sexta-feira, 24 de março de 2017

Lágrimas e Maresia

Sob os resquícios da desbotada luz alaranjada que banhava o mirante da Paciência, a moça, solitária, sentada encolhida num banco de madeira em frente à imensidão de mar, olhava indiferente para a magnífica paisagem no horizonte, no entanto, sem conter a profusão de lágrimas que escorriam borrando a sua maquiagem. Numa mão, ela segurava um smartphone com o qual trocava mensagens de uma longa e dolorosa conversa. A cada nova mensagem recebida, ela se desfazia em mais choro e soluços. Seus polegares trabalhavam ágeis e rápidos, e suas mensagens eram respondidas na mesma prontidão, como se ela e o seu interlocutor estivessem envolvidos num frenético videogame.

Ela lia as mensagens movendo os lábios, sussurrando cada palavra para melhor assimila-las. Em seguida, soltava um gemido e levava a mão até a boca, que se retorcia e ficava feia como a de uma velha, para sufocar o choro. A sua expressão de sofrimento contrastava com aquela magnífica tarde de final de verão. Em sinal de respeito, ou talvez por pura indiferença, as poucas pessoas que desfrutavam da tranquilidade daquele local e de sua vista panorâmica, fingiam que não percebiam nada.

Depois de quase uma hora naquele suplicio, por fim, as limitações da própria tecnologia deram um basta àquela discussão, quando o aparelho da moça ficou mudo, graças ao esgotamento de sua bateria. Ela ainda teve o ímpeto de agitá-lo, assim como fazem as pessoas  com um frasco de ketchup, na vã tentativa de aproveitarem até a sua última gota.

Ela resignou-se com a interrupção e olhou desesperançada para o oceano à sua frente, já indefinido pelo começo de escuridão. Naquele momento, um imenso transatlântico cruzava solitário a linha do horizonte, pontilhado de luzes cintilantes. Ela o observou com uma expressão triste e desejou estar a bordo, fugindo daquela angústia em seu coração. Faria qualquer coisa para voltar no tempo, para jamais ter se envolvido com aquele a quem amava e a fazia sofrer. Palavras duras foram ditas, verdades expostas, acusações foram trocadas numa onda sem fim de ressentimento. O relacionamento, em fim, tinha se acabado. Ela parecia ter envelhecido.

Dois dias depois, a mesma jovem reapareceu no mirante. Parecia que tinha mudado, apagado de suas lembranças aquele triste final de tarde. Havia um brilho em seus olhos e sua expressão era serena, parecia mais jovem. A maquiagem no rosto estava impecável. Desta vez, até contemplou o pôr do sol com uma expressão de admiração e contentamento, sentiu prazer em respirar aquele ar impregnado pelo cheiro de maresia e algas marinhas. Minutos depois, ela percebeu a aproximação de um vulto pelo canto do olho. E ao olhar para o lado, deu um sorriso aberto e levantou-se do banco para ir se aninhar nos braços estendidos do homem alto e forte que se aproximava. Se houve lágrimas, desta vez foram de felicidade.

Rio Vermelho, 23 de março de 2017.

sexta-feira, 17 de março de 2017

O Vencedor

À entrada da estação da Lapa, o vendedor segurava com firmeza num dos braços uma caixa de papelão aberta, onde podia se ver pequenos cilindros que chamavam a atenção pelo seu multicolorido alegre e chamativo. Com o outro, ele acenava com insistência aos passantes para se aproximarem. O homem era um tipo parrudo e acima do peso, que se esforçava para transmitir confiabilidade ao seu anuncio, ao contrário de sua aparência, que não inspirava tanta confiança. Vestia uma bermuda listrada por baixo da barriga proeminente e mal cabia na camisa de malha branca estilo machão. Nos pés, sandálias havaianas desgastadas. “Batons! Batons! De todas as cores e excelente qualidade!”, ele apregoava. Sua voz era vigorosa como a de um barítono e não podia deixar de ser percebida. Alguns passantes olhavam-no com indiferença, outros seguiam adiante como se ele fosse um ser invisível.

