domingo, 24 de fevereiro de 2013

Cadê o Romantismo?

As redes sociais buscam sempre se renovar inventando novas modas que vão revolucionando os costumes conforme a boa aceitação da freguesia, e não poderia ser o contrário, pois, terminariam matando de tédio os seus milhões de já entediados usuários. A bola da vez é um programinha que encoraja seus usuários a escolher, dentre os amigos de sua lista de contatos, aqueles com quem gostaria de fazer sexo. Muito criativo, não? Se, por uma coincidência, um dos amigos escolhidos pelo usuário também o tiver incluído em sua própria lista... Bingo! Habemus Transa! “Chega de papo furado e vamos ao que interessa”, diz o slogan do dito programa. Tudo isto, no mais perfeito sigilo e discrição.

         Como ferramenta para quem busca sexo unicamente pelo sexo, ela é bem mais prática que ir de carro até o centro pegar uma prostituta, – ou prostituto – além do que, o serviço é oferecido inteiramente grátis. Precisamos admitir que já chegamos ao final dos tempos, e que há uma banalização de tudo, desde a violência física até aquela que deveria ser a mais pura manifestação de romance entre dois seres humanos. Os parceiros de sexo foram coisificados, estão substituindo o encontro olho no olho pelo desejo através da tela do computador, basta “postar” uma boa foto.

         Onde foram parar as trocas de olhares cobiçosos, disfarçados em desinteresse, as palavras gentis e elogiosas para conquistar a simpatia da pessoa que é o objeto do desejo, a paquera, a descoberta maravilhosa do outro? Este tal programa de computador ignora que a importância da corte não reside apenas em conquistar a pessoa de nosso interesse, mas de saber praticar relações pessoais de forma civilizada e dentro dos princípios de uma ética, do contrário, estaremos banalizando muito algo que tem sido a maior expressão de romantismo do homem de todos os tempos, nos igualando aos quadrupedes.

Qual jovem habitante do mundo cibernauta saberá o prazer da experiência de ser cortejada e seduzida e de ouvir uma romântica declaração de amor como a que fiz, certa vez, a uma linda mulher e jamais fui respondido? Sim, porque este jogo real do amor nos ensina, também, a lidar com as frustrações da vida cotidiana, pois nem tudo na vida é obtido de maneira tão fácil e descartável como fazer sexo com pessoas escolhidas de uma lista de um programa de computador. Vivemos numa época em que só o que vale é ter sucesso na vida e esquecemos que aprendemos muito mais com as nossas falhas.

O sucesso estrondoso deste programa vem apenas confirmar a fragilidade a que chegou as relações amorosas e que estas se tornaram efêmeras e descartáveis. O romantismo está sumindo e adquirindo feições de uma peça empoeirada de museu que muitos jovens já desconhecem a importância em suas vidas. Em vez do ser humano agregar valores superiores com os avanços da modernidade, ele se desvaloriza cada vez mais.

Rio Vermelho, 24 de fevereiro de 2013.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sobre Peitos Duros e Fartos, Um Inconveniente Bigode e Um Ato de Bravura!

Ao ler numa revista semanal a matéria sobre a nova mania nacional dos seios grandes e fartos – nós, brasileiros, outrora, sempre tivemos profunda admiração pelo derrière avantajado, – lembrei que, no passado, era costume tê-los pequenos, como uma fruta delicada à espera de ser chupada. Muitas mulheres, então, as que tinham os seios fartos graças a um capricho da natureza, cuidava de reduzi-los para que estes deixassem de ser objeto de atenção e cobiça de olhares maldosos, e, porque era feio mulher de peito grande! Para onde iriam aquela porção que fora extirpada do corpo feminino, eu me perguntava intrigado, haveria algum banco de peitos que os doava para as outras desafortunadas que os desejavam maiores do que os que o Criador as proveu? Para o conhecimento da cara leitora, eu sempre fui uma pessoa discreta e modesta, cuja preferência sempre foi pelo tamanho pequeno e que caiba exatamente na palma de uma mão.

            Toda esta falação sobre mamas me fez recordar de minha infância e buscar naquele período uma explicação que justificasse a minha predileção pelos tamanhos pequenos e discretos. Eu, então, deveria ter pouco mais que doze anos de idade, quando na aula de educação física, dei um jeito na perna que passou a me incomodar na articulação à altura do quadril, dias depois. Fui me consultar com um ortopedista cujo sobrenome lembrava uma marca famosa de descarga fechaduras: Goldsmith.

