quarta-feira, 6 de maio de 2020

Não é carnaval, mas todos vão à rua mascarados.

Era cinco e quarenta da tarde quando pus a máscara e saí de casa; mas não era carnaval e nem eu ia praticar um assalto. Essa máscara é uma proteção contra o vírus que vem se espalhando entre as pessoas, mundo afora, prostrando milhares e ceifando a vida de outros tantos, sem distinção de idade, classe social, poder econômico, preferência política ou sexual, cor de pele ou crença religiosa, por tanto um germe letalmente democrático. As máscaras tornaram-se tão necessárias nos dias de hoje, quanto são os calçados para a proteção dos pés, quando vamos na rua. Meu destino era uma barraca de frutas e legumes na Vila Matos, cujo proprietário, seu Roque, a mantém com esmero; dá gosto de ver a mercadoria arrumada e selecionada para a escolha dos fregueses, porém, ninguém põe os pés lá dentro, se não estiver devidamente protegido com a máscara.

No caminho ao longo do largo passeio que margeia a praia, uma situação insólita não escapou à minha observação: um rapaz alto, forte e tatuado, com o porte de um verdadeiro gorila urbano, passeava, tendo à ponta de uma correia um desses pequenos cães de madame que nunca se sabe qual dos extremos é o rabo e qual é a cabeça. O jovem passou por dois pescadores bêbados, sentados na balaustrada, e um deles lançou um olhar humorado para o pequeno animal bizarro e exclamou alto assim:

— Um rottweiler! (para quem não sabe, é um cão violento capaz de enfrentar e abater um touro.)
E o outro rebateu com o mesmo humor:

— Sim. E eu sou o Michael Jackson! 

Continuei a caminho do meu destino e, já na praia da Paciência, parei para assistir a agonia do dia. O céu tem estado da cor de chumbo nas últimas semanas, exibindo nuvens pesadas que ameaçam uma tempestade de proporções bíblicas que nunca se precipita. Mas a paisagem não era só isso, o mar adquirira uma cor fétida e agitava-se nervoso para lá e para cá, quebrando ruidosamente nas pedras e espumando como um animal hidrófobo, enquanto o vento soprava forte, silvando através das rochas, soltando uma espécie de gemido assustador, compondo um cenário de filme apocalíptico. Será que o mar fora infectado pelo tal do coronavírus, me perguntei. E, por fim, o sol passou o dia escondido, e ninguém o viu sair de cena.

Enquanto fiz aquela breve pausa para admirar a paisagem caótica à minha frente, estacionou quase ao meu lado um cidadão que me tem tomado ultimamente como seu chapa, embora o meu tratamento em relação à sua pessoa não justifique tal intimidade. Em resumo, eu jamais lhe dei a ousadia. Ele é um tipo alto, acima do peso e anda desajeitado como um ganso. Acho que não regula bem da bola. Quando me vê sentado à balaustrada, apreciando a paisagem, ele se aproxima de mansinho e fica de pé, ao meu lado, e começa a murmurar uma conversa sem sentido, cujas palavras eu mal consigo ouvir. Então interrompo aquele meu momento de contemplação e me afasto dele com alguma desculpa, e aí ele vai aporrinhar outro cristão desafortunado. Vou para outro lugar da orla – espaço é o que não falta –, a alguns metros adiante, onde espero não ser incomodado novamente. Mas, como uma sombra, o cidadão me persegue, e não demora muito, lá está ele, novamente, sussurrando ao meu lado!  Aquilo parece uma ridícula corrida de gato e rato, até que vou embora para casa. Ainda que nem todos os loucos do Rio Vermelho sejam mansos, este me parece ser um tipo inofensivo, mas quando se trata de maluco, nunca se sabe, melhor manter distância (e não votar neles!).

Depois desse dia, nuca mais o vi. Confesso que percebi a sua ausência, mas não morri de saudades, podem ter certeza. Desde então, posso admirar sossegadamente a paisagem, sem temer a presença de um estranho resmungando incoerências ao meu lado. Mas algo me incomoda com este seu sumiço, e me pergunto, preocupado: será que ele foi atacado pelo maldito vírus?


Rio vermelho, 2 de maio de 2020.
  




quinta-feira, 23 de abril de 2020

Ardil em tempos de pandemia

Nos primeiros dias do tão chamado isolamento social, por conta da pandemia causada pelo novo corona vírus, quando a recomendação das autoridades da saúde era algo ainda incerto na compreensão das pessoas, talvez pelo fato do sugerido procedimento fosse uma novidade ainda desconhecida aos cidadãos e seu efeito benéfico ainda suspeitava dúvidas, eu fazia meio isolamento.

