terça-feira, 9 de maio de 2017

Ave de Rapina

Ontem eu vi um gavião. Ele não voava alto no céu azul, vergando as suas longas e poderosas asas, como o fazem as aves de rapina. Sempre associo estas aves ao domínio de florestas e vastas planícies onde, de uma altura espetacularmente alta, ela é capaz de ver até um pequeno e incauto roedor, e lançar-se feito um dardo mortal em sua captura. No entanto, aquela ave de rapina plainava sobre a estreita extensão de areia que hoje leva o inusitado nome de Praia dos Complexados, aqui no Rio Vermelho.

Aquela visão me surpreendeu. Jamais vi uma ave daquela magnitude no domínio que são próprios das gaivotas e outras aves praianas, e que se alimentam de pequenos peixes e criaturas da areia. Aquele gavião era majestoso. As suas asas longas eram negras e uma plumagem branca com esparsas penas pretas cobria-lhe do peito ao pescoço como sinais. O bico afiado era amarelo igual à gema do ovo e toda a sua cabeça era preta como o capuz de um carrasco.

Mas o que mais me intrigava, era o que uma ave como aquela fazia numa praia. Eu nunca tinha visto um gavião na praia antes, pois sempre os associei às matas e aos campos. O gavião deu meia volta plainando até pousar sobre a areia. E ainda com as asas abertas, numa posição ameaçadora, soltou um agudo e alto pio. Algo lhe chamava a atenção ali próximo. Seu olhar arguto deixava os seus nervos em alerta. A cabeça mal se movia, focada no objeto de sua atenção. Em seguida, deu dois passos para frente, ergueu as asas novamente e lançou-se para um pouco mais adiante. E eu estava lá em cima da balaustrada observando curioso aquela sucessão de acontecimentos e ao mesmo tempo maravilhado com a presença do gavião solitário na praia.

A poucos quilômetros do mar, havia até a bem poucos anos uma região, que embora fosse povoada com casas, era em sua maioria tomada por frondosas árvores. Hoje é uma selva de altos prédios de apartamentos de alto luxo e o único verde que se vê são os dos carpetes no hall de entrada ou dos vidros das janelas. A floresta que era habitada por sabiás, curiós, cardeais, pintassilgos, pica-paus, corujas, gaviões, coelhos, lagartos, macacos, saguis, sariguês, jiboias, sucuris, só existe na memória de criança que eu fui, criada na liberdade das ruas do bairro, quando ia se aventurar com a turma de amigos naquele lugar fascinante por causa de seu verde no coração da cidade. O gavião trocou a floresta pela praia, e ao invés de morar no galho mais alto da árvore mais alta, foi refugiar-se na cumeeira de algum velho prédio nas redondezas. Triste sina.

Novamente o gavião abriu as asas e lançou-se sobre a presa que estava na areia à sua frente. Não pude perceber que bicho se tratava, pois, ao contrário da ave de rapina, a minha visão não é assim tão perfeita. Ele atacou-a com bicadas mortais antes de agarra-la com uma de suas presas e levantar voo. Voou baixo sobre o espelho da água do mar, margeando sempre a praia, ganhando altura, batendo suas asas lentamente como se fosse o senhor do tempo e do espaço. Por um breve instante, a minha visão se confundiu entre a ave e a superfície da água e eu o perdi de vista. Mas depois ele reapareceu num ponto mais alto e quando chegou próximo à igrejinha de Santana, ele fez uma curva em direção à terra e sumiu entre os casarões velhos e prédios do largo de Santana. Nunca mais o vi.


Rio Vermelho, 2 de maio de 2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ar Puro!

O rapaz humilde subiu para o ônibus pela porta dianteira para não ter que pagar a passagem, numa ensolarada manhã. O dia estava quente, e não havia mais vestígios da tremenda chuva que aterrorizara a cidade dois dias antes. Pelo contrário, o dia começara com um mormaço mal humorado que se infiltrava entre as pessoas, principalmente daquelas que usavam o transporte público, era como viajar dentro de uma quentinha para cá e para lá. Para a satisfação dos passageiros, entretanto, aquele ônibus não estava cheio, havia cadeiras vazias.