            Depois da breve consulta, ele prescreveu-me sessões diárias de “forno” durante o período de duas semanas. O dito “forno” era uma estufa cujo formato assemelhava-se a um grande cilindro cortado ao meio e colocado sobre uma cama sobre a qual deitávamo-nos para que este fosse posicionado na altura da lesão que, ao ser ligado, emitia ondas de calor que prometiam livrar o paciente de seu tormento.

            Na primeira sessão, que começou logo no dia seguinte, fui atendido pela enfermeira, uma negra retinta do corpo forte e largo e, também, possuidora de um par de seios enormes que pareciam querer saltar fora do apertado uniforme. Entretanto, não foi o tamanho avantajado de suas mamas que me chamou a atenção, e sim um fino bigode acima de seus lábios, cuja fartura de pelos gritava aos olhos. Eu jamais vira em toda minha vida uma única mulher com um bigode igual, e aquilo me causou antipatia.

            As sessões de fisioterapia ocorriam depois da escola, que era no turno vespertino, e a noite já tinha caído quando eu chegava à clínica. Como eu era o último paciente do dia, só ficávamos eu e a enfermeira de bigodes. Na primeira sessão, ao entrar na pequena sala onde estava o “forno”, ela pediu-me gentilmente que tirasse as calças e deitasse na cama em decúbito dorsal. Em seguida, moveu a estufa até a altura do meu quadril e ligou-a, deixando-me sozinho cozinhando. A Sra. Bigodinho, como eu, gentilmente, a apelidei, controlava o tempo através de um pequeno aparelhinho redondo que lembrava um chaveiro e que o deixava sobre a cama ao meu lado. Quando terminava o tempo, este emitia um alto e estridente zumbido e ela, então, reaparecia para desligar a estufa para que eu me levantasse.

            Na terceira noite, ao final da sessão, algo surpreendente aconteceu. Eu estava vestindo as calças, de pé, ao lado da cama, quando a enfermeira aproximou-se, oferecendo ajuda. Apesar de minha recusa, ela foi insistente. Depois de ajudar-me, ela, então, foi empurrando o seu forte corpo contra o meu até me deixar preso entre ela e a parede, sufocando-me entre os seus enormes peitos e o sorriso de seu bigode o qual me causava aflição. “O garotinho gosta de mulher?” Eu, assustado com aquela novidade, apenas respondi: “Ainda não provei.” E, conseguindo desvencilhar-me dela, corri aturdido para a porta de saída, indo embora em disparada.

            Na sessão do dia seguinte, mal pude olhar para ela, achanado que estava, mas vi o suficiente para notar que ela usava um uniforme cujo decote mostrava até a altura do umbigo. Senti o estomago embrulhar Ela veio até a salinha e, num tom que era mais uma ordem que um pedido, mandou que eu tirasse as calças. De olho no meu cacete, que jazia acanhado por dentro da cueca, ela perguntou assim com o seu bigode: “Você tem namorada?” Respondi que não. “Você já usou essa coisinha numa mulher?” Não respondi.

Ao final da sessão, quando o aparelhinho zumbiu, ela voltou até a sala onde eu estava e me imprensou novamente com seu corpo grande e forte contra a parede, fazendo o meu rosto quase sumir entre os seus peitos. “O bebê não quer mamar? Mama um pouquinho na titia vai.” Disse aos sussurros esfregando os peitos grandes quase nus no meu rosto ainda virgem. Eu não sabia o que era pior, seus peitos em minha cara ou a visão tão próxima de seu bigode. “Não obrigado, eu tenho intolerância a lactose.” Respondi com o coração quase explodindo de medo e escapulindo de suas garras.

            Aquelas sessões de fisioterapia se, por um lado, estavam fazendo um bem à minha perna, por outro, me deixavam aflito a cada vez que tinha de reencontrar a Sra. Bigodinho. Na sessão do dia seguinte, eu já tinha uma estratégia preparada para me livrar dela. Antes de o aparelhinho zumbir para que ela viesse ao meu encontro, eu já tinha me vestido novamente e ido embora em disparada, para o seu desapontamento.

