou a vez dos filhos fazerem por ela o que ela fez por eles sem se queixar.

Enquanto tivermos valor utilitário para outros, não nos falta companhia. Na hora da precisão, sempre somos lembrados como aquele que sabe, que faz, que tem, que ajuda, que empresta. É bom sentir-se útil; poder ajudar, quando possível, sem esperar, no entanto, contrapartida. Ser útil é o que nos dá sentido à vida. Porém, o dia em que precisaremos mais de ajuda do que formos capazes de poder ajudar chegará, este é o desfecho natural. Aí pergunto, quem estará realmente próximo quando este dia chegar. Quando apenas formos uma desbotada imagem daquilo que já fomos, quem se interessará por nós. Só o amor puro, liberto de qualquer interesse trará para perto aqueles que não esperam de nós uma palavra ou gesto que faça sentido. O amor criado pela convivência desinteressada, apenas pelo prazer de estar ao lado da pessoa, e ser útil a ela que agora não está mais em situação de poder ser útil, é o que restará no final. Com pouca noção do que se passa, mal sabe o “inútil” que está sendo útil ao fazer alguém se sentir útil.

Então, quando a mamãe lamenta o seu atual estado de “inutilidade”, eu penso em como ela não tem noção de como ela tem me ajudado a refletir sobre a fragilidade da vida e feito eu me tornar uma pessoa mais humana e solidária, sem nenhum interesse oculto, porque o que sobra no limiar da vida é simplesmente o amor.


Rio Vermelho, 30 de janeiro de 2018.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A Fraude Verdadeira

Ufa! Finalmente consegui fazer o tal do cadastramento biométrico. Aquilo que fazemos corriqueiramente nos bancos, para substituir a senha pela leitura digital do dedo. Nos bancos privados isto se faz em menos de cinco minutos com a ajuda de um único funcionário – sem que para isto seja necessário agendar dia e hora – depois de esperar de pé na fila onde outros serviços bancários são prestados a outros clientes. Como é um troço que envolve segurança bancária e dinheiro, pode-se imaginar o rigor com que é a coisa é feita, para que não haja fraudes.

Já no serviço público, dá para se imaginar a zorra que aquilo é, não há forma mais apropriada para descrever. Para o mesmo procedimento, que tão rapidamente se faz num banco, o excesso de burocracia, ineficiência, falta de bom senso e quantidade de mão de obra empregada, explica porque a máquina do governo é tão mal administrada e dispendiosa, – ou talvez eu esteja sendo ingênuo, e não percebi que o grande esquema esteja nos gastos para este cadastramento biométrico, seu cheiro azedo faz lembrar das obras com a copa do mundo e das olimpíadas. – com a desculpa de que isto se faz necessário para garantir eleições seguras e limpas. No entanto, fazer o tal cadastramento tem sido um castigo, uma piada de mal gosto imposta a milhares de cidadãos.

A maior dificuldade está em agendar a ida ao posto de recadastramento que, em Salvador, só pode ser feito pela internet. Quem já fez isso, percebeu que não é como dar um passeio no parque, é preciso paciência, persistência e tempo de desocupado. Fiquei horas seguidas durante dias, fazendo intermitentes tentativas até aparecer um horário disponível só para fazer o agendamento. Aí quando surge na tela do computador um horário disponível, temos de ser rápidos na disputa por quele horário com outros incautos internautas que estão do outro lado, na mesma corrida. Perdi duas vezes, para minha frustração, mas na terceira, eu já estava mais esperto, e consegui! Não foi uma tarefa fácil, para mim que disponho de um computador e internet. Fico imaginando como deve ter ser para aqueles que não têm uma coisa e nem outra, e cuja ida ao local de cadastramento é uma despesa que pesa no orçamento minguado. Este detalhe, o burocrata, tão distante da realidade de seu próprio país, desprezou.

O local onde fui fazer a biometria merece um paragrafo à parte. Era um lugar sórdido, parecia um curral humano onde as pessoas se espremiam de pé desde cedo pela manhã, onde imperava o caos, a indignação e o mal humor diante de funcionários públicos apáticos. Um senhor que também estava lá para fazer o seu cadastramento, esbravejou revoltado e fez um discurso inflamado sobre o tratamento desumano que as pessoas estavam sendo submetidas e, no final, levou um monte de aplausos. Temi por um quebra-quebra, mas não houve nenhum, pois como já sabemos, baderna é coisa encomendada e paga, e as pessoas que estavam ali foram voluntariamente.