Por conta do “fique em casa”, o largo da Mariquita, à noite, de tão animado e movimentado, se tornara um deserto desolado de pessoas. Os bares resistiam abertos, mas um ou outro gato pingado se arriscava a sentar e pedir uma cerveja, talvez por medo de ser infectado ou de desobedecer às autoridades. O mesmo acontecia com a barraca da baiana do acarajé, suas longas filas, para pagar e receber o quitute, desapareceram, não se via mosca. A barraca do cachorro quente, essa nem de fala. Os casais de namorados, que sentavam-se nos bancos de madeira ao redor do pátio do largo, foram namorar dentro de casa, provavelmente, pois decerto não deixaram de praticar tal prazerosa atividade. As crianças, que tinham no largo um verdadeiro playground, onde corriam de um lado para o outro, assistidas pelos olhos atentos dos pais, agora estavam amarradas nos apartamentos. O único ponto positivo disso foi o fim da poluição sonora, promovida pela estridente música ao vivo dos bares e grupos musicais ambulantes. Por minha vez, eu levava o meu livro e sentava-me no mesmo banco de sempre, abaixo de uma potente luminária, tendo à minha retaguarda uma grande viatura da polícia, com um pelotão de meia dúzia de homens que guardavam pela minha segurança e a do local.

Pois bem, estava eu, solitário, entretido em minha leitura, quando fui interrompido por um rapaz bem apresentado – parecia que acabara de tomar banho e vestia-se com uma bermuda azul, folgada, que lhe cobria os joelhos e uma camiseta regata vermelha; se não estivesse de sandálias, o confundiria com um jogador de basquete. Foi logo falando:

— Roubaram minha motocicleta.
Do jeito aflito com que anunciou o ocorrido, achei que o roubo acabara de acontecer.

— Pede ajuda à polícia, eles estão logo ali — sugeri, pronto para voltar à minha leitura. Apesar de eu estar numa praça, não queria conversa com ninguém; como expliquei, meu isolamento pessoal era pela metade. Ir para a praça, para ler, tudo bem, mas sem ficar perto ou conversar com ninguém. Geralmente sou bastante sociável, até sorrio para desconhecidos e os cumprimento, como se morasse numa pequena cidadezinha do interior.

— Agora é tarde demais, isso aconteceu outro dia – ele suspirou.

— Ah... — disse e voltei o olhar para a página do livro.

— Posso me sentar aqui? — perguntou, já sentando.

— Pode, sim. Mas sente no outro banco, vamos manter a tal distância social. Não queremos pegar o vírus, não é mesmo?

O rapaz sentou-se no banco que lhe indiquei, mas não desistiu de puxar conversa. Eu já imaginava que ia ouvir mais sobre sua má sorte. E, como eu previra, continuou:

— Minha mãe é que tinha razão. Ela dizia para eu não trabalhar depois das 22h, mas eu fui teimoso.

— Então foi um assalto e levaram a sua motocicleta — resumi, sem tirar os olhos do livro.

No Campo Grande. Levaram o meu instrumento de trabalho, sou moto-taxi.

Ao ouvi-lo, achei aquela situação familiar e previ que ele tentaria me dar uma mordida. Para pintar a coisa com cores mais dramáticas, ele acrescentou:

— Então minha mãe me pôs para fora de casa. Trancou a porta e foi viajar.

Mas não ficou só nisso. Contou-me que a mãe era muito severa e essa era a maneira de castigá-lo, por ele não ter dado ouvidos a ela. Lembrei-me da minha mãe, tão humana, um doce de pessoa, como todas as mães deveriam ser.

— E você está na rua desde então? — aquela história começava a ficar sinistra, não combinava com a sua aparência asseada e as roupas limpas que vestia.

— Dormindo em banco de praça. — E logo em seguida, deu o movimento pelo qual eu já esperava: 

— Me arranje um dinheiro pra eu comprar um cachorro-quente.

— Não trago nada comigo, nem o celular. Só este livro. — E não trazia mesmo.

— Ainda não comi nada hoje — lamentou-se.

— Vai lá na barraca do cachorro-quente e conte sua história — sugeri. — Talvez eles lhe vendam fiado.

— É engraçado — ele argumentou. —, quando eu fazia ponto no centro, aparecia um monte de veado me oferecendo cem reais para eu comer eles. — Fez uma pose de Mister Universo, estufando o peito, mas faltava-lhe o porte de um Arnold Schwarzenegger. Não olhava para ele, mas percebi o gesto pelo rabo do olho. — E agora que eu preciso de dinheiro, não encontro nenhum!