Não muito distante, outro vendedor se esforçava para dar saída aos chips de celular comprados pela metade do preço na operadora. Este também falava alto e parecia igualmente mal sucedido. Mas as minguadas vendas não esmoreciam aquela parelha de intrépidos homens do comércio ambulante, ao contrário, uma poderosa energia interior movia-os em sua luta pela sobrevivência mantendo-os motivados.

— “Qui cô qué”? – o vendedor de batons perguntou à moça que demonstrou interesse, com uma expressão de insólita dúvida.

— “Caqué cô”. – ela respondeu olhando perdida para a grande variedade de escolhas à sua frente.
A moça tirou da caixa aleatoriamente um batom rosa.

— Ah! Você vai ficar linda com essa cô! – exclamou o vendedor muito convincente. Ele não era nenhum galã, mas sabia adoçar as palavras ao paladar feminino. – Essa é a cô a que eu vendo mais, e é a ultima unidade que eu tenho. Pode levar que você vai gostar e vai fazer sucesso!

Concluída a pequena transação comercial, o vendedor respirou mais confiante. Deu pela primeira vez um sorriso verdadeiro. Fazia horas que estava de pé ali naquele ponto, castigado pelo calor que não lhe dava uma folga. Naquela manhã, ninguém queria saber de comprar batons. O seu olhar cansado só se iluminava quando fazia uma venda aqui e outra ali. Mas ele nunca pensava em desistir, vender era difícil mesmo, qualquer coisa é difícil nessa vida, ele repetia para si mesmo, como para se lembrar de que a dificuldade estava na própria natureza da existência. Ele contabilizava mentalmente quanto ainda precisava ganhar, para passar na mercearia. Faltava ainda muito, mas o dia ainda não tinha acabado.

— Tem lilás? – perguntou a jovem vestida com o uniforme escolar.

— Olha ele aqui, ó! – respondeu o vendedor na sequência, entregando-lhe o batom. – Você vai ficar linda com essa cô! Essa é a cô que eu vendo mais, e é a ultima unidade que eu tenho. Pode levar que você vai gostar e vai fazer sucesso!

A estudante pechinchou, levou um pequeno desconto, com um sorriso de satisfação. O vendedor também sentia que também tinha ganhado, ao proporcionar à sua freguesia aquela pequena sensação de vitória.

“Vamos, vamos, minha agente! Já está quase acabando!”, gritou ele com a caixa ainda pela metade, já no meio da tarde.

— Eu quero um preto. – disse a moça com uma criança no colo e outra visivelmente já a caminho na barriga pontuda.

— Olha ele aqui, ó. – respondeu o vendedor entregando-lhe o batom com um sorriso. – Você vai ficar linda com essa cô! Essa é a cô que eu vendo mais, e é a ultima unidade que eu tenho. Pode levar que você vai gostar e vai fazer sucesso!


Rio Vermelho, 16 de março de 2017.





segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Besta

Depois que os três bancos de madeira foram instalados no mirante em frente ao mar, num passado muito remoto, estes já acolheram uma infinidade de episódios relevantes e que, sem dúvida, ficaram registrados nas recordações dos que ali se sentaram: casais apaixonados admirando o pôr do sol, início de namoro, amantes fazendo amor discretamente, papos sérios e intermináveis, fim de namoro, lágrimas. Pessoas de fé escolheram orar sentadas naqueles bancos, como se fosse o lugar um templo ao ar livre, banhado pela maresia. Outras sentam-se apenas para espairecer ao som relaxante das ondas quebrando sobre as pedras, depois de um dia extenuante. Há, também, quem sente ali apenas para fumar um baseado enquanto admira a paisagem. Um leitor faz dali o seu cantinho de leitura todas as tardes. O mobiliário urbano que tantos serviços tem prestado aos visitantes do mirante da Praia da Paciência, serve, também, para que pichadores registrem sobre eles os seus protestos, numa linguagem estranha, cujo alfabeto só eles são capazes de decifrar.

