domingo, 29 de dezembro de 2019

Perdidos na noite

Mais uma vez, fui ao caruru de Santa Bárbara, no bar de Ana – não lembro que nome tem ou se tem nome o estabelecimento. –, na Almirante Barroso. Aquele que tem uma placa à entrada, com a seguinte frase: Traga a carne que o churrasco é de graça. Desta vez havia uma nova placa, presa em frente ao balcão, com uma frase igualmente espirituosa: Aki a tristeza pula de alegria. Já escrevi sobre este caruru em 2017, com o título “Nem tudo está perdido”.

Mas esta história é outra. A própria Ana fez o meu prato, uma pequena gamela de cerâmica popular, comprada na feira de São Joaquim, provavelmente o quiabo, o camarão seco, a castanha de caju, o amendoim torrado, o milho de pipoca, a farinha, a galinha, o dendê e todos os demais ingredientes necessário para produzir essa oferenda gastronômica vieram de lá, porque é de conhecimento geral do baiano que é neste mercado popular onde se compra mais barato.

Depois de comer, por educação, não deixo um grão no prato, não tive fôlego nem para conversar. Eu estava empanzinado, me sentia enorme. Ana me fizera um prato de estivador. Não costumo comer tanto assim, ainda mais de noite, e comida pesada. Se eu fosse para casa dormir, daquele jeito, ia ter um pesadelo. Já basta os que tenho durante o dia, de olhos bem abertos. Então resolvi aproveitar a noite fresca, para dar uma caminhada no calçadão da praia. Dizem que andar faz bem à digestão, estava na hora de verificar a veracidade da informação. Desci a Almirante Barroso e fui dar de cara com o mirante da Paciência. O lugar estava ermo, à exceção de um casal de namorados, alheios ao mundo ao seu redor, que fazia osadia, de pé, escorados num canto. Então segui em direção à quadra de futebol.

A rua estava deserta, e eu só ouvia a maré batendo nas pedras como um chamado do mar. Notei a figura de um homem vindo em minha direção. Eu o reconhecera. Ele já me abordara antes, naquela tarde e em outras ocasiões. Parei por tempo o suficiente para respondê-lo.

— O senhor me dá alguma esmola? – perguntou, com a mesma cantilena de sempre.

— Não trago um tostão comigo – respondi, com a minha cantilena.

— Uma moeda também não tem – insistiu.

— Também não.

— Vinte e cinco centavos?

— Não tenho nada, senhor.

— E cartão?

Balancei a cabeça, em resposta. Me perguntei se ele seria um mendigo que tinha aquelas maquininhas de pagamento e recebia esmolas no cartão de crédito ou débito. Sinal dos tempos. Quem não se moderniza fica para trás.

Segui meu caminho. Eu ia sem pressa. Estava sozinho, mas jamais me sinto solitário em minha companhia. Vez por outra, sentava na balaustrada, para curtir a brisa da noite e ver o tempo passar. Nesse ritmo, cheguei na praça ao lado da Igreja de Santana, onde uma turma costuma brincar de skate, fumar maconha, pichar o que foi repintado e depredar bancos e lixeiras ao fazer manobras de skate sobre eles. Já gostei de sentar ali. Hoje não sento mais, até porque, dos cinco bancos que existiam, só sobrou um, que não tem mais assento. Ali, sou abordado mais uma vez pelo mesmo pedinte, repetindo o mesmo roteiro de perguntas: Esmola? Moeda? Vinte e cinco centavos. Cartão? Ele é um homem baixo e de compleição física forte. Anda depressa, e não se veste com trapos, igual aos mendigos que vejo por aqui, e também não é maluco como os outros. Esqueço dele e vou até a Mariquita.

A Mariquita é mais animada. Um bar ao lado do outro, as mesas ficam ao ar livre, cada um tocando a sua própria música ao vivo. Um deles tem uma banda de samba, outro toca MPB. O cliente tem o prazer de ouvir até cinco músicas diferentes ao mesmo tempo. Aquela fartura musical me deixa irritado. No grande pátio central, afastado dos bares, crianças brincam de bicicleta e patins. Um pai acompanha, atento, a filha dar os primeiros passos cambaleantes. Eu sento num dos bancos, ao lado de um casal de namorados. O sujeito é muito gordo e não resiste quando a vendedora de empadas passa. Compra duas para ele e uma para a namorada e logo enfia uma na boca com uma expressão de satisfação.