Mas voltando ao rapaz. Ele chamou a atenção dos passageiros, cumprimentando a todos com a voz quase sumida de vergonha. Em seguida, ele disse o nome, chamava-se Gabriel, como o anjo, e que vinha do interior. Pedia uma ajuda financeira para comprar uma passagem de volta para o seu interior. Até ai, nenhuma novidade. Uma típica viagem de ônibus metropolitano, inclui a entrada, ao longo do trajeto, de um vendedor de água gelada, outro de canetas baratinhas, alguém pedindo doação para um centro de reabilitação de drogados, um cego, um poeta, um cantor, um baleiro oferecendo doces e salgadinhos, como o passatempo da viagem. Podem ter certeza, todos estes entrarão no ônibus em algum momento do dia. Mas o nosso Gabriel não tinha nada para oferecer além de ar puro!

Aliando-se aos maus-tratos do calor, um mau-cheiro inundou aquele ônibus. Um odor nauseabundo e intolerável. A inconfundível catinga de alguém que não tomava um bom banho há dias. A brisa que entrava pelas janelas abertas do transporte não refrescava o veículo, ao contrário, servia para disseminar aquele fedor democraticamente entre os desafortunados passageiros. E cada um se defendia como podia, faziam caretas de nojo e reprovação, uns cobriam o nariz e a boca com a mão, outros puxavam para cima a gola da camisa para usar como máscara, outros se abanavam. A origem daquele tormento estava no jovem Gabriel, o rapaz que pedia uma grana para voltar para a sua cidade, cheirava como um gambá. Talvez a sua incursão pela capital, em busca de uma oportunidade, tivesse sido um desastre, e o pobre rapaz nem teve sequer a chance de tomar um banho. Vindo de uma pequena comunidade onde talvez fosse alguém, ele só não passou invisível por causa de seu mau-odor. Qualquer um que chegasse à sua pequena cidade natal, seria acolhido com hospitalidade. E se por uma desventura, o visitante precisasse de um banho, não lhe faltaria um chuveiro com sabão e toalha limpa. Mas tudo é diferente num grande centro urbano, falta o olhar para o outro com solidariedade, é cada um por si.

Gabriel era um rapaz asseado, nunca deixava de tomar banho e vestir roupa limpa. Aquele seu estado momentâneo tirou-lhe o brilho, roubou-lhe a autoconfiança e a dignidade, fez sentir-se menor de tamanho. Talvez estivesse morando nas ruas desde então. Na Salvador, a capital da alegria. Mas ele estava triste, só queria voltar para a sua cidade.

Um cidadão sentado num banco do ônibus também se sentia incomodado. Não pelo terrível cheiro do Gabriel, mas por sua humilhação. Também viera do interior e recordou no rapaz as dificuldades que também vivenciara ao chegar na capital para tentar uma vida nova. Seus olhares se encontraram e foi como um chamado. Gabriel se aproximou até onde o outro estava sentado. Em sua trajetória, provocou caretas por causa de seu cheiro peculiar.

— Tome aqui esse dinheiro para sua passagem. – disse-lhe o homem. – E mais este outro para você tomar um banho na Rodoviária, para deixarem você embarcar. Boa sorte.

O rapaz agradeceu com os olhos marejados de gratidão. Uma senhora deu-lhe mais algum dinheiro para uma merenda. No ponto seguinte ele desceu, e todos respiraram aliviados.


Rio Vermelho, 13 de abril de 2017




sexta-feira, 24 de março de 2017

Lágrimas e Maresia

Sob os resquícios da desbotada luz alaranjada que banhava o mirante da Paciência, a moça, solitária, sentada encolhida num banco de madeira em frente à imensidão de mar, olhava indiferente para a magnífica paisagem no horizonte, no entanto, sem conter a profusão de lágrimas que escorriam borrando a sua maquiagem. Numa mão, ela segurava um smartphone com o qual trocava mensagens de uma longa e dolorosa conversa. A cada nova mensagem recebida, ela se desfazia em mais choro e soluços. Seus polegares trabalhavam ágeis e rápidos, e suas mensagens eram respondidas na mesma prontidão, como se ela e o seu interlocutor estivessem envolvidos num frenético videogame.

