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João dos Prazeres foi maquinista da Leste Brasileiro até se aposentar. Se dependesse dele, passaria o resto da vida dentro de uma locomotiva, puxando vagões de carga e passageiros mundo afora. Como ele amava ser maquinista, sentia-se um homem livre sobre os trilhos quebrando fronteiras. Desde meninote quis ser maquinista, então você pode imaginar como ele se sentia um homem realizado.
Quando a aposentadoria veio finalmente, ele não achou que isso fosse o fim do mundo, ao contrário, resolveu que também já era hora de aprender a gostar de fazer outras coisas, teria novas experiências, ainda que longe dos trilhos. Em seu primeiro dia gozando da sua nova vida, foi até a Conceição da Praia, no Comercio, e comprou uma vara de bambu novinha, alguns anzóis, linha e um molinete. Sempre quis pescar. Ali do lado da igreja de Santana, aqui no Rio Vermelho, sempre via uma turma de homens nas pedras jogando os anzóis. Não sabia manejar uma vara, mas imaginou que deveria ser mais simples que conduzir um trem. Juntou-se ao grupo. Foi bem recebido.
João morava com a esposa Maria Rita numa bela casinha em São Gonçalo. Para quem não sabe, São Gonçalo é aquela parte do Rio Vermelho que fica acima, subindo a ladeira ao lado do Colégio Medalha Milagrosa. Um lugar cheio de casinhas que lembra uma cidade do interior. Ele se orgulhava de ter de tudo em sua casa. 'Comprei tudo lá em casa pagando fiado. Adoro comprar fiado! Olhe, eu gosto é de comprar fiado.' Dizia com um largo sorriso de satisfação. João era um cara bem-apessoado e grande prosador. Seduzia as pessoas com o seu sorriso fácil e talvez fosse esse seu jeito amigável que fazia com que os comerciantes confiassem nele para fazer negócios.
'Minha ultima aquisição foi antes de eu me aposentar; comprei um sofá italiano na mão do judeu.' Disse satisfeito. 'Como é macio aquele sofá, dá vontade de sentar e não se levantar mais. Minha mulher é que fica implicando. Toda vez que me vê sentado no sofá grita da cozinha: 'Sai daí, João. Este é o sofá das visitas.' Temos outro sofá mais velho, mas é duro e desconfortável.' Deu uma risada gostosa e balançou a cabeça. 'Mas não tem jeito, todo dia eu sento lá um pouquinho. Eu chego da rua cansado, sabe, tomo aquele banho. Passo um talquinho, uma colônia, visto uma roupa limpinha e vou direto sentar no sofá novo. Não tem coisa mais gostosa do quer sentar naquele sofá pra descansar as pernas. Eu não sei do que aquele diacho é feito, mas que é macio e confortável, isso lá ele é. Minha velha quer que aquele sofá seja só pras visitas, veja se isso tem cabimento. Visita tem de sentar é em cadeira dura, pra não demorar muito na visita! Um sofá bom daqueles deixar só pras visitas, é um desproposito. Olha, eu vou ter uma conversa com minha velha, isso não está certo. Agente é que tem de gozar do sofá. Ela tem de compreender que agente merece esse prazer.'
Um dia João veio da pescaria. O sambaqui vazio. Os peixes pareciam que não gostavam de iniciantes. Puro preconceito. Ele foi lá nos fundos guardar suas coisas. Depois foi tomar seu banho, vestiu roupa limpa e foi para o dito sofá. A velha não gostou de vê-lo lá sentado, já estava perdendo a paciência com aquela insistência. João parecia criança, tinha de falar a mesma coisa todo santo dia. 'João, o que foi que eu disse? Deixa este sofá pras visitas, meu velho.' Falou docemente. Maria Rita nunca foi de levantar a voz.