Olho para o relógio e já são quase onze da noite. Por hoje chega. Me levanto, decidido a ir para casa. Se for verdade o que dizem, a caminhada deve ter ajudado na digestão do caruru, andei uns três quilômetros. Atravesso o Largo da Mariquita e, na Praça Colombo, atravesso o semáforo. Na Pedro Luiz ouço uma voz logo atrás de mim: Esmola? Moeda? Vinte e cinco centavos? Cartão? Já era a terceira vez aquela noite, talvez a quarta no dia. Que sorte que eu tenho.

— O senhor gosta muito de andar, não é? – perguntou. Então ele me reconhecera, conclui.

— É bom usar as pernas, enquanto ainda funcionam – respondi sem olhar para trás.

— Mas uma esmola o senhor não tem, nem uma moeda.

— Isso mesmo. Não carrego dinheiro.

— Vai para casa?

— Sim, já esta na hora.

— O senhor mora onde?

— Moro por aqui. Boa noite. – Me despedi.

Em tributo às minhas raízes cearenses, eu ia dormir na rede, como sempre. E não me surpreenderia que em meu sonho o pedinte aparecesse. Uma esmola, moeda, vinte cinco centavos ou em cartão. Talvez este já fosse o pesadelo.


Rio Vermelho, 20 de dezembro de 2019.

Nota: Incentive o trabalho do escritor, deixando um comentário. Obrigado!












quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A Velha e o anzol

Eu nunca tinha visto uma pescadora antes, muito menos uma que não recorresse à ajuda de uma vara, para fisgar incautos peixes nas águas mornas do mar do Rio Vermelho. Pescadores é o que não falta por aqui, têm aqueles de profissão, cuja pele curtida no sol e no sal lhe conferem a aparência de matusalém. E tem aqueles de ocasião, como o motorista de taxi que passa na praia de Santana e, ao ver a aglomeração de pescadores eufóricos, espalhados nas pedras da praia, tentando dar conta dos cardumes de xaréu, bonito, guaricema, dourado, sororoca, só para citar alguns, encosta o carro, tira da mala a vara e dá por encerrado o expediente do dia. Parece licença poética, mas é verdade que as marés de lua cheia trazem fartura de peixe para as águas do Rio Vermelho.

De peixe não entendo muita coisa, só sei degustá-lo, na forma moqueca, ensopado ou ao forno. Frito, também, mas não é do meu agrado. A presença de pescadores nas praias do Rio Vermelho é algo que faz parte de sua paisagem cotidiana, tal é a fartura de peixe que abunda nessas águas, desde antes da época do Descobrimento. Esse fato do nosso dia a dia não teria me chamado tanto a minha atenção, se eu não tivesse sido surpreendido pela visão de uma velhinha jogando o anzol, de pé, sobre as pedras da praia de Paciência. Para que o leitor tome conhecimento, há duas formas de se pescar com o anzol. A mais conhecida é com o uso de um anzol amarrado a uma linha de nylon que é presa a uma vara. Logo próximo ao anzol, um pedaço de chumbo ajuda a isca a cair longe e a sumir nas profundezas. A outra é um anzol preso ao nylon, sem vara, mas com a chumbada. É preciso força nos braços e conhecimento técnico para pescar desse jeito. Pois a velhinha de aparência frágil, passos incertos próprios das velhinhas, com os cabelos presos num cocó, em um vestido estampado de avozinha, arriscava-se sobre as pedras acidentadas, jogando o anzol, sob o sol abrasador de dez horas de dezembro. Ao seu lado, sobre a pedra, repousava um grande balde branco, de plástico, no qual ela esperava levar para casa o fruto de sua pescaria.

Ao presenciar aquela aventura, meu coração sentiu um aperto. Mas que coisa perigosa, transitar sobre aquelas pedras. E é preciso força para lançar o anzol sem a ajuda de uma vara, e força era o que faltava à minha heroína.  Ela jogava o anzol, mas este não ia muito longe. Fiquei assistindo aquela cena, imaginando uma forma de ajudá-la, e a única ideia que me passou foi ir até o mercado do peixe e comprar alguns quilos para presenteá-la. Mas eu, em meu gesto de bom samaritano, corria o risco de ofender o orgulho da velha, que julgava-se perfeitamente capaz de cumprir aquela tarefa. Sem poder consertar o mundo, fui me dedicar ao motivo de ter ido à praia naquela manhã. Deixei minhas coisas na areia e caí na água feito um peixe.