— A vida tem dessas ironias — filosofei. — Mas também não lhe posso ser útil nem nesse quesito.

— Não tem nem dois reais?

— Como já disse, não trouxe dinheiro e nem o celular.

Ficamos em silêncio, daqueles que incomodam. Para mim, a conversa já tinha terminado. Eu não tirava os olhos do livro, era uma história muito interessante, a do livro. O rapaz se levantou e, me desejando boa noite, afastou-se. Por minha vez, desejei-lhe boa sorte em sua procura.

Não demorou muito e ele já estava sentado em outro banco, a duzentos metros. Ao seu lado havia outro incauto, talvez ele tenha mais sorte com esse, pensei. De onde eu estava, era impossível ouvi-los, mas podia jurar que ele recontava a sua trágica história e oferecia os seus favores por cem módicos reais – talvez até com um desconto promocional de pandemia. Enquanto o outro prestava atenção, compartilhava com o desventurado seu saco de pipocas. Provavelmente foi no momento que aquele falou que estava à procura de um veado generoso, que o outro se levantou e foi embora, deixando o mal logrado rapaz ficar com o saco de pipocas.
O diabo dessa pandemia não está fácil pra ninguém!

Rio vermelho, 20 de abril de 2020.






segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Ciúme desmedido.

É de consenso comum que ciúme é um sentimento que, muitas vezes, extrapola o bom senso. É um fator humano ter ciúme, e se você diz que não é uma pessoa ciumenta, está enganando a si mesma. Ou nunca realmente foi posto à prova.

O meu amigo Juliano – nome fictício para Juliano – sempre gostou de aventuras. Não me refiro a voar de asa delta-delta ao pular da cabeça do Cristo Redentor, ou pôr a cabeça dentro da boca de um leão faminto, ou pular de paraquedas sobre um campo minado, ou outras estripulias semelhantes. Mais adiante você perceberá qual tipo de aventura o Juliano se interessa. E foi justamente numa aventura dessas que ele se viu confrontado com um caso bizarro de ciúmes.

Um dia Juliano abandonou o curso na faculdade e resolveu correr o Velho Mundo. Quem vê assim, pensa que ele estava nadando em dinheiro. Não tinha um puto, como diria a Madre Superiora. Pegou dinheiro emprestado com um tio rico aposentado e caiu no mundo.

Juliano era um cara bonito, de pele morena, curtida na praia do Porto da Barra. Cabelos negros como as asas da graúna – José de Alencar que me perdoe o empréstimo – e feições finas como as de um príncipe hindu. Muito gentil e de conversa fácil, poliglota – graças à contínua prática do namoro com gringas em visita à cidade –, não teve dificuldade em fazer amizades por onde passasse, e pelas mais belas moças europeias foi hospedado em seus leitos, e ele soube retribuir ardorosamente a generosa hospitalidade.

Juliano gostava de dançar e, certa noite, numa boate em Estocolmo, conheceu um belo casal. A mulher era de uma beleza escandinava só vista em propaganda de shampoo. O cara era um daqueles tipos altos, magros, simpáticos, com um sorriso bobão. O casal ficou encantado com o estrangeiro.

— Sempre desejei ver minha mulher ser comida por um verdadeiro amante latino – confidenciou o sueco, sob o olhar fingidamente tímido e virginal da esposa.

— E eu sou o gênio da lâmpada – disse Juliano encantado com a proposta. – Que o seu desejo seja realizado!

Viu, é desse tipo de aventura que eu estava falando.

Meia hora depois, o couro comeu no lar dos Larssons. Naquela noite, Juliano estava embebido de um verdadeiro espírito patriótico e se sentiu no dever de representar bem o seu país. Jogou duro, por assim dizer. Rolou sexo, drogas e rock ‘n’roll, mas não necessariamente nesta ordem.

Depois do primeiro round, Juliano foi até a sala do casal repor as energias, enquanto fumava um baseado – mais uma cortesia dos Larssons  – e bebia uma dose de ‘aquavita’. Ficou encantado ao ver uma estante abarrotada com centenas de discos de vinil. Que magnífica coleção, regozijou. Estava metodicamente organizada em ordem alfabética, por nome do músico ou banda. Escolheu um Jimi Hendrix e o pôs para tocar na vitrola retrô. Mal os acordes da guitarra do gênio musical se fizeram ouvidos, Gunnar – o sueco de sorriso bobão – apareceu enfurecido na sala de sua casa, vestido como veio ao mundo. Gritava, ao mesmo tempo que agitava os longos, brancos, finos braços, dominado por um verdadeiro um chilique.

