sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Os milagrosos bolinhos da Cubana.


Salvador tem uma característica em comum com muitas cidades antigas, o fato de ter em suas tradições e seus lugares pitorescos o orgulho de seus cidadãos. Quem nunca foi pelo menos uma vez à Sorveteria da Ribeira ou tomar água de côco em Itapoã? E quem nunca ouviu falar ou provou do acarajé da Dinha ou da Cira, ou deliciou-se com o sorvete da Cubana? Temos orgulho destes lugares e apesar de muito raramente freqüentá-los é para lá que levamos um visitante de fora. São estas pequenas tradições que nos fazem amar o lugar onde moramos e chamar de lar a nossa cidade.

Estava eu, certo final de tarde nas proximidades da Praça Municipal, quando resolvi fazer um programa de turista. Fui sentar numa daquelas cadeiras de aço cromado da Sorveteria Cubana. Caso você não tenha ainda incluído Salvador em sua próxima viagem de férias, a Cubana é uma daqueles lugares tradicionais que mencionei e que você não deve deixar de ir, mas fique longe dos bolinhos!

Para ilustrar esta estória, perguntei a meu amigo Bartolo, fotógrafo documentador dos recantos, monumentos e riquezas de Salvador, (veja o Blog do Sarnelli na lista de favoritos ao lado) se teria alguma foto da Cubana. Não tinha foto alguma 'nem por acaso e nem de propósito', segundo suas próprias palavras. Falou com saudades do tempo em que namorava uma jovem moça imigrante recém chegada da Itália, quando, nas tardes de domingo, ele vestia o seu terno branco de linho e ia até o Largo da Mariquita no Rio Vermelho para pegar o bonde que o levaria ao final de linha na Praça Municipal, onde ficava a Sorveteria da Cubana 51, local muito freqüentado da época, onde as famílias iam tomar sorvetes e os namorados se encontrarem. Durante a viagem pelas entranhas da cidade, seu coração ia palpitando de ansiedade e só se acalmava depois de encontrar Paola, já sentada na Cubana com seu vestido rendado. Depois de tomarem o delicioso sorvete de tapioca com calda de chocolate, iam passear de mãos dadas, verem as novidades das vitrines da Rua Chile, local onde ficavam as lojas mais chiques da cidade, naquela época. Bons tempos aquele. Casaram-se e ainda são felizes juntos.

Não quis sorvete. Preferi dois bolinhos, adoro bolo. Os famosos bolinhos da Cubana são tão antigos quanto o estabelecimento. Trata-se de um bolinho de massa de arroz com cobertura de chocolate e castanhas picadas por cima. Supimpa! Obedecendo a tradição local, passaram-se quase dez minutos até que um garçom me atendesse e mais outros dez até que ele voltasse com o meu pedido, fiquei aliviado do local estar quase vazio! Aqui em Salvador, cardíacos e hipertensos tem vida curta, se forem impacientes. Saber esperar demoradamente para ser a tendido e servido, é uma arte que o freguês baiano é um mestre!

Comi o primeiro bolinho com prazer e em seguida o segundo, acompanhado de Guaraná Antarctica, ou Guaraná Champagne, já que estou nessa onda saudosista. Fiquei ali sentado admirando a paisagem, assistindo o sol mergulhar vermelho na Baía de Todos os Santos e desfazer-se num tapete de ouro. Os pombos da praça levantaram em revoada para dar uma volta sobre o modernoso prédio da Prefeitura e a velha Câmara Municipal. Adiante, um senhor de bermudas tirava fotos da paisagem lá em baixo. Uma gringa loira e branca feito uma salamandra era assediada por um vendedor de correntinhas de prata. Tudo parecia bem pitoresco, me senti um visitante. Paguei a conta e fui embora. Em mais de 40 anos vivendo em Salvador, aquela foi a primeira vez que fiz o programinha.

