sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Que máscara danada!

 Um artigo de proteção transformou-se em peça de vestiário e veio juntar-se à composição de roupas que vestimos para sair de casa. A máscara, para alguns, um martírio, para outros, uma alegria. Minha sobrinha adora máscaras. Ao longo desses meses de pandemia, ela formou um guarda-roupa de opções, para combinar com as outras roupas. Fica numa alegria danada quando ganha uma de presente, parece até que lhe deram uma bolsa de grife chique.

 Além de sua utilidade protetora, a máscara também tem a função estética de esconder a feiura, e a social de nos ajudar a fingir que não reconhecemos aquele chato, ao cruzar acidentalmente com ele na rua. Entretanto, descobri que o uso da máscara também faz com que as pessoas nos tomem por outra.

Ao sair do mercado ontem, dei de cara com um cidadão que me cumprimentou efusivamente. Seu entusiasmo era tanto que parei para cumprimentá-lo também, embora eu não fizesse ideia de quem fosse. Então ele me contou que o pai falecera recentemente e que agora o taxi era só dele. Entendi então que ele fazia ponto em frente ao mercado, embora eu sempre leve minhas compras a pé. Percebendo minha apatia, ele perguntou:

— O senhor não está me reconhecendo, não é?

Tive, então, a presença de espírito de falar que a máscara escondia o rosto das pessoas, o que não deixava de ser uma verdade. No meu caso, eu usara a máscara como desculpa por não reconhecê-lo. Na verdade, eu nunca vi aquele camarada em minha vida. Mas a minha falta de conhecimento, ou lembrança, de quem era a sua pessoa, não o intimidou. Ele então começou a falar do tio recém-diagnosticado diabético e de como ele passara maus bocados com o remédio que o médico lhe prescrevera, pois não dormia a noite inteira, de tanto que ia ao banheiro fazer xixi. Para poupar a paciência dos caros leitores, pois, certamente, a minha não foi poupada, resumo que o prestimoso sobrinho foi até uma das farmácias do bairro, para pedir ao farmacêutico para substituir a medicação que estava fazendo o tio urinar feito um gambá — imagino eu, se alguém bebe feito um gambá, o mesmo animal deve mijar muito também —, e este, o farmacêutico, sugerira algo muito melhor. Ali bem perto havia um médium gabaritado que daria um passe no tio e ele ficaria curado do problema urinário. Dito e feito, o querido sobrinho levou o enfermo tio a esse lugar que, depois receber as oblações do sacerdote espírita, nunca mais deu uma mijada no meio da noite, reestabelecendo o seu bom sono — esses médiuns então acabando com a indústria farmacêutica! Antes que o taxista me fizesse ouvir outro drama familiar, aleguei estar atrasado para o almoço e me despedi, não sem antes expressar meus sentimentos pela perda de seu pai e desejar melhoras para o tio.

Nem bem eu me livrei de um chato, já fora das instalações do mercado, outro veio me cumprimentar. Que sorte eu estava tendo! Este me cumprimentou com o mesmo entusiasmo que o outro, porém eu também não fazia ideia de quem fosse. No entanto, este foi mais breve, perguntou por minha saúde e se eu estava me cuidando — nesses tempos de pandemia, o hábito de se falar sobre o tempo, quando não se tem nada melhor para falar a respeito, foi substituído pelas perguntas sobre a saúde e pelos cuidados pessoais para se proteger. Assegurei-lhe que estava me cuidando e que precisava ir urgente para casa, para passar álcool em gel nas mãos, e me despedi, sem, no entanto, deixar de ouvir recomendações para que eu me cuidasse.

Mas como eu disse, esse era o meu dia de sorte. Nem bem me despedi de um, apareceu outro em meu caminho! A máscara, que deveria também me proteger dos chatos, estava atraindo-os como formiga no mel. Por que, de uma hora para outra, gente que eu não fazia ideia de quem fosse me cumprimentava na rua e me parava para conversar? Cabe aqui explicar a minha ansiedade em chegar logo em casa: eu carregava ao ombro uma sacola pesada de compras, dessas de pano, ecologicamente corretas, e teria de caminhar dois quilômetros e meio para chegar ao meu destino.

Esse outro quase me deu um abraço, de tanta felicidade ao me ver. Disse que eu andava sumido, ao que prometi aparecer mais vezes; sabe deus onde! Falou mais alguma coisa que eu concordei também. Me perguntou outra, e eu respondi que estava me cuidando, sim. Ele estava com pressa e disse que não podia conversar mais, eu lamentei ter de interromper a tão agradável conversa e segui o meu caminho.

Para não ser mais confundido com ninguém, andei o resto do trajeto até em casa sem a bendita máscara!

 

  Rio Vermelho, 01 de outubro de 2020.  