Naquele fim de tarde, depois que o sol sumiu no horizonte, dois improváveis funcionários da prefeitura vieram ao mirante dispostos, e com energia, para apagar as pichações. Os dois homens pareciam ser muito simplórios e acreditavam estar fazendo um bem. Munidos de luvas de borracha, solvente, estopa, lixa e escova de aço, tinham a intenção de devolver aos bancos o seu estado original, sob os olhares indiferentes de skatistas que praticavam, próximo dali, manobras acrobáticas em seus skates.

Limpar os bancos não foi tarefa fácil, mas a dupla obstinada não desistiu enquanto estes não ficaram novinhos em folha. Os dois homens se revezaram naquela luta, pois a tinta era teimosa. Um esfregava com a estopa embebida em solvente e o segundo, em seguida, com a escova de aço. Depois o primeiro completava o serviço com a lixa; tudo era uma questão de fôlego e braços fortes. Por fim, a tinta desvaneceu-se e um sorriso de satisfação desenhou-se na face dos dois batalhadores. Aquela maçante tarefa repediu-se em cada banco.

Quando os dois homens da prefeitura recolheram os seus apetrechos e foram embora, com um sentimento de dever cumprido, não imaginavam que tinha atiçado a ira dos que ficaram. Um skatista resolveu agir, moveu-se para longe dos bancos, montado em seu skate, e num gesto rápido e hábil, mudou a direção de sua trajetória, agora em direção aos bancos. Partiu para cima destes feito uma bala humana e quando estava chegando muito próximo, fez o skate saltar para cima de um dos bancos onde estacionou. Da mochila que carregava nas costas, sacou de dentro um cilindro de metal, que depois de sacudi-lo vigorosamente, aproximou-o do assento do banco, fazendo sair de dentro um jato de tinta vermelho, com o qual desenhou a figura de uma besta assustadora com ameaçadoras mandíbulas a desafiar com seus dentes afiados, provavelmente o seu autorretrato. Dando-se por satisfeito com a proeza, ao desfazer em questão de segundos o trabalho que os dois homens demoraram horas dedicados, o skatista socou com o punho cerrado o vazio em sinal de vitória. O espetáculo repetiu-se nos dois bancos seguintes, sob as manifestações de júbilo dos outros companheiros. Não se sabe ao certo que vitória comemoravam.

Rio Vermelho, 22 de janeiro de 2017.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Vendedor de Peões

No fim da tarde do primeiro dia do ano, quando o sol excruciante do verão começa a abrandar à medida que desliza-se suavemente para ir sumir no horizonte, um senhor circulava entre os turistas e frequentadores do Largo de Santana, tentava vender peões. Carregava a sua mercadoria presa a um bonito mostruário de tábua cortado no formato de um grande peão, oferecendo-o sem fazer alarde a um e a outro. Quem jurasse que os peões tinham desaparecido da face da terra juntamente com os dinossauros, brinquedo de criança de priscas eras, que só existissem agora como curiosidade em museus de arte popular, iria se surpreender com aquele vendedor improvável. Mas ali estava o cidadão obstinado que acreditava que, a pesar da popularização dos brinquedos que não se pode tocar e nem pegar, da era digital, ainda houvesse esperança de alguém se interessar por algo tão lúdico e antigo como brincar com o peão.

Seus peões eram confeccionados por ele próprio; de madeira, pau d’arco, massaranduba, jaguaratiba, frejó, quanto mais dura, mais pesada ela é, excelente para a confecção do brinquedo. Eram entalhados um a um, com formões, macetes e goivas, e depois lixados para dar o acabamento, eram perfeitos como se tivessem sido moldados no torno elétrico. E para quem duvidasse de sua destreza, o velho sacava do bolso o smartphone e rodava o pequeno documentário no qual ele estrelava como o fazedor de peões artesanais que era. Ele sentia orgulho de sua habilidade e maestria, porque “fazer peão na “unha”, não é pra qualquer um, não”. Seus peões eram coloridos com as cores de times de futebol, mas também tinham aqueles que não seguiam religião alguma, pintados do jeito que lhe viesse à imaginação, ou apenas ao natural, mostrando a beleza da madeira em que fora entalhado.

