quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O Ladrão e a Mulher do Caçador

A notícia de que um ladrão invadia os lares durante o sono de seus moradores, ou em sua ausência, levando objetos de pequeno porte, mas de considerável valor, como joias, relógios, aparelhos de celular, computadores portáteis e máquinas fotográficas, deixou apreensivos os moradores do tradicional bairro do Rio Vermelho. Era muita ousadia invadir a casa alheia para roubar, e mais ainda quando os seus habitantes estavam indefesos no mais profundo sono. Ninguém tinha uma descrição desse gatuno, ninguém jamais o tinha flagrado em pleno exercício de sua atividade profissional.

Até que certa noite, acreditando estar invadindo uma residência na qual os seus moradores estivessem ausentes, ele deu de cara com a dona da casa, uma jovem mulher que se preparava para ir para a cama. Ora, o susto da moça foi grande, mas ela enfrentou o invasor com determinação e coragem.

— O que você quer? – ela perguntou tentando cobrir com as mãos o corpo que levava apenas uma fina e quase transparente camisola.

— O que a senhora acha que eu quero? – o ladrão perguntou desapontado consigo mesmo pelo seu descuido. No entanto, ele não deixou de ficar admirado com a beleza de sua vítima.

A moça logo percebeu que se tratava do ladrão sobre o qual tanto falavam no bairro e o encarou observando que a sua aparência era típica dos ladrões. Ele vestia-se casualmente e com bom gosto, era alto, porte atlético, cabelos louros compridos amarrados em estilo samurai, barba por fazer, rosto perfeito e olhar cínico e penetrante, enfim, um tipo bem comum de gatuno.

Ela então respondeu a ele abrindo os braços de forma dramática, como se estivesse se oferecendo a ele em sacrifício, entretanto, revelando a silhueta de seu belo corpo por debaixo do tecido fino da camisola.

— Venha, pegue isto que você está querendo, mas poupe a minha vida! Vamos, satisfaça os seus infames desejos carnais e vá-se embora!

Entretanto, ela teve o cuidado de acrescentar uma informação contrária ao que o bom senso espera em casos como aquele, em que tudo que se deseja é que as coisas aconteçam de forma rápida e indolor:

— Meu marido saiu e vai demorar!

Por tanta generosidade, o ladrão não esperava. Sua intenção era apenas levar um relógio ou um par de brincos, e ele se daria muito satisfeito se houvesse um tablet ou câmera digital para incluir butim. Mas um mulherão daquela qualidade se entregando para ele, era algo extraordinário, não havia como recusar.

Ele então se deixou levar pelo desejo, tomando-a nos braços e a imprensando contra a parede com o seu próprio corpo. Ela gemeu ao sentir a sua rigidez e lhe ofereceu os lábios. Antes, porém, de sufocá-la com um longo beijo, ele quis saber.

— E onde está o seu marido?

Ao que ela respondeu ofegante e dominada pelo desejo.

— Ele foi caçar pokemon!


Rio Vermelho, 23 de agosto de 2016.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Profissão de Pai para Filho

Gervásio sonhava um dia ver seu primogênito seguir uma profissão diferente da sua e, por isso, tornar-se um doutor, que tivesse uma profissão descente como um médico, engenheiro ou até advogado. Mas o filho orgulhava-se do pai, considerava-o uma espécie de herói, desde pequeno já tinha decidido que seguiria a mesma profissão do pai, seria um ladrão.

Isto mesmo, Gervásio tinha como profissão roubar pessoas, mais especificamente roubar a casa das pessoas e depois levar o butim para vendê-lo na Feira do Rato, no Comércio. Ele era um ladrão à moda antiga, como se diz, preferia entrar sorrateiramente na casa das pessoas sem fazer barulho algum, com a habilidade e elegância de um felino e surrupiar os seus pertences enquanto dormiam ou estavam ausentes no trabalho. Ele condenava as práticas modernas de seus jovens colegas de abordar a clientela diretamente na rua. Achava aquilo deselegante e perigoso, de uma violência fora de propósitos. Ele jamais apontara uma arma para outra pessoa, e o único mal que lhes fizera foi lhe auferir os bens sem que para isso tivesse de usar de violência ou pôr a vida de alguém em risco.

Seu filho Benedito tinha a mesma opinião do pai. Repudiava a violência sob qualquer pretexto. Entretanto ele não faria como o pai, não tinha a intenção de exercer a sua profissão invadindo a casa alheia, achava aquilo antiquado e o custo-benefício pouco produtivo. Também não se imaginava vendendo a sua mercadoria na Feira do Rato como o pai, sujeito a ser assaltado de surpresa pela polícia a qualquer instante, fugindo deixando tudo para trás para que a própria polícia fizesse a festa. Sua intenção era a de atuar no mercado de forma eficiente e inovadora, com poucos riscos e muitos benefícios.