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Papo canino

 Depois do doloroso rompimento após dois anos de namoro, ela não soube que destino dar ao buldogue que ganhara de presente — um cão tão feio e deselegante — quando completaram o primeiro ano. Ela até pensou em recusá-lo, mas a paixão que sentia pelo namorado e sua vontade de sempre agradá-lo a impediu de ser sincera. Agora ela se arrependia amargamente de não ter devolvido o animal quando o namorado lhe comunicara solenemente que tudo estava acabado entre eles. O sentimento de prudência a fez desistir da ideia, por receio de parecer mesquinha ou vingativa. Entretanto, toda vez que olhava para o cão feioso, se lembrava do ex-namorado, cuja pessoa, ela, magoada, tentava esquecer para sempre.

Apesar de sua feiura canina, de seu corpo atarracado e andar desajeitado, o cão era um animal doce e afetuoso, e ela decidiu mantê-lo, a despeito de suas reservas. Mas o que ela mais queria era arranjar um novo namorado para esquecer o outro que a deixara. Ela não sabia viver sem um homem, um homem era tão bom. Ela se sentia completada, quando estava amando.

Um dia ela resolveu levar o cão para passear, estava cheia de ficar em casa remoendo as lembranças de um amor que passou. Já era hora de virar a página, trocar o disco, partir para outro. Embonecou-se toda, pôs a coleira no cão e foi caminhar no calçadão entre a praia de Santana e a da Paciência. Era o primeiro dia de primavera, o fim de tarde estava esplendoroso e logo o sol ia sumir por traz dos coqueiros do morro da Sereia em uma hora.

Naquela tarde ela percebera que não fora a única a ter semelhante ideia. O calçadão fervilhava de ciclistas, skatistas, corredores e de gente saudável demais para praticar qualquer esporte, e, sim, claro, os habituais donos de cachorro e suas crias, alguns muito civilizados, atentos em recolher os dejetos de seus preciosos animais, e outros, nem tanto, afinal entendem que a rua é um lugar público que cada um faz o que quiser, e danem-se quem não gostar! Importante dizer que todos usavam máscaras para se protegerem do vírus maldito, até alguns cães.

Sentado à balaustrada, havia um belo rapaz, que ao ver a moça caminhando com o seu buldogue, fez sinais insistentes, com uma expressão alegre, para que ela se aproximasse. A moça se sentiu lisonjeada, não esperava arranjar um paquera logo na primeira saída, e muito menos assim que parecia ser tão bonito — que a máscara, além de proteger do vírus, também tem a vantagem de esconder a feiura. — Embora os ensinamentos para que não desse ousadia a desconhecidos fosse uma orientação materna que sempre observara, seu coração despedaçado dizia-lhe para chegar próximo ao rapaz e deixar de lado aquele conselho  antiquado. O rapaz olhou para o cão com excitamento e perguntou à moça que se aproximava.

— Posso conversar com o seu cão?

O incomum pedido pegou de surpresa a moça. Se aquilo era uma cantada, era muito original, ela pensou. O rapaz nem esperou pela resposta. Abaixou-se e fez uma festa para o animal. O cão não fez a menor cerimônia, retribuiu as demonstrações de afeto do desconhecido com lambidas em seu rosto e balançou o rabo.

— E ai, meu velho, como está você? Passeando com a sua mãe? — o rapaz disse, num tom afetuoso.

A moça ficou pasma, o rapaz queria mesmo conversar com o cão! Mais chocada ainda ficou quando o ouviu referir-se a ela como mãe do animal. Aquele tipo de tratamento, embora muito comum entre proprietários de animais, não lhe agradou nem um pouco, sentiu-se uma aberração. Em um segundo, ela tomou antipatia pelo rapaz, confundi-la com uma cadela era demais. O rapaz justificou todo aquele seu entusiasmo, levantando a cabeça e olhando para a moça.

— Eu tive um igualzinho a ele. O pobrezinho morreu faz um ano — disse emocionado, com os olhos húmidos.

— Eu lamento a sua perda. — Ela esforçou-se para demonstrar empatia.

— Estou procurando outro igual, mas é tão difícil encontrar dessa raça — ele explicou.

— É mesmo? — ela disse pensativa. — Esse tem apenas um ano.

— Sim, eu percebi que ele ainda é um meninão. — Voltou-se para o cão. — Você não é um meninão? Você não é um meninão lindo? — disse o rapaz enquanto fazia cócegas no bicho, que se deitou de patas para cima, para, em seguida, receber afagos na barriga.

Quem dera ele fizesse o mesmo comigo, pensou a moça, enquanto lhe vinha à mente uma ideia.

— Você pode ficar com ele, se você quiser. Eu estava mesmo procurando alguém para adotá-lo, pois no lugar para onde vou me mudar não é permitido animais — ela disse, satisfeita com sua engenhosidade.

— Está falando sério?

— Estou sim. Acho que foi o destino que fez com que nos encontrássemos hoje. E vendo como você se afeiçoou a ele e parece que foi recíproco, fico mais tranquila por o estar dando à pessoa certa.