No meio da noite fui acordado com as minhas entranhas se revirando de cólicas. Algo terrível estava para acontecer. Lembrei dos bolinhos. Diabo! O que se sucedeu adiante, foi aquilo que pessoas vaidosas pagam caro num spa, e a mim só custou dois bolinhos de R$3,00 cada. Corri desesperado para o banheiro uma vez após outra. Mal deitava na cama e já lá estava de volta ao trono mais uma vez. Nestas idas e vindas devo ter posto para fora duas vezes o meu peso. Lembro que, deitado em meu catre, debilitado e suando frio, fechei os olhos e vi uma luz clara, e lá no fundo estava a minha avó, uma voz suave sussurrava a meus ouvidos "Jesus te chama! Jesus te chama!" Estive a um passo da eternidade. Quem já assistiu aquele curta-metragem brasileiro, "O homem que virou suco", pode ter uma idéia no que me transformei, e quem não o viu, pode deduzir pelo o título da fita, que é bem explicativo. Passei uma noite de agonia.

Ao amanhecer, telefonamos para o Dr. Walter, nosso grande amigo e santo protetor nessas situações de emergência. Ligamos cedo, pois ele já está habituado com a nossa inconveniência. Receitou-me um comprimido, cuja caixa guardo até hoje, no caso de outro arrebatamento, e beber muita Pepsi-cola. Imagine, a bendita afinal serve para alguma coisa! Procurei no site informações sobre suas qualidades medicinais, mas não encontrei nada a respeito. Isto devia estar num anúncio de TV, é de utilidade pública. Segui à risca as instruções médicas. Fiquei prostrado o resto do dia, indo com menos freqüência ao banheiro, até porque já tinha posto fora até a alma! No almoço, comi uma canja hospitalar feita com carinho materno e uma pêra. As peras são sempre servidas aos doentes aqui em casa. No dia seguinte, eu já estava novo em folha e mais esbelto. Pagar spa, pra que?

Duas semanas depois, eu estava numa festa conversando animado com uma querida amiga. Contei-lhe o episódio. Não imagino o porquê, era um assunto que não combinava com festa. Minha amiga ouviu meu relato silenciosamente e, no final, acrescentou.

- Quando eu trabalhava com o Pierre Verger* o ouvia sempre se queixar de constipações. Quando a coisa ficava feia, ele ia até a Cubana e comia uns bolinhos!


*Famoso fotografo e antroplogo francês que viveu nessas paragens.

PS: Ilustrei a estória com um sorvete porque tomei fobia aos bolinhos!

Salvador, 27 de novembro de 2008.

domingo, 23 de novembro de 2008

Assistindo perplexo

a existência de mais um dia.


Ganha pão

O diabo mora ao lado.


A casa vizinha foi finalmente posta para aluguel depois de mais de duas décadas trancada. E foi assim que começou o nosso calvário, o de minha família e o da vizinhança.

A primeira inquilina era uma senhora alta e magra com nariz de papagaio e pernas de seriema. Apresentou-se como advogada ao lhe dar as boas vindas. Que bom, uma vizinha advogada. Temos um famoso psiquiatra há três casas a diante e que trata dos loucos da vizinhança, incluído os daqui de casa. Um padeiro italiano de quem compramos pão integral feito na hora e baratinho. Um jardineiro plantador de hortaliças e verduras que nos presenteia com um sacolão semanalmente. Se precisarmos tomar uma injeção, a enfermeira da esquina nos aplica de graça, também é formada em teologia, portanto, uma enfermeira teologa. Tem, também, uma libanesa amante das artes culinárias árabes e que nos mima com pratinhos de quitutes que comemos até lamber os dedos. O dono do boteco da pracinha também é morador e faz o melhor caldo de camarão já provado, e onde podemos pendurar a conta para o final do mês. Estamos bem servidos, não há do que reclamar. Procuro ser sempre um vizinho cordial e prestativo. A nova vizinha foi muito simpática comigo e o prazer daquela visita morreu ali em nosso primeiro e ultimo encontro.