Certo dia o pai ia pela rua, no centro da cidade e orgulhoso viu cartazes com a foto do filho coladas pelos muros e postes ao longo do caminho. Como o filho estava bonito e elegante, ele ia ser um ladrão de classe, de primeira categoria!

— Olha aqui, este é o meu filho! – dizia Gervásio aos transeuntes apontando para o cartaz com a foto do filho onde se lia “Benedito Silva para deputado”.


Rio Vermelho, 19 de julho de 2016.




terça-feira, 12 de julho de 2016

Meu romance precisa de sua ajuda para ser publicado. Ele merece ser publicado


Prezado leitor,

Você que tem me prestigiado lendo o meu blog e fazendo comentários, solicito agora a sua ajudinha. Estou fazendo uma “vaquinha” para publicar o meu romance Demasiado Pouco Amor – ele precisa de sua ajuda para ser publicado, ele merece ser publicado!

Hoje em dia, esta vaquinha leva o pomposo nome de Financiamento Coletivo – do inglês Crowed Funding, muito popular mundo a fora. Muitas pessoas no Brasil já estão recorrendo a este sistema para financiar seus próprios projetos na área cultural, ambiental, educacional e social. Bacana, não?

É muito simples: basta copiar e colar o link a seguir no seu navegador (https://www.catarse.me/demasiadopoucoamor-digital) que levará ao meu projeto no site do Catarse – que é uma plataforma nacional de financiamento coletivo. E contribuir com R$15, R$30, R$50, R$100, R350 ou R$650 e de lambuja eu ainda te dou um mimo!

É um pouquinho, mas para mim a sua singela contribuição fará uma diferença danada! Vamos lá, enfia essa mão no bolso!

Obrigado por sua colaboração!

Isso é Amor!

Raimundo era motorista de táxi. A sua grande paixão era ir para a praia de Santana no final de tarde levando consigo a vara de pescar para entregar-se aos prazeres de esperar até que um peixe desavisado mordesse a isca. Não havia satisfação maior que jogar o anzol no mar e contar com a sorte de pegar algum peixe, pois era isso que pescar significava, um jogo de azar, era como jogar na loteria.

O nosso pescador de ocasião era um homem jovem, beirando quase os trinta; tinha seu próprio apartamento e era considerado pelas moças como um partidão. Ele gostava daquele esporte que exigia doses de paciência e que, por isso, era mais apropriado para homens mais maduros. Mas ele se considerava um precoce, gostava de coisas diferentes que os rapazes de sua idade. Sendo ainda solteiro, não precisava dar satisfações a ninguém, podia ir pescar quando lhe conviesse, bastando para isso que a maré estivesse dando peixe.

Certo dia, no final de uma tarde ventosa do mês de julho, ele ia passando pelo Rio Vermelho e viu maravilhado uma multidão de pescadores na praia de Santana, pois a maré tinha trazido um enorme cardume. Havia pescadores com suas varas e anzóis deste a areia da praia até nas pedras que a circundava, na esperança de levar para casa um xaréu ou bodião. Ele encostou o carro e ficou sentado na balaustrada assistindo aquele cenário que ocorria lá embaixo. Ao seu lado sentou-se também Mário, outro companheiro de pesca. Assistir homens pescando era tão enfadonho quanto acompanhar um carteado, quase nada acontece, mas como existe gosto para tudo nessa vida, o praticante da pesca se entusiasma em ver outro colega pescando. Havia também pessoas que passavam de bicicleta se exercitando no passeio ao lado da balaustrada, outras corriam ou passeavam com seus cães indiferentes àquele fato importante. Uma moça jovem e bonita desfilou graciosamente com seu cachorrinho, desviando a atenção de Mário para o seu formoso rosto.

— Olha, que mulher mais linda. – ele chamou a atenção de Raimundo.

— Eu prefiro as feias. – retrucou o taxista indiferente, sem desviar o olhar para os pescadores na praia.

—É mesmo? E por que essa predileção, posso saber?

— Ora, mulheres feias são mais esforçadas e por isso são mais inteligentes. Elas são mais carinhosas para compensar a falta de beleza, e muito boas de cama, pelo mesmo motivo. – respondeu Raimundo do alto de sua sabedoria.