A água estava límpida e tépida, e o pouco vento não formava ondas. A praia parecia uma piscina de água salgada e piso de areia. De onde eu estava, dava para ver a velha que pescava. Agora era tinha um aliado, um rapaz muito magro e o dobro de sua altura. Ele emprestara à velha a sua vara. De longe, parecia uma tosca vara de bambu, mas era melhor do que pescar sem nenhuma. Fiquei imaginando se ela conseguiria pescar alguma coisa. Tão próximo assim das pedras só dava peixes miúdos que mal faziam uma farofa. Continuei na água, me esbaldando com a delicia que estava, até esqueci da velha. Só vou à praia para ficar na água e só saio de lá para ir embora. Não deito na areia, para tomar banho de sol. Prefiro banho de água. Ou fico bebendo cerveja e comendo petiscos. Eu gosto mesmo é de ficar na água, ainda que não saiba nadar.

Agora havia um segundo homem ao lado da velha. Não tinha pinta de pescador, parecia mais um chato. Usava um bermudão florido e a brancura de sua pele denunciava a sua condição de turista. Ele conversava com a velha, parecia que lhe dava conselhos de como pescar, como se ela precisasse. Depois tomava seu caminho pelas pedras e voltava para a areia, onde a esposa o aguardava debaixo do vistoso sombreiro. Não demorava muito, e lá estava ele ao lado da velha, novamente, bisbilhotando. Ele dividia seu tempo entre a esposa, na areia, e a velha, nas pedras.

Quando achei que já estava na hora de ir embora. Saí da água e peguei minhas roupas dobradas na areia. Ao passar pelo turista, que agora estava debaixo do sombreiro ao lado da esposa, pedi licença e me aproximei.

— Será que a velha consegue pegar alguma coisa? – perguntei apontando para as pedras.
— Ôxi, o balde já está quase cheio!
Bendita, seja a velha. Quem não entende nada de pescaria sou eu.


Rio Vermelho, 11 de dezembro de 2019.

Nota: Incentive o trabalho do escritor, deixando um comentário. Obrigado!


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O dois de fevereiro é dia de Iemanjá!

Ontem foi a Festa de Iemanjá, aqui no Rio Vermelho, e sobre isto surgiu uma polêmica – bem, talvez não uma polêmica, mas um abuso – quanto ao nome da tradicional festa que remonta ao início do século XX. Imaginem que a prefeitura fez o impensável, mudou o nome da festa para Festa do 2 de Fevereiro. Como se a homenagem a Iemanjá, divindade do candomblé, único motivo da festa, tivesse sua existência e importância minimizada. Isto equivale a passar a chamar o Natal de Festa do 25 de Dezembro, Nossa Aparecida de Festa do 12 de Outubro, de São João de Festa do 24 de Junho, deu para perceber? Só Deus sabe quanta sapiência precisou a prefeitura para agir desta forma. Assim mandou produzir e afixar em postes do bairro, material impresso promocional da sua Festa do 2 de Fevereiro, ilustrado com um barquinho cheio de flores e sem a imagem de Iemanjá. Mas, a pesar disso, a multidão que veio ao Rio Vermelho trazer sua oferenda para Iemanjá, ignorou a intenção da prefeitura pois para ela, o dois de fevereiro é dia de Iemanjá!

Na manhã seguinte, um garoto forte e de pele curtida pelo sol mergulhava nas piscinas que se formam nas rochas próximas à Pedra dos Pássaros, onde eu costumo me banhar cedo, quando a maré está baixa. Ele tinha na mão um saco grande, feito com uma fina rede de fibra sintética. Perguntei a ele se estava catando pinaúnas, e ele respondeu que não. E, desapontado acrescentou: “Iemanjá aceitou todos os presentes. Ano passado achei um anel de ouro que ela devolveu e cinco notas de cinquenta Reais.” Aí ele mergulhou novamente, à procura de algum presente que Iemanjá não quisesse.

Na areia da praia da Paciência, onde fui em seguida, um gari limpava a praia com a ajuda de um ancinho e de um saco de lixo. Entre frutas e flores que foram recusadas pela Rainha do Mar e que ele recolhia no saco do lixo – havia também copos descartáveis, garrafas de plásticos e outros refugos, produto gente sem consciência – ele encontrou uma garrafa de perfume. Estava fechada com tampa. Ele abriu o frasco e cheirou sua fragrância com uma expressão de prazer e de alegria infantil. Pôs a tampa de volta e colocou o frasco no bolso da calça. Se Iemanjá não quis, com certeza, a patroa em casa ia ficar feliz em ganhá-lo!

Rio Vermelho, 3 de fevereiro de 2019.


