terça-feira, 20 de novembro de 2018

A Reinvenção de um Velho Otimista

Gosto de ir ao supermercado. Acho mais divertido que passear em shopping center, por exemplo, apesar de preferir passear ao ar livre, de preferência na orla da praia, onde a imensidão de água à frente me leva a imaginar sobre países distantes e modos de vida possíveis.

O supermercado é um bom ponto de encontro para amigos que moram no mesmo bairro e, também, nos dá a oportunidade de conhecer pessoas novas, inclusive arriscar um flerte com uma bela e jovem mulher empenhada em encher o carrinho com coisas supérfluas.

Em frente à gondola de produtos de limpeza, vi um senhor mais velho que eu. Talvez a minha percepção deveu-se ao fato de ele possuir uma grisalha barba de uma semana por fazer e de estar fora do prumo, isto é, sua coluna era meio torta, como se carregasse de um só lado do corpo todo o peso de sua idade.  Ele tentava se abaixar para pegar um produto na prateleira mais baixa da gondola, geralmente aquela onde estão os produtos com o menor preço. Percebi a sua dificuldade, mas não ousei dar uma de bom samaritano, para não ofendê-lo.

Continuei com minhas compras e, na gondola do leite em pó, tive a grata satisfação de encontrar um promotor de vendas de uma marca de leite que costumo consumir. Eu sempre quis fazer uma pergunta inconveniente a um cara desses e minha oportunidade tinha chegado. Perguntei-lhe por que o pacote de 800 gramas onde estava escrito Embalagem Econômica terminava saindo mais caro que se eu escolhesse levar quatro de 200 gramas. Então ele me veio com a seguinte pérola: era econômica porque o cliente não precisaria ir mais vezes ao mercado poupando-lhe combustível, era econômica porque a para se produzir aquela embalagem se gastava menos material e energia e se preservava o meio ambiente, era econômico porque blá blá blá. Veja só, nada que demonstrasse uma preocupação com bolso do freguês na hora de pagar a conta. Tamanha esperteza, explicou, tinha o aval dos órgãos governamentais fiscalizadores, responsáveis por proteger a boa fé do consumidor! Como eu sempre achei, estamos mesmo num mato sem cachorro.

Terminei indo para a fila do caixa, levando no carrinho apenas um pacote de leite em pó. Para minha surpresa, a pessoa que estava na minha frente era o velho torto da gondola de produtos de limpeza. Lancei o olhar para as suas compras e percebi que talvez ele tivesse cometido um engano ao comprar vários pacotes de leite em pó de determinada marca. Eu sabia, porque quase caí no mesmo erro. Avisei-lhe que aquele leite que ele estava levando era mais caro e que o preço mais barato que ele se orientara para fazer a sua escolha, referia-se ao produto do lado. Surpreso, ele correu até a gondola para verificar e voltou de lá com pacotes de leite da mesma marca mais barata que eu havia escolhido. Agradecido, ele olhou para o meu carrinho e viu que só havia nele um único item. “Você só tem isso para passar?” ele perguntou e eu anuí com um sonoro sim. “Passa na minha frente, então”, ele falou.

Enquanto esperávamos pela cliente que estava à nossa frente passar as suas comprar, nos engajamos numa breve conversa. Ele era paulista. Contou que tinha sido um ginecologista e, um dia, ficou cheio de meter a cara entre as pernas das mulheres. Abandonou tudo e veio morar em Salvador. Perguntei sobre a camiseta que ele vestia e onde se lia em letras vistosas e angulosas a palavra arquitetura. “Agora estudo arquitetura na faculdade”, ele explicou. E, para complementar, ele disse com entusiasmo: “Eu me descobri na arquitetura, estou adorando!”

Veja só, às vésperas de usar fraldas geriátricas e babador, ele estava se reinventando. Ao falar de sua guinada na vida, parecia rejuvenescido. Talvez tivesse uma cabeça melhor do que muitos dos seus colegas adolescentes, alguns já desencantados com as dificuldades que a vida lhes oferecia, à medida que se viam na eminência de terem de enfrentar a realidade da vida adulta.


Rio Vermelho, 20 de novembro de 2018.




terça-feira, 2 de outubro de 2018

História de um abacateiro e de um pé de lima

Certa vez houve um abacateiro aqui em casa. Ficava num esquecido e estreito pedaço de terra no pátio da frente. Porém, ninguém de casa jamais soube como ele foi parar lá, apenas nasceu e cresceu ali por conta própria e, quando nos menos esperávamos, tínhamos um abacateiro! Mas nem a escassez de terra e a negligência o impediu de se desenvolver numa árvore frondosa e generosa. Aquele abacateiro era admirado na vizinhança, pois quando chegava janeiro, era como se todas as suas folhas se transformassem em frutos, ficava tão carregado de se perguntar como era possível uma árvore dar tantos de uma só vez. E como eram formidáveis, grandes e suculentos, os nossos abacates. Era, então, a época de nos fartarmos de abacate aqui em casa, e de presentear os amigos e vizinhos com a mesma generosidade com que a árvore nos agraciava.