Mas daquela vez o João achou que já era hora de ter aquela conversinha. Iria falar com jeito, explicar tudo direitinho, e no final ela lhe daria a razão. 'Vem cá minha velha, vamos conversar um pouquinho.' Maria Rita foi até a sala. 'Qui'é João, não tá vendo que ainda tô preparando o almoço? Fale logo, meu velho.' João continuava sentado no sofá e falou-lhe baixinho e dengoso puxando-lhe pela mão para que sentasse. 'Venha cá, sente aqui comigo. Sinta como este sofá é macio.' Maria Rita sentou-se ao seu lado desconfiada. 'Eu sei que é macio, João, por isso mesmo fica pras visitas. Eu quero que as pessoas saiam daqui com boa impressão de nossa casinha.' João colocou o forte braço ao seu redor apertando-a, como nos tempos que fazia quando namoravam na casa dos pais dela. O pai ficava na outra sala fingindo que lia o jornal e tossia vez por outra para lembrá-los que ele estava ali de olho. Ele foi alisando as costas dela. Deu-lhe um beijo no pescoço. 'Deixe disso João, eu tenho o que fazer.' João enfiou a mão entre as coxas dela e apertou-lhe a buceta. 'Uai, pare com isso João. Deixe de ósadia.' João nem dava ouvidos, parecia que o demônio tinha tomado conta dele. Foi apalpando Maria Rita e sufocando-lhe de beijos e ela, sob protestos, foi dando-se por vencida. João deitou-a no sofá italiano e comeu-la. Ele tava retado mesmo naquele dia, deu duas; uma seguida da outra. Maria Rita ficou tonta, quase não acertou o caminha de volta para a cozinha.
João chegou da rua de sua pescaria mais cedo que de costume, no dia seguinte. Cumpriu o seu ritual. Banho, roupa limpa e sofá. Maria Rita desta vez não implicou. Lembrou-se do dia anterior e calou. 'Maria Rita, chegue aqui.' Maria Rita foi. João mostrou-lhe como eles poderiam aproveitar melhor aquele sofá italiano mais do que as vistas. Mostrou a ela a outras utilidades do braço do sofá. 'Assim não, meu velho, isso ai é pecado, ui, ui! Misericórdia, mas que homem safado!' Deu uma gargalhada.
No dia seguinte, quando veio da rua, João notou uma colcha de pano bonita cobrindo o sofá. 'Minha velha, deixa o meu prato no forno que eu vou ali na pracinha jogar uma partida de dominó que os meninos estão me esperando.' Saiu depois do banho. Maria Rita ficou intrigada. No dia seguinte, João também não foi no sofá. Desta vez foi concertar a torneira do tanque que Maria Rita se queixava fazia duas semanas. Almoçou e foi se deitar. 'Será que meu velho desistiu do sofá?' Matutou Maria Rita.
No outro dia, João veio da rua com sua vara e anzóis e foi tomar seu banho. Talquinho, roupa limpa. Ao sair do quarto, Maria Rita estava sentada no sofá italiano esperando por ele. 'Meu velho, chegue aqui.' Disse com um olhar languido.
Rio Vermelho, 1º. de junho de 2010.
Todo fim de tarde, observo passar em frente à minha porta uma dama que mora num prédio aqui da vizinhança. A distinta senhora possui um par de bem cuidados poodles brancos. Parecem duas bolas de algodão redondas que de tão alvas deveriam ser estrelas em comercial de detergente em pó ou de amaciante. Para enfeita-los para o habitual passeio, cada um ganha um vistoso laço de fita vermelho em torno do pescoço. Sua proprietária também não faz por menos, emperiquita-se dos pés à cabeça e põe no alto do cocuruto um bonito laço que combina em cor com os dos cães. A cena toda é algo interessante de se ver. Tanto pela sua trivialidade como pela satisfação visível nos três companheiros em estarem juntos naquele momento especial do dia. Nada mais banal que uma dona sair com seus amiguinhos para um passeio num final de tarde, não fosse pelo fato de ela ter o cuidado de levar na mão um saco plástico com o qual vai recolhendo delicadamente as proezas que os seus animaizinhos vão deixando pelo trajeto. Um comportamento tão simples e louvável.