— Cara, você pode fumar meu baseado, beber da minha birita, comer a minha mulher, mas não toque nos meus vinis!

Já viu que cara mais ciumento?!


Rio Vermelho, 12 de janeiro de 2020.

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A hóstia imperfeita

Ela tinha obsessão por perfeição. E quando foi morar na nova casa, no primeiro dia do ano, ficou feliz ao ver novamente a simetria de sua faixada. Era quadrada com duas janelas igualmente quadradas e uma porta de duas bandas no meio. As paredes eram impecavelmente brancas e iria mantê-las assim, resolveu não pendurar nem mesmo um calendário. Havia um pequeno jardim na frente, ou melhor, um gramado bem cuidado. Nos fundos, o quintal era maior do que poderia desejar, ainda não tinha ideia do que fazer com ele. A casa era um pouco grande para ela, que só tinha a companhia de um gato, mas ela preferia assim. Um cão aproveitaria melhor o espaço do quintal, gostavam de correr e cavar, mas gato era animal de ficar dentro de casa, e o dela reencontrou o seu lugar embaixo de uma antiga cadeira de palhinha. No antigo apartamento, a cadeira servia de abrigo para ele, e não foi diferente na nova moradia. Defronte da casa havia uma igreja e isto deu a ela o que pensar.

Quando foi a última vez que fui a uma missa?, se perguntou. Porém não encontrou resposta. Já fazia tanto tempo... Estava começando uma vida nova e talvez reencontrar-se com Deus fosse uma ótima mudança. Estava resolvido, iria todos os domingos à missa. Era só atravessar a rua. Aquela seria uma de suas resoluções do novo ano que começava.

Passou o resto da semana arrumando a casa, colocando as coisas no lugar, ao seu jeito. Depois que terminou, fez uma rápida faxina e deu-se por satisfeita. No domingo, acordou cedo, fez o café e tomou-o na mesa da cozinha, ao lado da janela que dava para o quintal. Os pássaros cantavam e se amontoaram em volta de uma casca de mamão posta sobre uma banqueta. Quando, no apartamento no centro da cidade, recebera tão ilustres visitas?, se perguntou. Jamais.

Depois de tomar o café, apressou-se para não chegar atrasada à missa. Era a primeira missa do ano e a igreja estava cheia. Mesmo assim, encontrou um lugar na ponta de um banco. Logo em seguida, a missa começou.

Ficou feliz de se lembrar de todas as rezas e lhe pareceu que a missa continuava do mesmo modo como se lembrava, apesar de que hoje em dia o repertório de músicas era mais moderno. As músicas eram bonitas e iria memorizá-las para a próxima missa.

Quando chegou a vez da Comunhão, aquele momento em que se vai para uma fila, com uma expressão contrita, e abre-se a boca diante do sacerdote, para receber a hóstia. Ela levantou-se e foi tomar um lugar na fila. Quando chegou a sua vez, no momento em que o padre pegou uma hóstia, ela percebeu que algo não estava de seu agrado. A hóstia estava rachada ao meio, porém ainda inteira, e faltava-lhe um imperceptível pedaço. Aquela imperfeição a incomodou. Tentou não dar importância, mas foi-lhe impossível. A boca, que estava aberta para recebê-la, se fechou abruptamente, para surpresa do padre que não compreendeu o gesto.

— Será que o senhor poderia trocar esta hóstia por uma que esteja... inteira? – ela perguntou ao padre, desconcertada.

— Minha filha, você fez a Primeira Comunhão? – perguntou o padre, com um olhar severo.
— Não – ela respondeu, constrangida.

— Então volte para o seu lugar e depois teremos uma conversa séria – disse o padre, negando-lhe a hóstia.

Sentindo-se humilhada, ela voltou para o banco e ficou cabisbaixa o resto da missa. Podia sentir o peso dos olhares dos outros fiéis sobre ela. Mas era só trocar a hóstia, recriminava o padre. Depois daquele domingo, nunca mais voltou à missa.


Rio Vermelho, 1 de janeiro de 2020.


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domingo, 29 de dezembro de 2019

Perdidos na noite

Mais uma vez, fui ao caruru de Santa Bárbara, no bar de Ana – não lembro que nome tem ou se tem nome o estabelecimento. –, na Almirante Barroso. Aquele que tem uma placa à entrada, com a seguinte frase: Traga a carne que o churrasco é de graça. Desta vez havia uma nova placa, presa em frente ao balcão, com uma frase igualmente espirituosa: Aki a tristeza pula de alegria. Já escrevi sobre este caruru em 2017, com o título “Nem tudo está perdido”.