Infelizmente, tal maravilha da natureza não durou para sempre. Um dia, a planta começou a perder as suas cores e a exuberância, foi definhando até que se tornasse apenas em galhos secos e sem vida. Mamãe, então, mandou remover o que sobrou dele, e só nos restou a doce lembrança de um abacateiro extraordinário. Curiosamente, a morte do abacateiro ocorreu seguidamente ao falecimento do meu pai.

Anos se passaram sem que percebêssemos que outra planta crescia no mesmo lugar onde antes houvera o tal abacateiro. É claro que eu não fazia ideia de que planta era aquela, apenas cresceu e tornou-se uma árvore sem graça, de copa rala que se espalhava irregularmente para todos os lados. Possuía espinhos tão longos quanto os dedos da mão. Vez por outra, podávamos os galhos mais altos para que estes não danificassem o telhado. Às vezes, eu lembrava daquela planta tão desajeitada e lhe lançava um olhar intrigado, me perguntando se algum dia ela ia dar alguma flor ou fruto.

Até que certo dia, depois de anos de espera, notei que um pequeno fruto arredondado de casca verde se formava na ponta de um galho baixo, mas que não estava ainda desenvolvido o suficiente para ser colhido. Seria um limão? Aguardei mais algumas semanas, o colhi. Fiz com ele uma limonada que, no final, tinha sabor insosso e sem a acidez própria do limão. Era evidente que aquela árvore não era um limoeiro como eu imaginava. Então só voltei a prestar atenção nela novamente quando notei que estava carregada de frutos que se juntavam em cachos. Eram tantos que me fez recordar do antigo abacateiro. Esperei até que eles se desenvolvessem, e cresceram bonitos e graúdos que cheguei a pensar que era algum tipo de laranja cuja espécie eu desconhecia. À primeira chupada de uma fruta, descobri que eram limas!

Eu nunca vira antes limas tão grandes como aquelas. Colhi um monte delas e descobri que tínhamos uma riqueza em casa, pois as limas eram feito mel, saborosas para chupar e fazer limada. A proposito, a melhor limada, como me ensinou um amigo de origem síria, é aquela feita apenas com as suas cascas batidas com água e açúcar no liquidificador. Tal como o abacateiro, a limeira era exagerada, não apenas no tamanho da fruta, mas também na quantidade que dava a cada estação. Os galhos mais baixos que ficavam para o lado de fora da casa, no passeio, ofereciam aos passantes as limas, e não havia quem não colhesse pelo menos uma e seguisse o seu caminho com alegria no coração. Tínhamos limas de sobra para nós em casa, e para presentear à vizinhança. Mais uma vez, nos sentíamos agraciados com um milagre da natureza.

Algumas semanas atrás, no entanto, um vizinho chamou a minha atenção para o fato de que o nosso pé de lima estava morrendo. Suas folhas começavam a secar e não tardariam a despencar. Eu não havia prestado atenção naquela tragédia, pois eu andava muito ausente de casa naqueles dias, tão triste e ocupado eu estava, cuidando de minha mãezinha que padecia num leito de hospital. Três dias atrás o seu coração a traiu e aquietou-se para sempre. Ela foi em paz. Foi-se uma velhinha doce e muito querida, como os frutos daquele pé de lima, cujas folhas secas começaram a cair. E no lugar onde antes houvera um abacateiro e um pé de lima, as cinzas do papai e da mamãe serão depositados para o todo sempre.


Rio Vermelho, 28 de setembro de 2018.






sexta-feira, 18 de maio de 2018

Conversa laxante

O senhor trabalha aqui?, perguntou a moça aproximando-se da mesa onde eu me encontrava. Ela estava acanhada, percebi pelo seu esforço para parecer natural. Algumas pessoas simplesmente têm dificuldade em conversar com estranhos. Felizmente, não é este o meu caso.

