quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Relógio Barato e a Moça de Grife

Eu gosto de relógios de espessura fina e que não pesem no braço. Destes que de tão discretos só mostram as horas e não me incomodam fazendo tic-tac. Pra quê mostrador de profundidade, se não sei nadar e tenho medo de água ou de que adianta saber quantas vezes o meu coração bate, pois por quem ele bate não é ouvido? Finalmente, depois de procurar pelas lojas encontrei um que se enquadrava ao meu gosto e ainda custava o preço de uma pizza grande. O seu mostrador era redondo com o fundo branco e no centro um par de ponteiros girava apontando para números arábicos elegantes. Ele não era de uma marca chique, pelo contrário era bem popular, mas de qualidade confiável, não era coisa de camelô. De qualquer forma, não era o tipo de relógio que as pessoas que se importam com grifes gostariam de ostentar no pulso para mostrar ao mundo que estão bem de vida.

Com o uso frequente, fui aos poucos percebendo as vantagens de possuí-lo. Certa vez eu ia num ônibus, destes que se paga mais por um pouco de conforto, quando percebi a presença de um rapaz que se aproximava pelo corredor com as mãos cheias de bugigangas. Fiquei surpreso por deixarem um vendedor ambulante entrar naquele tipo de ônibus e só me dei conta de que, na verdade, se tratava de um assaltante quando ele me mandou passar tudo. Quando lhe entreguei o relógio, no entanto, o assaltante examinou-o com desdém e o devolveu dizendo que não queria aquilo. Meu prejuízo foi pouco, pois não saio com celular e nem coloco documentos e cartões de crédito na carteira que quase sempre carrega apenas trocados, nada que dê alegria a assaltante.

Mas esta não foi a única vez que tentaram levar meu relógio que, para mim, virou motivo de satisfação possuí-lo, pois estava claro que este não era o querido dos ladrões. Outra vez tive a sorte de ser abordado novamente por um assaltante nas imediações de minha casa e como eu não tinha um celular para entregar-lhe, ele levou o relógio.  Entretanto, encontrei-o mais adiante jogado ao chão; o bandido deve ter desistido dele e me jogado uma praga!

O caso mais emblemático que envolveu o meu bom e barato relógio, no entanto, ocorreu quando uma bela moça a quem eu cortejava, finalmente cedeu aos meus convites para sair comigo. Ela caprichou na elegância, calça da Kalvin Kleine, blusa da Farme, bolça da Victor Hugo, Sapatos da Arezzo, perfume da Carlina Herrera e, como constatei mais depois da segunda garrafa de vinho – ela era difícil na queda! –, lingerie da Victoria Secret. Além de se vestir a peso de ouro, sabia recitar nomes de vinhos caros, os hotéis e restaurantes mais luxuosos de Nova Iorque a Paris e demonstrava ter domínio destes conhecimentos com tal conhecimento de causa e orgulho que até me fez bocejar de sono. E quando ela me deixava falar um pouquinho, eu percebera que ela olhava discretamente o meu relógio, talvez para não demonstrar indelicadeza consultando as horas em seu próprio pulso. A noite para mim transcorreu agradável e educativa, e quando finalmente terminamos na cama, eu sussurrava em seu delicado ouvido nomes de grife famosas que me vinham à memória enquanto fazíamos amor, com o intuito de aumentar o seu prazer.

E, no dia seguinte, como manda a etiqueta, mandei-lhe mensagens agradecendo-lhe pela noite esplendida, ao que ela correspondia com “emotions”. No entanto, os convites para um segundo encontro eram sempre recebidos por ela com entusiasmo, mas que ela educadamente os cancelava poucas horas antes e assim aconteceu sucessivamente. E finalmente enquanto eu refletia o possível motivo daquela rejeição, só me vinha na cabeça uma explicação lógica: foi o relógio barato!