— Então você está dizendo que as bonitas são burras?

— Quase isso. A mulher bonita geralmente consegue tudo fácil por causa de sua beleza que lhe abre as portas, não tem de batalhar como a feia, por isso, não desenvolve o intelecto, entendeu?

— Mas essa aí é novinha, ainda tem muito o que aprender... – argumentou Mário.

— Também não gosto de mulher nova...

— Tá me dizendo que gosta de velhas?

— Isso mesmo! – Raimundo respondeu orgulhoso.

— Você tem gostos estranhos, meu caro amigo. Porque prefere as velhas?

— As velhas são muito mais experientes na arte do amor, já sabem tudo e, como ninguém se interessa por elas, quando arranjam um homem jovem como eu, elas capricham para tirar o atraso!

— Nossa, então você gosta mesmo de mulheres feias e velhas!

— Isso mesmo. E se você algum dia me ver agarrado a uma velha feia, não aparte porque não é briga, é amor!


Rio Vermelho, 12 de julho de 2016.




quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Relógio Barato e a Moça de Grife

Eu gosto de relógios de espessura fina e que não pesem no braço. Destes que de tão discretos só mostram as horas e não me incomodam fazendo tic-tac. Pra quê mostrador de profundidade, se não sei nadar e tenho medo de água ou de que adianta saber quantas vezes o meu coração bate, pois por quem ele bate não é ouvido? Finalmente, depois de procurar pelas lojas encontrei um que se enquadrava ao meu gosto e ainda custava o preço de uma pizza grande. O seu mostrador era redondo com o fundo branco e no centro um par de ponteiros girava apontando para números arábicos elegantes. Ele não era de uma marca chique, pelo contrário era bem popular, mas de qualidade confiável, não era coisa de camelô. De qualquer forma, não era o tipo de relógio que as pessoas que se importam com grifes gostariam de ostentar no pulso para mostrar ao mundo que estão bem de vida.

Com o uso frequente, fui aos poucos percebendo as vantagens de possuí-lo. Certa vez eu ia num ônibus, destes que se paga mais por um pouco de conforto, quando percebi a presença de um rapaz que se aproximava pelo corredor com as mãos cheias de bugigangas. Fiquei surpreso por deixarem um vendedor ambulante entrar naquele tipo de ônibus e só me dei conta de que, na verdade, se tratava de um assaltante quando ele me mandou passar tudo. Quando lhe entreguei o relógio, no entanto, o assaltante examinou-o com desdém e o devolveu dizendo que não queria aquilo. Meu prejuízo foi pouco, pois não saio com celular e nem coloco documentos e cartões de crédito na carteira que quase sempre carrega apenas trocados, nada que dê alegria a assaltante.

Mas esta não foi a única vez que tentaram levar meu relógio que, para mim, virou motivo de satisfação possuí-lo, pois estava claro que este não era o querido dos ladrões. Outra vez tive a sorte de ser abordado novamente por um assaltante nas imediações de minha casa e como eu não tinha um celular para entregar-lhe, ele levou o relógio.  Entretanto, encontrei-o mais adiante jogado ao chão; o bandido deve ter desistido dele e me jogado uma praga!

O caso mais emblemático que envolveu o meu bom e barato relógio, no entanto, ocorreu quando uma bela moça a quem eu cortejava, finalmente cedeu aos meus convites para sair comigo. Ela caprichou na elegância, calça da Kalvin Kleine, blusa da Farme, bolça da Victor Hugo, Sapatos da Arezzo, perfume da Carlina Herrera e, como constatei mais depois da segunda garrafa de vinho – ela era difícil na queda! –, lingerie da Victoria Secret. Além de se vestir a peso de ouro, sabia recitar nomes de vinhos caros, os hotéis e restaurantes mais luxuosos de Nova Iorque a Paris e demonstrava ter domínio destes conhecimentos com tal conhecimento de causa e orgulho que até me fez bocejar de sono. E quando ela me deixava falar um pouquinho, eu percebera que ela olhava discretamente o meu relógio, talvez para não demonstrar indelicadeza consultando as horas em seu próprio pulso. A noite para mim transcorreu agradável e educativa, e quando finalmente terminamos na cama, eu sussurrava em seu delicado ouvido nomes de grife famosas que me vinham à memória enquanto fazíamos amor, com o intuito de aumentar o seu prazer.