Nota: Incentive o trabalho do escritor, deixando um comentário. Obrigado!



terça-feira, 1 de janeiro de 2019

A beleza está nos olhos de quem vê

Na escola, era chamado de Sapo, pelos colegas. Mas isso foi há muito tempo há trás, no tempo que a palavra bulling ainda não tinha sido inventada e todo mundo tinha um apelido sem que isto virasse caso de polícia ou de tratamento psicológico. O Gordo geralmente era um garoto mirrado, Jacaré era porque tinha a boca grande e quando sorria todos os dentes se mostravam, Cabeção tinha a cabeça grande mesmo, e por ai vai. No caso do nosso ilustre personagem, não havia como olhar para ele e não associá-lo ao anuro. Quase não tinha pescoço, a boca estendia-se de uma orelha a outra, que eram muito miúdas. Os olhos eram esbugalhados em razão de uma deficiência glandular. As pernas e os braços eram finos e compridos demais, presos a um tronco curto demais e que carregava uma barriga saliente que era redonda e dura. Costumava usar camisas justas, e isso só piorava as coisas, pois a barriga parecia que aumentava de tamanho. Em resumo, era irremediavelmente feio como um sapo.

Mas o apelido de Sapo ficou no passado, agora ele era o doutor Sapo, quero dizer, doutor Feliciano Pastori, um famoso cirurgião plástico, responsável pela criação de centenas de narizes arrebitados, bocas carnudas, seios duros e arredondados, nádegas proeminentes – para aquelas que se queixavam de não as possuírem em quantidade suficiente antes da intervenção cirúrgica – e rostos de pele esticada como o tamborim. Era irônico que o gênio responsável pela criação de tanta beleza fosse justamente o oposto de suas criações cirúrgicas. Não havia jeito, mesmo usando roupas e sapatos de grife, relógios caros, continuava a se distinguir dos demais homens por sua feiura. – veja bem, sapos não são criaturas de aparência abominável como o escritor aqui provoca o leitor a imaginar. Eles são até criaturas simpáticas, apesar de suas características pouco estéticas. A ideia aqui é reforçar na imaginação do leitor a imagem de algo que foge aos padrões de beleza. Peço humildemente desculpas, se ofendei algum sapo aí, lendo a minha história.

E você acha que o doutor Pastori se incomodava com a ausência de predicados físicos com a qual viera ao mundo? Seu couro não cabia a sua autoconfiança e autoestima. Ele sempre foi um sujeito simpático e galanteador, ainda que fosse difícil uma mulher deixar-se seduzir apenas pelos atributos de sua personalidade, porque era difícil de encarar o resto, o homem era feio e ponto final.

Mas, como diz o batido ditado, a beleza está nos olhos de quem a vê. E foram os olhos de uma bela mulher – muito bonita mesmo, posso lhes garantir – que viu beleza no feio doutor Feliciano; talvez ela achasse que se lhe desse um beijo, ele se transformaria num belo príncipe, como nos contos de fadas, mas se isto realmente aconteceu, foi apenas em sua romântica imaginação.  Apesar das críticas das amigas, ela casou-se com ele e teve filhos que, graças a deus, pareciam-se com a mãe!

O doutor Feliciano, como eu disse antes, era um sujeito simpático e carismático – não tinha mencionado que ele também era carismático? Eu esqueci, ando meio esquecido ultimamente. –, isto lhe rendia amigos. Ele tinha uma conversa boa e, diferente da maioria dos médicos que eu conheço, sabia falar sobre outros assuntos que não apenas sobre a sua profissão. Ele animava uma roda de conversa quando fazia parte de uma.

Certa vez foi participar de um congresso internacional aqui mesmo na capital baiana. Este tipo de evento também tem a vantagem de proporcionar o reencontro de amigos da mesma profissão que, por uma questão de distância, raramente se encontram. E foi isso mesmo que aconteceu. O doutor Feliciano teve a alegria de reencontrar uma colega de escola que não via desde aquelas priscas eras e, por motivos óbvios, foi ela quem o reconheceu.