Rio Vermelho, 14 de junho de 2016





quinta-feira, 26 de maio de 2016

Um Pouquinho Não Tira o Pedaço

Letícia se sentia amargamente só nos últimos dias. Nenhuma alma para conversar, trocar uma ideia. E ela, que era conversadora, se sentia no pior dos mundos. O fato é que lhe roubaram o smartphone, e isto foi pior do que se lhe tivessem levado a vida. Se o miserável do assaltante tivesse lhe metido uma bala no coração, teria lhe poupado de tanto sofrimento. Cheia de dívidas, não tinha como comprar outro aparelho tão cedo, nem um daqueles antiquados que só servem para fazer ligações telefônicas.

Milagres não existem, ou pelo menos daqueles em que cego começa a enxergar e aleijado se levanta da cadeira de rodas. Letícia acreditava em Deus, mas só teve certeza de que ele ouvira as suas preces depois que a vizinha bateu à sua porta. Tinha um telefonema urgente para ela. O investigador Queiroz, aquele mesmo que lhe comia com os olhos enquanto ela prestava a queixa do assalto, pedia que ela comparecesse à sétima naquela tarde. Ele não quis dizer o motivo por telefone, mas uma centelha de esperança acendeu no coração da moça. O mais que ela queria no mundo era ter de volta o seu smartphone já que não podia comprar um novo.

 Letícia se aprontou para ir à delegacia. Por precaução, pôs um vestido que tinha um decote capaz de lhe mostrar até o umbigo. Não que ela tivesse de intenções com o investigador, muito pelo contrário, ela detestava homens como ele que não abotoavam a camisa direito e deixavam o peito peludo à mostra, aquilo lhe parecia um sinal de desleixo e vulgaridade. Ela também não gostou dos olhares indiscretos do investigador e do seu sorriso sínico e maldoso. Mas se ela colocara um vestido tão chamativo, era porque ela estava fazendo um esforço para ser simpática com o homem que poderia trazer o seu smartphone de volta.

— O senhor queria falar comigo? – perguntou Letícia aproximando-se do balcão da delegacia.

— Venha aqui até à minha sala. – ele ordenou com um sorriso enigmático no canto da boca. Seus olhos colaram nos peitos fartos da moça que pareciam querer saltar fora do decote generoso.

— E porque não podemos conversar aqui mesmo no balcão? – ela perguntou desconfiada, percebendo que acertara na escolha do vestido.

— É uma conversa particular sobre o seu caso. Venha logo que estou muito ocupado.

Letícia o seguiu pelo estreito labirinto de corredores até ele abrir uma porta ao lado de um bebedouro. Ela sentiu vontade de beber água, mas preferiu matar a sua sede depois quando estivesse de posse de seu aparelho, talvez até comemorasse com uma cerveja. Era uma sala apertada e mal iluminada onde só cabia uma mesa com computador e duas cadeiras além daquela onde sentava o investigador. O homem se sentou e lhe indicou com a mão uma das cadeiras. Ele ficou em silêncio observando aquela mulher à sua frente que não era nem bonita e nem feia, mas que tinha uma atitude de confiança. Seu corpo era formoso e havia em seu olhar uma expressão desafiadora que o instigava. O jeito safado de ele a escrutinar a incomodava, apesar de ela já estar acostumada àqueles olhares maliciosos masculinos, não se importava desde que o homem lhe interessasse. No entanto, ela não nutria nenhuma simpatia por aquele ali, ele era um coroa com uma barba de uma semana por fazer.

— Não vai sentar? – ele indicou mais uma vez a cadeira com uma expressão séria.
Letícia não teve alternativa a não ser puxar a cadeira e sentar-se.

— E então? – ela provocou o policial que não dizia nada e só ficava olhando para ela daquele jeito de peixe morto.

— Não encontramos o seu celular, quem o roubou deve ter passado adiante no mesmo dia. – ele disse finalmente.

— E o senhor me chamou até aqui só pra me dizer isto? Para falar a verdade, eu não tinha nenhuma esperança que a policia se desse ao trabalho. Com tantos crimes horríveis acontecendo por aí, quem é que vai dar importância a um celular, não é mesmo?

