quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Velório

Ao entrarem na pequena sala onde Irani jazia velada, os amigos mais próximos faziam uma expressão de surpresa e, em seguida, sucumbiam à gargalhada, causando indignação nos outros presentes. Depois lembravam que deviam estar num velório e tentavam manter uma expressão pesarosa em respeito à defunta. Irani repousava num caixão de primeira, ornado com margaridas amarelas como foi de seu desejo, vestida com o vestido de noiva e com uma coroa de minúsculas margaridas brancas ao redor da cabeça. As mãos pousavam sobre o peito farto segurando um rosário de madrepérola e a expressão de seu rosto levemente maquiado era serena como de alguém que estivesse apenas dormindo. Irani estava finalmente realizando um desejo muito antigo e inusitado, ter seu próprio velório ainda viva.

Desde adolescente, ela sonhava com aquele momento lúgubre e finalmente o estava realizando, contrariando o esposo que achava aquilo uma brincadeira de mau gosto. “Vai que tu não se levanta mais do caixão, vou ficar viúvo antes do tempo, e tudo por causa de sua teimosia!”

Os pais de Irani só mudaram de ideia e passaram a apoiar aquela maluquice quando a moça saiu de casa. Agora é um problema do marido, lavaram as mãos. Os amigos estavam divididos. Uns achavam que aquilo era um mau agouro e podia se tornar realidade. Outros que a amiga estava com um parafuso a menos. E alguns queriam vê-la realizar o seu sonho, ainda que bizarro.

— Que doideira é essa, dona Irani? – disse o único vendedor de caixão da cidade. – Onde já se viu velar uma viva? Velório é coisa séria!

Irani precisou de quatro anos para convencê-lo de seus nobres propósitos, não queria morrer sem realizar o seu desejo, não que ela estivesse doente ou já próxima da data da partida; pelo contrario, ela era jovem e saudável feito uma rocha. E a cada nova tentativa, sempre uma negativa do agente funerário. “Isso dá mau agouro!”, “Vai que tu não levanta mais do caixão!”, “Mas que moça insistente!” E foi graças à sua insistência, que o agente funerário um dia cedeu. Não se deve contrariar quem tem um parafuso a menos, ele justificou.

O agente funerário, até fez um gesto generoso, emprestou o melhor caixão da loja, ornamentou-o sem cobrar nenhum centavo. No final, ficou tão entusiasmado que mandou vir carpideiras para chorar pela defunta. Até o padre entrou na brincadeira e foi rezar para a morta fazer uma boa travessia; dizem as más línguas que cobrou caro por aquela passagem! Irani que sonhava com um velório de primeira, providenciou bebida e comida farta para todos; o velório tinha mais gente que em festa de aniversário de político. Um desconhecido, penetra de velórios e bocas livres, envolto em vapores etílicos, fez um emocionado discurso enaltecendo as qualidades e virtudes da falecida. Ele falou bonito e usou palavras difíceis que nem ele e nem os presentes sabiam o significado. Irani perdeu esta parte, pois caiu no sono. Os convivas beberam e refestelaram-se tanto que esqueceram que a defunta não tinha morrido de verdade. Alguém lembrou que já era hora de fechar o caixão. Emocionados, carregaram o esquife pelas ruas da cidade fazendo um longo cortejo, moradores que não tinham comparecido ao velório perfilavam-se ao longo das vias em sinal de respeito, os homens tiravam o chapéu. E já no cemitério, tudo foi feito como manda o figurino, Irani foi sepultada a sete palmos. Depois, cada um foi para casa curar a ressaca.

Rio Vermelho, 8 de novembro de 2016.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Não se meta com o velhinho!

O velho tinha idade para já ser bisavô de alguém. De fala mansa e conciliadora como se espera dos anciãos, o caminhar era a passos curtos e fraquejados, denunciando os muitos anos percorridos. Na mão, a bengala na qual se apoiava era um cigarro com a ponta sempre brilhando, o seu companheiro fiel de longuíssima data. Orgulhava-se de fumar desde criança e de ainda estar vivo, apesar de a ciência condenar fumantes inveterados como ele à passagem para o além prematuramente. Ele simplesmente adorava fumar, sentir a fumaça arder-lhe os pulmões e expeli-la para fora como a chaminé de uma fábrica antiquada. Todos no bairro o conheciam, conversava com um e com outro, só sabia fazer amigos e amigos não lhe faltavam.