Uma bela manhã cedo dias após a sua chegada, naquele horário em que a preguiça insiste em nos manter colados na cama, tivemos o nosso sono perturbado por latidos vindos da casa ao lado. Ora, cachorros latem mesmo, vivem para comer muita ração e fazer sujeira. É da natureza canina. Fazer o que. Com o passar dos dias e semanas, os latidos foram se multiplicando e passaram a ocorrer a qualquer hora do dia ou da noite tirando o sossego da gente. Parecia-nos que havia mais de um cão naquela casa ao lado. O pessoal daqui de casa começou a ficar mal humorado. Os vizinhos, também. Todos moradores das redondezas que eu encontrava nas esquinas do Rio Vermelho, passaram a se queixar da cachorrada. Ninguém mais falava do assustador mensalão, das viagens do Lula ou da vilã da novela das oito. O assunto principal era os latidos dos cães da vizinha. Era um tal de chegar e sair cachorros daquela casa que ela transportava furtivamente. Evitava ser interpelada por um de nós. Era a hora que os cães ladravam mais. Certa vez eu mesmo a vi chegar carregando nos braços um cão grande desmaiado. Achei estranho. Concluímos afinal que ela não morava lá, não gostava de latidos de cachorro! Um casal de empregados cuidava deles. Ficamos especulando o que se passaria naquela casa ao lado, se era um canil, hotel de cachorros ou alguma nova forma abominação. Todos se queixavam, uns eram mais incomodados que outros, mas ninguém fazia nada a respeito. Ou melhor, uns ficavam à espera que alguém fizesse algo a respeito! Enquanto isso, eu me divertia imaginando formas de exterminar os bichinhos!

Todos os dias o tratador saia para passear com grupos de 4 cães. Voltava e saia com mais quatro. Eram todos bonitos e bem cuidados, de raça, coisa fina mesmo. Para meu espanto, informou-me que havia mais de 30 cães na casa! A advogada seriema tinha mais alguns outros imóveis alugados espalhados pela cidade, num total de mais de 300 bichos, segundo o nosso FBI. Os latidos continuavam nos aborrecendo. Alguma coisa tinha de ser feito e eu fiz. Fiz aquilo que todos esperavam que alguém fizesse. Corri um abaixo-assinado prontamente assinado por todos. Fui até a secretaria da saúde e protocolei a nossa queixa. Para minha surpresa, imediatamente a carrocinha batia na porta da vizinha para fazer uma inspeção. Ninguém respondeu, até os barulhentos cachorros se fingiram de mortos! A carrocinha foi embora prometendo voltar em breve e de fato retornou, mas voltou de redes vazias, pois mais uma vez não foram recebidos. Viriam mais uma vez, informaram, e na quarta vez, entrariam com a polícia e um mandato judicial. Achei esplêndido. Nossa vizinha não era advogada à toa, se é que algum dia o fora mesmo. Antes na quarta batida da carrocinha, ela desmontou o circo e sumiu. Um mês depois, assistindo televisão, vi sua cara indignada estampada no noticiário policial. Em outro bairro habitado por pessoas menos cordiais que as do Rio Vermelho, os vizinhos deixaram de lado a burocracia e jogaram água fervendo nos animais!

Nossa segunda nova vizinha era uma senhora com apenas uma filhinha de 12 anos de idade. Também advogada! Não ouvimos um só ruído da casa ao lado durante um mês. Ficamos felizes, a nova vizinha era silenciosa. Mas esta paz durou pouco, como verão adiante. Numa certa tarde de um quente domingo, no meio daquele cochilo preguiçoso que se segue após a ingestão descontrolada da feijoada domingueira regada na cerveja e caipirinha, tivemos o merecido sossego perturbado por uma estranha ladainha. Eram vozes e cânticos agitados e inflamados rogando por salvação divida, invocando a punição de Deus sobre os pecadores, exigindo a nossa redenção e banindo satanás da face da terra. Aquele culto barulhento entrou pela noite adentro até o último demônio ser finalmente expurgado. Não gostamos dessa nova novidade, até porque ela se repetiu no domingo seguinte e nos outros que se seguiram. Um templo evangélico mudara-se para a casa ao lado da minha! Não sou religioso e nem por isso desconsidero quem tem a sua crença. Se crianças podem ter amigos imaginários, porque não, também, os adultos?