Mas ela era esperta demais, porque na sessão seguinte, ela não deixou ao meu lado o aparelhinho que contava o tempo, deixando-me totalmente desorientado. Deste modo, eu não podia me antecipar a ela. Quando a sessão terminou, ela apareceu na sala com um sorriso maligno em seus lábios por baixo daquele bigode ridículo. Mas eu já estava preparado para ela, depois de ela ter ligado o forno e saído, eu dei um jeito de pular fora da cama e vestir novamente as minhas calças, fazendo aquela sessão vestido. Quando ela retornou, ao mover o forno para que eu saísse e percebeu que eu estava de calças, ela deu um sorriso sínico. “Espertinho, heim?”. Ali, na beirada da cama, ela me bloqueou a passagem com seu corpo sólido e, sabendo qual era as suas intenções, corajosamente, enchi minhas duas mãos com seus peitos que eram maiores do que eu conseguia segurar, e os apertei com força sentindo a sua dureza até ela fechar os olhos e soltar um gemido em êxtase. Como se não bastasse, ela ainda foi aproximando a sua boca da minha com aquele bigode repulsivo. “O bigode não, assim já é demais!”, gritei para mim mesmo. Transformei os meus polegares e indicadores num alicate e apertei os seus mamilos com o que me restava de força até ela soltar um ganido voluptuoso e pular para trás. “Assim você me mata, menino!” Aproveitei a deixa e fugi daquele consultório o mais rápido que pude. Depois daquele dia, me dei por curado e me dei alta, nunca mais voltei àquela câmara de torturas! E esta é, provavelmente, a causa de minha predileção pelos peitos pequenos.

Chapada Diamantina, 9 de fevereiro de 2013.
           
            

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As Voltas Que Mundo Dá


Ontem, corri incansavelmente pelas óticas do shopping à procura de uma armação do meu agrado e, vencido pela frustração, fui buscar conforto numa livraria, onde comprei um romance para ler durante o feriado de Carnaval, o qual me refugiarei no bucolismo e nos banhos de cachoeira da Chapada. Livrarias são sempre ótimos lugares para encontrar casualmente amigos ou, quem sabe, fazer novas amizades. É como se o ambiente dos livros possuísse o mágico poder para despertar nas pessoas o seu lado mais interessante e civilizado. Foi quando tive a grata satisfação de reencontrar uma amiga que não via há anos e por quem já nutri uma secreta paixão.
Não consigo precisar quanto tempo faz que a vi pela primeira vez, mas lembro-me de como os nossos caminhos se cruzaram, em dois episódios que envolviam desilusão amorosa e sofrimento. Quando a vi pela primeira vez, fiquei encantado com a sua beleza, uma jovem mulher de formas clássicas, cabelos loiros geneticamente coerentes e feições finas e delicadas, dona de uma voz firme e nasalada, mas que eu só vim a ouvir quando conversamos finalmente na segunda vez que a vi.
Recordo-me, agora, como se fosse antes de ontem, a primeira vez que a vi, num pequeno bistrô especializado em cervejas importadas. O lugar estava quase entregue às moscas, só havia duas mesas ocupadas. Eu estava numa, sozinho, e, não muito distante, estava ela na outra, acompanhada de um rapaz; éramos três naquele lugar esquecido. De minha mesa, eu podia observar, sem ser percebido, o casal sentado, um de frente para o outro, falavam tão baixo que eu não podia ouvir palavra, um martírio para mim, que sou um grande prestador de atenção da conversa alheia, nada me ensina mais que a vida dos outros, entretanto vi o suficiente para entender do que se passava.