Ela lia as mensagens movendo os lábios, sussurrando cada palavra para melhor assimila-las. Em seguida, soltava um gemido e levava a mão até a boca, que se retorcia e ficava feia como a de uma velha, para sufocar o choro. A sua expressão de sofrimento contrastava com aquela magnífica tarde de final de verão. Em sinal de respeito, ou talvez por pura indiferença, as poucas pessoas que desfrutavam da tranquilidade daquele local e de sua vista panorâmica, fingiam que não percebiam nada.

Depois de quase uma hora naquele suplicio, por fim, as limitações da própria tecnologia deram um basta àquela discussão, quando o aparelho da moça ficou mudo, graças ao esgotamento de sua bateria. Ela ainda teve o ímpeto de agitá-lo, assim como fazem as pessoas  com um frasco de ketchup, na vã tentativa de aproveitarem até a sua última gota.

Ela resignou-se com a interrupção e olhou desesperançada para o oceano à sua frente, já indefinido pelo começo de escuridão. Naquele momento, um imenso transatlântico cruzava solitário a linha do horizonte, pontilhado de luzes cintilantes. Ela o observou com uma expressão triste e desejou estar a bordo, fugindo daquela angústia em seu coração. Faria qualquer coisa para voltar no tempo, para jamais ter se envolvido com aquele a quem amava e a fazia sofrer. Palavras duras foram ditas, verdades expostas, acusações foram trocadas numa onda sem fim de ressentimento. O relacionamento, em fim, tinha se acabado. Ela parecia ter envelhecido.

Dois dias depois, a mesma jovem reapareceu no mirante. Parecia que tinha mudado, apagado de suas lembranças aquele triste final de tarde. Havia um brilho em seus olhos e sua expressão era serena, parecia mais jovem. A maquiagem no rosto estava impecável. Desta vez, até contemplou o pôr do sol com uma expressão de admiração e contentamento, sentiu prazer em respirar aquele ar impregnado pelo cheiro de maresia e algas marinhas. Minutos depois, ela percebeu a aproximação de um vulto pelo canto do olho. E ao olhar para o lado, deu um sorriso aberto e levantou-se do banco para ir se aninhar nos braços estendidos do homem alto e forte que se aproximava. Se houve lágrimas, desta vez foram de felicidade.

Rio Vermelho, 23 de março de 2017.

sexta-feira, 17 de março de 2017

O Vencedor

À entrada da estação da Lapa, o vendedor segurava com firmeza num dos braços uma caixa de papelão aberta, onde podia se ver pequenos cilindros que chamavam a atenção pelo seu multicolorido alegre e chamativo. Com o outro, ele acenava com insistência aos passantes para se aproximarem. O homem era um tipo parrudo e acima do peso, que se esforçava para transmitir confiabilidade ao seu anuncio, ao contrário de sua aparência, que não inspirava tanta confiança. Vestia uma bermuda listrada por baixo da barriga proeminente e mal cabia na camisa de malha branca estilo machão. Nos pés, sandálias havaianas desgastadas. “Batons! Batons! De todas as cores e excelente qualidade!”, ele apregoava. Sua voz era vigorosa como a de um barítono e não podia deixar de ser percebida. Alguns passantes olhavam-no com indiferença, outros seguiam adiante como se ele fosse um ser invisível.

Não muito distante, outro vendedor se esforçava para dar saída aos chips de celular comprados pela metade do preço na operadora. Este também falava alto e parecia igualmente mal sucedido. Mas as minguadas vendas não esmoreciam aquela parelha de intrépidos homens do comércio ambulante, ao contrário, uma poderosa energia interior movia-os em sua luta pela sobrevivência mantendo-os motivados.

— “Qui cô qué”? – o vendedor de batons perguntou à moça que demonstrou interesse, com uma expressão de insólita dúvida.