— Tem certeza que quer fazer isso? — perguntou o rapaz, incrédulo.

— Absoluta. E pode levá-lo para casa agora mesmo — disse a moça aliviada, por ter se livrado do cão e da última lembrança do seu antigo namorado.

 

Rio Vermelho, 22 de setembro de 2020.

      

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Gosto não se discute, e ponto final!

Como não possuo um cão para levar para passear no final da tarde, levo a mim mesmo. A grande vantagem disso é que não saio fazendo pipi em postes e as necessidades na calçada. Como podem ver, sou muito bem adestrado.
Eu gosto de animais, mas nunca me ocorreu possuir um. Quando muito, teria uma galinha (dos ovos de ouro, se possível), criada solta aqui no quintal de casa, para me dar ovos frescos, para o café da manhã. Eu não levo jeito para a coisa de ser dono de um bicho, não sei conversar com eles (e nem com plantas), e a ideia de ter certas obrigações, como ir comprar ração, banhá-lo, cortar as suas unhas, escová-lo, levá-lo ao veterinário, levá-lo para passear todos os dias (ouvi dizer que são duas vezes por dia, faça sol ou chuva!), catar suas pulgas e recolher seus excrementos (isso, sem falar em seus pelos, que se espalham e flutuam pela casa, caem no prato de comida, e os comemos sem saber, e do cheiro peculiar desses adoráveis animais, que faz a casa da gente cheirar a cachorro, ou gato), não me fazem eu me orgulhar de mim mesmo e aumentar a minha autoestima.
Já me falaram que ter um animal de estimação é uma benção, uma coisa tão boa, que ele é um amigo inseparável, que faz companhia, que é afetuoso, que é fiel, que são até melhores que que os seres humanos, são tantas as vantagens – porém, onde todos veem vantagens, eu só vejo desvantagens. Pode até ser que os outros estejam certos, às vezes eu me engano, mas prefiro procurar amizade entre os seres de minha própria espécie, os Homo sapiens. Não me levem a mal, não tenho nada contra os seres humanos, apesar de suas falhas. Mas, se no dia em que eu tiver que pôr uma coleira no meu amigo Elias Gurgel, um ser humano de primeira qualidade, para sair com ele e tiver de catar as porcarias que ele for fazendo pelo meio do caminho, eu corto as relações com ele, deleto-o das minhas redes sociais e bloqueio o número de celular dele! Como podem ver, sou muito tolerante, também!
Eu, sinceramente, acho que os felizes donos de pets tornaram-se reféns da indústria da ração e dos outros pindurucalhos (eu pensava que só juízes e autoridades tinham pindurucalhos) que acompanham a propriedade de um animalzinho de estimação. Não é para menos, é difícil resistir à beleza de um saco de ração. São tão bonitos, feitos para seduzir aquele consumidor que existe dentro de cada um de nós. Alguns deles possuem fotografias em suas embalagens que parecem que saíram de um daqueles livros de receitas culinárias com ilustrações deslumbrantes que fazem a nossa boca se encher de água. Nossa, como são caras essas rações! Nem eu me dou ao luxo de gastar tanto com comida. O que houve com esses animais, evoluíram e não comem mais restos de comida, como nos meus tempos de criança?
Pois bem, como eu ia falando, no final da tarde, gosto de sair para passear e, na falta de um cão amigo, levo comigo um livro amigo, com o qual me sento num banco de madeira do mirante da Paciência e me deleito com a leitura de alguns capítulos, tendo um infinito oceano como paisagem à minha frente. Entretanto, naquela tarde, eu estava um pouco aborrecido. Alguém estivera ali algumas horas antes e desopilara os intestinos próximo ao meu banco preferido. O cheiro era desagradavelmente característico. A prova do crime era uma daquelas bem moles e cremosas, nas quais uma película se forma em sua superfície, dado a impressão de estar dura por fora, quando, na verdade, está ainda fresca e mole por dentro, de modo que quando se pisa acidentalmente num deles... Bem, você imaginar a tragédia! Fiquei revoltado por aquele odor tirar a beleza do meu momento de leitura. Felizmente a máscara que cobria a boca e o nariz, atenuava meu sofrimento.
Não demorou muito, no entanto, e chegou ao mirante uma bela jovem que parecia ter se arrumado como uma princesa para também dar um passeio naquele final de tarde. Ela tinha uma aparência fresca de alguém que acabara de tomar um bom banho. Nos braços, ela trazia um daqueles cãezinhos esquisitos de madame, de pelos lisos longos a cobrir-lhe os olhos e com uma fita presa no alto da cabeça. Deveria ser uma cadela, concluí. Quem os observasse com atenção, juraria que pareciam irmãs gêmeas. A beleza da moça até me fez esquecer do infortúnio mal cheiroso ao meu lado. Mal a linda jovem colocou seu cãozinho no chão, para que este desfrutasse da diversão que era correr para lá e para cá ao longo do mirante, o animalzinho também sentiu o mesmo cheiro que eu sentira minutos antes e que tanto me desagradara, mas sua reação foi ao contrário da minha. Ele correu em direção ao excremento e enfiou nele o focinho, devorando a iguaria, com determinação. A dona veio correndo para impedi-lo, mas aí já era tarde demais. Com a cara lambuzada, o cachorrinho parecia estar feliz da vida e satisfeito, ao contrário da dona, que fazia uma careta indignada e enojada. O passeio acabou, disse ela ao seu fiel amigo, com um tom de voz afetuoso. Pegou o animal nos braços e foi embora. E eu assistia à cena com um sorriso de maldade, ao perceber a ironia que fora aquela cena: a dona do cãozinho gastava centenas de reais com a melhor e mais cara das rações, para alimentar o seu fiel amigo, quando tudo que o pequeno animal queria era um pouco de merda humana!