Certo final de tarde, ele chegou em casa de seu passeio diário ao longo do calçadão da praia, estava visivelmente mal humorado e transtornado. O filho ficou surpreso, não se lembrava de ter visto o pai alguma vez daquele jeito.

— É por isso que as coisas acontecem. – resmungou o velho irritado.

— O que foi, meu pai? Porque o senhor está assim desse jeito? Que foi que aconteceu?

— Um sujeito veio se meter com a minha vida!

— Que sujeito? Quem foi?

— Um sujeito aí. – respondeu o velho bufando de raiva depois de dar uma tragada.

— Não tem nome?

— Depois se eu pico a mão na cara do cidadão, vão me chamar de violento, vão dizer que eu sou isso e aquilo, vão procurar frescura comigo. – disse o velho soltando fumaça pelo nariz feito um dragão enfurecido.

— Quem foi?

— Eu não me meto na vida de ninguém e também não quero que se metam na minha. – vociferou com o dedo em riste. – Se quem me botou no mundo, nunca me proibiu de fazer nada, por que um Zé Ninguém vem tomar liberdade comigo?

— Mas, meu pai, quem foi que te deixou assim tão puto da vida?

— Um cara aí na rua. – o velho respondeu quase voltando a si.

— Não tem nome?

— Não sei o nome.

— É alguém aqui do bairro?

— Nunca vi antes na vida!

— Então uma pessoa que o senhor não conhece o aborreceu?

— O desgraçado veio se meter em minha vida, eu nunca lhe dei ousadia. Olha, eu juro que me deu vontade de dar um tabefe naquele fedelho!

— Calma pai, que o senhor não está mais na idade de dar porrada em ninguém; logo o senhor, uma pessoa tão sensata...

— Pra você ver o estado que este moleque me deixou. Eu não me meto na vida de ninguém, muito menos de desconhecido.

— Mas o que foi que este cara, que o senhor nem sabe quem é, lhe disse para lhe provocar tanta fúria?

— Ele veio pra mim com uma voz abestada e disse – imitando a voz abestada – “Pare de fumar, cigarro mata!” Olha, eu fumo desde os onze anos e ainda vou enterrar aquele imbecil! – disse finalmente o velho expelindo fumaça pelo nariz.


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Rio Vermelho, 19 de outubro de 2016.









quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Pedido de Casamento

Esta tarde recebi um pedido inusitado. Não o pedido de casamento que leva o título da crônica. O rapaz se aproximou enquanto eu, sentado na balaustrada próxima à quadra de futebol observava os passantes. Com a voz tímida de quem não queria incomodar, ele carregava uma pequena caixa azul com uma alça presa ao pescoço
.
— O senhor compra uma trufa de chocolate pra me ajudar a fazer o meu pedido de casamento?

Respondi que estava sem dinheiro. E era verdade. Quase não carrego dinheiro comigo quando saio pelas vizinhanças, contrariando a orientação da Segurança Pública que sugere ao cidadão levar sempre consigo pelo menos uma nota de cem além de um aparelho smartphone de boa qualidade para dar ao ladrão em troca de sua vida. Não costumo sair também levando o celular comigo, razão pela qual nunca fui assaltado. Assaltante é como cão de caça, tem faro apurado e sente o cheiro de um bom smartphone e uma nota de cem a metros de distância. O rapaz humildemente agradeceu minha atenção e se afastou.

No entanto não tive certeza de ter entendido bem o seu pedido incomum, acho que fiquei fascinado com a ideia. Ele já estava mais adiante abordando uma moça sentada também na balaustrada. Aproximei-me e expliquei ao jovem a minha curiosidade. De boa vontade, ele contou que queria fazer o pedido de casamento à sua namorada e precisava de dinheiro para comprar o anel de noivado e fazer uma pequena celebração, queria que a ocasião fosse impactante, segundo suas palavras.