Não muito longe daqui, existe uma pracinha cujo esforço de alguns vizinhos, incluindo a minha pessoa, evitou que ela fosse transformada em estacionamento. Em rara demonstração de bom senso, a prefeitura deu-se por convencida, ajeitou a pracinha que ficara tantos anos em completo abandono e esquecimento. Depois da plástica a que foi submetida com sucesso, na qual foram incluídos equipamentos novos de recreação, a vizinhança aplaudiu de pé e se animou a frequenta-la nos fins de tarde. Levam a criançada ruidosa para brincar na areia, no balanço e no escorregador quando o sol está mais fresco. Tudo seria um daqueles "momentos Kodak" não fosse o fato de alguns cidadãos entenderem que o local é perfeito também para uso como latrina para cães, apesar de placas de aviso informando do contrario estarem bem à vista.
Eu fico me perguntando o que deu de errado. Por que é tão difícil obedecer às benditas placas. Talvez estes donos de cães sofram de dislexia ou apenas consideram que é uma caretice dar importância a placas educativas, pois, seus animais tem todo o direito de fazer o seu serviço sujo no mesmo espaço onde brincam inocentes crianças. Por outro lado, nenhum dos pais jamais esboçou qualquer reação de reprovação, o que me leva a crer que eles apenas não se importam.
É esta atitude de desinteresse e apatia que me intriga. Ninguém parece se importar muito com coisa alguma. Qualquer infração por maior ou menor que seja é tolerada. Embora este pareça ser um delito menor, é bem revelador de como é o cotidiano das coisas por aqui. Todo dia, praticam-se pequenos delitos como este a que me refiro e acostuma-se com isto como se fosse algo perfeitamente normal em nossa sociedade. Coisa do cotidiano. Ninguém percebe, ninguém se importa o bastante para fazer algo a respeito. É neste vazio, na apatia e descumprimento das leis que chega o aproveitador, geralmente um meliante que alcança a posição de político pelo voto universal e, como ninguém é dono de nada por aqui, ele se apossa da coisa pública em proveito próprio. Ninguém liga para ele, afinal, a política é mesmo o reduto de larápios e não há nada que se possa fazer a respeito. Eles chegaram lá e criaram leis e transformaram o sistema para poder protegê-los e manterem tudo exatamente como está.
Vivemos num país onde as leis são como novas gírias, tem umas que pegam e outras que não. Mesmo se não existisse a tal lei que proíba proprietários de cães permitirem que seus bichos façam suas necessidades em ruas e praças públicas, falta o bom senso dos mesmos em não recolhe-las. Curiosamente, algumas destas pessoas são aquelas mesmas que são tão conscientes quando defendem os direitos dos animais. Claro que não se esperam nenhum tipo de responsabilidade do animal, refiro-me ao cachorro, e nem mesmo consciência social, mesmo que alguns estudos científicos provem que alguns deles 'pensam' mais que muitos bípedes que usam o dedo opositor. São estes pequenos delitos do cotidiano que tornam o brasileiro permissivo. Muitos deles são aqueles mesmos cidadãos que não entendem porque o dinheiro do imposto não foi parar nos hospitais, escolas, estradas e segurança. Este é o resultado de um ciclo que começa nas pequenas coisas do cotidiano. Vai tomando vulto à medida que não encontra resistências e, quando nos damos conta, o pequeno delinquente já ocupou um assento cativo no parlamento. E pensar que todas estas mazelas tem origem no coco do cachorro largado no meio do caminho! Felizmente a coisa só não é pior porque há milhares de donos de cachorros como a dama que mora aqui perto, que leva à mão um saco plástico quando passeia com os seus animais e com o qual vai prevenindo que o pais se torne numa imensa montanha de excrementos.
Rio Vermelho, 08 de maio de 2010.