Você não mudou nada, disse ela pensando em como o amigo de infância continuava a parecer-se com um sapo. Ela também seguira a mesma carreira do doutor Feliciano; felizmente há tanta gente no mundo insatisfeita com o próprio corpo, de modo que não faltam cirurgiões plásticos para socorrê-los. O reencontro dos dois amigos foi cheio de alegria e de recordações. Havia assunto para horas seguidas de conversa. Dava para se perceber que os dois eram muito camaradas nos tempos de escola. E quando a doutora Juliana – não tinha dito como ela se chamava? Pois digo agora! –, que morava na Islândia – sempre quis conhecer este nórdico país e, enquanto isto não acontece, me satisfaço em enviar meus personagens para lá. – convidou o querido amigo de infância para jantarem juntos antes de ela partir de volta para a terra do Eyjafjallajökull, ele mostrou-se embaraçado e adiantou-se em explicar: Tenho de perguntar à minha esposa, sabe como é, ela morre de ciúmes de mim. A doutora Juliana ouviu aquela resposta sem conseguir conter a expressão de admiração, ao mesmo tempo que analisava o amigo e se perguntava: mas ciúmes de quê?

E, com esta, desejo um feliz 2019 a todos!

Rio Vermelho, 1 de janeiro de 2019.

Nota: Incentive o trabalho do escritor, deixando um comentário. Obrigado!




terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Comida de pobre em navio chique

Bartolo Sarneli (pronuncia-se bártolo) trabalhou na companhia de navegação marítima do pai, em Santos. Em suas frequentes viagens a Salvador, para visitar a família e amigos, como era de se supor, ele vinha de navio. Bartolo tinha então apenas dezoito anos; considerado um menor de idade, naquela época. Entretanto, ele carregava sempre no bolso um documento que mostrava com satisfação, e um pingo de atrevimento, próprio dos mais jovens, quando lhe barravam o caminho por causa de sua idade: era uma carta de emancipação, esta lhe conferia os mesmos direitos que um cidadão adulto. Não sei se hoje em dia ainda se usa isso, mas o fato é que Bartolo é a única pessoa que conheço que um dia foi emancipado.

Mas como eu dizia, ele viajava bastante de navio e, como era o filho do homem, recebia tratamento de primeira classe, tendo, inclusive, o privilégio de sentar-se à mesa do comandante durante as refeições e pedir ao chef da cozinha o prato que ele bem quisesse. Olha, naqueles transatlânticos se podia comer os pratos mais requintados e as bebidas mais finas, na primeira classe. Repito, Bartolo podia pedir o que quisesse, sem precisar pagar um único centavo por isto!
Certa vez, num luxuoso transatlântico a caminho de Salvador, o chef lhe perguntou à mesa o que ele gostaria de jantar naquela noite, e Bartolo lhe respondeu à queima roupa: Um espaguete ao alho e óleo!

Eu contei a vocês que Bartolo é um legítimo genovês, assim como o foi Cristóvão Colombo? Que ele sabe fazer qualquer tipo de massa e conhece segredos culinários italianos que não existem em nenhum livro? E como todo italiano que se preza, ele é um turrão? E que os seus cabelos, hoje em dia, são brancos como algodão, e que se pusessem uma longa barba nele e uma túnica vermelha e ele saísse por aí voando num trenó puxado por nove renas, seria facilmente confundido com o Papai Noel? E, para quem não sabia, tenho o prazer de informar que seu avô, Pasquale De Chirico, foi um proeminente escultor, responsável por um amplo conjunto de monumentos escultóricos em Salvador, sendo o monumento ao poeta Castro Alves, na Praça Castro Alves, e o Cristo, do Morro do Cristo, na Barra, apenas algumas de suas criações? Mas onde eu contava que ao ouvir o simplório pedido de Bartolo, o chefe francês – o quê? Não tinha dito que ele era francês? – fez uma careta de desprezo e disse assim para o emancipado: Mas seu Bartolo, espaguete ao alho e óleo é comida de pobre. Lembram que eu falei que Bartolo (pronuncia-se bártolo) e era um turrão? Pois é, não houve argumento, e o chef teve de ir fazer o espaguete ao alho e óleo do rapaz.

Quando o garçom trouxe finalmente o seu trivial espaguete ao alho e óleo, o seu característico aroma de alho torrado inundou o ambiente do restaurante de primeira classe do transatlântico, aguçando a curiosidade e as papilas gustativas dos outros passageiros que serviam-se ali de refinados pratos da culinária internacional. Quem conhece o poder do aroma do alho fritando no azeite, sabe muito bem do que estou falando. O que você tem aí, Sarneli?, perguntou um dos comensais que não se conteve de curiosidade. Outros quiseram saber também, mas não vou citar todos eles. Pois então, para finalizar esta história, no jantar da noite seguinte, o espaguete ao alho e óleo foi o prato mais pedido!

Feliz Natal a todos os meus leitores! (o quê? Eu não contei que sabia ler e escrever?)