— “Caqué cô”. – ela respondeu olhando perdida para a grande variedade de escolhas à sua frente.
A moça tirou da caixa aleatoriamente um batom rosa.

— Ah! Você vai ficar linda com essa cô! – exclamou o vendedor muito convincente. Ele não era nenhum galã, mas sabia adoçar as palavras ao paladar feminino. – Essa é a cô a que eu vendo mais, e é a ultima unidade que eu tenho. Pode levar que você vai gostar e vai fazer sucesso!

Concluída a pequena transação comercial, o vendedor respirou mais confiante. Deu pela primeira vez um sorriso verdadeiro. Fazia horas que estava de pé ali naquele ponto, castigado pelo calor que não lhe dava uma folga. Naquela manhã, ninguém queria saber de comprar batons. O seu olhar cansado só se iluminava quando fazia uma venda aqui e outra ali. Mas ele nunca pensava em desistir, vender era difícil mesmo, qualquer coisa é difícil nessa vida, ele repetia para si mesmo, como para se lembrar de que a dificuldade estava na própria natureza da existência. Ele contabilizava mentalmente quanto ainda precisava ganhar, para passar na mercearia. Faltava ainda muito, mas o dia ainda não tinha acabado.

— Tem lilás? – perguntou a jovem vestida com o uniforme escolar.

— Olha ele aqui, ó! – respondeu o vendedor na sequência, entregando-lhe o batom. – Você vai ficar linda com essa cô! Essa é a cô que eu vendo mais, e é a ultima unidade que eu tenho. Pode levar que você vai gostar e vai fazer sucesso!

A estudante pechinchou, levou um pequeno desconto, com um sorriso de satisfação. O vendedor também sentia que também tinha ganhado, ao proporcionar à sua freguesia aquela pequena sensação de vitória.

“Vamos, vamos, minha agente! Já está quase acabando!”, gritou ele com a caixa ainda pela metade, já no meio da tarde.

— Eu quero um preto. – disse a moça com uma criança no colo e outra visivelmente já a caminho na barriga pontuda.

— Olha ele aqui, ó. – respondeu o vendedor entregando-lhe o batom com um sorriso. – Você vai ficar linda com essa cô! Essa é a cô que eu vendo mais, e é a ultima unidade que eu tenho. Pode levar que você vai gostar e vai fazer sucesso!


Rio Vermelho, 16 de março de 2017.





segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Besta

Depois que os três bancos de madeira foram instalados no mirante em frente ao mar, num passado muito remoto, estes já acolheram uma infinidade de episódios relevantes e que, sem dúvida, ficaram registrados nas recordações dos que ali se sentaram: casais apaixonados admirando o pôr do sol, início de namoro, amantes fazendo amor discretamente, papos sérios e intermináveis, fim de namoro, lágrimas. Pessoas de fé escolheram orar sentadas naqueles bancos, como se fosse o lugar um templo ao ar livre, banhado pela maresia. Outras sentam-se apenas para espairecer ao som relaxante das ondas quebrando sobre as pedras, depois de um dia extenuante. Há, também, quem sente ali apenas para fumar um baseado enquanto admira a paisagem. Um leitor faz dali o seu cantinho de leitura todas as tardes. O mobiliário urbano que tantos serviços tem prestado aos visitantes do mirante da Praia da Paciência, serve, também, para que pichadores registrem sobre eles os seus protestos, numa linguagem estranha, cujo alfabeto só eles são capazes de decifrar.

Naquele fim de tarde, depois que o sol sumiu no horizonte, dois improváveis funcionários da prefeitura vieram ao mirante dispostos, e com energia, para apagar as pichações. Os dois homens pareciam ser muito simplórios e acreditavam estar fazendo um bem. Munidos de luvas de borracha, solvente, estopa, lixa e escova de aço, tinham a intenção de devolver aos bancos o seu estado original, sob os olhares indiferentes de skatistas que praticavam, próximo dali, manobras acrobáticas em seus skates.