Fiquei comovido com a sua perseverança e com aquela demonstração de amor que imaginei que a moça a merecesse. Achei as suas intenções pueris. Desconheço os rituais de um pedido de noivado ou de um casamento, mas sei que ambos custam tão caros quanto pedir o divórcio depois. Aliás, o casamento é uma instituição cara e mesmo assim as pessoas preferem fazê-lo mesmo que as estatísticas apontem que as chances de ele terminar em divórcio são tão prováveis como ter o celular roubado em plena luz do dia em local público. A trufa de chocolate custava apenas dois Reais e imaginei desanimado quantas ele precisaria vender para pelo menos comprar o anel de noivado. Eu gostaria de contribuir, mesmo não sendo um entusiasta de casamentos, mas acredito no amor e aquele jovem tinha encontrado o dele. Olhei para os lados procurando os conhecidos que eu sempre encontrava em meu passeio diário pela orla, eles haveriam de me emprestar nem que fosse apenas dois Reais para comprar a trufa do rapaz e assim contribuir com aquela comemoração impactante que ele vinha sonhando. Frustrado, não vi ninguém. Agradeci a sua explicação e disse que ainda sim eu estava sem dinheiro e lhe desejei sucesso em sua jornada. Afastei-me chateado por não ter um tostão no bolso num momento tão especial como aquele.

Enquanto eu me afastava pensativo, lembrei que eu estava numa situação semelhante, pedindo dinheiro aqui e acolá, metido numa campanha de financiamento coletivo para levantar grana para publicar o meu romance de estreia. Os amigos estavam contribuindo e eu descobri que eu tinha mais amigos do que eu imaginava. Tive uma ideia. Esboucei um sorriso de satisfação e procurei o rapaz que já atravessava a avenida a caminho do Largo de Santana.

Ei, psiu! Você, mesmo. Perguntei a ele se sabia o que era financiamento coletivo e, com sua negativa, abri-lhe as portas de uma outra forma de ele conseguir a grana para pedir a mão de sua amada e de impressioná-la para o resto da vida com uma bonita festa. É bem piegas esta coisa toda, mas é que eu ando com um puta sentimentalismo ultimamente. É como disse o poeta: Eu não devia te dizer,/ mas essa lua/ mas este conhaque/ botam a gente comovido como o diabo.*

Rio Vermelho, 14 de setembro de 2016.


                                                                                                       * Drummond, em Poema das Sete Faces




quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O Ladrão e a Mulher do Caçador

A notícia de que um ladrão invadia os lares durante o sono de seus moradores, ou em sua ausência, levando objetos de pequeno porte, mas de considerável valor, como joias, relógios, aparelhos de celular, computadores portáteis e máquinas fotográficas, deixou apreensivos os moradores do tradicional bairro do Rio Vermelho. Era muita ousadia invadir a casa alheia para roubar, e mais ainda quando os seus habitantes estavam indefesos no mais profundo sono. Ninguém tinha uma descrição desse gatuno, ninguém jamais o tinha flagrado em pleno exercício de sua atividade profissional.

Até que certa noite, acreditando estar invadindo uma residência na qual os seus moradores estivessem ausentes, ele deu de cara com a dona da casa, uma jovem mulher que se preparava para ir para a cama. Ora, o susto da moça foi grande, mas ela enfrentou o invasor com determinação e coragem.

— O que você quer? – ela perguntou tentando cobrir com as mãos o corpo que levava apenas uma fina e quase transparente camisola.

— O que a senhora acha que eu quero? – o ladrão perguntou desapontado consigo mesmo pelo seu descuido. No entanto, ele não deixou de ficar admirado com a beleza de sua vítima.

A moça logo percebeu que se tratava do ladrão sobre o qual tanto falavam no bairro e o encarou observando que a sua aparência era típica dos ladrões. Ele vestia-se casualmente e com bom gosto, era alto, porte atlético, cabelos louros compridos amarrados em estilo samurai, barba por fazer, rosto perfeito e olhar cínico e penetrante, enfim, um tipo bem comum de gatuno.

Ela então respondeu a ele abrindo os braços de forma dramática, como se estivesse se oferecendo a ele em sacrifício, entretanto, revelando a silhueta de seu belo corpo por debaixo do tecido fino da camisola.

— Venha, pegue isto que você está querendo, mas poupe a minha vida! Vamos, satisfaça os seus infames desejos carnais e vá-se embora!

Entretanto, ela teve o cuidado de acrescentar uma informação contrária ao que o bom senso espera em casos como aquele, em que tudo que se deseja é que as coisas aconteçam de forma rápida e indolor:

— Meu marido saiu e vai demorar!