E, no dia seguinte, como manda a etiqueta, mandei-lhe mensagens agradecendo-lhe pela noite esplendida, ao que ela correspondia com “emotions”. No entanto, os convites para um segundo encontro eram sempre recebidos por ela com entusiasmo, mas que ela educadamente os cancelava poucas horas antes e assim aconteceu sucessivamente. E finalmente enquanto eu refletia o possível motivo daquela rejeição, só me vinha na cabeça uma explicação lógica: foi o relógio barato!


Rio Vermelho, 14 de junho de 2016





quinta-feira, 26 de maio de 2016

Um Pouquinho Não Tira o Pedaço

Letícia se sentia amargamente só nos últimos dias. Nenhuma alma para conversar, trocar uma ideia. E ela, que era conversadora, se sentia no pior dos mundos. O fato é que lhe roubaram o smartphone, e isto foi pior do que se lhe tivessem levado a vida. Se o miserável do assaltante tivesse lhe metido uma bala no coração, teria lhe poupado de tanto sofrimento. Cheia de dívidas, não tinha como comprar outro aparelho tão cedo, nem um daqueles antiquados que só servem para fazer ligações telefônicas.

Milagres não existem, ou pelo menos daqueles em que cego começa a enxergar e aleijado se levanta da cadeira de rodas. Letícia acreditava em Deus, mas só teve certeza de que ele ouvira as suas preces depois que a vizinha bateu à sua porta. Tinha um telefonema urgente para ela. O investigador Queiroz, aquele mesmo que lhe comia com os olhos enquanto ela prestava a queixa do assalto, pedia que ela comparecesse à sétima naquela tarde. Ele não quis dizer o motivo por telefone, mas uma centelha de esperança acendeu no coração da moça. O mais que ela queria no mundo era ter de volta o seu smartphone já que não podia comprar um novo.

 Letícia se aprontou para ir à delegacia. Por precaução, pôs um vestido que tinha um decote capaz de lhe mostrar até o umbigo. Não que ela tivesse de intenções com o investigador, muito pelo contrário, ela detestava homens como ele que não abotoavam a camisa direito e deixavam o peito peludo à mostra, aquilo lhe parecia um sinal de desleixo e vulgaridade. Ela também não gostou dos olhares indiscretos do investigador e do seu sorriso sínico e maldoso. Mas se ela colocara um vestido tão chamativo, era porque ela estava fazendo um esforço para ser simpática com o homem que poderia trazer o seu smartphone de volta.

— O senhor queria falar comigo? – perguntou Letícia aproximando-se do balcão da delegacia.

— Venha aqui até à minha sala. – ele ordenou com um sorriso enigmático no canto da boca. Seus olhos colaram nos peitos fartos da moça que pareciam querer saltar fora do decote generoso.

— E porque não podemos conversar aqui mesmo no balcão? – ela perguntou desconfiada, percebendo que acertara na escolha do vestido.

— É uma conversa particular sobre o seu caso. Venha logo que estou muito ocupado.

Letícia o seguiu pelo estreito labirinto de corredores até ele abrir uma porta ao lado de um bebedouro. Ela sentiu vontade de beber água, mas preferiu matar a sua sede depois quando estivesse de posse de seu aparelho, talvez até comemorasse com uma cerveja. Era uma sala apertada e mal iluminada onde só cabia uma mesa com computador e duas cadeiras além daquela onde sentava o investigador. O homem se sentou e lhe indicou com a mão uma das cadeiras. Ele ficou em silêncio observando aquela mulher à sua frente que não era nem bonita e nem feia, mas que tinha uma atitude de confiança. Seu corpo era formoso e havia em seu olhar uma expressão desafiadora que o instigava. O jeito safado de ele a escrutinar a incomodava, apesar de ela já estar acostumada àqueles olhares maliciosos masculinos, não se importava desde que o homem lhe interessasse. No entanto, ela não nutria nenhuma simpatia por aquele ali, ele era um coroa com uma barba de uma semana por fazer.

— Não vai sentar? – ele indicou mais uma vez a cadeira com uma expressão séria.
Letícia não teve alternativa a não ser puxar a cadeira e sentar-se.

— E então? – ela provocou o policial que não dizia nada e só ficava olhando para ela daquele jeito de peixe morto.

— Não encontramos o seu celular, quem o roubou deve ter passado adiante no mesmo dia. – ele disse finalmente.

— E o senhor me chamou até aqui só pra me dizer isto? Para falar a verdade, eu não tinha nenhuma esperança que a policia se desse ao trabalho. Com tantos crimes horríveis acontecendo por aí, quem é que vai dar importância a um celular, não é mesmo?

— Mas nem tudo está perdido. – ele disse abrindo a gaveta de sua mesa. – Eu tenho este aqui que encontramos com um meliante e ninguém nunca prestou queixa.