— Mas nem tudo está perdido. – ele disse abrindo a gaveta de sua mesa. – Eu tenho este aqui que encontramos com um meliante e ninguém nunca prestou queixa.

Ele mostrou o aparelho novinho em folha. Era um desses que custavam os olhos da cara, coisa de grã-fino, mesmo. Os olhos de Letícia brilharam, mas logo ela caiu na real.

— Não tenho grana nenhuma. – ela avisou.

— E quem falou em dinheiro? – o inspetor pôs o aparelho sobre a mesa para que Letícia o cobiçasse.
Letícia olhou para o policial desconfiada. Ele esbouçara aquele sorriso maliciosos que já dizia tudo.

— Vai ser um presente. – o policial disse.

— É ruim, hein? Ninguém dá presente assim sem querer algo em troca, ainda mais que nem te conheço.

— A gente sai, mais tarde, tomamos umas cervejas...

— Viu você, tu tá mal intencionado. Tá enganado, não vou pra cama com estranhos em troca de um smartphone.

— Então, a gente toma essa cerveja pra se conhecer melhor, aí não vou ser mais um estranho. – ele deu uma piscadela para ela.

— Não vem com essa...

— Bora, só um pouquinho... Você vai gostar muito e ninguém vai ficar sabendo, vai ser segredo nosso. Faz, assim, vai pra casa e pensa no assunto. Às 19 horas eu te espero na Dinha, se você aparecer eu vou ficar muito feliz e você não se arrependerá.

Letícia voltou para casa indignada. Ficou o resto do dia pensando naquela oferta descarada do investigador. Quis contar para as amigas, passar um zap para o grupo. Mas não tinha como. Ficou inquieta e deprimida. Precisava conversar com alguém, tirar aquele peso do peito. Era uma crise de abstinência de smartphone que lhe deixava louca. E aquele aparelho parecia novo em folha... Só um pouquinho, o canalha disse. Bem, ela pensou sem tirar o aparelho da mente, um pouquinho não vai tirar o meu pedaço.

Rio Vermelho, 24 de maio de 2016.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Que Passem os Velhos

O sol ardia inclemente numa manhã qualquer da semana. Ao longo da avenida que margeia o litoral, os automóveis com seus possantes motores seguiam como em procissão, um após o outro em marcha lenta quase parando. Do lado de fora o calor era de tirar o folego, mas dentro dos carros era frio e acolhedor. Ouvia-se musica ali dentro ou se conversava ao celular, qualquer coisa valia para passar o tempo.

Fazendo o caminho oposto no passeio que serpenteava ao lado do asfalto, ninguém reparou na figura frágil do octogenário que caminhava se apoiando num andador tão tosco quanto ele próprio. Ele vinha a passos de tartaruga e parava de vez em quando para retomar o folego.  Ele estava tão absorto em sua jornada, talvez muito longa por causa de seus curtos e lentos passos, que mal tomou conhecimento do congestionamento de carros ao seu lado.

O velho seguia o seu caminho solitário enquanto de pé sobre as pedras na praia, pescadores da hora jogavam o anzol na maré agitada de abril na esperança de levar uma guaricema ou sardinhas para o almoço. Mais adiante no mesmo passeio por onde ia o velho, uma equipe de quatro operários vestidos de chamativos macacões laranjas lavavam o piso com água e esfregavam com escovões. Entre o velho e os homens de laranja ainda havia muitos metros a serem conquistados pelo ancião, fora estes personagens, o passeio era um deserto de pessoas.

Para onde ia o velho àquela hora, não se sabia. Apenas podia-se especular que ele ia ou voltava de algum lugar. Seja qual fosse o seu destino, ele parecia determinado a chegar lá debaixo daquele sol escaldante, talvez porque não houvesse escolha, ele tinha de ir andando com a ajuda de um velho andador.