Ele oferecia os seus peões, mas ninguém lhe dava trela. As atenções estavam voltadas para a longa fila do acarajé, o primeiro acarajé do ano, ou por fotografar o eminente pôr do sol, o primeiro pôr do sol do ano. Um gringo, não obstante, lhe deu atenção, nunca tinha visto aquele objeto curioso de formato aeroespacial. Um só sabia agradecer em nosso idioma e o outro falava como tinha aprendido na rua e em casa, mas a mágica da linguística resolveu aquele momentâneo entrave. O vendedor falava pausadamente e alto, como se gritar ajudasse à compreensão. Mas, percebendo o vendedor que a estratégia não estava funcionando, ele resolveu fazer uma demonstração.

— Olhe, preste a atenção, você pega o fio e amarra na cabeça do peão assim, e estica ele com firmeza até o bico, dando três voltas assim, entendeu? Depois vai enrolando o fio em volta do peão, subindo pelo corpo do peão até chegar no ombro, está entendendo? – gritou.

O gringo observava perdido as instruções do mestre do peão e esbouçava aquele sorriso abestado típico dos gringos. Um falava alto para se fazer entender, e o outro sorria para dizer que não entendia coisa alguma, e, no final, os dois se entenderam na hora de fechar o negócio, que as cifras são uma linguagem universal.

Ao final das instruções, o vendedor preparou-se para mostrar como um peão realmente funciona. E com um gesto exibicionista e dramático, dobrou uma perna e esticou a outra como fazem habilmente os skatista sobre a prancha, o braço livre foi jogado para frente para dar equilíbrio ao corpo, enquanto o que segurava o peão, passava pela costa num gesto elegante e com técnica, a mão treinada soltou o peão ao mesmo tempo que segurava firme a ponta do fio, projetando o brinquedo sobre o chão, onde pousou rodopiando com formosura, desenhando um círculo completo. Admirando o seu feito mais uma vez, o vendedor sorria como a criança encantada com o brinquedo que via funcionando pela primeira vez, e os olhos brilhavam de admiração e felicidade.

Rio Vermelho, 1º. de janeiro de 2017.




domingo, 25 de dezembro de 2016

O Peru de Natal

Mia foi passar o Natal no belo sítio dos avós, acompanhada da mãe. Mas ela não estava tão contente com a novidade, apesar de que ela adorava os avós e o sítio era muito divertido. É que o pai era aviador, e na noite de Natal, ia atravessar o Atlântico num longo voo levando passageiros. Mas que graça tem em se passar a noite mais linda do ano dentro de um avião, ela se perguntava, inconformada por não estar perto do pai. Como toda criança, ela via magia na noite de Natal, sempre torcia para ganhar muitos presentes e por comer muitas delicias na ceia natalina.

Os avós ficaram radiantes com a ideia de ter pela primeira vez a neta na comemoração. E sabe como são os avós, não queriam perder a oportunidade de mimá-la de todas as formas. Sendo Mia a sua única neta, tinham poucas oportunidades de estarem juntos, separados que estavam pela longa distância.

Quando Mia chegou ao sítio, foi uma alegria para todos aquele reencontro, comemorado com um belo almoço com o prato preferido da filha, frango ao molho pardo, e a sobremesa que a menina mais gostava, o famoso creme de quatro camadas, receita da avó. Depois da confraternização, o avô foi com Mia selar dois cavalos para fazerem juntos um passeio, e na estrabaria uma surpresa a aguardava: um belo potro branco, presente do avô. Mia pulou de alegria ao ser apresentada ao animal, e ela adocicou o coração do velho com beijos e muitos obrigados.