Quando finalmente fui atendido, e passado por todo aquele processo digital sofisticado – foto digital, assinatura digital e coleta das digitais de cada dedo, ai veio a grande piada do dia, recebi mais uma carteirinha impressa em papel, mais uma que não terá utilidade alguma, além de se juntar às outras eleitorais que já tenho guardadas na gaveta, um verdadeiro monumento à burocracia e à insensatez.

Não acho que o que estamos precisando de um sistema de votação de nação superdesenvolvida. É até um acinte para o eleitor humilde – a grande maioria dos eleitores – ser obrigado a sair de sua casa para votar, utilizando um tal sofisticado sistema, quando ele próprio mora num lugar onde não chegou ainda ao século XIX, portanto sem saneamento básico, segurança e transporte regular. Todo este cadastramento biométrico não passa de uma dispersão para desviar nossa atenção do verdadeiro problema. A grande fraude das nossas eleições não está no voto, esta já vem embutida no próprio sistema eleitoral, permissivo ao ingresso de candidatos com desvios de caráter, verdadeiras frutas podres no cesto; um sistema viciado para reeleger sem votos políticos largamente conhecidos por sua conduta desonesta e amoral, mas que eleição após eleição jamais conseguimos nos livrar deles. Estamos precisando, sim, de candidatos de caráter superdesenvolvidos e que depois de eleitos não se revelem uma fraude eleitoral.


Rio Vermelho, 12 de janeiro de 2018.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Nem tudo está perdido

Ontem – dia 14 – o bar de Ana estava em dia de festa. Era o dia do caruru anual oferecido a Santa Bárbara, a protetora contra os raios e tempestades, a Padroeira dos soldados, dos mineiros e de todos aqueles que trabalham com o fogo. Ana trabalha com o fogo, em frente do fogão. Ela é uma cozinheira de mão cheia que conquistou a clientela com a sua simpatia e seus pratos saborosos. Uma negra preta como carvão, do vozeirão alegre e bunda tão grande quanto o seu coração generoso. Sobre o nariz achatado, ela ostenta um par de óculos estiloso branco que se sobressai na negritude de sua pele lisa, e brilha em seu rosto juntamente com os dentes alvos como o branco do açúcar, doce como o seu sorriso.

A parte interior do bar de Ana é um lugar apertado e abafado, por isso as cadeiras e mesas ficam do lado de fora, num pequeno pátio a céu aberto e se estendem pela impessoalidade da calçada e da rua. O bar é uma daquelas construções que vão sendo feitas e recebendo melhorias aos pouquinhos ao longo dos anos, no improviso do dinheiro curto e sem conhecimento técnico. Uma viga de concreto muito baixa e que não precisava estar ali foi recentemente coberta de azulejos brancos por um pretendente de Ana, mas aquele serviço gratuito de pedreiro não foi suficiente para conquistar o seu coração desconfiado. Nos fundos do bar, um grande nicho iluminado com lâmpadas coloridas acolhe a imagem de Santa Bárbara de quase um metro de altura.

A clientela vai chegando e se cumprimentado, perguntam por fulano e cicrano, em sua maioria é gente da vizinhança que se conhece há tempo. Os frequentadores do bar são afeiçoados ao estabelecimento, pois ali eles se sentem como se estivessem em sua própria casa. É pra lá que vão depois de um dia longo de trabalho tomar uma cerveja geladinha para relaxar, é lá que assistem a partida de futebol do campeonato, num televisor ainda de tubo. É lá que marcam os seus encontros com amigos para levarem aquele papo. E quando aparece algum novato que não bate com o santo de Ana, ela passa a servi-lo com cerveja quente para que ele não volte mais, pois ali a arrogância e a impaciência são visitantes que não são bem-vindos. Uma placa de madeira pendurada à parede avisa: Traga a carne que o churrasco é de graça! É assim o clima do lugar. As poucas cadeiras e mesas não acomodam tantos convidados, então muitos ficam de pé do lado de fora formando grupinhos de conversa animada até a comida ser servida.