Rio vermelho, 31 de julho de 2020.



quarta-feira, 6 de maio de 2020

Não é carnaval, mas todos vão à rua mascarados.

Era cinco e quarenta da tarde quando pus a máscara e saí de casa; mas não era carnaval e nem eu ia praticar um assalto. Essa máscara é uma proteção contra o vírus que vem se espalhando entre as pessoas, mundo afora, prostrando milhares e ceifando a vida de outros tantos, sem distinção de idade, classe social, poder econômico, preferência política ou sexual, cor de pele ou crença religiosa, por tanto um germe letalmente democrático. As máscaras tornaram-se tão necessárias nos dias de hoje, quanto são os calçados para a proteção dos pés, quando vamos na rua. Meu destino era uma barraca de frutas e legumes na Vila Matos, cujo proprietário, seu Roque, a mantém com esmero; dá gosto de ver a mercadoria arrumada e selecionada para a escolha dos fregueses, porém, ninguém põe os pés lá dentro, se não estiver devidamente protegido com a máscara.

No caminho ao longo do largo passeio que margeia a praia, uma situação insólita não escapou à minha observação: um rapaz alto, forte e tatuado, com o porte de um verdadeiro gorila urbano, passeava, tendo à ponta de uma correia um desses pequenos cães de madame que nunca se sabe qual dos extremos é o rabo e qual é a cabeça. O jovem passou por dois pescadores bêbados, sentados na balaustrada, e um deles lançou um olhar humorado para o pequeno animal bizarro e exclamou alto assim:

— Um rottweiler! (para quem não sabe, é um cão violento capaz de enfrentar e abater um touro.)
E o outro rebateu com o mesmo humor:

— Sim. E eu sou o Michael Jackson! 

Continuei a caminho do meu destino e, já na praia da Paciência, parei para assistir a agonia do dia. O céu tem estado da cor de chumbo nas últimas semanas, exibindo nuvens pesadas que ameaçam uma tempestade de proporções bíblicas que nunca se precipita. Mas a paisagem não era só isso, o mar adquirira uma cor fétida e agitava-se nervoso para lá e para cá, quebrando ruidosamente nas pedras e espumando como um animal hidrófobo, enquanto o vento soprava forte, silvando através das rochas, soltando uma espécie de gemido assustador, compondo um cenário de filme apocalíptico. Será que o mar fora infectado pelo tal do coronavírus, me perguntei. E, por fim, o sol passou o dia escondido, e ninguém o viu sair de cena.

Enquanto fiz aquela breve pausa para admirar a paisagem caótica à minha frente, estacionou quase ao meu lado um cidadão que me tem tomado ultimamente como seu chapa, embora o meu tratamento em relação à sua pessoa não justifique tal intimidade. Em resumo, eu jamais lhe dei a ousadia. Ele é um tipo alto, acima do peso e anda desajeitado como um ganso. Acho que não regula bem da bola. Quando me vê sentado à balaustrada, apreciando a paisagem, ele se aproxima de mansinho e fica de pé, ao meu lado, e começa a murmurar uma conversa sem sentido, cujas palavras eu mal consigo ouvir. Então interrompo aquele meu momento de contemplação e me afasto dele com alguma desculpa, e aí ele vai aporrinhar outro cristão desafortunado. Vou para outro lugar da orla – espaço é o que não falta –, a alguns metros adiante, onde espero não ser incomodado novamente. Mas, como uma sombra, o cidadão me persegue, e não demora muito, lá está ele, novamente, sussurrando ao meu lado!  Aquilo parece uma ridícula corrida de gato e rato, até que vou embora para casa. Ainda que nem todos os loucos do Rio Vermelho sejam mansos, este me parece ser um tipo inofensivo, mas quando se trata de maluco, nunca se sabe, melhor manter distância (e não votar neles!).

Depois desse dia, nuca mais o vi. Confesso que percebi a sua ausência, mas não morri de saudades, podem ter certeza. Desde então, posso admirar sossegadamente a paisagem, sem temer a presença de um estranho resmungando incoerências ao meu lado. Mas algo me incomoda com este seu sumiço, e me pergunto, preocupado: será que ele foi atacado pelo maldito vírus?