Limpar os bancos não foi tarefa fácil, mas a dupla obstinada não desistiu enquanto estes não ficaram novinhos em folha. Os dois homens se revezaram naquela luta, pois a tinta era teimosa. Um esfregava com a estopa embebida em solvente e o segundo, em seguida, com a escova de aço. Depois o primeiro completava o serviço com a lixa; tudo era uma questão de fôlego e braços fortes. Por fim, a tinta desvaneceu-se e um sorriso de satisfação desenhou-se na face dos dois batalhadores. Aquela maçante tarefa repediu-se em cada banco.

Quando os dois homens da prefeitura recolheram os seus apetrechos e foram embora, com um sentimento de dever cumprido, não imaginavam que tinha atiçado a ira dos que ficaram. Um skatista resolveu agir, moveu-se para longe dos bancos, montado em seu skate, e num gesto rápido e hábil, mudou a direção de sua trajetória, agora em direção aos bancos. Partiu para cima destes feito uma bala humana e quando estava chegando muito próximo, fez o skate saltar para cima de um dos bancos onde estacionou. Da mochila que carregava nas costas, sacou de dentro um cilindro de metal, que depois de sacudi-lo vigorosamente, aproximou-o do assento do banco, fazendo sair de dentro um jato de tinta vermelho, com o qual desenhou a figura de uma besta assustadora com ameaçadoras mandíbulas a desafiar com seus dentes afiados, provavelmente o seu autorretrato. Dando-se por satisfeito com a proeza, ao desfazer em questão de segundos o trabalho que os dois homens demoraram horas dedicados, o skatista socou com o punho cerrado o vazio em sinal de vitória. O espetáculo repetiu-se nos dois bancos seguintes, sob as manifestações de júbilo dos outros companheiros. Não se sabe ao certo que vitória comemoravam.

Rio Vermelho, 22 de janeiro de 2017.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Vendedor de Peões

No fim da tarde do primeiro dia do ano, quando o sol excruciante do verão começa a abrandar à medida que desliza-se suavemente para ir sumir no horizonte, um senhor circulava entre os turistas e frequentadores do Largo de Santana, tentava vender peões. Carregava a sua mercadoria presa a um bonito mostruário de tábua cortado no formato de um grande peão, oferecendo-o sem fazer alarde a um e a outro. Quem jurasse que os peões tinham desaparecido da face da terra juntamente com os dinossauros, brinquedo de criança de priscas eras, que só existissem agora como curiosidade em museus de arte popular, iria se surpreender com aquele vendedor improvável. Mas ali estava o cidadão obstinado que acreditava que, a pesar da popularização dos brinquedos que não se pode tocar e nem pegar, da era digital, ainda houvesse esperança de alguém se interessar por algo tão lúdico e antigo como brincar com o peão.

Seus peões eram confeccionados por ele próprio; de madeira, pau d’arco, massaranduba, jaguaratiba, frejó, quanto mais dura, mais pesada ela é, excelente para a confecção do brinquedo. Eram entalhados um a um, com formões, macetes e goivas, e depois lixados para dar o acabamento, eram perfeitos como se tivessem sido moldados no torno elétrico. E para quem duvidasse de sua destreza, o velho sacava do bolso o smartphone e rodava o pequeno documentário no qual ele estrelava como o fazedor de peões artesanais que era. Ele sentia orgulho de sua habilidade e maestria, porque “fazer peão na “unha”, não é pra qualquer um, não”. Seus peões eram coloridos com as cores de times de futebol, mas também tinham aqueles que não seguiam religião alguma, pintados do jeito que lhe viesse à imaginação, ou apenas ao natural, mostrando a beleza da madeira em que fora entalhado.

Ele oferecia os seus peões, mas ninguém lhe dava trela. As atenções estavam voltadas para a longa fila do acarajé, o primeiro acarajé do ano, ou por fotografar o eminente pôr do sol, o primeiro pôr do sol do ano. Um gringo, não obstante, lhe deu atenção, nunca tinha visto aquele objeto curioso de formato aeroespacial. Um só sabia agradecer em nosso idioma e o outro falava como tinha aprendido na rua e em casa, mas a mágica da linguística resolveu aquele momentâneo entrave. O vendedor falava pausadamente e alto, como se gritar ajudasse à compreensão. Mas, percebendo o vendedor que a estratégia não estava funcionando, ele resolveu fazer uma demonstração.