Já se foi o tempo dos carurus de preceito que os convidados só precisavam levar a fome e a gula, estes se tornaram raríssimos e muitos agora são apenas lenda. Para comer o caruru de Ana, o convidado tinha de aparecer com um quilo de alimento não perecível, mas este não era para abastecer a dispensa de Ana ou compensar-lhe pela despesa, que um quilo está longe de pagar todo aquele trabalho e despesas. Todo aquele alimento tinha um destino para uma causa nobre. Uma casa de acolhimento de crianças pobres do interior que vem a tratamento de câncer em Salvador foi adotada por Ana. O gesto pode ser uma gota de água no oceano, mas para aquelas crianças e suas famílias, aquele é um ato de amor ao próximo e de compaixão. Num país que vive o desencanto e espanto por seus líderes políticos, onde malas de conteúdo suspeito são carregadas às escondidas de um lado para o outro, onde se entra na carreira política para fazer carreira no ilícito, é um alento que à parte deste pântano que se tornou o ambiente político nacional, existam cidadãos que dão o exemplo que falta àqueles que jogaram no lixo o nosso voto. Obrigado, Ana, por me mostrar que nem tudo está perdido. Feliz ano novo a todos!


Rio Vermelho, 31 de dezembro de 2017.  

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Abraço de Um Estranho

Antes de sair para trabalhar, Casemiro olhava embevecido para a esposa Luíza e a pequena Elisa, suas duas preciosidades, razão de seu viver, como ele dizia. Ao olhar para elas, Casemiro se sentia um homem realizado por viver ao lado da mulher que tanto amava e ser o pai de uma criaturinha encantadora que lhe causava emoção, cada vez que ela lhe lançava um sorriso de alegria e abria os pequenos braços para ele, pedindo a sua atenção. Depois que fechava a porta de casa trás de si, Casemiro se benzia e tomava o destino para o trabalho.

Casemiro agora ia, satisfeito, pedalando para o trabalho. Depois de economizar por mais de um ano, ele conseguiu finalmente juntar o dinheiro necessário para comprar a tão sonhada bicicleta. Não era uma dessas que custam os olhos da cara, no entanto; verdadeiros artigos de luxo e inovações tecnológicas sobre duas rodas. Ao contrário, a bicicleta de Casemiro não possuía qualquer sofisticação, feita de material de qualidade, porém barato, custou-lhe menos que um salário, mas, para ele, trabalhador humilde, aquela aquisição foi uma grande conquista.

No entanto, nem todos foram os meses que sobrou algum dinheirinho que fosse parar na caixinha da bicicleta. E houve vezes que ele tirou da caixinha para pagar despesas imprevistas da casa. Mas Casemiro não se desesperava, ele era um homem de fé e paciente. Talvez esta sua fé fizesse dele um homem obstinado e muito trabalhador, quem sabe. Para realizar o seu pequeno projeto, que para uma pessoa sem recursos constituía num um grande investimento, ele também fez bicos aqui e ali.

Quem pensa que talvez uma bicicleta fosse um artigo de luxo, usado para o seu lazer, desconhece que Casimiro era um homem de bom senso. O rapaz fez as contas e calculou que indo pedalando para o trabalho, ele ia economizar todo o dinheiro do transporte no final do mês, não era pouca coisa. A economia ia ser guardada para os futuros estudos da pequena Elisa, para que ela tirasse um diploma universitário e tivesse oportunidades melhores que os pais, estava decidido. A bicicleta também teria outra utilidade: com ela, ele esperava fazer mais bicos como eletricista e encanador para poder dar mais conforto á sua família. Casemiro parecia que tinha tudo pensado e sob controle, ele só não podia realmente controlar o seu destino, como descobriu, de forma amarga, mais adiante.