Imaginem, quinze a vinte almas entre homens e mulheres se reuniam ruidosamente aos domingos ao lado de minha casa. Tocavam músicas evangélicas às alturas antes do culto, ministrado por um homem da voz grossa e irritada que esbravejava a plenos pulmões como se estivesse pregando em praça pública. Só conheço alguns cultos evangélicos de assisti-los pela TV, na calada da noite, no desespero para afugentar uma eventual insônia. Achei aquela cerimônia fora dos padrões. Além das falas estridentes de um enfurecido pastor, num momento do culto, todos os irmãos começavam um alarido alto e desencontrado. Depois ouvíamos pancadas que pareciam ser cabeças batendo contra a parede ou no chão. Em seguida, faziam estranhos sons com a língua, como se fossem gargarejos agudos. Enfim, a coisa enchia o recipiente, como diria meu pai e se repetia feito um disco arranhado (para aqueles que conheceram o vinil). Vizinhos faziam cara feia e queixas a mim, como se fosse eu o dono da festa. O mesmo acomodamento do episódio dos cachorros se repetia. Todos se queixavam, mas ninguém fazia nada a respeito.

Certo domingo, acordei disposto e fui à vizinha advogada evangélica. Ela estava ocupada na tarefa de lavar a garagem da casa para a cerimônia daquela tarde. Procurei usar de muito tato, cordialidade e diplomacia para tratar do espinhoso assunto. Falei-lhe que o domingo era um dia religioso e também de descanso para os que trabalham a semana toda. Informei-lhe, caso não soubesse, que o encontro que acontecia em sua casa nas tardes de domingo apesar de ser uma coisa saudável, estava incomodando o descanso da vizinhança que esta já estava descontente. Falei-lhe que ninguém esperava que ela deixasse de fazer os cultos, o que era uma mentira deslavada, mas que o fizesse com moderação. A música alta, o entusiasmo do pastor e dos irmãos e a longa duração do evento estavam além do tolerável. Se a intenção era atrair novos adeptos, ninguém aqui estava interessado. No final, disse-lhe que Deus, apesar da longeva idade, provavelmente não teria problemas auditivos e que poderia escutá-los perfeitamente num tom mais moderado de voz. Ela ouviu tudo calada. Mostrou-se surpresa, pois, segundo dissera, incluía toda a vizinhança em suas orações, etc. No final, prometeu pedir ao pastor para conter-se e terminariam mais cedo. Despedi-me e fui embora. Almocei e fui deitar na rede do jardim. O culto começou no horário e, desta vez, sem que tocassem as músicas evangélicas. O pastor, porém, falou mais alto que o de costume, provavelmente para que eu o ouvisse:

- Irmãos, o demônio esteve aqui esta manhã! (pausa dramática) Queria tomar satisfações porque estamos conversando com o Senhor!

Senti-me honrado pela deferência. Em seguida, baixou o tom de voz. Nunca mais nos incomodaram. O culto foi parar em outra vizinhança, provavelmente ao lado de sua casa!

Rio Vermelho, 22 de novembro de 2008.

domingo, 16 de novembro de 2008

A Iemanjá da discórdia.