— Ele já tem um nome, vovô?

— Não, querida. Está aguardando para que você lhe dê um.

— Pronto, vai se chamar Branca de Neve! ­ – proclamou orgulhosa da escolha.

O doce avô torceu o nariz para aquele incomum nome para um cavalo, e ainda mais sendo ele um macho, mas lançou à menina um sorriso de aprovação, para não desapontá-la.

No sítio, Mia sentia o que era a liberdade, podia andar para lá e para cá, sem os excessos de proteção dos pais, o campo não era um lugar cheio de medos como a cidade grande. E num de seus passeios investigativos pelo quintal da casa, ela deu de cara com um animal que nunca tinha visto.

— Que pássaro é este, seu Saturnino? – perguntou ao faz-tudo do sítio que alimentava o animal.

— Oxi, nunca viu? Este é um peru! – respondeu o rapaz surpreso.

Até então, Mia só conhecia aquela versão encontrada no freezer do supermercado, já pronta para ir ao forno. A visão da ave viva com a sua exótica cabeça e plumagem a encantou.

— Nossa, é assim que é um peru? – bateu palminhas de felicidade.

— E este é um dos grandes! – acrescentou Saturnino, orgulhoso de o ter alimentado ao longo do ano, para aquela celebração.

— É grande mesmo! – disse a menina impressionada. – Vou tirar uma foto agora mesmo.

Dito isto, foi correndo dentro de casa e voltou com a câmera. Fotografou o bicho de todos os ângulos, para mostrar aos amigos a sua grande aventura. Saturnino até registrou o momento em que ela ficou ao lado do animal, numa demonstração de bravura. E como não podia deixar de ser, batizou de Leopoldo a nobre ave.

Na manhã seguinte, o sol brilhava alegre anunciando uma bela véspera de Natal. Mia acordou feliz e saltitante, ansiosa para que não demorasse muito para a noite chegar para ela abrir seus presentes. Correu até a árvore de Natal para contar os seus presentes, que eram muitos. Da mãe, do pai, da avó, do avó, da madrinha, embrulhados em lindos papéis de presentes com fitas coloridas. Ela aproximou cada caixa do ouvido e a balançou para tentar adivinhar o que havia dentro. A que mais lhe despertou curiosidade foi uma grande em formato de cilindro, embrulhada em papel vermelho brilhante e com um grande laço de fita verde.

Depois do café, Mia foi procurar Leopoldo, o peru, para lhe desejar bom dia.

— Hoje ele vai cumprir a missão dele. – disse Saturnino com um sorriso enigmático ao ver a menina aproximar-se do peru. – Você quer ver como se mata um peru para a ceia de Natal?

O convite chocou Mia. Como se podia matar um animal tão belo? Mas depois ela pensou melhor, afinal, os perus congelados de supermercado já tinham sido iguais ao Leopoldo quando estavam vivos, e se ele não fizesse a parte dele, não haveria ceia de Natal à noite.

— Quero sim! – respondeu com inocente entusiasmo, a imagem de um belo peru assado na travessa lhe veio à mente.

— Venha ver. – disse Saturnino.

O animal, em sua inocência, deixou-se pegar por aquele que o tinha alimentado e cuidado desde então, ele não lhe faria nenhum mal. Saturnino, em seguida, encheu um copo de cachaça que foi fazendo o animal beber às colheradas.

— Para que isso, Saturnino?

— Isso é cachaça, minha querida. Ele não vai sentir dor e a carne vai ficar uma macia, você vai ver!

— Nossa, eu não sabia disso. – disse Mia atenta a cada gesto de Saturnino.

— Veja como ele está bebum! – ele disse soltando o animal que ao sentir-se livre das mãos de Saturnino andou cambaleando feito um bêbado.

— Nossa, ele está bêbado mesmo! – disse Mia dando palminhas de satisfação.