Uma manhã a caminho do trabalho, depois de se despedir da esposa e filha e de se benzer, passou por aquela mesma rua de todos os dias. Esta era uma das vantagens da bicicleta, cortar caminhos para encurtar a viagem. No entanto, seu trajeto foi interrompido quando um garoto atravessou à sua frente apontando-lhe a arma. Apavorado, Casemiro entregou-lhe a bicicleta, aliviado por também não ter lhe entregue a própria vida. Mas aquele alívio foi uma impressão passageira. O garoto montou na bicicleta, que a muito custo Casemiro juntou dinheiro para compra-la, e antes de seguir o seu rumo, tirou de Luíza o amado marido e da pequena Elisa o pai carinhoso e orgulhoso que sonhava um dia vê-la uma doutora diplomada.

Um estanho que ia passando naquele exato trágico momento, correu para acudir Casemiro, estirado ao chão. Ajoelhou-se ao lado dele que teve folego para apenas lhe sussurrar um último pedido:

— Me abrace, estou partindo!

O estanho pegou Casemiro em seus braços e lhe deu um abraço de despedida. Foi a última vez que sentiu o calor humano.



Rio Vermelho, 3 de outubro de 2017.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Ave de Rapina

Ontem eu vi um gavião. Ele não voava alto no céu azul, vergando as suas longas e poderosas asas, como o fazem as aves de rapina. Sempre associo estas aves ao domínio de florestas e vastas planícies onde, de uma altura espetacularmente alta, ela é capaz de ver até um pequeno e incauto roedor, e lançar-se feito um dardo mortal em sua captura. No entanto, aquela ave de rapina plainava sobre a estreita extensão de areia que hoje leva o inusitado nome de Praia dos Complexados, aqui no Rio Vermelho.

Aquela visão me surpreendeu. Jamais vi uma ave daquela magnitude no domínio que são próprios das gaivotas e outras aves praianas, e que se alimentam de pequenos peixes e criaturas da areia. Aquele gavião era majestoso. As suas asas longas eram negras e uma plumagem branca com esparsas penas pretas cobria-lhe do peito ao pescoço como sinais. O bico afiado era amarelo igual à gema do ovo e toda a sua cabeça era preta como o capuz de um carrasco.

Mas o que mais me intrigava, era o que uma ave como aquela fazia numa praia. Eu nunca tinha visto um gavião na praia antes, pois sempre os associei às matas e aos campos. O gavião deu meia volta plainando até pousar sobre a areia. E ainda com as asas abertas, numa posição ameaçadora, soltou um agudo e alto pio. Algo lhe chamava a atenção ali próximo. Seu olhar arguto deixava os seus nervos em alerta. A cabeça mal se movia, focada no objeto de sua atenção. Em seguida, deu dois passos para frente, ergueu as asas novamente e lançou-se para um pouco mais adiante. E eu estava lá em cima da balaustrada observando curioso aquela sucessão de acontecimentos e ao mesmo tempo maravilhado com a presença do gavião solitário na praia.

A poucos quilômetros do mar, havia até a bem poucos anos uma região, que embora fosse povoada com casas, era em sua maioria tomada por frondosas árvores. Hoje é uma selva de altos prédios de apartamentos de alto luxo e o único verde que se vê são os dos carpetes no hall de entrada ou dos vidros das janelas. A floresta que era habitada por sabiás, curiós, cardeais, pintassilgos, pica-paus, corujas, gaviões, coelhos, lagartos, macacos, saguis, sariguês, jiboias, sucuris, só existe na memória de criança que eu fui, criada na liberdade das ruas do bairro, quando ia se aventurar com a turma de amigos naquele lugar fascinante por causa de seu verde no coração da cidade. O gavião trocou a floresta pela praia, e ao invés de morar no galho mais alto da árvore mais alta, foi refugiar-se na cumeeira de algum velho prédio nas redondezas. Triste sina.

Novamente o gavião abriu as asas e lançou-se sobre a presa que estava na areia à sua frente. Não pude perceber que bicho se tratava, pois, ao contrário da ave de rapina, a minha visão não é assim tão perfeita. Ele atacou-a com bicadas mortais antes de agarra-la com uma de suas presas e levantar voo. Voou baixo sobre o espelho da água do mar, margeando sempre a praia, ganhando altura, batendo suas asas lentamente como se fosse o senhor do tempo e do espaço. Por um breve instante, a minha visão se confundiu entre a ave e a superfície da água e eu o perdi de vista. Mas depois ele reapareceu num ponto mais alto e quando chegou próximo à igrejinha de Santana, ele fez uma curva em direção à terra e sumiu entre os casarões velhos e prédios do largo de Santana. Nunca mais o vi.