Ao escrever sobre a 'Sereia de Copacabana', recordei de outro fato merecedor de ser contado. Todos os anos a colônia de pescadores do Rio Vermelho põe à venda a camisa oficial dos festejos do 2 de fevereiro, que é o dia de Iemanjá. Uma bonita festa na qual os saveiros vão ao alto mar em procissão, abarrotados de cestos de palha contendo oferendas à rainha das águas. São perfumes, espelhos, bijuterias, sabonetes e flores, que serão lançados na linha do horizonte, longe da praia. Naquele ano, um morador e ilustre personagem do bairro, um querido amigo de anos cuja imensa sorte já o presenteou com duas megasenas, estava participando da comissão organizadora. Não falarei seu nome, para proteger a identidade do milionário. Por sua sugestão, escolheram o nome do papai para fazer a ilustração que seria estampada na camisa. Meu pai recebeu a encomenda com muita satisfação, pois nos quase trinta e cinco anos morando no Rio Vermelho, era a primeira vez que era lembrado. Sentiu-se honrado com a escolha. Pra quem não sabe, a Iemanjá é um orixá africano, uma divindade mitológica, metade mulher e metade peixe, muito semelhante a uma sereia.

Papai pôs mãos à obra imediatamente. Muniu-se de papel e lápis, fez esboços enquanto acompanhava a novela das oito em frente à TV. No final, surgiu uma linda Iemanjá sorridente flutuando no fundo do mar, cercada de peixinhos. A aprovação aqui em casa foi geral. Os amigos e admiradores também gostaram. O desenho da sereia foi entregue e o pagamento feito de imediato. Não foi barato. É surpreendente como para fazer festa, o dinheiro sobra aqui em Salvador.

Dois dias se passaram quando, numa quente tarde de uma quinta-feira a campainha da porta toca discretamente e eu atendo. Era um grupo de três senhores sisudos. A julgar pela simplicidade de suas roupas, do rosto queimado e cortado pelo sol sob velhos chapéus de palha, concluí que eram da colônia de pescadores. O mais baixo de todos e o mais parrudo foi quem falou pelo grupo. Chamou por 'seu Floriano, o pintor'. Convidei-os a entrar gentilmente e esperar enquanto ia chamar papai. Entraram em fila indiana e ficaram de pé no meio da sala com ares de quem estava perdido, talvez fosse falta de hábito de entrar em casa tão grande, pensei. Ofereci-lhes o sofá para sentar. Sentaram, mas ainda assim não aparentavam estar à vontade. Percebi que um deles segurava um grande envelope, o mesmo onde papai colocara a Iemanjá. Quando papai era um jovem artista, andou visitando uma colônia de pescadores no Ceará. Queria documentar tudo sobre a vida dos pescadores com desenhos. Desconfiados, as pessoas o recebiam e lhe mostravam de tudo, contavam-lhe suas estórias e em troca papai desenhava seus retratos na areia. Até sair com eles numa jangada para pescar no alto mar, foi. Era jangada mesmo, cinco troncos amarrados, enorme vela de pano e a água batendo no meio das canelas.

Papai deixou os pincéis de lado e veio do atelier falar com o grupo. Achei que alguma coisa interessante estava para acontecer, fiquei por perto. Tinham vindo devolver a Iemanjá, disse constrangido e se desculpando o baixo parrudo. Os outros ficavam calados escutando. O desenho estava bonito, mas não era a Iemanjá deles. Do jeito que estava não servia. O velho Floriano cometera um sacrilégio. Queriam satisfação. A Iemanjá dos pescadores, o Orixá africano, não era negro como papai fizera com tanto gosto, até lhe colocara o nariz achatado da Margareth Menezes, em homenagem! A rainha das águas tal como era imaginada pelos pescadores era loira como a Xuxa e Carla Perez. Uma verdadeira sereia escandinava! Onde já se viu uma Iemanjá africana loura? Papai era intransigente, tive a quem puxar. Foi muito educado com os pescadores, mas não recebeu o desenho de volta, como também se recusou a fazer outro. Foi categórico, em sua recusa, jamais refaz trabalhos para agradar a cliente. O caso virou uma celeuma e foi parar no noticiário. Todo mundo falavam no assunto que acontecia às vésperas dos festejos. A curiosidade foi grande, todos queriam a camiseta da Iemanjá da discórdia, mas que nunca foi estampada. Os pescadores não desistiram ao seu direito a uma Iemanjá loura e conseguiram quem a fizesse de seu jeito. Algumas semanas depois aconteceu a festa de 2 de fevereiro, que é de longe a mais linda do calendário baiano mas ninguém mais tocou no assunto da Iemanjá negra.