Quando ele finalmente estava a poucos metros da turma de operários que fazia a limpeza do passeio, eles pareceram não tomar ciência de sua presença, era como se o velho fosse um ser invisível, e talvez ele fosse mesmo para algumas pessoas. No entanto, o ancião prosseguiu em sua tosca caminhada e quando os operários perceberam que ele já estava bem próximo, interromperam o serviço. Moveram para os lados o seu equipamento de trabalho para deixar o caminho livre para que o velho passasse e aguardaram de forma solene e com paciência aquele homem que já fora tão jovem e forte quanto eles passar com seus passos incertos e vagarosos que lhes pareceu uma eternidade. O velho lhes lançou um olhar de gratidão e depois de ter finalmente passado, os homens retornaram ao serviço do ponto onde havia terminado.

Rio Vermelho, 2 de maio de 2016.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Açúcar!

Em volta do pequeno palco armado no centro do Mercado do Peixe, uma modesta multidão ia se formando. É preciso dizer que jamais um peixe foi vendido naquele lugar, e se este foi batizado com tal denominação, talvez se deva ao fato de a moderna construção ficar ao lado do mar e de uma colônia de pescadores. Talvez num passado remoto ali fosse vendido algum peixe, mas as construções que se seguiram posteriormente abrigaram bares e pequenos restaurantes populares.

Uma pequena banda composta de quatro músicos afinava instrumentos e testavam o som. De pé, vistoso, entre aquela turma, um negro do cabelo loiro e de brincos, vestindo um macacão colorido chamativo parecia ser o vocal do grupo. Ora ele falava com o baterista, ora com o percussionista ou guitarrista, e parecia alheio àquela aglomeração que se formava ao redor da banda. As pessoas assistiam silenciosas àqueles preparativos e depois de um demorado tempo, finalmente o guitarrista deu o primeiro acorde que foi acompanhado pelos outros músicos. Pronto, o show ia começar!

O som que produziam era empolgante o suficiente para dar vontade de dançar, mas ninguém na plateia, talvez por timidez, tomasse a iniciativa. Ao invés disso, os olhos fixavam-se no vocal à espera que ele começasse a cantoria. Entretanto, os instrumentistas davam o ritmo, atraindo para perto mais curiosos. E quando finalmente o vocal pegou no microfone, ele ainda levou algum tempo até dizer em tom meloso “açúcar!”. Não disse mais nada e deu alguns passos e requebrados. Despois de algum tempo em que só a banda entretinha com o seu ritmo cativante, o vocal deu o ar da graça novamente cantando ao microfone “açúcar!”

Mas ainda não foi aquela vez que ele cantou o resto da música e a plateia que tinha duplicado de tamanho dava ares de que já começava a impacientar-se. “Açúcar!”, cantou mais uma vez o negão loiro. Ele era alto e gordo e parecia mesmo ser um fã incondicional do carboidrato feito de cana. Ele foi até a frente do palco deu mais um requebrado e aproximou-se do baterista, “açúcar!”, gritou novamente.

Um rapaz na plateia, não contendo a ansiedade que aquele suspense lhe causava, soltou uma risada nervosa seguida de outra a cada vez que o cantor talentoso gritava “açúcar!”

E quando menos se esperava, o homem desceu do palco e misturou-se à multidão levando consigo o microfone e começou a cantar num ritmo latino enquanto requebrava:

“tus labios son ricos
melado de caña
tus labios son ricos
melado de caña
saben de rico panal
dulce miel azucarada”...*

E toda a plateia juntou-se a ele e começou a dançar a salsa.


Rio Vermelho, 7 de abril de 2016.

* Melado De Caña, Célia Cruz

segunda-feira, 28 de março de 2016

Encontros ao Pôr do Sol

Há pessoas têm a sorte de ter amigos muito generosos e que são empreiteiros, mas eu, menos afortunado, tenho um amigo que é um misantropo. Eu explico: apesar desta intrigante palavra evocar em nossa imaginação algum ser mitológico cujo corpo é metade humano e metade animal, não é nada disso. O misantropo é bem parecido com este meu amigo, um cara que prefere a solidão ao convívio com outras pessoas, que não tem vida social e raramente demonstra alegria pela vida. Em resumo, uma alma solitária.