Não era muito jovem. Talvez já tivesse passado dos trinta. Tinha o olhar cansado. Algumas rugas precoces já começavam a se formar no canto da boca e dos olhos. Eu já a vira outras vezes nas vizinhanças, passeando com um cachorro grande e amedrontador. O animal a arrastava pela coleira, e não se sabia quem levava quem para passear. Agora ela parecia diferente, ou melhor, eu a via mais de perto, ao conversar com ela primeira vez. Ela era mais alta e magra do que eu imaginava. Habituei-me a vê-la em trajes como se fosse para a academia. Mas desta vez, ela estava mais arrumada. Usava calça creme que delineava os quadris largos e blusa de mangas compridas branca que realçava o seu cabelo preto cheio e longo. A pele era branca como de alguém que não costuma tomar banho de sol. Havia uma excitação contida em sua voz que eu não conseguia explicar.

Não sou funcionário da casa, se é o que você está sugerindo, mas venho trabalhar aqui todo final de tarde, respondi interrompendo o que eu fazia. Tive a impressão de que aquela conversa ia se prolongar mais um pouco. Percebi na moça uma vontade de conversar. Seu olhar era agitado.

Ela estava de pé, de frente para a mesa que eu ocupava com o meu notebook. Ao lado dela, presa à parede, havia uma estante cheia de livros usados, porém em bom estado. Estávamos num café. Bem, na verdade, é uma gelateria que também serve café e possui estantes carregadas de livros.

— O senhor já leu algum desses livros? – ela apontou com um olhar para a estante ao seu lado.

— Já li um ou dois. – eu poderia dizer-lhe que sempre trago meus próprios livros para ler, mas achei aquilo presunçoso.

Ela ficou pensativa, talvez elaborando a pergunta seguinte, para manter a conversa fluindo.

— O senhor já pegou algum livro daquela casinha ao lado da igreja?

Ela se referia a uma pequena casinha de madeira suspensa sobre um pedestal de madeira, posta ali por uma ONG. A estrutura parecia uma casa para passarinhos, só diferente desta pelo fato de ter uma porta de vidro. A ideia é para que as pessoas possam compartilhar livros, pegando ou deixando ali dentro.

— Sim, já peguei uns e deixei outros. – respondi. Me senti um cidadão consciente que colabora com a cultura.

— Nossa, o senhor não acha esta ideia maravilhosa? Eu já peguei muitos livros dali. – ela disse com um entusiasmo exagerado.

Imaginei que talvez em sua casa, ela tivesse um dos meus livros que doei para o projeto. Tenho o hábito de pôr minha assinatura em meus livros, a data e o local em que o li pela primeira vez. Pensei em quão particular é este pequeno hábito.  De repente, achei estranho uma pessoa que nunca vi na vida, possuir em sua casa algo que me pertenceu, com a minha assinatura e data, como se fosse um documento histórico. Algumas pessoas gostam de registrar a sua posse escrevendo algo como “este livro pertence a...” Talvez se eu tivesse simplesmente escrito “este livro pertenceu a...” eu não teria aquela sensação de ter abandonado algo que foi meu, pelo menos durante algum tempo.

— Mas alguém levou aquela casinha dali. – ela disse com uma expressão de desapontamento.

— Eu não sabia. – respondi chateado. – Não tenho andado muito por ali ultimamente.

— Talvez alguém levou ela para fazer uma casa de cachorro.

— Sim, talvez. – só se fosse para um cachorro pequeno, eu pensei. O mais provável foi que a casinha foi vítima de puro vandalismo.

— Mas logo em frente existe uma biblioteca onde você pode pegar qualquer livro emprestado.

— Nossa, eu não sabia disso! – ela disse excitada. – Que coisa maravilhosa que o senhor está me dizendo.

Fiquei surpreso de ver que uma moradora do bairro desconhecia a existência da biblioteca. Já está ali a tantas gerações. O prédio fica em frente ao calçadão da orla onde ela passeia com frequência com seu cachorro.

Olhei para a estante de livros ao seu lado e me lembrei.

— E se você quiser pegar um dos livros daqui para levar emprestado, também é possível, e não custa nada.

— Nossa! É verdade isso? Eu não sabia. Que coisa maravilhosa! – disse em tom afetado.

— Basta escolher o livro e preencher uma ficha ali no caixa.

— Nossa, o senhor me disse tantas coisas maravilhosas que me deu vontade de ir ao banheiro. – ela exclamou, se dirigindo, logo em seguida, ao sanitário.


Rio Vermelho, 18 de maio de 2018.




quarta-feira, 11 de abril de 2018

A selfista

Numa mão, ela segurava o vistoso cone de sorvete, acabado de receber da balconista, uma mulher de rosto arredondado e sorriso fácil. O sorvete tinha duas bolas de cores vivas, cada uma com um sabor diferente, feito de frutas frescas. O cone de biscoito crocante resistia ao frio da sobremesa gelada e emprestava a esta uma aparência de gula. Na outra mão, o smartphone estava pronto para tirar a esperada foto. Não era raro um cliente deixar de fotografar o sorvete antes de comê-lo. Na casquinha ou no copinho, eles eram perfeitos para se fotografar, e antes que sumissem, já estavam eternizados nas redes sociais, recebendo muitos “likes”.