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Muito de nós raramente nos damos conta de que estar em um relacionamento é como jogar desconhecendo as regras do jogo; que querendo ou não, joga-se às cegas. Não há duvidas de que vivemos, agimos e reagimos uns com os outros, mas existimos a sós. Não sabemos realmente como o outro sente ou o que sente. E o mesmo se aplica sobre ele em relação a nós. É que o nosso conhecimento do efeito de nossas atitudes e comportamentos sobre o outro acontece de forma limitada e baseia-se apenas em nossas próprias experiências e em muita intuição. Apenas presumimos o que se passa no intimo do outro, o que ele pode sentir se fizermos isto ou aquilo, o que, na maioria das vezes, o fazemos com certa dose de acertos, em parte, graças ao que chamamos de empatia. Aquele que não viveu bastante corre o risco de errar mais e sofrer mais também. Isso faz parte do duro aprendizado da vida.
Não faz muito tempo, numa solitária tarde de sábado, eu perambulava pelas ruas do Rio Vermelho. Era um daqueles dias bonitos que nos chama a sair de casa para esticar as pernas numa caminhada. Algumas ruas por aqui ficam desertas e nos dão a impressão de que somos os donos da cidade, de que os passeios nos pertencem e que não faz diferença alguma se temos ou não algum dinheiro no bolso. Sinto-me seguro como se estivesse andando em minha própria casa. Ao seguir pela Rua do Canal, cruzei com um jovem casal. Instintivamente pus meus olhos sobre a moça que era um colírio de se ver. Vestia shorts jeans justo e uma camisa de malha que revelava a beleza de suas formas e me provocava bobagens na cabeça; nos pés, um par de tênis novinho. O cabelo era bem cuidado e preso com um grande laço vermelho como há muito eu não via. A moça parecia tão fresca quanto pão quente quando sai do forno. Já o rapaz, era a autoconfiança em pessoa demonstrada pelo seu desleixo. Vestia uma dessas bermudas que revelam o rego da bunda ao dar a incomoda impressão que vão cair a qualquer instante. A camisa de malha servia como um acessório de mão. Não olhei seu rosto. O corpo musculoso tatuado em excesso chamava a atenção como rabo de pavão e indicava que o seu segundo lar era alguma academia, o que justificaria as horas que ele passava em frente ao espelho se admirando. Imaginei que tantos músculos assim deveriam chegar até o interior da cabeça roubando o lugar do cérebro.
Embora eu aparente ser muito distraído, eu sei exatamente o que se passa ao meu redor. Sou capaz de interpretar uma situação sem precisar ouvir uma única palavra, ainda que, às vezes, tudo não passe de pura imaginação. Ouvi a moça, sua voz próxima ao pranto em tom de súplica, perguntar ao rapaz: "Me diz o que é que eu tenho de fazer pra você gostar de mim?" Não ouvi resposta, até porque o rapaz preferiu fazer uma expressão de enfado no rosto obtuso. Quantas vezes ele já não deveria ter ouvido aquele drama, imaginei. Continuei no meu caminho e não ouvi mais nada, mas pensei bastante sobre assunto, já que eu não estava fazendo coisa alguma.
Imaginei que ela talvez já tivesse feito de tudo ou, quem sabe até, dado de tudo. Talvez fosse este o problema, ela estava se esforçando demais. Nós humanos, somos incrivelmente estranhos, para não dizer masoquistas, ao desejarmos muito justamente aquele que nos despreza. Quanto mais somos ignorados mais desejamos a pessoa. E, tristemente, viramos as costas para aqueles que nos tratam com dignidade. Simples assim. O mundo parece que funciona ao contrário. A moça quer o amor de um cara que passa mais tempo amando a si próprio e contra quem ela não consegue competir.
Lamentei todo aquele seu sofrimento, pobrezinha, e fiquei me perguntando se ela não estaria provando do próprio veneno. Quantos pobres coitados ela já não teria tratado da mesma forma, com tamanha indiferença? Provavelmente ali não era o fim de tudo. Era apenas a rotina. Ela terminaria submetendo-se a ele como de costume. E depois, esperaria dele algum tipo de recompensa, como sempre o fizera com o próprio pai, embora este também agisse com a mesma insensibilidade. E, em seguida, ela lhe faria cobranças mais uma vez como estava fazendo naquele instante. A desiludida e apaixonada moça não sabia como terminar aquele circulo vicioso. Ele era provavelmente o seu maior vício. Eu gostaria de dizer-lhe que ela sempre poderia seguir o seu próprio caminho andando para o lado oposto ao dele, e começar tudo de novo, que a vida serve é para isto, para que agente comece tudo de novo. Segui meu caminho.