Rio Vermelho, 25 de dezembro de 2018


Nota: Incentive o trabalho do escritor, deixando um comentário. Obrigado!



terça-feira, 20 de novembro de 2018

A Reinvenção de um Velho Otimista

Gosto de ir ao supermercado. Acho mais divertido que passear em shopping center, por exemplo, apesar de preferir passear ao ar livre, de preferência na orla da praia, onde a imensidão de água à frente me leva a imaginar sobre países distantes e modos de vida possíveis.

O supermercado é um bom ponto de encontro para amigos que moram no mesmo bairro e, também, nos dá a oportunidade de conhecer pessoas novas, inclusive arriscar um flerte com uma bela e jovem mulher empenhada em encher o carrinho com coisas supérfluas.

Em frente à gondola de produtos de limpeza, vi um senhor mais velho que eu. Talvez a minha percepção deveu-se ao fato de ele possuir uma grisalha barba de uma semana por fazer e de estar fora do prumo, isto é, sua coluna era meio torta, como se carregasse de um só lado do corpo todo o peso de sua idade.  Ele tentava se abaixar para pegar um produto na prateleira mais baixa da gondola, geralmente aquela onde estão os produtos com o menor preço. Percebi a sua dificuldade, mas não ousei dar uma de bom samaritano, para não ofendê-lo.

Continuei com minhas compras e, na gondola do leite em pó, tive a grata satisfação de encontrar um promotor de vendas de uma marca de leite que costumo consumir. Eu sempre quis fazer uma pergunta inconveniente a um cara desses e minha oportunidade tinha chegado. Perguntei-lhe por que o pacote de 800 gramas onde estava escrito Embalagem Econômica terminava saindo mais caro que se eu escolhesse levar quatro de 200 gramas. Então ele me veio com a seguinte pérola: era econômica porque o cliente não precisaria ir mais vezes ao mercado poupando-lhe combustível, era econômica porque a para se produzir aquela embalagem se gastava menos material e energia e se preservava o meio ambiente, era econômico porque blá blá blá. Veja só, nada que demonstrasse uma preocupação com bolso do freguês na hora de pagar a conta. Tamanha esperteza, explicou, tinha o aval dos órgãos governamentais fiscalizadores, responsáveis por proteger a boa fé do consumidor! Como eu sempre achei, estamos mesmo num mato sem cachorro.

Terminei indo para a fila do caixa, levando no carrinho apenas um pacote de leite em pó. Para minha surpresa, a pessoa que estava na minha frente era o velho torto da gondola de produtos de limpeza. Lancei o olhar para as suas compras e percebi que talvez ele tivesse cometido um engano ao comprar vários pacotes de leite em pó de determinada marca. Eu sabia, porque quase caí no mesmo erro. Avisei-lhe que aquele leite que ele estava levando era mais caro e que o preço mais barato que ele se orientara para fazer a sua escolha, referia-se ao produto do lado. Surpreso, ele correu até a gondola para verificar e voltou de lá com pacotes de leite da mesma marca mais barata que eu havia escolhido. Agradecido, ele olhou para o meu carrinho e viu que só havia nele um único item. “Você só tem isso para passar?” ele perguntou e eu anuí com um sonoro sim. “Passa na minha frente, então”, ele falou.

Enquanto esperávamos pela cliente que estava à nossa frente passar as suas comprar, nos engajamos numa breve conversa. Ele era paulista. Contou que tinha sido um ginecologista e, um dia, ficou cheio de meter a cara entre as pernas das mulheres. Abandonou tudo e veio morar em Salvador. Perguntei sobre a camiseta que ele vestia e onde se lia em letras vistosas e angulosas a palavra arquitetura. “Agora estudo arquitetura na faculdade”, ele explicou. E, para complementar, ele disse com entusiasmo: “Eu me descobri na arquitetura, estou adorando!”

Veja só, às vésperas de usar fraldas geriátricas e babador, ele estava se reinventando. Ao falar de sua guinada na vida, parecia rejuvenescido. Talvez tivesse uma cabeça melhor do que muitos dos seus colegas adolescentes, alguns já desencantados com as dificuldades que a vida lhes oferecia, à medida que se viam na eminência de terem de enfrentar a realidade da vida adulta.