A moça, prevendo que iria tirar uma foto com o sorvete, parecia que tinha saído de casa preparada para a ocasião. Vestia-se com uma roupa bonita bem justa que delineava o seu corpo, modelado em academia de ginástica. O rosto estava tão maquiado que era quase impossível se avaliar a sua idade, mas ela não era nenhuma mocinha. Os cabelos, muito louros, não eram uma herança genética e, provavelmente, tinham sido adquiridos numa elegante caixa na farmácia.

A primeira foto que a moça tirou era do ilustre sorvete, empunhado em sua mão como um troféu gastronômico. Ela o levantou à altura dos olhos e mirou a máquina, ou melhor, o smartphone, e tirou a primeira foto. Foi um gesto rápido com a ajuda do polegar. Em seguida, ela analisou a foto com um olhar crítico, para depois esbouçar um sorriso de satisfação. Aquela servia! Ela já estava craque em tirar fotos, mesmo não sendo uma profissional no assunto. Sabia, por exemplo, qual o melhor ângulo posicionar a máquina para que a foto não saísse distorcida, e que posição da luz era a mais adequada para que, no final, a foto não parecesse desbotada. Antes de apertar o disparador, ela segurava a câmera com firmeza e prendia a respiração por um instante, para que a foto não saísse tremida. Tudo aquilo ela aprendeu sozinha, fotografando tudo que aparecia pela frente.

Do próprio smartphone, ela transferiu a foto para a rede social, acompanhada de uma legenda que ela mesma criou naquele momento e que lhe pareceu muito original: “Delícia!”

A foto seguinte, ela sabia, não seria assim tão fácil. A ideia era que ela e o sorvete aparecessem no mesmo plano, dando a entender que, enquanto os outros pobres mortais davam duro no trabalho àquela hora da tarde, ela desfrutava do prazer de estar numa elegante sorveteria merendando. Era uma satisfação pessoal que ela se permitia, provocar nos amigos um pingo de inveja. Alguns, no entanto, torciam o nariz com uma nesga de desprezo.

A moça colocou o sorvete próximo à boca entreaberta, os olhos cheios de desejo, como se estivesse na eminência de abocanhá-lo, enquanto a outra mão posicionava a câmera. E clique, a foto foi tirada. Em seguida, ela analisou a foto como fizera da primeira vez. No entanto, desta vez ela foi mais rigorosa. Achou a foto um pouco demais sugestiva e imaginou os comentários maldosos que talvez alguns de seus seguidores na rede social não resistiriam em fazer. Não, aquela foto estava fora de questão. Tentou novamente. Desta vez, ela colocou o sorvete um pouco mais de lado, para que este não impedisse as pessoas de reconhecê-la. Manteve a boca fechada, desta vez, mas ensaiou um largo sorrido que expunha a brancura e perfeição de seus dentes – estes, resultado do sacrifício de usar por dois anos aparelhos ortodônticos.  O sorvete, nesta foto, saíra inclinado para o outro lado e, por isso, seria necessário mais uma tentativa. Os cabelos loiros, também, estavam um pouco desalinhados. A moça, então, pôs mais um sorriso fabricado, arrumou os cabelos, posicionou o sorvete no ângulo correto e tirou a foto. Desta vez o sorriso lhe pareceu muito forçado. Talvez se ela abrisse a boca só um pouquinho e sorrisse, o resultado final fosse mais do seu agrado. E foi justamente o que ela fez. A foto foi mais uma vez tirada e posteriormente analisada com o olhar de quem procura algum defeito. Não estava perfeita, mas estava próxima do desejado. O sorvete, por outro lado, agora dava a impressão de que em breve começaria a se render ao calor e escorrer por sua mão. Só faltava mais uma coisa, antes de comê-lo. Postou a foto imediatamente na rede social com a intrigante legenda: “Aceitam um sorvete?”


Rio Vermelho, 10 de abril de 2018.




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Fábula Carnavalesca

A duas semanas do carnaval, Roberval tomou uma decisão difícil. Resolveu passar o feriado no mato. Em razão de seu temperamento, esta lhe pareceu a decisão mais sensata a tomar, agora que se casara com Dolores e ela estava com uma barriga enorme de sete meses. Depois que soube que ia ser pai, dois meses depois do enlace nupcial, Roberval resolveu tomar tenência na vida. De agora em diante, ia demonstrar dedicação ao trabalho, para não ser posto na rua, e manter-se longe das brigas de rua.