Por tanta generosidade, o ladrão não esperava. Sua intenção era apenas levar um relógio ou um par de brincos, e ele se daria muito satisfeito se houvesse um tablet ou câmera digital para incluir butim. Mas um mulherão daquela qualidade se entregando para ele, era algo extraordinário, não havia como recusar.

Ele então se deixou levar pelo desejo, tomando-a nos braços e a imprensando contra a parede com o seu próprio corpo. Ela gemeu ao sentir a sua rigidez e lhe ofereceu os lábios. Antes, porém, de sufocá-la com um longo beijo, ele quis saber.

— E onde está o seu marido?

Ao que ela respondeu ofegante e dominada pelo desejo.

— Ele foi caçar pokemon!


Rio Vermelho, 23 de agosto de 2016.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Profissão de Pai para Filho

Gervásio sonhava um dia ver seu primogênito seguir uma profissão diferente da sua e, por isso, tornar-se um doutor, que tivesse uma profissão descente como um médico, engenheiro ou até advogado. Mas o filho orgulhava-se do pai, considerava-o uma espécie de herói, desde pequeno já tinha decidido que seguiria a mesma profissão do pai, seria um ladrão.

Isto mesmo, Gervásio tinha como profissão roubar pessoas, mais especificamente roubar a casa das pessoas e depois levar o butim para vendê-lo na Feira do Rato, no Comércio. Ele era um ladrão à moda antiga, como se diz, preferia entrar sorrateiramente na casa das pessoas sem fazer barulho algum, com a habilidade e elegância de um felino e surrupiar os seus pertences enquanto dormiam ou estavam ausentes no trabalho. Ele condenava as práticas modernas de seus jovens colegas de abordar a clientela diretamente na rua. Achava aquilo deselegante e perigoso, de uma violência fora de propósitos. Ele jamais apontara uma arma para outra pessoa, e o único mal que lhes fizera foi lhe auferir os bens sem que para isso tivesse de usar de violência ou pôr a vida de alguém em risco.

Seu filho Benedito tinha a mesma opinião do pai. Repudiava a violência sob qualquer pretexto. Entretanto ele não faria como o pai, não tinha a intenção de exercer a sua profissão invadindo a casa alheia, achava aquilo antiquado e o custo-benefício pouco produtivo. Também não se imaginava vendendo a sua mercadoria na Feira do Rato como o pai, sujeito a ser assaltado de surpresa pela polícia a qualquer instante, fugindo deixando tudo para trás para que a própria polícia fizesse a festa. Sua intenção era a de atuar no mercado de forma eficiente e inovadora, com poucos riscos e muitos benefícios.

Certo dia o pai ia pela rua, no centro da cidade e orgulhoso viu cartazes com a foto do filho coladas pelos muros e postes ao longo do caminho. Como o filho estava bonito e elegante, ele ia ser um ladrão de classe, de primeira categoria!

— Olha aqui, este é o meu filho! – dizia Gervásio aos transeuntes apontando para o cartaz com a foto do filho onde se lia “Benedito Silva para deputado”.


Rio Vermelho, 19 de julho de 2016.




terça-feira, 12 de julho de 2016

Meu romance precisa de sua ajuda para ser publicado. Ele merece ser publicado


Prezado leitor,

Você que tem me prestigiado lendo o meu blog e fazendo comentários, solicito agora a sua ajudinha. Estou fazendo uma “vaquinha” para publicar o meu romance Demasiado Pouco Amor – ele precisa de sua ajuda para ser publicado, ele merece ser publicado!

Hoje em dia, esta vaquinha leva o pomposo nome de Financiamento Coletivo – do inglês Crowed Funding, muito popular mundo a fora. Muitas pessoas no Brasil já estão recorrendo a este sistema para financiar seus próprios projetos na área cultural, ambiental, educacional e social. Bacana, não?

É muito simples: basta copiar e colar o link a seguir no seu navegador (https://www.catarse.me/demasiadopoucoamor-digital) que levará ao meu projeto no site do Catarse – que é uma plataforma nacional de financiamento coletivo. E contribuir com R$15, R$30, R$50, R$100, R350 ou R$650 e de lambuja eu ainda te dou um mimo!

É um pouquinho, mas para mim a sua singela contribuição fará uma diferença danada! Vamos lá, enfia essa mão no bolso!

Obrigado por sua colaboração!