— Agora, é a parte que eu mais gosto! He, he, he – disse Saturnino capturando o animal novamente e levando-o em seus braços enquanto afagava a sua macia plumagem.

Ele carregou a ave até um tronco de árvore serrado e posto na posição vertical como um altar, preparado para aquele sacrifício natalino. E com uma mão, num gesto rápido, deitou-a sobre a parte plana, mantendo-a quieta segurando-a pela cabeça, enquanto com a outra mão desferia um golpe certeiro no pescoço com uma afiada machadinha que faiscava ao sol, surgida não se sabe de onde. A cabeça rolou para o chão sem que o peru tivesse tempo de gritar um “ai!”.  Mia, assustada, soltou um gritinho surpresa e levou as mãos até a boca ao ver o sangue do animal esguichar pelo pescoço feito uma mangueira de jardim. Depois, Saturnino soltou a ave no chão que andou para lá e para cá deixando um rastro de sangue até entregar-se aos fatos, deitando inerte sobre a grama.

— Sangue! Sangue! – gritou Mia correndo até onde estava o peru. – Ele não está se movendo, Saturnino.

— Ele morreu, minha filha. – disse Saturnino. – Agora vá para casa e deixe eu fazer o resto para entregá-lo para dona Ana assá-lo para a ceia de Natal.

Naquela noite, quando a avó pôs o peru diante do avô à mesa, não parecia que algum dia ele tivesse tido uma cabeça. Jazia numa travessa de porcelana branca numa resignação belamente corada, enfeitado com frutas de compota ao redor.

Era difícil dizer qual dos dois estava mais corado, Mia ou o peru, ambos tinham uma bela cor, ambos tinham a mesma aparência brilhante e o mesmo ar esforçado. Mas o corado de Mia puxava para o vermelho e o do peru para o tostado.

O avô pegou a faca e o garfo com um sorriso largo de satisfação e começou a destrinchar o peru.

— Quem vai querer o primeiro pedaço? – perguntou olhando solicito em volta da mesa?
Mia balançou a cabeça em sinal de negação, ficando ainda mais corada.

Rio Vermelho, 25 de dezembro de 2016.






sábado, 17 de dezembro de 2016

A Menina de Patins

Todos os dias de verão, um pouco antes do pôr do sol, como se aquilo já fosse um compromisso combinado, ela surgia na orla do Rio Vermelho, não se sabe vinda de onde. De patins, deslizava graciosamente pela via onde também passavam ciclistas, pedestres com cãezinhos e skatistas apressados. A sua aparência era sempre fresca como de quem houvesse recém saído do banho e posto a roupa de passeio, para aproveitar a última luz do dia. Nos ouvidos, um par de headphones a isolava do resto do mundo com algum tipo de música que a fazia balançar a cabeça e mover os quadris ritmicamente, tornando a cena de sua passagem num espetáculo encantador. Como ela era bela no frescor de sua jovem idade e o seu jeito inocente parecia ignorar aquele fato. O pequeno grupo de senhores que jogava conversa fora, sentados à balaustrada da praia, também naquele mesmo horário, interrompia a conversa para reverenciar a sua passagem. Era o único momento que eles deixavam de discutir receitas para curar as mazelas do país, para admirar poesia.

Naquela tarde, ela usava um vestidinho florido bem curto que esvoaçava a cada sopro salgado do mar, mas ela parecia não se incomodar. Ela estava alegre como de costume, e ouvia a sua música e dançava sobre as rodas sem se deixar perturbar. Como era bom ser jovem e andar de patins para lá e para cá sem se importar com nada mais além do caminho à sua frente.

No mirante da Paciência, ela fez uma pausa para admirar um espetáculo majestoso, o sol dissolver-se no horizonte manchando o céu de tons alaranjados. Como era bonito aquele momento que ela não se cansava de admirar e que enchia o seu peito de uma felicidade infantil, como se ela se comunicasse tão bem com a natureza como com os seu par de patins.