— Preto, você devia ficar e pular o carnaval, e eu vou para a roça ficar com mamãe. Se eu for brincar com a barriga deste tamanho, Júnior corre o risco de nascer antes da hora, no meio da avenida. Ai você vai ter um filho que vai ser um tremendo folião! Olhe, faça assim, considere este o seu carnaval de despedida, antes do menino nascer.

Apesar do jeito carinhoso da mulher o chamar, a pele de Roberval era branca como o leite. Por mais que ele tentasse pegar um bronzeado na praia, o máximo que ele conseguia era um vermelhidão disforme que se espalhava pelos braços, ombros, costas e peito, e que se desfazia um dia depois, transformando-o novamente no branquelo de sempre.

— Mãe, você sabe que eu só vou pra estas festas para brigar. – e querendo impressionar a mulher, acrescentou. – Eu prometi a mim mesmo, agora que vou ser pai, ficar longe das brigas.

Quem olhasse para Roberval, dificilmente acreditaria que ele era o arruaceiro que proclamava ser. Ele um tipo baixo e gorducho que mal cabia nas camisas que usava. Os cabelos bem escuros eram mantidos curtos à moda militar, o rosto quadrado, porém, tinha uma expressão afável, por traz de um par de óculos de armação quadrada e pesada. Ele mais parecia um menino amarelo que um valentão.

— Menino, você não consegue conter este seu temperamento e divertir como uma pessoa normal? – perguntou Dolores que considerava o marido um doce de pessoa, um homem que jamais tinha levantado a voz para ela ou a tivesse ameaçado com a mão. Ela não compreendia de onde vinha aquele gênio dele de brigar em gangue por causa de bobagem.

— Você sabe como eu sou, eu só sei me divertir desse jeito, tenho o pavio curto e pronto.

No final, Dolores até ficou satisfeita com a decisão do marido. No fundo, era isso mesmo que ela desejava. Tê-lo ao seu lado durante o feriado tranquilizava o seu coração. Vai que o menino quisesse nascer no meio da noite, quem a levaria de carro até o posto de saúde?

Roberval passou a semana calado e pensativo. Saía cedo para o trabalho, como de costume, e voltava diretamente para casa. Cumpria religiosamente o seu papel de bom esposo, resignado. Doía-lhe o coração saber que ia ficar de fora das festas de agora em diante. O verão era o melhor período de festas do ano, e havia pelo menos uma ou duas acontecendo em algum lugar da cidade até antes do carnaval. Havia os ensaios dos blocos, Senhor do Bonfim, a festa de Itapuã e de Iemanjá e os pré-carnavais. Roberval era um jovem rapaz e a decisão de se casar com Dolores foi repentina. Os dois já estavam juntos há dois anos e as coisas entre eles iam tão bem que numa manhã, depois que fizeram amor, ele disse as palavras para ela: que acha de a gente casar no final do ano? Bem, não foi como um pedido de casamento, mas pareceu um. Entretanto, a pergunta encheu de felicidade Dolores, que respondeu sem pestanejar com um sonoro sim!

Agora, com uma criança a caminho e Dolores tendo de deixar de trabalhar alguns anos para poder se dedicar ao filho deles, Roberval já pensava em arranjar um segundo emprego durante a noite, só até Dolores poder voltar a trabalhar novamente. Depois que a criança nascesse, ela ainda tinha direito a uma licença remunerada de quatro meses, e quando este tempo chegasse ao fim, seu primo lhe prometera um emprego de meio expediente à noite em sua empresa de segurança. O seu plano era este e tinha tudo para dar certo.

Naquela semana que antecedia ao carnaval, Roberval pensava nas palavras de Dolores quanto a ser esta a sua última chance de poder pular como ele gostava, antes da criança nascer. De fato, ela tinha razão, depois que ele se tornasse pai, ele não podia mais se comportar como um moleque, brigando toda vez que fosse a uma festa. Aquele poderia ser realmente o seu último carnaval de verdade. Mas ele já lhe dera a sua palavra que iria com ela para a roça. Ele não era nem fã de carnaval. Não era um folião na expressão da palavra, seu prazer de ir para a rua era se juntar com os amigos e se meterem numa boa briga.