Rio Vermelho, 2 de maio de 2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ar Puro!

O rapaz humilde subiu para o ônibus pela porta dianteira para não ter que pagar a passagem, numa ensolarada manhã. O dia estava quente, e não havia mais vestígios da tremenda chuva que aterrorizara a cidade dois dias antes. Pelo contrário, o dia começara com um mormaço mal humorado que se infiltrava entre as pessoas, principalmente daquelas que usavam o transporte público, era como viajar dentro de uma quentinha para cá e para lá. Para a satisfação dos passageiros, entretanto, aquele ônibus não estava cheio, havia cadeiras vazias.

Mas voltando ao rapaz. Ele chamou a atenção dos passageiros, cumprimentando a todos com a voz quase sumida de vergonha. Em seguida, ele disse o nome, chamava-se Gabriel, como o anjo, e que vinha do interior. Pedia uma ajuda financeira para comprar uma passagem de volta para o seu interior. Até ai, nenhuma novidade. Uma típica viagem de ônibus metropolitano, inclui a entrada, ao longo do trajeto, de um vendedor de água gelada, outro de canetas baratinhas, alguém pedindo doação para um centro de reabilitação de drogados, um cego, um poeta, um cantor, um baleiro oferecendo doces e salgadinhos, como o passatempo da viagem. Podem ter certeza, todos estes entrarão no ônibus em algum momento do dia. Mas o nosso Gabriel não tinha nada para oferecer além de ar puro!

Aliando-se aos maus-tratos do calor, um mau-cheiro inundou aquele ônibus. Um odor nauseabundo e intolerável. A inconfundível catinga de alguém que não tomava um bom banho há dias. A brisa que entrava pelas janelas abertas do transporte não refrescava o veículo, ao contrário, servia para disseminar aquele fedor democraticamente entre os desafortunados passageiros. E cada um se defendia como podia, faziam caretas de nojo e reprovação, uns cobriam o nariz e a boca com a mão, outros puxavam para cima a gola da camisa para usar como máscara, outros se abanavam. A origem daquele tormento estava no jovem Gabriel, o rapaz que pedia uma grana para voltar para a sua cidade, cheirava como um gambá. Talvez a sua incursão pela capital, em busca de uma oportunidade, tivesse sido um desastre, e o pobre rapaz nem teve sequer a chance de tomar um banho. Vindo de uma pequena comunidade onde talvez fosse alguém, ele só não passou invisível por causa de seu mau-odor. Qualquer um que chegasse à sua pequena cidade natal, seria acolhido com hospitalidade. E se por uma desventura, o visitante precisasse de um banho, não lhe faltaria um chuveiro com sabão e toalha limpa. Mas tudo é diferente num grande centro urbano, falta o olhar para o outro com solidariedade, é cada um por si.

Gabriel era um rapaz asseado, nunca deixava de tomar banho e vestir roupa limpa. Aquele seu estado momentâneo tirou-lhe o brilho, roubou-lhe a autoconfiança e a dignidade, fez sentir-se menor de tamanho. Talvez estivesse morando nas ruas desde então. Na Salvador, a capital da alegria. Mas ele estava triste, só queria voltar para a sua cidade.

Um cidadão sentado num banco do ônibus também se sentia incomodado. Não pelo terrível cheiro do Gabriel, mas por sua humilhação. Também viera do interior e recordou no rapaz as dificuldades que também vivenciara ao chegar na capital para tentar uma vida nova. Seus olhares se encontraram e foi como um chamado. Gabriel se aproximou até onde o outro estava sentado. Em sua trajetória, provocou caretas por causa de seu cheiro peculiar.

— Tome aqui esse dinheiro para sua passagem. – disse-lhe o homem. – E mais este outro para você tomar um banho na Rodoviária, para deixarem você embarcar. Boa sorte.

O rapaz agradeceu com os olhos marejados de gratidão. Uma senhora deu-lhe mais algum dinheiro para uma merenda. No ponto seguinte ele desceu, e todos respiraram aliviados.


Rio Vermelho, 13 de abril de 2017