Este meu amigo mora aqui no Rio Vermelho simpática casinha rodeada de plantas como se vivesse na roça e todos os dias ele se levanta ao raiar do sol e vai para cama ao desaparecer dos últimos resquícios do dia, como se a sua vida fosse regrada pelas manifestações da natureza. Curiosamente, algo provocou uma ruptura neste seu modo de ser, desde que começaram as obras de reforma na orla de nosso bairro.

No início, ele foi indiferente àquelas obras, mas à medida que as ruas da praia foram ocupadas por máquinas pesadas que escavavam e revolviam a terra noite e dia, ele tornou-se um crítico daquele desperdício de dinheiro público e, de critico, passou a ser um fiscalizador rigoroso à medida que aqueles trabalhos iam tomando forma. Durante o dia, ele visitava o canteiro de obras; curioso, questionava operários. Sempre que julgava que alguma coisa que não estava sendo feita de maneira correta, ele se manifestava aos trabalhadores ou sugeria a estes pequenas modificações no projeto. Pode-se de dizer, sem fazer injustiça, que ao final, aquela transformação pela qual passou o bairro foi um trabalho em conjunto entre a empreiteira e o meu amigo, sendo que a primeira pegou no pesado e o outro participou apenas dando palpites.

Depois que a obra da prefeitura foi finalmente concluída ao cabo de longos meses, outra mudança nos hábitos do meu amigo misantropo ocorreu. Ele passou a ir até a nova orla no final do dia para assistir o pôr do sol, quando era de seu hábito já estar se recolhendo em casa. Sentava-se num banco de madeira novo em folha posto estrategicamente de frente para o mar e ficava pensativo contemplando o final de um longo dia. Ao invés de ir dormir com as galinhas como era de seu costume, ele passou a ir para cama um pouco mais tarde, aproveitando a agradável brisa noturna do mar para dar um passeio ao longo da nova orla. Sentava-se na balaustrada para assistir as pessoas que aproveitavam aquele novo espaço para passear de bicicleta, andar de patins, de skate, jogar bola ou namorar nos bancos novos ou no gramado da encosta. Aquele prazer pela vida que aquelas pessoas demonstravam começava a contagiá-lo silenciosamente sem que ele percebesse.

No banco ao lado daquele onde ele costumava assistir o pôr do sol, certo dia, ele percebeu que também sentava uma moça com a mesma disposição. Depois que o sol desaparecia, ela ainda continuava alguns momentos admirando o horizonte manchar-se de vermelho com suas variações mescladas pelas nuvens até tornar-se um breu.

Aqueles encontros não combinados aconteciam com a mesma frequência que o sol se punha, e o meu amigo acostumou-se àquela companhia acidental. Os dois estranhos, contudo, jamais se falaram, nem nunca se cumprimentaram e se alguma vez trocaram olhares foi algo quase imperceptível. Até o dia em que o banco em que costumava sentar a moça fosse ocupado por um casal em busca de assistir o mesmo pôr do sol. Contrafeita, ela sentou-se no banco ao lado onde estava o meu amigo e, por educação, cumprimentou-o de forma impessoal, ao que ele lhe respondeu com a mesma cordialidade. Depois ficaram mudos observando atentos ao que se passava no horizonte.