Rio Vermelho, 1º. de maio de 2010.
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Esta semana, uma querida amiga despediu-se deste mundo no meio da tempestade. Chovia muito ao ouvir a notícia pela manhã. Foi uma conversa breve e emocionada. Era coisa já esperada. Despedi-me mentalmente, recordando de momentos de nossas vidas. Há algum tempo estávamos distantes fisicamente, apesar de morarmos no mesmo Rio Vermelho, mas, nem por isso ausentes. Além de considera-la uma amiga, ela era também a mãe de amigos de infância. Uma daquelas mães que, por estar tão presentes, vira amiga dos amigos dos filhos, também. Foi uma saída de cena dramática, como, aliás, são dramáticas todas as mães. Não poderia ter sido de outro modo. Marcou em vida, e marcou na partida. Não foi vítima de nenhuma catástrofe como as que vimos estarrecidos pela TV nos últimos dias, mas de uma moléstia que por si só já é uma catástrofe. Que vem silenciosamente sem se anunciar e corroí a vítima até que ela se transforme em apenas uma sombra. Meses se passaram até o inevitável e doloroso desfecho. Enquanto isto, eu procurava os filhos para o consolo e pedir por uma boa notícia. A doença fez mais de uma vítima, enfim.
Caia uma chuva fina no final da tarde quando fui ao Cemitério dos Estrangeiros dizer o meu adeus. Ironicamente, dias antes, eu havia passado em frente ao mesmo lugar, e ao ver os seus portões trancados, me veio a sombria curiosidade de saber como era lá por dentro, embora já soubesse como são estes lugares. E lá estava eu finalmente, debaixo de uma chuva fina e intermitente, de sapatos de couro encharcados de água e mudo de palavras. Nunca sei o que dizer em momentos como este, limito-me a dar um abraço. É o melhor de calor humano que posso oferecer. Era um cemitério tão pequeno que as duas enormes mangueiras centenárias plantadas em seu terreno eram o suficiente para cobrir com suas frondosas copas toda a sua extensão. Um tapete verde e macio de musgo cobria seus troncos e heras pendiam de seus galhos como longas cordas verdes de cipós. Parecia mais um quintal, comentou um amigo. Era um lugar triste e úmido com cara de cemitério, mas estranhamente aconchegante e ultrapassado.
É doloroso despedir-se da mãe da gente, ainda mais quando se trata de uma mãe que soube honrar o significado da palavra. Uma, cujo modo de agir a cada sol, moldou os filhos em homens e mulheres de bem. O coração aperta, o choro fica sufocado, reprimido pelo espanto. Quem não gostaria de ter a mãe a vida inteira? Ou de lhe ter dito antes da partida aquelas palavras que só agora ao pé da sepultura lhe veem à mente? Ao morrer, as mães deveriam ir direto para o céu, carregadas por anjos, saírem flutuando como por um encanto mágico. Mas a realidade é bem mais dura, que nos faz fechar o seu esquife, relutantes em dizer adeus; carregar curvados o seu peso até a beirada do destino final barrento e ajudar o coveiro em seu serviço. É um ritual doloroso que não se passa procuração. Que descanse em paz. Ela se foi, ficam-se as lembranças, os ensinamentos ditos no comportamento correto e de forma despretensiosa e o privilégio de tê-la conhecido. Eu fico me perguntando o que estará fazendo agora onde estiver. Será que nos assiste e continua cuidando de nós? Ou apenas está descansando, descansando em paz?
Rio Vermelho, 16 de abril de 2010.