O rapaz entregou discretamente à moça um cartão, destes que se usa para ocasiões especiais como aniversários e felicitações. Ironicamente, aquela não me parecia ser uma situação para festejar. Reinava um clima desconfortável entre os dois. Ela, então, o leu como se não esperasse por outra coisa que não aquelas palavras contidas em seu interior. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela conteve o choro enquanto ele a reconfortava segurando-lhe a mão ternamente. Não fez escândalo ou uma cena. Eu testemunhava o fim de um relacionamento. Ao contrário de ele lhe falar, preferiu o uso da palavra escrita, escondendo-se por traz de um cartão barato. Ah!, como é difícil para alguns falar a outrem certas coisas que vão no coração. Eu observava o casal enternecido, percebia o estado daquela moça em sua forma mais fragilizada, podia imaginar o machucado do seu coração e do seu sofrimento. Tive vontade de ir até a sua mesa para tomá-la nos braços, reconfortá-la e dizer-lhe que a sua vida não acabara ali, que nem tudo estava perdido e que o mundo dava muitas voltas, seja lá o que isto significasse para aquela situação. Nunca apaguei da mente aquela cena tão discreta e tão forte.
Anos depois, a reencontrei novamente e logo a reconheci, embora ela realmente jamais soubesse quem eu fosse, foi quando trocamos palavras pela primeira vez. Uma amiga moderninha aniversariava e fomos festejar na boate gay da moda, escondida numa área decadente do centro da cidade. Eram épocas em que ser gay não era razão para se comemorar com fogos de artifício, como acontece hoje em dia. Ao nos encontrarmos na apertada pista de dança, foi como se ambos se sentissem na obrigação de dar satisfação ao outro por estarem ali naquele lugar ao qual não pertencíamos. Eu disse-lhe que comemorávamos o aniversário de uma amiga e ela explicou-me que estava namorando um colega de trabalho, mais tarde soube que era seu chefe, e que a empresa para a qual trabalhavam tinha regras rígidas sobre funcionários namorarem entre si e que isto era causa de demissão na certa. Por isso, os dois amantes frequentavam lugares alternativos onde a probabilidade de se esbarrarem com agentes da Santa Inquisição da poderosa empresa fosse nenhuma.
Não muitos dias depois, a reencontrei no café de uma livraria, desta vez, desacompanhada. Sentamos juntos numa mesa e ela abriu o seu coração para mim; tenho este dom que nunca quis ter, desperto nas pessoas o seu lado confessional: o romance com o chefe tinha terminado e ela simplesmente não aguentava o sofrimento de vê-lo todos os dias, pensava em pedir demissão do promissor emprego. Seus olhos encheram-se de lágrimas enquanto sufocava o choro, e fui eu quem, desta vez, segurei a sua mão para reconfortá-la.
Depois daquele encontro, conversamos algumas vezes ao telefone e nunca mais soube dela. Certa vez, muito tempo depois, fui surpreendido com um simpático cartão de Natal e um bilhetinho. Neste tempo todo que se passou, me perguntei por onde andava ela, a que outras decepções amorosas teria sobrevivido e se, sobretudo, ela era feliz agora. Ela me parecia uma dessas figuras femininas à procura constante do verdadeiro amor, – só existente nos romances açucarados que ela leu – e que mergulham cegamente de ponta cabeça numa paixão, mas nunca encontrava o príncipe encantado.
Nosso reencontro na livraria foi uma alegria. Ela estava mais velha e mais bela. O marido iria presenteá-la com um desses computadores portáteis caríssimos e ela estava lá escolhendo marca e modelo. Tinha filhos, muitos deles, estava feliz no casamento e realizada profissionalmente, o que mais podia desejar. Fiquei feliz por ela ter reescrito a sua historia com um final feliz. Não a invejei, mas desejei algum dia conhecer semelhante felicidade. A vida existe para isso, para que continuemos tentando, tentando mais uma vez, e de outra maneira, esforço sem o qual não vale a pena a existência, até dar finalmente certo.
Rio Vermelho, 28 de janeiro de 2013.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Sobre Vacas e Cavalos ou a Estória do Garoto que Despertou Para Um Novo Mundo