Rio vermelho, 2 de maio de 2020.
  




quinta-feira, 23 de abril de 2020

Ardil em tempos de pandemia

Nos primeiros dias do tão chamado isolamento social, por conta da pandemia causada pelo novo corona vírus, quando a recomendação das autoridades da saúde era algo ainda incerto na compreensão das pessoas, talvez pelo fato do sugerido procedimento fosse uma novidade ainda desconhecida aos cidadãos e seu efeito benéfico ainda suspeitava dúvidas, eu fazia meio isolamento.

Por conta do “fique em casa”, o largo da Mariquita, à noite, de tão animado e movimentado, se tornara um deserto desolado de pessoas. Os bares resistiam abertos, mas um ou outro gato pingado se arriscava a sentar e pedir uma cerveja, talvez por medo de ser infectado ou de desobedecer às autoridades. O mesmo acontecia com a barraca da baiana do acarajé, suas longas filas, para pagar e receber o quitute, desapareceram, não se via mosca. A barraca do cachorro quente, essa nem de fala. Os casais de namorados, que sentavam-se nos bancos de madeira ao redor do pátio do largo, foram namorar dentro de casa, provavelmente, pois decerto não deixaram de praticar tal prazerosa atividade. As crianças, que tinham no largo um verdadeiro playground, onde corriam de um lado para o outro, assistidas pelos olhos atentos dos pais, agora estavam amarradas nos apartamentos. O único ponto positivo disso foi o fim da poluição sonora, promovida pela estridente música ao vivo dos bares e grupos musicais ambulantes. Por minha vez, eu levava o meu livro e sentava-me no mesmo banco de sempre, abaixo de uma potente luminária, tendo à minha retaguarda uma grande viatura da polícia, com um pelotão de meia dúzia de homens que guardavam pela minha segurança e a do local.

Pois bem, estava eu, solitário, entretido em minha leitura, quando fui interrompido por um rapaz bem apresentado – parecia que acabara de tomar banho e vestia-se com uma bermuda azul, folgada, que lhe cobria os joelhos e uma camiseta regata vermelha; se não estivesse de sandálias, o confundiria com um jogador de basquete. Foi logo falando:

— Roubaram minha motocicleta.
Do jeito aflito com que anunciou o ocorrido, achei que o roubo acabara de acontecer.

— Pede ajuda à polícia, eles estão logo ali — sugeri, pronto para voltar à minha leitura. Apesar de eu estar numa praça, não queria conversa com ninguém; como expliquei, meu isolamento pessoal era pela metade. Ir para a praça, para ler, tudo bem, mas sem ficar perto ou conversar com ninguém. Geralmente sou bastante sociável, até sorrio para desconhecidos e os cumprimento, como se morasse numa pequena cidadezinha do interior.

— Agora é tarde demais, isso aconteceu outro dia – ele suspirou.

— Ah... — disse e voltei o olhar para a página do livro.

— Posso me sentar aqui? — perguntou, já sentando.

— Pode, sim. Mas sente no outro banco, vamos manter a tal distância social. Não queremos pegar o vírus, não é mesmo?

O rapaz sentou-se no banco que lhe indiquei, mas não desistiu de puxar conversa. Eu já imaginava que ia ouvir mais sobre sua má sorte. E, como eu previra, continuou:

— Minha mãe é que tinha razão. Ela dizia para eu não trabalhar depois das 22h, mas eu fui teimoso.

— Então foi um assalto e levaram a sua motocicleta — resumi, sem tirar os olhos do livro.

No Campo Grande. Levaram o meu instrumento de trabalho, sou moto-taxi.

Ao ouvi-lo, achei aquela situação familiar e previ que ele tentaria me dar uma mordida. Para pintar a coisa com cores mais dramáticas, ele acrescentou:

— Então minha mãe me pôs para fora de casa. Trancou a porta e foi viajar.

Mas não ficou só nisso. Contou-me que a mãe era muito severa e essa era a maneira de castigá-lo, por ele não ter dado ouvidos a ela. Lembrei-me da minha mãe, tão humana, um doce de pessoa, como todas as mães deveriam ser.

— E você está na rua desde então? — aquela história começava a ficar sinistra, não combinava com a sua aparência asseada e as roupas limpas que vestia.

— Dormindo em banco de praça. — E logo em seguida, deu o movimento pelo qual eu já esperava: 

— Me arranje um dinheiro pra eu comprar um cachorro-quente.

— Não trago nada comigo, nem o celular. Só este livro. — E não trazia mesmo.

— Ainda não comi nada hoje — lamentou-se.

— Vai lá na barraca do cachorro-quente e conte sua história — sugeri. — Talvez eles lhe vendam fiado.