Mas esta história é outra. A própria Ana fez o meu prato, uma pequena gamela de cerâmica popular, comprada na feira de São Joaquim, provavelmente o quiabo, o camarão seco, a castanha de caju, o amendoim torrado, o milho de pipoca, a farinha, a galinha, o dendê e todos os demais ingredientes necessário para produzir essa oferenda gastronômica vieram de lá, porque é de conhecimento geral do baiano que é neste mercado popular onde se compra mais barato.

Depois de comer, por educação, não deixo um grão no prato, não tive fôlego nem para conversar. Eu estava empanzinado, me sentia enorme. Ana me fizera um prato de estivador. Não costumo comer tanto assim, ainda mais de noite, e comida pesada. Se eu fosse para casa dormir, daquele jeito, ia ter um pesadelo. Já basta os que tenho durante o dia, de olhos bem abertos. Então resolvi aproveitar a noite fresca, para dar uma caminhada no calçadão da praia. Dizem que andar faz bem à digestão, estava na hora de verificar a veracidade da informação. Desci a Almirante Barroso e fui dar de cara com o mirante da Paciência. O lugar estava ermo, à exceção de um casal de namorados, alheios ao mundo ao seu redor, que fazia osadia, de pé, escorados num canto. Então segui em direção à quadra de futebol.

A rua estava deserta, e eu só ouvia a maré batendo nas pedras como um chamado do mar. Notei a figura de um homem vindo em minha direção. Eu o reconhecera. Ele já me abordara antes, naquela tarde e em outras ocasiões. Parei por tempo o suficiente para respondê-lo.

— O senhor me dá alguma esmola? – perguntou, com a mesma cantilena de sempre.

— Não trago um tostão comigo – respondi, com a minha cantilena.

— Uma moeda também não tem – insistiu.

— Também não.

— Vinte e cinco centavos?

— Não tenho nada, senhor.

— E cartão?

Balancei a cabeça, em resposta. Me perguntei se ele seria um mendigo que tinha aquelas maquininhas de pagamento e recebia esmolas no cartão de crédito ou débito. Sinal dos tempos. Quem não se moderniza fica para trás.

Segui meu caminho. Eu ia sem pressa. Estava sozinho, mas jamais me sinto solitário em minha companhia. Vez por outra, sentava na balaustrada, para curtir a brisa da noite e ver o tempo passar. Nesse ritmo, cheguei na praça ao lado da Igreja de Santana, onde uma turma costuma brincar de skate, fumar maconha, pichar o que foi repintado e depredar bancos e lixeiras ao fazer manobras de skate sobre eles. Já gostei de sentar ali. Hoje não sento mais, até porque, dos cinco bancos que existiam, só sobrou um, que não tem mais assento. Ali, sou abordado mais uma vez pelo mesmo pedinte, repetindo o mesmo roteiro de perguntas: Esmola? Moeda? Vinte e cinco centavos. Cartão? Ele é um homem baixo e de compleição física forte. Anda depressa, e não se veste com trapos, igual aos mendigos que vejo por aqui, e também não é maluco como os outros. Esqueço dele e vou até a Mariquita.

A Mariquita é mais animada. Um bar ao lado do outro, as mesas ficam ao ar livre, cada um tocando a sua própria música ao vivo. Um deles tem uma banda de samba, outro toca MPB. O cliente tem o prazer de ouvir até cinco músicas diferentes ao mesmo tempo. Aquela fartura musical me deixa irritado. No grande pátio central, afastado dos bares, crianças brincam de bicicleta e patins. Um pai acompanha, atento, a filha dar os primeiros passos cambaleantes. Eu sento num dos bancos, ao lado de um casal de namorados. O sujeito é muito gordo e não resiste quando a vendedora de empadas passa. Compra duas para ele e uma para a namorada e logo enfia uma na boca com uma expressão de satisfação.

Olho para o relógio e já são quase onze da noite. Por hoje chega. Me levanto, decidido a ir para casa. Se for verdade o que dizem, a caminhada deve ter ajudado na digestão do caruru, andei uns três quilômetros. Atravesso o Largo da Mariquita e, na Praça Colombo, atravesso o semáforo. Na Pedro Luiz ouço uma voz logo atrás de mim: Esmola? Moeda? Vinte e cinco centavos? Cartão? Já era a terceira vez aquela noite, talvez a quarta no dia. Que sorte que eu tenho.