Foi próximo ao final do expediente que Olegário, um amigo e companheiro de briga, telefonou para Roberval. A turma ia se encontrar no pré-carnaval na Barra e contavam com a sua ilustre presença. Este era o tipo de incentivo que Roberval esperava. Ele, então, ponderou todos os seus pensamentos daquela semana e chegou à conclusão de que ir ao pré-carnaval, quando muito, poderia ser um bom prêmio de consolação. Ao se decidir ir, seu ânimo encheu-se de entusiasmo, iria se divertir como no carnaval e ainda poderia manter a sua palavra com Dolores.

Não era ainda nove da noite quando Roberval estacionou seu carro numa viela mal iluminada, não muito longe do Farol da Barra. Ele, como era de se imaginar numa noite de festa como aquela, teve dificuldade em encontrar uma vaga para seu carro numa rua próxima, já todas tomadas por carros e guardadores que não hesitavam em cobrar preços abusivos pelas vagas. Ele, então, se lembrou daquela rua com calçamento esburacado e de seu único poste iluminado. Havia uma vaga perfeita entre duas entradas de garagem, onde cabia perfeitamente um automóvel de pequenas proporções como o seu. Mal ele se preparava para descer do carro, quando se aproximou um rapaz alto e forte se dizendo guardador e querendo receber adiantado. Aquela inoportuna intromissão deixou Roberval irritado. Ele não estava disposto a pagar por uma vaga num local que ele próprio descobrira e onde ninguém mais teve a ideia de ir procurar. Ele achou aquilo um abuso, aquela esquecida viela estava fora dos pontos tradicionais de estacionamento. Não, não ia pagar coisa alguma, decidiu enfrentar o guardador. Um diálogo tenso de palavras grosseiras foi travado pelos dois homens no meio da rua deserta. Isto foi o bastante para aflorar o gênio violento de Roberval, mas sem o apoio e incentivo do espirito de grupo que a cumplicidade de sua turma de brigões proporcionava, sozinho, ele não era tão corajoso para enfrentar com os punhos outro homem que era o dobro de seu tamanho. Portanto, Roberval limitou-se à agressão verbal. Insultou o guardador e seguiu o seu caminho ao encontro dos amigos. Enfurecido com a afronta, o guardador só precisou dar três passos quando Roberval lhe deu as costas, e agilmente lhe aplicou uma rasteira, pegando-o desprevenido. Roberval caiu de mal jeito, batendo a cabeça no meio-fio. Teve morte instantânea ao fraturar a cervical. Talvez algum um dia ele tivesse desejado morrer brigando, mas o seu fim terminou sendo inglório, ao rés da sarjeta. Foi-se um valentão.

Rio Vermelho, 15 de fevereiro de 2018.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Enquanto Formos Úteis

Era noite silenciosa, e na hora mais adiantada do sono, fui acordado pelo chamado de minha mãe. Pedia ajuda para levantar-se da cama e segurá-la no caminho até o banheiro. Isto é rotina de todas as noites, e quando não acontece, fico até preocupado. Em seu atual estado de fragilidade, consequência da idade avançada, ela soltou um lamento, não era útil para mais nada e dependia das pessoas para tudo. Desculpou-se por dar trabalho àquela hora da noite.

A mulher nascida na pobreza do sertão, que desde criança aprendeu a defender-se, pois no colégio interno em que foi estudar, na capital, não tinha nem pai nem mãe ou irmão mais velho que olhasse por ela, a de espírito voluntarioso que preferiu ser excomungada, a deixar de ir viver com o homem que amava, mas que já fora casado uma vez – numa época em que o Deus uniu, o homem não separava –, a que já foi comparada como a viga mestra da família, a que esteve sempre ao lado do companheiro dedicado ao seu trabalho como artista, para tirar do cavalete o sustendo para a grande família, a que criou sete filhos e netos, lamentava agora estar dando trabalho.

Para quem criou filhos e netos só contando com a ajuda do companheiro e, na maioria das vezes, nem com isso, fico imaginando as incontáveis vezes que ela levantou-se no meio da noite para trocar fraldas ou levar crianças semiacordadas para o banheiro, ou forrando com jornal velho a cama que ficou molhada para que a criança prosseguisse no sono, confortável, até o amanhecer. Agora os papéis se inverteram, e chegou a vez dos filhos fazerem por ela o que ela fez por eles sem se queixar.