— Olhe, preste a atenção, você pega o fio e amarra na cabeça do peão assim, e estica ele com firmeza até o bico, dando três voltas assim, entendeu? Depois vai enrolando o fio em volta do peão, subindo pelo corpo do peão até chegar no ombro, está entendendo? – gritou.

O gringo observava perdido as instruções do mestre do peão e esbouçava aquele sorriso abestado típico dos gringos. Um falava alto para se fazer entender, e o outro sorria para dizer que não entendia coisa alguma, e, no final, os dois se entenderam na hora de fechar o negócio, que as cifras são uma linguagem universal.

Ao final das instruções, o vendedor preparou-se para mostrar como um peão realmente funciona. E com um gesto exibicionista e dramático, dobrou uma perna e esticou a outra como fazem habilmente os skatista sobre a prancha, o braço livre foi jogado para frente para dar equilíbrio ao corpo, enquanto o que segurava o peão, passava pela costa num gesto elegante e com técnica, a mão treinada soltou o peão ao mesmo tempo que segurava firme a ponta do fio, projetando o brinquedo sobre o chão, onde pousou rodopiando com formosura, desenhando um círculo completo. Admirando o seu feito mais uma vez, o vendedor sorria como a criança encantada com o brinquedo que via funcionando pela primeira vez, e os olhos brilhavam de admiração e felicidade.

Rio Vermelho, 1º. de janeiro de 2017.




domingo, 25 de dezembro de 2016

O Peru de Natal

Mia foi passar o Natal no belo sítio dos avós, acompanhada da mãe. Mas ela não estava tão contente com a novidade, apesar de que ela adorava os avós e o sítio era muito divertido. É que o pai era aviador, e na noite de Natal, ia atravessar o Atlântico num longo voo levando passageiros. Mas que graça tem em se passar a noite mais linda do ano dentro de um avião, ela se perguntava, inconformada por não estar perto do pai. Como toda criança, ela via magia na noite de Natal, sempre torcia para ganhar muitos presentes e por comer muitas delicias na ceia natalina.

Os avós ficaram radiantes com a ideia de ter pela primeira vez a neta na comemoração. E sabe como são os avós, não queriam perder a oportunidade de mimá-la de todas as formas. Sendo Mia a sua única neta, tinham poucas oportunidades de estarem juntos, separados que estavam pela longa distância.

Quando Mia chegou ao sítio, foi uma alegria para todos aquele reencontro, comemorado com um belo almoço com o prato preferido da filha, frango ao molho pardo, e a sobremesa que a menina mais gostava, o famoso creme de quatro camadas, receita da avó. Depois da confraternização, o avô foi com Mia selar dois cavalos para fazerem juntos um passeio, e na estrabaria uma surpresa a aguardava: um belo potro branco, presente do avô. Mia pulou de alegria ao ser apresentada ao animal, e ela adocicou o coração do velho com beijos e muitos obrigados.

— Ele já tem um nome, vovô?

— Não, querida. Está aguardando para que você lhe dê um.

— Pronto, vai se chamar Branca de Neve! ­ – proclamou orgulhosa da escolha.

O doce avô torceu o nariz para aquele incomum nome para um cavalo, e ainda mais sendo ele um macho, mas lançou à menina um sorriso de aprovação, para não desapontá-la.

No sítio, Mia sentia o que era a liberdade, podia andar para lá e para cá, sem os excessos de proteção dos pais, o campo não era um lugar cheio de medos como a cidade grande. E num de seus passeios investigativos pelo quintal da casa, ela deu de cara com um animal que nunca tinha visto.

— Que pássaro é este, seu Saturnino? – perguntou ao faz-tudo do sítio que alimentava o animal.