— O senhor gosta muito de andar, não é? – perguntou. Então ele me reconhecera, conclui.

— É bom usar as pernas, enquanto ainda funcionam – respondi sem olhar para trás.

— Mas uma esmola o senhor não tem, nem uma moeda.

— Isso mesmo. Não carrego dinheiro.

— Vai para casa?

— Sim, já esta na hora.

— O senhor mora onde?

— Moro por aqui. Boa noite. – Me despedi.

Em tributo às minhas raízes cearenses, eu ia dormir na rede, como sempre. E não me surpreenderia que em meu sonho o pedinte aparecesse. Uma esmola, moeda, vinte cinco centavos ou em cartão. Talvez este já fosse o pesadelo.


Rio Vermelho, 20 de dezembro de 2019.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A Velha e o anzol

Eu nunca tinha visto uma pescadora antes, muito menos uma que não recorresse à ajuda de uma vara, para fisgar incautos peixes nas águas mornas do mar do Rio Vermelho. Pescadores é o que não falta por aqui, têm aqueles de profissão, cuja pele curtida no sol e no sal lhe conferem a aparência de matusalém. E tem aqueles de ocasião, como o motorista de taxi que passa na praia de Santana e, ao ver a aglomeração de pescadores eufóricos, espalhados nas pedras da praia, tentando dar conta dos cardumes de xaréu, bonito, guaricema, dourado, sororoca, só para citar alguns, encosta o carro, tira da mala a vara e dá por encerrado o expediente do dia. Parece licença poética, mas é verdade que as marés de lua cheia trazem fartura de peixe para as águas do Rio Vermelho.

De peixe não entendo muita coisa, só sei degustá-lo, na forma moqueca, ensopado ou ao forno. Frito, também, mas não é do meu agrado. A presença de pescadores nas praias do Rio Vermelho é algo que faz parte de sua paisagem cotidiana, tal é a fartura de peixe que abunda nessas águas, desde antes da época do Descobrimento. Esse fato do nosso dia a dia não teria me chamado tanto a minha atenção, se eu não tivesse sido surpreendido pela visão de uma velhinha jogando o anzol, de pé, sobre as pedras da praia de Paciência. Para que o leitor tome conhecimento, há duas formas de se pescar com o anzol. A mais conhecida é com o uso de um anzol amarrado a uma linha de nylon que é presa a uma vara. Logo próximo ao anzol, um pedaço de chumbo ajuda a isca a cair longe e a sumir nas profundezas. A outra é um anzol preso ao nylon, sem vara, mas com a chumbada. É preciso força nos braços e conhecimento técnico para pescar desse jeito. Pois a velhinha de aparência frágil, passos incertos próprios das velhinhas, com os cabelos presos num cocó, em um vestido estampado de avozinha, arriscava-se sobre as pedras acidentadas, jogando o anzol, sob o sol abrasador de dez horas de dezembro. Ao seu lado, sobre a pedra, repousava um grande balde branco, de plástico, no qual ela esperava levar para casa o fruto de sua pescaria.

Ao presenciar aquela aventura, meu coração sentiu um aperto. Mas que coisa perigosa, transitar sobre aquelas pedras. E é preciso força para lançar o anzol sem a ajuda de uma vara, e força era o que faltava à minha heroína.  Ela jogava o anzol, mas este não ia muito longe. Fiquei assistindo aquela cena, imaginando uma forma de ajudá-la, e a única ideia que me passou foi ir até o mercado do peixe e comprar alguns quilos para presenteá-la. Mas eu, em meu gesto de bom samaritano, corria o risco de ofender o orgulho da velha, que julgava-se perfeitamente capaz de cumprir aquela tarefa. Sem poder consertar o mundo, fui me dedicar ao motivo de ter ido à praia naquela manhã. Deixei minhas coisas na areia e caí na água feito um peixe.

A água estava límpida e tépida, e o pouco vento não formava ondas. A praia parecia uma piscina de água salgada e piso de areia. De onde eu estava, dava para ver a velha que pescava. Agora era tinha um aliado, um rapaz muito magro e o dobro de sua altura. Ele emprestara à velha a sua vara. De longe, parecia uma tosca vara de bambu, mas era melhor do que pescar sem nenhuma. Fiquei imaginando se ela conseguiria pescar alguma coisa. Tão próximo assim das pedras só dava peixes miúdos que mal faziam uma farofa. Continuei na água, me esbaldando com a delicia que estava, até esqueci da velha. Só vou à praia para ficar na água e só saio de lá para ir embora. Não deito na areia, para tomar banho de sol. Prefiro banho de água. Ou fico bebendo cerveja e comendo petiscos. Eu gosto mesmo é de ficar na água, ainda que não saiba nadar.