— É engraçado — ele argumentou. —, quando eu fazia ponto no centro, aparecia um monte de veado me oferecendo cem reais para eu comer eles. — Fez uma pose de Mister Universo, estufando o peito, mas faltava-lhe o porte de um Arnold Schwarzenegger. Não olhava para ele, mas percebi o gesto pelo rabo do olho. — E agora que eu preciso de dinheiro, não encontro nenhum!

— A vida tem dessas ironias — filosofei. — Mas também não lhe posso ser útil nem nesse quesito.

— Não tem nem dois reais?

— Como já disse, não trouxe dinheiro e nem o celular.

Ficamos em silêncio, daqueles que incomodam. Para mim, a conversa já tinha terminado. Eu não tirava os olhos do livro, era uma história muito interessante, a do livro. O rapaz se levantou e, me desejando boa noite, afastou-se. Por minha vez, desejei-lhe boa sorte em sua procura.

Não demorou muito e ele já estava sentado em outro banco, a duzentos metros. Ao seu lado havia outro incauto, talvez ele tenha mais sorte com esse, pensei. De onde eu estava, era impossível ouvi-los, mas podia jurar que ele recontava a sua trágica história e oferecia os seus favores por cem módicos reais – talvez até com um desconto promocional de pandemia. Enquanto o outro prestava atenção, compartilhava com o desventurado seu saco de pipocas. Provavelmente foi no momento que aquele falou que estava à procura de um veado generoso, que o outro se levantou e foi embora, deixando o mal logrado rapaz ficar com o saco de pipocas.
O diabo dessa pandemia não está fácil pra ninguém!

Rio vermelho, 20 de abril de 2020.






segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Ciúme desmedido.

É de consenso comum que ciúme é um sentimento que, muitas vezes, extrapola o bom senso. É um fator humano ter ciúme, e se você diz que não é uma pessoa ciumenta, está enganando a si mesma. Ou nunca realmente foi posto à prova.

O meu amigo Juliano – nome fictício para Juliano – sempre gostou de aventuras. Não me refiro a voar de asa delta-delta ao pular da cabeça do Cristo Redentor, ou pôr a cabeça dentro da boca de um leão faminto, ou pular de paraquedas sobre um campo minado, ou outras estripulias semelhantes. Mais adiante você perceberá qual tipo de aventura o Juliano se interessa. E foi justamente numa aventura dessas que ele se viu confrontado com um caso bizarro de ciúmes.

Um dia Juliano abandonou o curso na faculdade e resolveu correr o Velho Mundo. Quem vê assim, pensa que ele estava nadando em dinheiro. Não tinha um puto, como diria a Madre Superiora. Pegou dinheiro emprestado com um tio rico aposentado e caiu no mundo.

Juliano era um cara bonito, de pele morena, curtida na praia do Porto da Barra. Cabelos negros como as asas da graúna – José de Alencar que me perdoe o empréstimo – e feições finas como as de um príncipe hindu. Muito gentil e de conversa fácil, poliglota – graças à contínua prática do namoro com gringas em visita à cidade –, não teve dificuldade em fazer amizades por onde passasse, e pelas mais belas moças europeias foi hospedado em seus leitos, e ele soube retribuir ardorosamente a generosa hospitalidade.

Juliano gostava de dançar e, certa noite, numa boate em Estocolmo, conheceu um belo casal. A mulher era de uma beleza escandinava só vista em propaganda de shampoo. O cara era um daqueles tipos altos, magros, simpáticos, com um sorriso bobão. O casal ficou encantado com o estrangeiro.

— Sempre desejei ver minha mulher ser comida por um verdadeiro amante latino – confidenciou o sueco, sob o olhar fingidamente tímido e virginal da esposa.

— E eu sou o gênio da lâmpada – disse Juliano encantado com a proposta. – Que o seu desejo seja realizado!

Viu, é desse tipo de aventura que eu estava falando.

Meia hora depois, o couro comeu no lar dos Larssons. Naquela noite, Juliano estava embebido de um verdadeiro espírito patriótico e se sentiu no dever de representar bem o seu país. Jogou duro, por assim dizer. Rolou sexo, drogas e rock ‘n’roll, mas não necessariamente nesta ordem.

Depois do primeiro round, Juliano foi até a sala do casal repor as energias, enquanto fumava um baseado – mais uma cortesia dos Larssons  – e bebia uma dose de ‘aquavita’. Ficou encantado ao ver uma estante abarrotada com centenas de discos de vinil. Que magnífica coleção, regozijou. Estava metodicamente organizada em ordem alfabética, por nome do músico ou banda. Escolheu um Jimi Hendrix e o pôs para tocar na vitrola retrô. Mal os acordes da guitarra do gênio musical se fizeram ouvidos, Gunnar – o sueco de sorriso bobão – apareceu enfurecido na sala de sua casa, vestido como veio ao mundo. Gritava, ao mesmo tempo que agitava os longos, brancos, finos braços, dominado por um verdadeiro um chilique.