Enquanto tivermos valor utilitário para outros, não nos falta companhia. Na hora da precisão, sempre somos lembrados como aquele que sabe, que faz, que tem, que ajuda, que empresta. É bom sentir-se útil; poder ajudar, quando possível, sem esperar, no entanto, contrapartida. Ser útil é o que nos dá sentido à vida. Porém, o dia em que precisaremos mais de ajuda do que formos capazes de poder ajudar chegará, este é o desfecho natural. Aí pergunto, quem estará realmente próximo quando este dia chegar. Quando apenas formos uma desbotada imagem daquilo que já fomos, quem se interessará por nós. Só o amor puro, liberto de qualquer interesse trará para perto aqueles que não esperam de nós uma palavra ou gesto que faça sentido. O amor criado pela convivência desinteressada, apenas pelo prazer de estar ao lado da pessoa, e ser útil a ela que agora não está mais em situação de poder ser útil, é o que restará no final. Com pouca noção do que se passa, mal sabe o “inútil” que está sendo útil ao fazer alguém se sentir útil.

Então, quando a mamãe lamenta o seu atual estado de “inutilidade”, eu penso em como ela não tem noção de como ela tem me ajudado a refletir sobre a fragilidade da vida e feito eu me tornar uma pessoa mais humana e solidária, sem nenhum interesse oculto, porque o que sobra no limiar da vida é simplesmente o amor.


Rio Vermelho, 30 de janeiro de 2018.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A Fraude Verdadeira

Ufa! Finalmente consegui fazer o tal do cadastramento biométrico. Aquilo que fazemos corriqueiramente nos bancos, para substituir a senha pela leitura digital do dedo. Nos bancos privados isto se faz em menos de cinco minutos com a ajuda de um único funcionário – sem que para isto seja necessário agendar dia e hora – depois de esperar de pé na fila onde outros serviços bancários são prestados a outros clientes. Como é um troço que envolve segurança bancária e dinheiro, pode-se imaginar o rigor com que é a coisa é feita, para que não haja fraudes.

Já no serviço público, dá para se imaginar a zorra que aquilo é, não há forma mais apropriada para descrever. Para o mesmo procedimento, que tão rapidamente se faz num banco, o excesso de burocracia, ineficiência, falta de bom senso e quantidade de mão de obra empregada, explica porque a máquina do governo é tão mal administrada e dispendiosa, – ou talvez eu esteja sendo ingênuo, e não percebi que o grande esquema esteja nos gastos para este cadastramento biométrico, seu cheiro azedo faz lembrar das obras com a copa do mundo e das olimpíadas. – com a desculpa de que isto se faz necessário para garantir eleições seguras e limpas. No entanto, fazer o tal cadastramento tem sido um castigo, uma piada de mal gosto imposta a milhares de cidadãos.

A maior dificuldade está em agendar a ida ao posto de recadastramento que, em Salvador, só pode ser feito pela internet. Quem já fez isso, percebeu que não é como dar um passeio no parque, é preciso paciência, persistência e tempo de desocupado. Fiquei horas seguidas durante dias, fazendo intermitentes tentativas até aparecer um horário disponível só para fazer o agendamento. Aí quando surge na tela do computador um horário disponível, temos de ser rápidos na disputa por quele horário com outros incautos internautas que estão do outro lado, na mesma corrida. Perdi duas vezes, para minha frustração, mas na terceira, eu já estava mais esperto, e consegui! Não foi uma tarefa fácil, para mim que disponho de um computador e internet. Fico imaginando como deve ter ser para aqueles que não têm uma coisa e nem outra, e cuja ida ao local de cadastramento é uma despesa que pesa no orçamento minguado. Este detalhe, o burocrata, tão distante da realidade de seu próprio país, desprezou.

O local onde fui fazer a biometria merece um paragrafo à parte. Era um lugar sórdido, parecia um curral humano onde as pessoas se espremiam de pé desde cedo pela manhã, onde imperava o caos, a indignação e o mal humor diante de funcionários públicos apáticos. Um senhor que também estava lá para fazer o seu cadastramento, esbravejou revoltado e fez um discurso inflamado sobre o tratamento desumano que as pessoas estavam sendo submetidas e, no final, levou um monte de aplausos. Temi por um quebra-quebra, mas não houve nenhum, pois como já sabemos, baderna é coisa encomendada e paga, e as pessoas que estavam ali foram voluntariamente.

Quando finalmente fui atendido, e passado por todo aquele processo digital sofisticado – foto digital, assinatura digital e coleta das digitais de cada dedo, ai veio a grande piada do dia, recebi mais uma carteirinha impressa em papel, mais uma que não terá utilidade alguma, além de se juntar às outras eleitorais que já tenho guardadas na gaveta, um verdadeiro monumento à burocracia e à insensatez.