Ela não prestou atenção quando um rapaz jovem e forte se aproximou, e disse-lhe alguma coisa quase sussurrando. Só depois de sua insistência foi que ela tirou o fone do ouvido para escutá-lo. Ato seguido da entrega do aparelho de celular por onde ela ouvia a música e, em seguida, do par de patins. Suas pernas começaram a tremer logo em seguida e se formou uma poça de urina ao seu redor, enquanto o malfeitor corria atravessando o asfalto e sumindo pelo mundo afora. Ela teve impulso de gritar por socorro mas a emoção lhe roubou a voz, e quando finalmente ela conseguiu fazê-lo, foi socorrida por outros admiradores do crepúsculo, mas aí já era tarde demais.

Nunca mais se viu ela passeando ao pôr do sol. Entretanto, espalhou-se a notícia de que um rapaz de patins corria como o vento pela ciclovia, e pelo caminho tomava sorrateiramente da mão de passantes aparelhos de celular e bolsas, deixando um rastro de desespero ao sumir feito um raio entre os transeuntes.


Rio Vermelho, 16 de dezembro de 2016.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Velório

Ao entrarem na pequena sala onde Irani jazia velada, os amigos mais próximos faziam uma expressão de surpresa e, em seguida, sucumbiam à gargalhada, causando indignação nos outros presentes. Depois lembravam que deviam estar num velório e tentavam manter uma expressão pesarosa em respeito à defunta. Irani repousava num caixão de primeira, ornado com margaridas amarelas como foi de seu desejo, vestida com o vestido de noiva e com uma coroa de minúsculas margaridas brancas ao redor da cabeça. As mãos pousavam sobre o peito farto segurando um rosário de madrepérola e a expressão de seu rosto levemente maquiado era serena como de alguém que estivesse apenas dormindo. Irani estava finalmente realizando um desejo muito antigo e inusitado, ter seu próprio velório ainda viva.

Desde adolescente, ela sonhava com aquele momento lúgubre e finalmente o estava realizando, contrariando o esposo que achava aquilo uma brincadeira de mau gosto. “Vai que tu não se levanta mais do caixão, vou ficar viúvo antes do tempo, e tudo por causa de sua teimosia!”

Os pais de Irani só mudaram de ideia e passaram a apoiar aquela maluquice quando a moça saiu de casa. Agora é um problema do marido, lavaram as mãos. Os amigos estavam divididos. Uns achavam que aquilo era um mau agouro e podia se tornar realidade. Outros que a amiga estava com um parafuso a menos. E alguns queriam vê-la realizar o seu sonho, ainda que bizarro.

— Que doideira é essa, dona Irani? – disse o único vendedor de caixão da cidade. – Onde já se viu velar uma viva? Velório é coisa séria!

Irani precisou de quatro anos para convencê-lo de seus nobres propósitos, não queria morrer sem realizar o seu desejo, não que ela estivesse doente ou já próxima da data da partida; pelo contrario, ela era jovem e saudável feito uma rocha. E a cada nova tentativa, sempre uma negativa do agente funerário. “Isso dá mau agouro!”, “Vai que tu não levanta mais do caixão!”, “Mas que moça insistente!” E foi graças à sua insistência, que o agente funerário um dia cedeu. Não se deve contrariar quem tem um parafuso a menos, ele justificou.