— Cara, você pode fumar meu baseado, beber da minha birita, comer a minha mulher, mas não toque nos meus vinis!

Já viu que cara mais ciumento?!


Rio Vermelho, 12 de janeiro de 2020.

Nota: Incentive o trabalho do escritor, deixando um comentário. Obrigado!



quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A hóstia imperfeita

Ela tinha obsessão por perfeição. E quando foi morar na nova casa, no primeiro dia do ano, ficou feliz ao ver novamente a simetria de sua faixada. Era quadrada com duas janelas igualmente quadradas e uma porta de duas bandas no meio. As paredes eram impecavelmente brancas e iria mantê-las assim, resolveu não pendurar nem mesmo um calendário. Havia um pequeno jardim na frente, ou melhor, um gramado bem cuidado. Nos fundos, o quintal era maior do que poderia desejar, ainda não tinha ideia do que fazer com ele. A casa era um pouco grande para ela, que só tinha a companhia de um gato, mas ela preferia assim. Um cão aproveitaria melhor o espaço do quintal, gostavam de correr e cavar, mas gato era animal de ficar dentro de casa, e o dela reencontrou o seu lugar embaixo de uma antiga cadeira de palhinha. No antigo apartamento, a cadeira servia de abrigo para ele, e não foi diferente na nova moradia. Defronte da casa havia uma igreja e isto deu a ela o que pensar.

Quando foi a última vez que fui a uma missa?, se perguntou. Porém não encontrou resposta. Já fazia tanto tempo... Estava começando uma vida nova e talvez reencontrar-se com Deus fosse uma ótima mudança. Estava resolvido, iria todos os domingos à missa. Era só atravessar a rua. Aquela seria uma de suas resoluções do novo ano que começava.

Passou o resto da semana arrumando a casa, colocando as coisas no lugar, ao seu jeito. Depois que terminou, fez uma rápida faxina e deu-se por satisfeita. No domingo, acordou cedo, fez o café e tomou-o na mesa da cozinha, ao lado da janela que dava para o quintal. Os pássaros cantavam e se amontoaram em volta de uma casca de mamão posta sobre uma banqueta. Quando, no apartamento no centro da cidade, recebera tão ilustres visitas?, se perguntou. Jamais.

Depois de tomar o café, apressou-se para não chegar atrasada à missa. Era a primeira missa do ano e a igreja estava cheia. Mesmo assim, encontrou um lugar na ponta de um banco. Logo em seguida, a missa começou.

Ficou feliz de se lembrar de todas as rezas e lhe pareceu que a missa continuava do mesmo modo como se lembrava, apesar de que hoje em dia o repertório de músicas era mais moderno. As músicas eram bonitas e iria memorizá-las para a próxima missa.

Quando chegou a vez da Comunhão, aquele momento em que se vai para uma fila, com uma expressão contrita, e abre-se a boca diante do sacerdote, para receber a hóstia. Ela levantou-se e foi tomar um lugar na fila. Quando chegou a sua vez, no momento em que o padre pegou uma hóstia, ela percebeu que algo não estava de seu agrado. A hóstia estava rachada ao meio, porém ainda inteira, e faltava-lhe um imperceptível pedaço. Aquela imperfeição a incomodou. Tentou não dar importância, mas foi-lhe impossível. A boca, que estava aberta para recebê-la, se fechou abruptamente, para surpresa do padre que não compreendeu o gesto.

— Será que o senhor poderia trocar esta hóstia por uma que esteja... inteira? – ela perguntou ao padre, desconcertada.

— Minha filha, você fez a Primeira Comunhão? – perguntou o padre, com um olhar severo.
— Não – ela respondeu, constrangida.

— Então volte para o seu lugar e depois teremos uma conversa séria – disse o padre, negando-lhe a hóstia.

Sentindo-se humilhada, ela voltou para o banco e ficou cabisbaixa o resto da missa. Podia sentir o peso dos olhares dos outros fiéis sobre ela. Mas era só trocar a hóstia, recriminava o padre. Depois daquele domingo, nunca mais voltou à missa.


Rio Vermelho, 1 de janeiro de 2020.


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domingo, 29 de dezembro de 2019

Perdidos na noite

Mais uma vez, fui ao caruru de Santa Bárbara, no bar de Ana – não lembro que nome tem ou se tem nome o estabelecimento. –, na Almirante Barroso. Aquele que tem uma placa à entrada, com a seguinte frase: Traga a carne que o churrasco é de graça. Desta vez havia uma nova placa, presa em frente ao balcão, com uma frase igualmente espirituosa: Aki a tristeza pula de alegria. Já escrevi sobre este caruru em 2017, com o título “Nem tudo está perdido”.

Mas esta história é outra. A própria Ana fez o meu prato, uma pequena gamela de cerâmica popular, comprada na feira de São Joaquim, provavelmente o quiabo, o camarão seco, a castanha de caju, o amendoim torrado, o milho de pipoca, a farinha, a galinha, o dendê e todos os demais ingredientes necessário para produzir essa oferenda gastronômica vieram de lá, porque é de conhecimento geral do baiano que é neste mercado popular onde se compra mais barato.