— Oxi, nunca viu? Este é um peru! – respondeu o rapaz surpreso.

Até então, Mia só conhecia aquela versão encontrada no freezer do supermercado, já pronta para ir ao forno. A visão da ave viva com a sua exótica cabeça e plumagem a encantou.

— Nossa, é assim que é um peru? – bateu palminhas de felicidade.

— E este é um dos grandes! – acrescentou Saturnino, orgulhoso de o ter alimentado ao longo do ano, para aquela celebração.

— É grande mesmo! – disse a menina impressionada. – Vou tirar uma foto agora mesmo.

Dito isto, foi correndo dentro de casa e voltou com a câmera. Fotografou o bicho de todos os ângulos, para mostrar aos amigos a sua grande aventura. Saturnino até registrou o momento em que ela ficou ao lado do animal, numa demonstração de bravura. E como não podia deixar de ser, batizou de Leopoldo a nobre ave.

Na manhã seguinte, o sol brilhava alegre anunciando uma bela véspera de Natal. Mia acordou feliz e saltitante, ansiosa para que não demorasse muito para a noite chegar para ela abrir seus presentes. Correu até a árvore de Natal para contar os seus presentes, que eram muitos. Da mãe, do pai, da avó, do avó, da madrinha, embrulhados em lindos papéis de presentes com fitas coloridas. Ela aproximou cada caixa do ouvido e a balançou para tentar adivinhar o que havia dentro. A que mais lhe despertou curiosidade foi uma grande em formato de cilindro, embrulhada em papel vermelho brilhante e com um grande laço de fita verde.

Depois do café, Mia foi procurar Leopoldo, o peru, para lhe desejar bom dia.

— Hoje ele vai cumprir a missão dele. – disse Saturnino com um sorriso enigmático ao ver a menina aproximar-se do peru. – Você quer ver como se mata um peru para a ceia de Natal?

O convite chocou Mia. Como se podia matar um animal tão belo? Mas depois ela pensou melhor, afinal, os perus congelados de supermercado já tinham sido iguais ao Leopoldo quando estavam vivos, e se ele não fizesse a parte dele, não haveria ceia de Natal à noite.

— Quero sim! – respondeu com inocente entusiasmo, a imagem de um belo peru assado na travessa lhe veio à mente.

— Venha ver. – disse Saturnino.

O animal, em sua inocência, deixou-se pegar por aquele que o tinha alimentado e cuidado desde então, ele não lhe faria nenhum mal. Saturnino, em seguida, encheu um copo de cachaça que foi fazendo o animal beber às colheradas.

— Para que isso, Saturnino?

— Isso é cachaça, minha querida. Ele não vai sentir dor e a carne vai ficar uma macia, você vai ver!

— Nossa, eu não sabia disso. – disse Mia atenta a cada gesto de Saturnino.

— Veja como ele está bebum! – ele disse soltando o animal que ao sentir-se livre das mãos de Saturnino andou cambaleando feito um bêbado.

— Nossa, ele está bêbado mesmo! – disse Mia dando palminhas de satisfação.

— Agora, é a parte que eu mais gosto! He, he, he – disse Saturnino capturando o animal novamente e levando-o em seus braços enquanto afagava a sua macia plumagem.

Ele carregou a ave até um tronco de árvore serrado e posto na posição vertical como um altar, preparado para aquele sacrifício natalino. E com uma mão, num gesto rápido, deitou-a sobre a parte plana, mantendo-a quieta segurando-a pela cabeça, enquanto com a outra mão desferia um golpe certeiro no pescoço com uma afiada machadinha que faiscava ao sol, surgida não se sabe de onde. A cabeça rolou para o chão sem que o peru tivesse tempo de gritar um “ai!”.  Mia, assustada, soltou um gritinho surpresa e levou as mãos até a boca ao ver o sangue do animal esguichar pelo pescoço feito uma mangueira de jardim. Depois, Saturnino soltou a ave no chão que andou para lá e para cá deixando um rastro de sangue até entregar-se aos fatos, deitando inerte sobre a grama.