Rio Vermelho, 14 de novembro de 2008.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Sereia de Copacabana


Outro dia vi o filme 'A sereia e o monge' que fez me recordar de um fato inusitado, embora nenhum deles tenha a menor correlação ou semelhança. É em engraçado como a mente da gente às vezes nos arrasta ao passado, despertada apenas por um fragmento de frase ou imagem. Este episódio se deu no Rio de Janeiro, no período em que morei provisoriamente em Copacabana, enquanto enfrentava uma dura maratona procurando um apartamento para alugar. Não era jogo fácil, acreditem. Eu visitava com um jornal as ofertas, nos fins-de-semana, e ao correr até a imobiliária para fechar o negócio, na segunda-feira, alguém já tinha chegado à minha frente. No final desta disputa, que durou seis meses, eu já conhecia a zona sul e norte como nenhum carioca!

Ao chegar em casa vindo do trabalho certa noite, tomei um banho e sai de novo para jantar, como de costume. A noite fresca e tranqüila de uma terça-feira convidava a um passeio na orla seguido de um chope antes da refeição. Depois, iria ver um filme num cinema perto de casa. Em Copacabana, o que não faltam são bons lugares para comer, além dos disputados botecos das esquinas com suas ofertas a preços módicos, sucos de frutas frescas, sanduíches e pratos feitos. Ainda assim, eu optava pelos restaurantes. Queria o conforto do ar condicionado, de sentar à mesa para ser servido por um garçom à tradicional, de jaqueta branca e gravata borboleta preta. Como eu ia quase sempre desacompanhado, e não queria esperar muito para ser servido, eu tinha o cuidado de escolher restaurantes com poucos fregueses. Como nestes lugares os garçons ficavam ociosos, eu aproveitava para puxar conversa. Barmans e motoristas de taxi também tinham sua vez. Caminhei até a Avenida Atlântica, onde fica a orla, e aportei num daqueles restaurantes do calçadão. No Rio, estes lugares são tradicionais e existem há décadas. Seus velhos garçons confundem-se com o mobiliário e por aparentarem terem inaugurado o estabelecimento, nos olham com desdém. Os restaurantes são geralmente de propriedade de portugueses, e tem em comum o fato de oferecerem exatamente o mesmo cardápio, uma longa lista de escolhas que faz agente se perder! Nesta noite, escolhi um lugar a poucas quadras de casa, sentei numa mesa ao ar livre para curtir a suave brisa do mar e pedi um chope.

Percebi que numa mesa próxima à minha estava sentada outra alma solitária que me olhava insistentemente e sorrindo com demasiada simpatia. Fiquei desconfiado, mas sorri de volta. Isto foi suficiente para lhe encorajar a vir puxar uma cadeira e sentar-se à minha mesa com seu copo de chope.

- Eu vi que o senhor estava olhando pra mim. - disse depois de acomodar-se.

A situação era justamente o oposto, mas, por delicadeza, não quis desmentir a moça. Sua voz era aguda e num tom discreto.

- A noite está agradável para tomar um chopinho no calçadão, não é mesmo? - disse por falta de coisa melhor para falar.

- O senhor está passeando no Rio? - deu um gole no chope e sorriu mais uma vez.

Seu vestido era um desses cujo tecido gruda no corpo e era estampado com grandes flores roxas e amarelas. Vestidos assim não ficam bem em cheinhas feito ela. O rosto era arredondado. Ela estava bem à vontade.

- Não. Sou morador, mesmo. Tenho cara de turista?

- Este sotaque não é daqui... - meneou com a cabeça. Parecia que queria me enfeitiçar.

Sua pele era oleosa e parda como a minha, porém um pouco mais queimada, provavelmente por costumar ir à praia. Do lado esquerdo do rosto abaixo do olho havia uma mancha mais escura. Um sinal de nascença talvez. Deveria ter a metade de minha idade.