No dia seguinte, o banco em que a moça costumava sentar-se estava novamente ocupado e, como na vez anterior, ela cumprimentou o meu amigo e foi sentar-se ao seu lado. Ele sentiu um pingo de satisfação com aquela novidade. Ele, que costumava chegar um pouco antes que ela, passou então a informar educadamente àqueles que ameaçavam sentar-se ao seu lado que o lugar estava reservado e indicava-lhes o banco vizinho. Aquela inocente artimanha criou na moça o hábito de sentar-se ao lado dele, mesmo que o outro banco às vezes estivesse desocupado.  O tempo foi passando e talvez os dois não tivessem percebido que, embora o sol se pusesse a cada dia mais para o ocidente em decorrência da mudança de estação, deixando, portanto, de ser visível naquele ponto onde os dois estranhos se encontravam, eles continuassem a assistir um pôr do sol que não estava mais lá. Certo dia, foi a moça quem tomou a iniciativa ao pôr delicadamente a sua mão sobre a do meu amigo. E ele retribuiu aquele gesto inesperado apertando com felicidade a mão dela entre a sua e os dois, a partir de então, nunca mais se largaram.


Rio Vermelho, 22 de março de 2016.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Pedido a Iemanjá

Dolores saiu de casa mais cedo naquela bela manhã ensolarada. Vestia-se de branco da cabeça aos pés e ainda nem era dia de Oxalá.  Antes de seguir rumo ao trabalho, no entanto, ela foi cumprir uma pequena obrigação. No caminho, cruzou com centenas pessoas pelas as ruas do Rio Vermelho que seguiam na mesma direção, alegres, carregavam à mão ramalhetes de flores perfumadas. Dolores lembrou que precisava fazer o mesmo, parou num vendedor ambulante, havia centenas deles espalhados pelas vias, e comprou um ramo de rosas brancas. Era 2 de fevereiro, dia de Iemanjá.

Ao chegar ao seu destino, ela encontrou uma longa fila que se estendia desde o abrigo que foi erguido ao lado da igreja de Santana para receber as oferendas à Iemanjá. A fila se prolongava ao longo da balaustrada sem que ninguém demonstrasse pressa ou aborrecimento por estar sob o sol forte, afinal era dia de festa no mar. Para minorar os rigores calor, Iemanjá mandou soprar uma suave brisa sobre os seus admiradores. Dolores correu para pegar o final da fila temendo que esta duplicasse de tamanho em poucos instantes.

O seu pedido a Iemanjá era o mesmo do ano passado. Ela pedia para ser agraciada com um homem, um espécimen masculino só para ela. Queria que o moço lhe aplacasse a solidão, a carência afetiva, a falta de um abraço forte e de um beijo duradouro, e balançasse as suas noites com o seu ronco estridente ao seu lado. Ela considerava o seu pedido singelo e ansiava para que daquela vez fosse atendido.

A pessoa que estava logo à sua frente na fila era um homem gordinho como ela. Ele virou-se para cumprimentá-la e o fez efusivamente. Ele demonstrou reconhece-la, apesar de ela não se lembrar dele.

— Cá estamos nós novamente, na mesma fila e no mesmo lugar, já é om terceiro ano que nos encontramos! – ele disse com um largo sorriso.

— Sim, todos os anos eu venho prestar a minha homenagem. – ela disse por dizer.

— Eu sempre faço um pedido. – ele segredou.

— Eu também. – disse com um sorriso forçado.

— Este ano eu trouxe um perfume para variar. Vamos ver se ela vai me atender.

Dolores arrependeu-se de não ter feito o mesmo. Ela sempre ofereceu flores, talvez Iemanjá desejasse algo diferente dela. Subitamente e sem motivo algum, ela passou a sentir raiva daquele rapaz de ar ingênuo. A ideia de que alguém fora mais criativo que ela a desagradou. No entanto, o pobre rapaz se desdobrava para ser simpático, afinal ele pedia à Iemanjá uma namorada e aquela poderia ser a sua chance.

Quando chegou a vez dele deixar o seu presente no balaio de oferendas, ele o fez fazendo uma pequena prece para que Iemanjá trouxesse felicidade ao seu coração solitário e ao invés de ir embora logo em seguida, ele ainda esperou por Dolores, queria lhe falar. Ele precisou juntar coragem para fazer o que estava prestes a fazer.

— Eu gostaria de manter contato, poderia me dar o seu nome para que eu a adicionasse à minha lista de amigos no Facebook?