Depois de comer, por educação, não deixo um grão no prato, não tive fôlego nem para conversar. Eu estava empanzinado, me sentia enorme. Ana me fizera um prato de estivador. Não costumo comer tanto assim, ainda mais de noite, e comida pesada. Se eu fosse para casa dormir, daquele jeito, ia ter um pesadelo. Já basta os que tenho durante o dia, de olhos bem abertos. Então resolvi aproveitar a noite fresca, para dar uma caminhada no calçadão da praia. Dizem que andar faz bem à digestão, estava na hora de verificar a veracidade da informação. Desci a Almirante Barroso e fui dar de cara com o mirante da Paciência. O lugar estava ermo, à exceção de um casal de namorados, alheios ao mundo ao seu redor, que fazia osadia, de pé, escorados num canto. Então segui em direção à quadra de futebol.

A rua estava deserta, e eu só ouvia a maré batendo nas pedras como um chamado do mar. Notei a figura de um homem vindo em minha direção. Eu o reconhecera. Ele já me abordara antes, naquela tarde e em outras ocasiões. Parei por tempo o suficiente para respondê-lo.

— O senhor me dá alguma esmola? – perguntou, com a mesma cantilena de sempre.

— Não trago um tostão comigo – respondi, com a minha cantilena.

— Uma moeda também não tem – insistiu.

— Também não.

— Vinte e cinco centavos?

— Não tenho nada, senhor.

— E cartão?

Balancei a cabeça, em resposta. Me perguntei se ele seria um mendigo que tinha aquelas maquininhas de pagamento e recebia esmolas no cartão de crédito ou débito. Sinal dos tempos. Quem não se moderniza fica para trás.

Segui meu caminho. Eu ia sem pressa. Estava sozinho, mas jamais me sinto solitário em minha companhia. Vez por outra, sentava na balaustrada, para curtir a brisa da noite e ver o tempo passar. Nesse ritmo, cheguei na praça ao lado da Igreja de Santana, onde uma turma costuma brincar de skate, fumar maconha, pichar o que foi repintado e depredar bancos e lixeiras ao fazer manobras de skate sobre eles. Já gostei de sentar ali. Hoje não sento mais, até porque, dos cinco bancos que existiam, só sobrou um, que não tem mais assento. Ali, sou abordado mais uma vez pelo mesmo pedinte, repetindo o mesmo roteiro de perguntas: Esmola? Moeda? Vinte e cinco centavos. Cartão? Ele é um homem baixo e de compleição física forte. Anda depressa, e não se veste com trapos, igual aos mendigos que vejo por aqui, e também não é maluco como os outros. Esqueço dele e vou até a Mariquita.

A Mariquita é mais animada. Um bar ao lado do outro, as mesas ficam ao ar livre, cada um tocando a sua própria música ao vivo. Um deles tem uma banda de samba, outro toca MPB. O cliente tem o prazer de ouvir até cinco músicas diferentes ao mesmo tempo. Aquela fartura musical me deixa irritado. No grande pátio central, afastado dos bares, crianças brincam de bicicleta e patins. Um pai acompanha, atento, a filha dar os primeiros passos cambaleantes. Eu sento num dos bancos, ao lado de um casal de namorados. O sujeito é muito gordo e não resiste quando a vendedora de empadas passa. Compra duas para ele e uma para a namorada e logo enfia uma na boca com uma expressão de satisfação.

Olho para o relógio e já são quase onze da noite. Por hoje chega. Me levanto, decidido a ir para casa. Se for verdade o que dizem, a caminhada deve ter ajudado na digestão do caruru, andei uns três quilômetros. Atravesso o Largo da Mariquita e, na Praça Colombo, atravesso o semáforo. Na Pedro Luiz ouço uma voz logo atrás de mim: Esmola? Moeda? Vinte e cinco centavos? Cartão? Já era a terceira vez aquela noite, talvez a quarta no dia. Que sorte que eu tenho.

— O senhor gosta muito de andar, não é? – perguntou. Então ele me reconhecera, conclui.

— É bom usar as pernas, enquanto ainda funcionam – respondi sem olhar para trás.

— Mas uma esmola o senhor não tem, nem uma moeda.

— Isso mesmo. Não carrego dinheiro.

— Vai para casa?

— Sim, já esta na hora.

— O senhor mora onde?

— Moro por aqui. Boa noite. – Me despedi.

Em tributo às minhas raízes cearenses, eu ia dormir na rede, como sempre. E não me surpreenderia que em meu sonho o pedinte aparecesse. Uma esmola, moeda, vinte cinco centavos ou em cartão. Talvez este já fosse o pesadelo.


Rio Vermelho, 20 de dezembro de 2019.

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