Agora havia um segundo homem ao lado da velha. Não tinha pinta de pescador, parecia mais um chato. Usava um bermudão florido e a brancura de sua pele denunciava a sua condição de turista. Ele conversava com a velha, parecia que lhe dava conselhos de como pescar, como se ela precisasse. Depois tomava seu caminho pelas pedras e voltava para a areia, onde a esposa o aguardava debaixo do vistoso sombreiro. Não demorava muito, e lá estava ele ao lado da velha, novamente, bisbilhotando. Ele dividia seu tempo entre a esposa, na areia, e a velha, nas pedras.

Quando achei que já estava na hora de ir embora. Saí da água e peguei minhas roupas dobradas na areia. Ao passar pelo turista, que agora estava debaixo do sombreiro ao lado da esposa, pedi licença e me aproximei.

— Será que a velha consegue pegar alguma coisa? – perguntei apontando para as pedras.
— Ôxi, o balde já está quase cheio!
Bendita, seja a velha. Quem não entende nada de pescaria sou eu.


Rio Vermelho, 11 de dezembro de 2019.

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O dois de fevereiro é dia de Iemanjá!

Ontem foi a Festa de Iemanjá, aqui no Rio Vermelho, e sobre isto surgiu uma polêmica – bem, talvez não uma polêmica, mas um abuso – quanto ao nome da tradicional festa que remonta ao início do século XX. Imaginem que a prefeitura fez o impensável, mudou o nome da festa para Festa do 2 de Fevereiro. Como se a homenagem a Iemanjá, divindade do candomblé, único motivo da festa, tivesse sua existência e importância minimizada. Isto equivale a passar a chamar o Natal de Festa do 25 de Dezembro, Nossa Aparecida de Festa do 12 de Outubro, de São João de Festa do 24 de Junho, deu para perceber? Só Deus sabe quanta sapiência precisou a prefeitura para agir desta forma. Assim mandou produzir e afixar em postes do bairro, material impresso promocional da sua Festa do 2 de Fevereiro, ilustrado com um barquinho cheio de flores e sem a imagem de Iemanjá. Mas, a pesar disso, a multidão que veio ao Rio Vermelho trazer sua oferenda para Iemanjá, ignorou a intenção da prefeitura pois para ela, o dois de fevereiro é dia de Iemanjá!

Na manhã seguinte, um garoto forte e de pele curtida pelo sol mergulhava nas piscinas que se formam nas rochas próximas à Pedra dos Pássaros, onde eu costumo me banhar cedo, quando a maré está baixa. Ele tinha na mão um saco grande, feito com uma fina rede de fibra sintética. Perguntei a ele se estava catando pinaúnas, e ele respondeu que não. E, desapontado acrescentou: “Iemanjá aceitou todos os presentes. Ano passado achei um anel de ouro que ela devolveu e cinco notas de cinquenta Reais.” Aí ele mergulhou novamente, à procura de algum presente que Iemanjá não quisesse.

Na areia da praia da Paciência, onde fui em seguida, um gari limpava a praia com a ajuda de um ancinho e de um saco de lixo. Entre frutas e flores que foram recusadas pela Rainha do Mar e que ele recolhia no saco do lixo – havia também copos descartáveis, garrafas de plásticos e outros refugos, produto gente sem consciência – ele encontrou uma garrafa de perfume. Estava fechada com tampa. Ele abriu o frasco e cheirou sua fragrância com uma expressão de prazer e de alegria infantil. Pôs a tampa de volta e colocou o frasco no bolso da calça. Se Iemanjá não quis, com certeza, a patroa em casa ia ficar feliz em ganhá-lo!

Rio Vermelho, 3 de fevereiro de 2019.


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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

A beleza está nos olhos de quem vê

Na escola, era chamado de Sapo, pelos colegas. Mas isso foi há muito tempo há trás, no tempo que a palavra bulling ainda não tinha sido inventada e todo mundo tinha um apelido sem que isto virasse caso de polícia ou de tratamento psicológico. O Gordo geralmente era um garoto mirrado, Jacaré era porque tinha a boca grande e quando sorria todos os dentes se mostravam, Cabeção tinha a cabeça grande mesmo, e por ai vai. No caso do nosso ilustre personagem, não havia como olhar para ele e não associá-lo ao anuro. Quase não tinha pescoço, a boca estendia-se de uma orelha a outra, que eram muito miúdas. Os olhos eram esbugalhados em razão de uma deficiência glandular. As pernas e os braços eram finos e compridos demais, presos a um tronco curto demais e que carregava uma barriga saliente que era redonda e dura. Costumava usar camisas justas, e isso só piorava as coisas, pois a barriga parecia que aumentava de tamanho. Em resumo, era irremediavelmente feio como um sapo.