— Sangue! Sangue! – gritou Mia correndo até onde estava o peru. – Ele não está se movendo, Saturnino.

— Ele morreu, minha filha. – disse Saturnino. – Agora vá para casa e deixe eu fazer o resto para entregá-lo para dona Ana assá-lo para a ceia de Natal.

Naquela noite, quando a avó pôs o peru diante do avô à mesa, não parecia que algum dia ele tivesse tido uma cabeça. Jazia numa travessa de porcelana branca numa resignação belamente corada, enfeitado com frutas de compota ao redor.

Era difícil dizer qual dos dois estava mais corado, Mia ou o peru, ambos tinham uma bela cor, ambos tinham a mesma aparência brilhante e o mesmo ar esforçado. Mas o corado de Mia puxava para o vermelho e o do peru para o tostado.

O avô pegou a faca e o garfo com um sorriso largo de satisfação e começou a destrinchar o peru.

— Quem vai querer o primeiro pedaço? – perguntou olhando solicito em volta da mesa?
Mia balançou a cabeça em sinal de negação, ficando ainda mais corada.

Rio Vermelho, 25 de dezembro de 2016.






sábado, 17 de dezembro de 2016

A Menina de Patins

Todos os dias de verão, um pouco antes do pôr do sol, como se aquilo já fosse um compromisso combinado, ela surgia na orla do Rio Vermelho, não se sabe vinda de onde. De patins, deslizava graciosamente pela via onde também passavam ciclistas, pedestres com cãezinhos e skatistas apressados. A sua aparência era sempre fresca como de quem houvesse recém saído do banho e posto a roupa de passeio, para aproveitar a última luz do dia. Nos ouvidos, um par de headphones a isolava do resto do mundo com algum tipo de música que a fazia balançar a cabeça e mover os quadris ritmicamente, tornando a cena de sua passagem num espetáculo encantador. Como ela era bela no frescor de sua jovem idade e o seu jeito inocente parecia ignorar aquele fato. O pequeno grupo de senhores que jogava conversa fora, sentados à balaustrada da praia, também naquele mesmo horário, interrompia a conversa para reverenciar a sua passagem. Era o único momento que eles deixavam de discutir receitas para curar as mazelas do país, para admirar poesia.

Naquela tarde, ela usava um vestidinho florido bem curto que esvoaçava a cada sopro salgado do mar, mas ela parecia não se incomodar. Ela estava alegre como de costume, e ouvia a sua música e dançava sobre as rodas sem se deixar perturbar. Como era bom ser jovem e andar de patins para lá e para cá sem se importar com nada mais além do caminho à sua frente.

No mirante da Paciência, ela fez uma pausa para admirar um espetáculo majestoso, o sol dissolver-se no horizonte manchando o céu de tons alaranjados. Como era bonito aquele momento que ela não se cansava de admirar e que enchia o seu peito de uma felicidade infantil, como se ela se comunicasse tão bem com a natureza como com os seu par de patins.

Ela não prestou atenção quando um rapaz jovem e forte se aproximou, e disse-lhe alguma coisa quase sussurrando. Só depois de sua insistência foi que ela tirou o fone do ouvido para escutá-lo. Ato seguido da entrega do aparelho de celular por onde ela ouvia a música e, em seguida, do par de patins. Suas pernas começaram a tremer logo em seguida e se formou uma poça de urina ao seu redor, enquanto o malfeitor corria atravessando o asfalto e sumindo pelo mundo afora. Ela teve impulso de gritar por socorro mas a emoção lhe roubou a voz, e quando finalmente ela conseguiu fazê-lo, foi socorrida por outros admiradores do crepúsculo, mas aí já era tarde demais.

Nunca mais se viu ela passeando ao pôr do sol. Entretanto, espalhou-se a notícia de que um rapaz de patins corria como o vento pela ciclovia, e pelo caminho tomava sorrateiramente da mão de passantes aparelhos de celular e bolsas, deixando um rastro de desespero ao sumir feito um raio entre os transeuntes.


Rio Vermelho, 16 de dezembro de 2016.