Já faz tempo que venho reparando o modo com que algumas pessoas repetem que andam muito ocupadas. Virou um lugar comum este hábito que ora surge como um queixume ou como apenas uma simples desculpa. Todas elas andam muito ocupadas, como se ninguém mais fizesse coisa alguma além delas. Creio que há um vírus solto no ar infectando as pessoas com esse mal que aflige desde o vagabundo que dorme debaixo da árvore aqui na porta de casa até ao presidente da república! De onde vem tanta ocupação? "Agora não posso falar, estou muito ocupado!" Disse "o muito ocupado" ao atender ao telefone. Pra que atendeu, então? Onde será que arranjou tempo pra isso?! Em conversas sociais, não se fala mais do tempo — vai chover? Não vai. Mas tá calor, é sinal que lá vem chuva. — e sim de como se anda ocupado, mas sem se especificar exatamente com o quê. Talvez porque o "com o quê" não importe tanto quanto "o como".
De tanto ouvi-las, decidi refletir melhor sobre o porquê de tanta ocupação. Deixei de lado as pessoas que andam realmente ocupadas. Estas nunca se queixam, até porque estão por demais ocupadas para tanto. Resolvi me ocupar das que se dizem ocupadas por falta do que ter melhor o que fazer. Observei que algumas pessoas apenas andam estressadas e, por isso, se consideram mais ocupadas que outras. Elas provavelmente estão associando o seu estado emocional às suas responsabilidades. Há uma clara confusão entre estresse e estar ocupado. Desde quando estar estressado e estar ocupado são o mesmo? Quem sabe elas estão neste estado de estresse porque não estão fazendo nada de tão importante quanto gostariam e, por isso, se sentem culpadas por terem a falsa impressão de estarem perdendo tempo? De tanto ouvir os amigos se gabar dos próprios feitos, por exemplo, terminam imaginando que estão perdendo alguma coisa. Não fazer nada, para alguns, é o fim do mundo. Algumas pessoas simplesmente não conseguem conviver com isto, porque não foram condicionadas para tanto. Melhor dizer que andam muito ocupadas, então.
É verdade que muitas pessoas associam a ideia de estarem ocupadas ao fato de estarem correndo de um lado para o outro, ou de estarem sempre ao telefone ou estarem com as mãos ocupadas num teclado e os olhos fixos na tela do computador. Ao contrario de toda esta demonstração óbvia de ocupação, eu lembro que trabalhei num lugar onde o fato de tirar apenas uma hora do dia para pensar e não fazer mais nada, fazia parte do serviço. "Não posso falar agora, estou no meu horário de ócio."
Minha amiga C.C. disse-me, certa vez, que geralmente as pessoas estão ocupadas com coisas inúteis. Alguém aí anda fuçando muito o Orkut?! O que ela diz pode ter um fundo de verdade, porem, levanta uma discussão sobre o sentido das coisas. O que pode ser útil para uns, parece inútil a outros, pano lá pra muita conversa de bar. Fico imaginando, porem, pessoas repetindo a si mesmas que estão ocupadas como uma forma convencerem a si mesmas que a vida está fazendo sentido. Vivemos numa época em que muitos buscam ser algum tipo de celebridade e sair do anonimato, provocado pelo inchaço das grandes metrópoles. Cada um faz o que pode para aparecer. Tatuam-se até a raiz do cabelo, pintam o cabelo de verde, modificam a própria anatomia com implantes exagerados que vão desde silicones nos seios até a colocação de chifres na testa, assumem atitudes irreverentes que chocam a sociedade, agrupam-se com seus semelhantes em de diversas formas, escrevem blogs, como eu, ou apenas dizem que andam muito ocupadas. Para estas ultimas, falta-lhes senso de humor e criatividade para curtir o momento de ócio. Elas parecem gostar de dizer que estão ocupadas. Sentem-se mais úteis, engajadas em alguma coisa importante. Fazem parte de um mundo que produz, que vai para algum lugar, mas não se sabe exatamente para onde. Querem fazer parte daquele grupo de pessoas ocupadas, sabe. "Olha, agora não posso lhe dar atenção, estou ocupado." Mas porque será que elas fazem tanta questão em dizer que vivem ocupadas? O que há de errado elas terem algum tempo dedicado a não fazer exatamente nada?
Rio Vermelho, 4 de abril de 2010.