— Desculpa, mas eu só adiciono amigos muito próximos. – ela respondeu secamente.

Ele ficou desapontado e se foi embora.

Por mais que Iemanjá tentasse atender ao pedido de Dolores, ela cegamente o recusava. Talvez ela imaginasse algum tipo de milagre ou que o seu homem viesse trazido pela maré e jogado na praia.


Rio Vermelho, 11 de fevereiro de 2016









  


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Presente de Aniversário

A moça estava feliz porque era uma linda manhã e porque era bom estar naquele estado de contentamento. Ela sentia que era possível que as coisas dessem certo apenas com um sorriso sincero e pensamentos positivos, era como se todo o universo conspirasse a seu favor. No entanto, era mais provável que o real motivo de tanta felicidade fosse o fato de ela estar apaixonada e na noite anterior o namorado a ter levado para comemorarem juntos o dia do seu aniversário. Ele a levou para jantar num restaurante chique e a presenteou com um smartphone caro, seguido de uma noite maravilhosa num hotel cinco estrelas. Naquela manhã ensolarada, ela acordou mais tarde, como era de se esperar, e foi para a faculdade tentar assistir a última aula. Durante a viagem de ônibus, ela ainda enviou uma mensagem de texto para o namorado de seu novo smartphone para lhe agradecer pela noite inesquecível e pelo presente de aniversário.

Ao começar a aula, ela percebeu que tinha sido bobagem ter ido à faculdade, porque os seus pensamentos estavam longe, nos acontecimentos da noite anterior e o seu corpo ainda continuava embriagado pelo estado de languidez que o namorado tinha deixado e que a impedia de se concentrar na aula. Cada detalhe da noite anterior se repetia em sua mente como num filme, o jantar delicioso, o vinho excelente, o presente embrulhado num papel fino com um laço cor de rosa, acompanhado de um cartão no qual ele escreveu uma poesia para ela, o resto da noite fazendo amor. Ela estava convencida de que o seu namorado era um homem maravilhoso e ela estava a cada dia mais louca por ele.

Mesmo não conseguindo prestar atenção à aula, ela ficou até o fim, perdida em recordações e, em seguida, voltou para casa planejando dormir o resto da tarde. Caminhou até o ponto de ônibus debaixo do sol abrasador, mas nem se importou porque tudo estava maravilhoso para ela. Uma pequena aglomeração de pessoas que aguardava no ponto tentava se proteger dos raios solares buscando sombra debaixo do abrigo e ela tentou arranjar um cantinho entre elas. Ela sentiu vontade de dizer mais uma vez ao namorado que o amava e resolveu enviar-lhe outra mensagem. Enquanto digitava aquele texto, um rapaz aproximou-se e pediu as horas. Ela teve a impressão de reconhecê-lo, talvez da faculdade, e sorriu para ele amistosamente, depois buscou na tela do aparelho pelas horas. E antes de ela lhe responder, ele encostou um objeto contundente entre suas costelas que lhe provocou dor e ordenou que lhe entregasse o aparelho sem fazer alarde.

Ela teve um sobressalto e conteve o gemido. Apenas deixou que o rapaz tirasse de sua mão o aparelho, pois o seu estado de choque a tinha desprovido de reação. Em seguida, ele sumiu na multidão do mesmo modo inesperado com que surgiu, e ela ficou ali, de pé, com as pernas trêmulas.
Quando o ônibus veio finalmente, o que lhe pareceu durar uma eternidade, ela correu na frente de todos e foi a primeira a entrar na condução. Seu coração ainda palpitava e ela soluçava sufocando o choro. Um senhor que estava de pé logo atrás enquanto ela pagava a passagem, percebendo o seu mal-estar perguntou se ela estava passando bem. Ao que ela respondeu que tinha acabado de ser assaltada no ponto do ônibus – em plana luz do dia e em meio à multidão. Foi quando não contendo as lágrimas, ela desabou a chorar convulsivamente. Levaram o celular que meu namorado me deu, ela disse atraindo olhares de simpatia e consternação. Alguém se levantou e ofereceu-lhe o lugar e ela sentou ainda um pouco trêmula. Em seguida, cobriu o rosto com as mãos escondendo o sofrimento e abafando o choro. Passados alguns instantes, depois de se controlar, levantou a cabeça olhando para o vazio com um olhar de desilusão e derrota.