Rio Vermelho, 20 de novembro de 2018.




terça-feira, 2 de outubro de 2018

História de um abacateiro e de um pé de lima

Certa vez houve um abacateiro aqui em casa. Ficava num esquecido e estreito pedaço de terra no pátio da frente. Porém, ninguém de casa jamais soube como ele foi parar lá, apenas nasceu e cresceu ali por conta própria e, quando nos menos esperávamos, tínhamos um abacateiro! Mas nem a escassez de terra e a negligência o impediu de se desenvolver numa árvore frondosa e generosa. Aquele abacateiro era admirado na vizinhança, pois quando chegava janeiro, era como se todas as suas folhas se transformassem em frutos, ficava tão carregado de se perguntar como era possível uma árvore dar tantos de uma só vez. E como eram formidáveis, grandes e suculentos, os nossos abacates. Era, então, a época de nos fartarmos de abacate aqui em casa, e de presentear os amigos e vizinhos com a mesma generosidade com que a árvore nos agraciava.

Infelizmente, tal maravilha da natureza não durou para sempre. Um dia, a planta começou a perder as suas cores e a exuberância, foi definhando até que se tornasse apenas em galhos secos e sem vida. Mamãe, então, mandou remover o que sobrou dele, e só nos restou a doce lembrança de um abacateiro extraordinário. Curiosamente, a morte do abacateiro ocorreu seguidamente ao falecimento do meu pai.

Anos se passaram sem que percebêssemos que outra planta crescia no mesmo lugar onde antes houvera o tal abacateiro. É claro que eu não fazia ideia de que planta era aquela, apenas cresceu e tornou-se uma árvore sem graça, de copa rala que se espalhava irregularmente para todos os lados. Possuía espinhos tão longos quanto os dedos da mão. Vez por outra, podávamos os galhos mais altos para que estes não danificassem o telhado. Às vezes, eu lembrava daquela planta tão desajeitada e lhe lançava um olhar intrigado, me perguntando se algum dia ela ia dar alguma flor ou fruto.

Até que certo dia, depois de anos de espera, notei que um pequeno fruto arredondado de casca verde se formava na ponta de um galho baixo, mas que não estava ainda desenvolvido o suficiente para ser colhido. Seria um limão? Aguardei mais algumas semanas, o colhi. Fiz com ele uma limonada que, no final, tinha sabor insosso e sem a acidez própria do limão. Era evidente que aquela árvore não era um limoeiro como eu imaginava. Então só voltei a prestar atenção nela novamente quando notei que estava carregada de frutos que se juntavam em cachos. Eram tantos que me fez recordar do antigo abacateiro. Esperei até que eles se desenvolvessem, e cresceram bonitos e graúdos que cheguei a pensar que era algum tipo de laranja cuja espécie eu desconhecia. À primeira chupada de uma fruta, descobri que eram limas!

Eu nunca vira antes limas tão grandes como aquelas. Colhi um monte delas e descobri que tínhamos uma riqueza em casa, pois as limas eram feito mel, saborosas para chupar e fazer limada. A proposito, a melhor limada, como me ensinou um amigo de origem síria, é aquela feita apenas com as suas cascas batidas com água e açúcar no liquidificador. Tal como o abacateiro, a limeira era exagerada, não apenas no tamanho da fruta, mas também na quantidade que dava a cada estação. Os galhos mais baixos que ficavam para o lado de fora da casa, no passeio, ofereciam aos passantes as limas, e não havia quem não colhesse pelo menos uma e seguisse o seu caminho com alegria no coração. Tínhamos limas de sobra para nós em casa, e para presentear à vizinhança. Mais uma vez, nos sentíamos agraciados com um milagre da natureza.

Algumas semanas atrás, no entanto, um vizinho chamou a minha atenção para o fato de que o nosso pé de lima estava morrendo. Suas folhas começavam a secar e não tardariam a despencar. Eu não havia prestado atenção naquela tragédia, pois eu andava muito ausente de casa naqueles dias, tão triste e ocupado eu estava, cuidando de minha mãezinha que padecia num leito de hospital. Três dias atrás o seu coração a traiu e aquietou-se para sempre. Ela foi em paz. Foi-se uma velhinha doce e muito querida, como os frutos daquele pé de lima, cujas folhas secas começaram a cair. E no lugar onde antes houvera um abacateiro e um pé de lima, as cinzas do papai e da mamãe serão depositados para o todo sempre.


Rio Vermelho, 28 de setembro de 2018.






sexta-feira, 18 de maio de 2018

Conversa laxante

O senhor trabalha aqui?, perguntou a moça aproximando-se da mesa onde eu me encontrava. Ela estava acanhada, percebi pelo seu esforço para parecer natural. Algumas pessoas simplesmente têm dificuldade em conversar com estranhos. Felizmente, não é este o meu caso.