Ele mostrou o aparelho novinho em folha. Era um desses que custavam os olhos da cara, coisa de grã-fino, mesmo. Os olhos de Letícia brilharam, mas logo ela caiu na real.

— Não tenho grana nenhuma. – ela avisou.

— E quem falou em dinheiro? – o inspetor pôs o aparelho sobre a mesa para que Letícia o cobiçasse.
Letícia olhou para o policial desconfiada. Ele esbouçara aquele sorriso maliciosos que já dizia tudo.

— Vai ser um presente. – o policial disse.

— É ruim, hein? Ninguém dá presente assim sem querer algo em troca, ainda mais que nem te conheço.

— A gente sai, mais tarde, tomamos umas cervejas...

— Viu você, tu tá mal intencionado. Tá enganado, não vou pra cama com estranhos em troca de um smartphone.

— Então, a gente toma essa cerveja pra se conhecer melhor, aí não vou ser mais um estranho. – ele deu uma piscadela para ela.

— Não vem com essa...

— Bora, só um pouquinho... Você vai gostar muito e ninguém vai ficar sabendo, vai ser segredo nosso. Faz, assim, vai pra casa e pensa no assunto. Às 19 horas eu te espero na Dinha, se você aparecer eu vou ficar muito feliz e você não se arrependerá.

Letícia voltou para casa indignada. Ficou o resto do dia pensando naquela oferta descarada do investigador. Quis contar para as amigas, passar um zap para o grupo. Mas não tinha como. Ficou inquieta e deprimida. Precisava conversar com alguém, tirar aquele peso do peito. Era uma crise de abstinência de smartphone que lhe deixava louca. E aquele aparelho parecia novo em folha... Só um pouquinho, o canalha disse. Bem, ela pensou sem tirar o aparelho da mente, um pouquinho não vai tirar o meu pedaço.

Rio Vermelho, 24 de maio de 2016.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Que Passem os Velhos

O sol ardia inclemente numa manhã qualquer da semana. Ao longo da avenida que margeia o litoral, os automóveis com seus possantes motores seguiam como em procissão, um após o outro em marcha lenta quase parando. Do lado de fora o calor era de tirar o folego, mas dentro dos carros era frio e acolhedor. Ouvia-se musica ali dentro ou se conversava ao celular, qualquer coisa valia para passar o tempo.

Fazendo o caminho oposto no passeio que serpenteava ao lado do asfalto, ninguém reparou na figura frágil do octogenário que caminhava se apoiando num andador tão tosco quanto ele próprio. Ele vinha a passos de tartaruga e parava de vez em quando para retomar o folego.  Ele estava tão absorto em sua jornada, talvez muito longa por causa de seus curtos e lentos passos, que mal tomou conhecimento do congestionamento de carros ao seu lado.

O velho seguia o seu caminho solitário enquanto de pé sobre as pedras na praia, pescadores da hora jogavam o anzol na maré agitada de abril na esperança de levar uma guaricema ou sardinhas para o almoço. Mais adiante no mesmo passeio por onde ia o velho, uma equipe de quatro operários vestidos de chamativos macacões laranjas lavavam o piso com água e esfregavam com escovões. Entre o velho e os homens de laranja ainda havia muitos metros a serem conquistados pelo ancião, fora estes personagens, o passeio era um deserto de pessoas.

Para onde ia o velho àquela hora, não se sabia. Apenas podia-se especular que ele ia ou voltava de algum lugar. Seja qual fosse o seu destino, ele parecia determinado a chegar lá debaixo daquele sol escaldante, talvez porque não houvesse escolha, ele tinha de ir andando com a ajuda de um velho andador.

Quando ele finalmente estava a poucos metros da turma de operários que fazia a limpeza do passeio, eles pareceram não tomar ciência de sua presença, era como se o velho fosse um ser invisível, e talvez ele fosse mesmo para algumas pessoas. No entanto, o ancião prosseguiu em sua tosca caminhada e quando os operários perceberam que ele já estava bem próximo, interromperam o serviço. Moveram para os lados o seu equipamento de trabalho para deixar o caminho livre para que o velho passasse e aguardaram de forma solene e com paciência aquele homem que já fora tão jovem e forte quanto eles passar com seus passos incertos e vagarosos que lhes pareceu uma eternidade. O velho lhes lançou um olhar de gratidão e depois de ter finalmente passado, os homens retornaram ao serviço do ponto onde havia terminado.

Rio Vermelho, 2 de maio de 2016.