Rio Vermelho, 24 de janeiro de 2016

sábado, 9 de janeiro de 2016

Uma Indireta

Era a hora do almoço. E a moça, pedindo licença educadamente, sentou-se à mesa trazendo uma bandeja. O restaurante comercial ainda estava vazio, por isso ela bem poderia ter escolhido qualquer uma das mesas desocupadas disponíveis, mas ela preferiu justamente aquela em que também sentava-se um belo rapaz. Este estava tão entretido com a sua comida que mal percebeu quando ela sentou-se na cadeira à sua frente.

Com uma mão, ela brincava com a comida com a ajuda do garfo e com a outra conversava ao aparelho celular. “Acho que não vou a lugar algum, – ela dizia com uma expressão de desapontamento. – não tenho companhia para ir, eu simplesmente não tenho com quem ir. Eu queria tanto ir ao show na Praça Cairú, mas não consigo encontrar nenhuma companhia. ...Nãooo, não querida, eu não consegui encontrar um homem para ir comigo, todos viajaram este final de ano.”

Conversas ao celular em locais públicos são como se confessar ao padre em transmissão em cadeia nacional, deveria ser um momento privado, mas todo mundo participa quer queira ou não. E pelo tom de voz da moça, ela parecia não ter a menor intenção de fazer daquele seu infortúnio um segredo guardado a sete chaves. O rapaz não pôde deixar de ouvir aquela história e deu uma olhada na moça pelo canto do olho, rápida o bastante para não ser percebida. A moça repetiu mais uma vez que não tinha companhia masculina para a virada do ano e lamentava ter de ficar em casa sozinha.

— Mas que coisa, – disse o rapaz ao perceber que a conversa terminou. — uma mulher tão bonita como você, da sua qualidade, deveria era estar esnobando convites.

— Pois, é. – ela disse fazendo ares de vítima.

— Se eu não fosse um homem casado e fiel à minha mulher, eu ia passar esta virada do ano com você e a gente ia se divertir muito!

— Nossa, fiquei até curiosa. – ela disse com um brilho de esperança nos olhos.

Mas o rapaz se levantou da mesa, pois já tinha terminado de comer. Desejou boa sorte à moça com um sorriso encorajador que a fez se derreter e foi embora. Ela, entretanto, não esmoreceu, estava decidida a virar o ano nos braços de um homem, qualquer um que valesse a pena. A sorte parecia que estava ao seu lado, entretanto. Mal o rapaz foi embora, outro ocupou o seu lugar cumprimentando-a educadamente.

A moça, que não desgrudava do aparelho celular, conversava novamente. “Acho que não vou a lugar algum, – ela dizia com uma expressão de desapontamento. – não tenho companhia para ir, eu simplesmente não tenho com quem ir. Eu queria tanto ir ao show na Praça Cairú, mas não consigo encontrar nenhuma companhia. ...Nãooo, não querida, eu não consegui encontrar um homem para ir comigo, todos viajaram este final de ano.”

O rapaz à sua frente tirou os olhos de seu prato e observou atentamente aquela bela moça que parecia largada no mundo. Ouviu cada palavra daquela conversa e, ao final, ele se dirigiu a ela:

— Sabe, eu trabalho na assistência técnica da marca deste seu celular e nunca tinha visto antes alguém conseguir conversar com o aparelho desligado. – ele disse com um sorriso maroto que pegou a moça de surpresa. – Mas eu aceito o seu convite para passarmos a virada de ano juntos!


Rio Vermelho, 6 de janeiro de 2016.