- Isto é porque eu sou de Salvador.

- Ah! Logo vi. Baiano fala engraçado. - sorriu mais uma vez. Talvez fosse um tique nervoso. Sua mão brincava com um papelzinho de bala.

Contrastando com a pele escura, seu cabelo era longo e tingido de louro, tinha um tom pesado e artificial. O Rio é cheio de falsas louras. Uma delas estava em minha mesa lançando-me sorrisos.

- Na verdade, nem sou baiano. Nasci em Fortaleza. Moro em Salvador desde os dois anos de idade. Você é carioca?

- Sou do Pará. -fez uma pequena pausa enquanto pensava na próxima pergunta. - Trabalha com o que? - puxou a cadeira para mais próximo, para colocar o braço e apoiar a cabeça sobre a palma da mão.

Eu não me importo com perguntas pessoais. Quem pergunta é porque está curioso a meu respeito. Acho natural, ainda mais vindo de uma mulher. Como não tenho nada a esconder, respondo candidamente. Não me perguntando meus dados bancários e a senha do cartão, eu respondo qualquer coisa.

- Trabalho com viagens. - meu trabalho relacionava-se a viagens mas, era um pouco mais complicado que isto, tive preguiça de explicar.

- Adoro viajar. Já esteve no Pará? - examinava-me com seus grandes olhos castanhos e pouca maquiagem.

No geral, ela era desprovida de atrativos. Mas sabia ser agradável e simpática. Sua feiúra não lhe intimidava, ao contrário, demonstrava ser bem segura. Eu admiro pessoas que convivem bem consigo mesmas e não se deixam abater pelos padrões de beleza de revistas de moda.

- Não, nunca. E você, faz o que? - era minha vez de interrogar.

- Trabalho na noite. - respondeu naturalmente.

- Como assim? - fiquei curioso. Ela poderia ser uma pesquisadora noturna do IBGE fazendo o senso àquela hora.

- Sou garota de programa. - sorriu timidamente desviando levemente o olhar.

Achei divertida a situação. Nunca me acontecera nada igual. Agora tudo fazia sentido. Claro, eu estava na Avenida Atlântica, lugar mais democrático que há. Famílias, turistas, aposentados, vendedores ambulantes, ladrões, putas e cafetões convivem harmoniosamente desfrutando as ondas do mar e o passeio no calçadão. Alias, existe uma relação simbiótica entre turistas masculinos e prostitutas. Onde um está, o outro vai atrás.

- Que interessante. - eu realmente não sabia o que dizer. - Muito trabalho?

- Mais ou menos. A concorrência está braba.

Continuamos a conversa sobre as dificuldades do mercado. As taxas cobradas. A clientela internacional. Depois passamos a falar sobre comidas de sua região. Eu já tinha provado alguma coisa do norte num restaurante perto do escritório. Acho que comi o tacacá e o achei abominável. Sua receita leva um vegetal da floresta que deixa a língua grossa e dormente. Foi nesse instante que ela aproveitou a deixa e me perguntou.

- Você já comeu uma paraense?

- Não, nunca. - respondi surpreso.

- Não sabe o que está perdendo! - falou convencida.

Naquela noite eu só estava disposto a comer um 'peixe delícia'. É um filé de peixe da água do mar grelhado na manteiga com purê de batata e bananas empanadas. É uma delicia mesmo! Ela recebeu meu desinteresse pela oferta da iguaria paraense com humor. Talvez, ao contrário sobre o que eu dissera antes sobre o filme, a situação tinha mesmo alguma relação. Ela era a sereia e eu o monge. Depois de algum tempo de conversa jogada fora e algumas risadas, a moça, que nunca disse seu nome, levantou-se e se despediu educadamente. Saiu desfilando pelo calçadão de Copacabana balançando gentilmente os quadris e os cabelos loiros como o ouro, na esperança de enfeitiçar algum marinheiro em visita à Cidade Maravilhosa.

Rio Vermelho, 12 de novembro de 2008.