Não era muito jovem. Talvez já tivesse passado dos trinta. Tinha o olhar cansado. Algumas rugas precoces já começavam a se formar no canto da boca e dos olhos. Eu já a vira outras vezes nas vizinhanças, passeando com um cachorro grande e amedrontador. O animal a arrastava pela coleira, e não se sabia quem levava quem para passear. Agora ela parecia diferente, ou melhor, eu a via mais de perto, ao conversar com ela primeira vez. Ela era mais alta e magra do que eu imaginava. Habituei-me a vê-la em trajes como se fosse para a academia. Mas desta vez, ela estava mais arrumada. Usava calça creme que delineava os quadris largos e blusa de mangas compridas branca que realçava o seu cabelo preto cheio e longo. A pele era branca como de alguém que não costuma tomar banho de sol. Havia uma excitação contida em sua voz que eu não conseguia explicar.

Não sou funcionário da casa, se é o que você está sugerindo, mas venho trabalhar aqui todo final de tarde, respondi interrompendo o que eu fazia. Tive a impressão de que aquela conversa ia se prolongar mais um pouco. Percebi na moça uma vontade de conversar. Seu olhar era agitado.

Ela estava de pé, de frente para a mesa que eu ocupava com o meu notebook. Ao lado dela, presa à parede, havia uma estante cheia de livros usados, porém em bom estado. Estávamos num café. Bem, na verdade, é uma gelateria que também serve café e possui estantes carregadas de livros.

— O senhor já leu algum desses livros? – ela apontou com um olhar para a estante ao seu lado.

— Já li um ou dois. – eu poderia dizer-lhe que sempre trago meus próprios livros para ler, mas achei aquilo presunçoso.

Ela ficou pensativa, talvez elaborando a pergunta seguinte, para manter a conversa fluindo.

— O senhor já pegou algum livro daquela casinha ao lado da igreja?

Ela se referia a uma pequena casinha de madeira suspensa sobre um pedestal de madeira, posta ali por uma ONG. A estrutura parecia uma casa para passarinhos, só diferente desta pelo fato de ter uma porta de vidro. A ideia é para que as pessoas possam compartilhar livros, pegando ou deixando ali dentro.

— Sim, já peguei uns e deixei outros. – respondi. Me senti um cidadão consciente que colabora com a cultura.

— Nossa, o senhor não acha esta ideia maravilhosa? Eu já peguei muitos livros dali. – ela disse com um entusiasmo exagerado.

Imaginei que talvez em sua casa, ela tivesse um dos meus livros que doei para o projeto. Tenho o hábito de pôr minha assinatura em meus livros, a data e o local em que o li pela primeira vez. Pensei em quão particular é este pequeno hábito.  De repente, achei estranho uma pessoa que nunca vi na vida, possuir em sua casa algo que me pertenceu, com a minha assinatura e data, como se fosse um documento histórico. Algumas pessoas gostam de registrar a sua posse escrevendo algo como “este livro pertence a...” Talvez se eu tivesse simplesmente escrito “este livro pertenceu a...” eu não teria aquela sensação de ter abandonado algo que foi meu, pelo menos durante algum tempo.

— Mas alguém levou aquela casinha dali. – ela disse com uma expressão de desapontamento.

— Eu não sabia. – respondi chateado. – Não tenho andado muito por ali ultimamente.

— Talvez alguém levou ela para fazer uma casa de cachorro.

— Sim, talvez. – só se fosse para um cachorro pequeno, eu pensei. O mais provável foi que a casinha foi vítima de puro vandalismo.

— Mas logo em frente existe uma biblioteca onde você pode pegar qualquer livro emprestado.

— Nossa, eu não sabia disso! – ela disse excitada. – Que coisa maravilhosa que o senhor está me dizendo.

Fiquei surpreso de ver que uma moradora do bairro desconhecia a existência da biblioteca. Já está ali a tantas gerações. O prédio fica em frente ao calçadão da orla onde ela passeia com frequência com seu cachorro.

Olhei para a estante de livros ao seu lado e me lembrei.

— E se você quiser pegar um dos livros daqui para levar emprestado, também é possível, e não custa nada.

— Nossa! É verdade isso? Eu não sabia. Que coisa maravilhosa! – disse em tom afetado.

— Basta escolher o livro e preencher uma ficha ali no caixa.

— Nossa, o senhor me disse tantas coisas maravilhosas que me deu vontade de ir ao banheiro. – ela exclamou, se dirigindo, logo em seguida, ao sanitário.


Rio Vermelho, 18 de maio de 2018.