Mas o apelido de Sapo ficou no passado, agora ele era o doutor Sapo, quero dizer, doutor Feliciano Pastori, um famoso cirurgião plástico, responsável pela criação de centenas de narizes arrebitados, bocas carnudas, seios duros e arredondados, nádegas proeminentes – para aquelas que se queixavam de não as possuírem em quantidade suficiente antes da intervenção cirúrgica – e rostos de pele esticada como o tamborim. Era irônico que o gênio responsável pela criação de tanta beleza fosse justamente o oposto de suas criações cirúrgicas. Não havia jeito, mesmo usando roupas e sapatos de grife, relógios caros, continuava a se distinguir dos demais homens por sua feiura. – veja bem, sapos não são criaturas de aparência abominável como o escritor aqui provoca o leitor a imaginar. Eles são até criaturas simpáticas, apesar de suas características pouco estéticas. A ideia aqui é reforçar na imaginação do leitor a imagem de algo que foge aos padrões de beleza. Peço humildemente desculpas, se ofendei algum sapo aí, lendo a minha história.

E você acha que o doutor Pastori se incomodava com a ausência de predicados físicos com a qual viera ao mundo? Seu couro não cabia a sua autoconfiança e autoestima. Ele sempre foi um sujeito simpático e galanteador, ainda que fosse difícil uma mulher deixar-se seduzir apenas pelos atributos de sua personalidade, porque era difícil de encarar o resto, o homem era feio e ponto final.

Mas, como diz o batido ditado, a beleza está nos olhos de quem a vê. E foram os olhos de uma bela mulher – muito bonita mesmo, posso lhes garantir – que viu beleza no feio doutor Feliciano; talvez ela achasse que se lhe desse um beijo, ele se transformaria num belo príncipe, como nos contos de fadas, mas se isto realmente aconteceu, foi apenas em sua romântica imaginação.  Apesar das críticas das amigas, ela casou-se com ele e teve filhos que, graças a deus, pareciam-se com a mãe!

O doutor Feliciano, como eu disse antes, era um sujeito simpático e carismático – não tinha mencionado que ele também era carismático? Eu esqueci, ando meio esquecido ultimamente. –, isto lhe rendia amigos. Ele tinha uma conversa boa e, diferente da maioria dos médicos que eu conheço, sabia falar sobre outros assuntos que não apenas sobre a sua profissão. Ele animava uma roda de conversa quando fazia parte de uma.

Certa vez foi participar de um congresso internacional aqui mesmo na capital baiana. Este tipo de evento também tem a vantagem de proporcionar o reencontro de amigos da mesma profissão que, por uma questão de distância, raramente se encontram. E foi isso mesmo que aconteceu. O doutor Feliciano teve a alegria de reencontrar uma colega de escola que não via desde aquelas priscas eras e, por motivos óbvios, foi ela quem o reconheceu.

Você não mudou nada, disse ela pensando em como o amigo de infância continuava a parecer-se com um sapo. Ela também seguira a mesma carreira do doutor Feliciano; felizmente há tanta gente no mundo insatisfeita com o próprio corpo, de modo que não faltam cirurgiões plásticos para socorrê-los. O reencontro dos dois amigos foi cheio de alegria e de recordações. Havia assunto para horas seguidas de conversa. Dava para se perceber que os dois eram muito camaradas nos tempos de escola. E quando a doutora Juliana – não tinha dito como ela se chamava? Pois digo agora! –, que morava na Islândia – sempre quis conhecer este nórdico país e, enquanto isto não acontece, me satisfaço em enviar meus personagens para lá. – convidou o querido amigo de infância para jantarem juntos antes de ela partir de volta para a terra do Eyjafjallajökull, ele mostrou-se embaraçado e adiantou-se em explicar: Tenho de perguntar à minha esposa, sabe como é, ela morre de ciúmes de mim. A doutora Juliana ouviu aquela resposta sem conseguir conter a expressão de admiração, ao mesmo tempo que analisava o amigo e se perguntava: mas ciúmes de quê?

E, com esta, desejo um feliz 2019 a todos!

Rio Vermelho, 1 de janeiro de 2019.

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