O agente funerário, até fez um gesto generoso, emprestou o melhor caixão da loja, ornamentou-o sem cobrar nenhum centavo. No final, ficou tão entusiasmado que mandou vir carpideiras para chorar pela defunta. Até o padre entrou na brincadeira e foi rezar para a morta fazer uma boa travessia; dizem as más línguas que cobrou caro por aquela passagem! Irani que sonhava com um velório de primeira, providenciou bebida e comida farta para todos; o velório tinha mais gente que em festa de aniversário de político. Um desconhecido, penetra de velórios e bocas livres, envolto em vapores etílicos, fez um emocionado discurso enaltecendo as qualidades e virtudes da falecida. Ele falou bonito e usou palavras difíceis que nem ele e nem os presentes sabiam o significado. Irani perdeu esta parte, pois caiu no sono. Os convivas beberam e refestelaram-se tanto que esqueceram que a defunta não tinha morrido de verdade. Alguém lembrou que já era hora de fechar o caixão. Emocionados, carregaram o esquife pelas ruas da cidade fazendo um longo cortejo, moradores que não tinham comparecido ao velório perfilavam-se ao longo das vias em sinal de respeito, os homens tiravam o chapéu. E já no cemitério, tudo foi feito como manda o figurino, Irani foi sepultada a sete palmos. Depois, cada um foi para casa curar a ressaca.

Rio Vermelho, 8 de novembro de 2016.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Não se meta com o velhinho!

O velho tinha idade para já ser bisavô de alguém. De fala mansa e conciliadora como se espera dos anciãos, o caminhar era a passos curtos e fraquejados, denunciando os muitos anos percorridos. Na mão, a bengala na qual se apoiava era um cigarro com a ponta sempre brilhando, o seu companheiro fiel de longuíssima data. Orgulhava-se de fumar desde criança e de ainda estar vivo, apesar de a ciência condenar fumantes inveterados como ele à passagem para o além prematuramente. Ele simplesmente adorava fumar, sentir a fumaça arder-lhe os pulmões e expeli-la para fora como a chaminé de uma fábrica antiquada. Todos no bairro o conheciam, conversava com um e com outro, só sabia fazer amigos e amigos não lhe faltavam.

Certo final de tarde, ele chegou em casa de seu passeio diário ao longo do calçadão da praia, estava visivelmente mal humorado e transtornado. O filho ficou surpreso, não se lembrava de ter visto o pai alguma vez daquele jeito.

— É por isso que as coisas acontecem. – resmungou o velho irritado.

— O que foi, meu pai? Porque o senhor está assim desse jeito? Que foi que aconteceu?

— Um sujeito veio se meter com a minha vida!

— Que sujeito? Quem foi?

— Um sujeito aí. – respondeu o velho bufando de raiva depois de dar uma tragada.

— Não tem nome?

— Depois se eu pico a mão na cara do cidadão, vão me chamar de violento, vão dizer que eu sou isso e aquilo, vão procurar frescura comigo. – disse o velho soltando fumaça pelo nariz feito um dragão enfurecido.

— Quem foi?

— Eu não me meto na vida de ninguém e também não quero que se metam na minha. – vociferou com o dedo em riste. – Se quem me botou no mundo, nunca me proibiu de fazer nada, por que um Zé Ninguém vem tomar liberdade comigo?

— Mas, meu pai, quem foi que te deixou assim tão puto da vida?

— Um cara aí na rua. – o velho respondeu quase voltando a si.

— Não tem nome?

— Não sei o nome.

— É alguém aqui do bairro?

— Nunca vi antes na vida!

— Então uma pessoa que o senhor não conhece o aborreceu?

— O desgraçado veio se meter em minha vida, eu nunca lhe dei ousadia. Olha, eu juro que me deu vontade de dar um tabefe naquele fedelho!

— Calma pai, que o senhor não está mais na idade de dar porrada em ninguém; logo o senhor, uma pessoa tão sensata...

— Pra você ver o estado que este moleque me deixou. Eu não me meto na vida de ninguém, muito menos de desconhecido.

— Mas o que foi que este cara, que o senhor nem sabe quem é, lhe disse para lhe provocar tanta fúria?

— Ele veio pra mim com uma voz abestada e disse – imitando a voz abestada – “Pare de fumar, cigarro mata!” Olha, eu fumo desde os onze anos e ainda vou enterrar aquele imbecil! – disse finalmente o velho expelindo fumaça pelo nariz.


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Rio Vermelho, 19 de outubro de 2016.