Não acho que o que estamos precisando de um sistema de votação de nação superdesenvolvida. É até um acinte para o eleitor humilde – a grande maioria dos eleitores – ser obrigado a sair de sua casa para votar, utilizando um tal sofisticado sistema, quando ele próprio mora num lugar onde não chegou ainda ao século XIX, portanto sem saneamento básico, segurança e transporte regular. Todo este cadastramento biométrico não passa de uma dispersão para desviar nossa atenção do verdadeiro problema. A grande fraude das nossas eleições não está no voto, esta já vem embutida no próprio sistema eleitoral, permissivo ao ingresso de candidatos com desvios de caráter, verdadeiras frutas podres no cesto; um sistema viciado para reeleger sem votos políticos largamente conhecidos por sua conduta desonesta e amoral, mas que eleição após eleição jamais conseguimos nos livrar deles. Estamos precisando, sim, de candidatos de caráter superdesenvolvidos e que depois de eleitos não se revelem uma fraude eleitoral.


Rio Vermelho, 12 de janeiro de 2018.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Nem tudo está perdido

Ontem – dia 14 – o bar de Ana estava em dia de festa. Era o dia do caruru anual oferecido a Santa Bárbara, a protetora contra os raios e tempestades, a Padroeira dos soldados, dos mineiros e de todos aqueles que trabalham com o fogo. Ana trabalha com o fogo, em frente do fogão. Ela é uma cozinheira de mão cheia que conquistou a clientela com a sua simpatia e seus pratos saborosos. Uma negra preta como carvão, do vozeirão alegre e bunda tão grande quanto o seu coração generoso. Sobre o nariz achatado, ela ostenta um par de óculos estiloso branco que se sobressai na negritude de sua pele lisa, e brilha em seu rosto juntamente com os dentes alvos como o branco do açúcar, doce como o seu sorriso.

A parte interior do bar de Ana é um lugar apertado e abafado, por isso as cadeiras e mesas ficam do lado de fora, num pequeno pátio a céu aberto e se estendem pela impessoalidade da calçada e da rua. O bar é uma daquelas construções que vão sendo feitas e recebendo melhorias aos pouquinhos ao longo dos anos, no improviso do dinheiro curto e sem conhecimento técnico. Uma viga de concreto muito baixa e que não precisava estar ali foi recentemente coberta de azulejos brancos por um pretendente de Ana, mas aquele serviço gratuito de pedreiro não foi suficiente para conquistar o seu coração desconfiado. Nos fundos do bar, um grande nicho iluminado com lâmpadas coloridas acolhe a imagem de Santa Bárbara de quase um metro de altura.

A clientela vai chegando e se cumprimentado, perguntam por fulano e cicrano, em sua maioria é gente da vizinhança que se conhece há tempo. Os frequentadores do bar são afeiçoados ao estabelecimento, pois ali eles se sentem como se estivessem em sua própria casa. É pra lá que vão depois de um dia longo de trabalho tomar uma cerveja geladinha para relaxar, é lá que assistem a partida de futebol do campeonato, num televisor ainda de tubo. É lá que marcam os seus encontros com amigos para levarem aquele papo. E quando aparece algum novato que não bate com o santo de Ana, ela passa a servi-lo com cerveja quente para que ele não volte mais, pois ali a arrogância e a impaciência são visitantes que não são bem-vindos. Uma placa de madeira pendurada à parede avisa: Traga a carne que o churrasco é de graça! É assim o clima do lugar. As poucas cadeiras e mesas não acomodam tantos convidados, então muitos ficam de pé do lado de fora formando grupinhos de conversa animada até a comida ser servida.

Já se foi o tempo dos carurus de preceito que os convidados só precisavam levar a fome e a gula, estes se tornaram raríssimos e muitos agora são apenas lenda. Para comer o caruru de Ana, o convidado tinha de aparecer com um quilo de alimento não perecível, mas este não era para abastecer a dispensa de Ana ou compensar-lhe pela despesa, que um quilo está longe de pagar todo aquele trabalho e despesas. Todo aquele alimento tinha um destino para uma causa nobre. Uma casa de acolhimento de crianças pobres do interior que vem a tratamento de câncer em Salvador foi adotada por Ana. O gesto pode ser uma gota de água no oceano, mas para aquelas crianças e suas famílias, aquele é um ato de amor ao próximo e de compaixão. Num país que vive o desencanto e espanto por seus líderes políticos, onde malas de conteúdo suspeito são carregadas às escondidas de um lado para o outro, onde se entra na carreira política para fazer carreira no ilícito, é um alento que à parte deste pântano que se tornou o ambiente político nacional, existam cidadãos que dão o exemplo que falta àqueles que jogaram no lixo o nosso voto. Obrigado, Ana, por me mostrar que nem tudo está perdido. Feliz ano novo a todos!


Rio Vermelho, 31 de dezembro de 2017.