Era um menino franzino, destes, criado em condomínio, mas que aos dez anos de idade já era um mestre de lutas marciais no vídeo game e exímio usuário de computadores e similares. Seu mundo restringia-se a um monitor de 25 polegadas e a uma tela de um ipod. Nunca brincara de bola de gude, picula ou fizera estripulias em cima de uma árvore. Ver uma vaca ou cavalo em pessoa, nem pensar! Era um perfeito garoto nascido e criado na cidade, como tantos outros. Filho de pais separados.
         Naquele sábado, era dia de ele ficar com o pai. A mãe, então, arrumou-lhe a mochilinha com uma muda de roupa limpa e foi ela mesma levar o embrulho na casa do ex, logo cedo pela manhã. O pai recebeu o filho com um abraço afetuoso e em instantes já estavam na rua, pai e filho foram à barbearia do bairro cortar o cabelo. O passeio seguinte foi uma ida ao mercado para fazer as compras da quinzena, e quando voltaram para casa estavam famintos, já era a hora do almoço. Uma lasanha congelada saiu do freezer diretamente para o micro-ondas e em poucos minutos já estava materializada em seus pratos à sua frente na mesa, era só o trabalho de comê-la com um copo grande de Coca-Cola e muito gelo. Uma delícia! Depois do almoço, enquanto o pai tirava um merecido cochilo, o filho queimava as suas calorias de frente do computador, antes do próximo passeio do dia que era uma ida ao shopping, seguida de uma sessão de cinema.
         Foi o garoto que fizera a escolha do filme, era justamente aquele que anunciava na TV a cada meia hora e prometia uma diversão para toda a família. Era a estória de um tsunami, a enorme onda oceânica vinha de surpresa e causava uma verdadeira bagunça numa cidade. Ele nunca vira um tsunami antes, assim como nem uma vaca ou cavalo em pessoa, mas sabia que o do filme era de mentirinha, mas estava muito curioso de ver os efeitos especiais hollywoodianos, provavelmente o tsunami seria a melhor parte! Em antecipação ao filme, em sua cabecinha de criança, ele teve fantasias de como seria uma catástrofe natural como aquela.
         E no final da tarde, pai e filho foram ao shopping e o garoto ganhou, como sempre acontecia em todas as suas visitas, um presente bacana que o pai fazia questão de lhe dar, embora não fosse seu aniversário, dia das crianças ou o Natal. A programação seguinte era o filme cujo ingresso, depois de ter sido comprado após uma espera numa longa fila, havia outra maior ainda os aguardando para entrar na sala de exibição. Não fazia mal, enquanto esperavam comeriam um balde de pipoca com um litro de Coca-Cola, afinal, criança em fase de crescimento precisa comer bastante!
         Quando o suplício de aguardar na fila terminou, pai e filho tiveram sorte de encontrar um lugar ao lado do outro na plateia e, em seguida as luzes se apagaram e a magia começou! O pai não tinha muita ideia do que se tratava o filme, mas se era liberado para crianças de doze anos, seu filho de dez, com certeza, era um menino esperto para entender a estória.
A estória do filme girava em torno de uma família que sobrevivera a um tsunami, disso o garoto já sabia. Entretanto a seu entusiasmo tornou-se um pesadelo meia hora depois de começado o filme. Como a própria propaganda dizia, um enorme tsunami veio e arrasou um país inteiro, e no centro daquela catástrofe estava uma típica família americana de férias nas praias de num país exótico. Muita dor, muitas mortes, muitas perdas. Os minutos seguintes foram de angustia e sofrimento da família, brutalmente separada pela tragédia e de sua procura para reencontrar-se em meio ao caos. Ao ver tanta miséria o garoto teve medo e arrependeu-se da infeliz escolha. Lamentou por aquela família que tinha um garoto de sua idade. Assistiu o filme emudecido com o choro preso na garganta. Depois daquela sessão de terror foi para casa assustado e teve pesadelos com tsunami a noite inteira. Quanta diversão para uma criança de apenas dez anos.
Na manhã seguinte, no domingo, pai e filho tomaram um delicioso café, uma pizza Portuguesa sem cebola. Em seguida, o pai arrumou a mochilinha do garoto e foi ele mesmo entregar o embrulho à mãe. Esta o aguardava com saudades, abraçou e beijou o filhote ternamente e lhe perguntou se teve um ótimo sábado. Ao que o menino respondeu com um aceno de cabeça e, em seguida, correu para o seu computador.
Evitando descrever a rotina de um domingo modorrento, o ponto alto do dia foi no final da tarde, quando a mãe tinha uma surpresa reservada para o filho. Foram ao teatro ver um concerto da orquestra sinfônica, algo que o menino jamais vira antes na vida, assim como uma vaca e um cavalo em pessoa. Era uma programação especial para adultos e crianças que nunca foram num concerto: as trilhas sonoras de filmes famosos!
Este era um concerto muito incomum porque ao invés de usarem os costumeiros trajes escuros, os quais para os homens são os smokings e para as mulheres os longos, os músicos fantasiaram-se como personagens de filmes famosos, até mesmo o maestro! O garoto ficou maravilhado com a surpresa e, enquanto os músicos aguardavam a entrada do regente, ele tentava adivinhar qual personagem cada fantasia se referia. E quando finalmente o maestro chegou, a primeira música que ele regeu foi aquela que todos conhecemos e que é a abertura de todos os filmes. O garoto se viu num sonho acordado, seus olhos brilhavam de encantamento.
Para cada música tocada o maestro tinha o cuidado de apresentá-la previamente ao público, algumas eram consagradas peças de música clássica e outras recriações inspiradas em músicas conhecidas. Alguns dos filmes o garoto nunca ouvira falar em sua vida, pois não eram do seu tempo, outros eram recentes e os seus preferidos. Entretanto, todas possuíam a mesma coisa incomum, segundo as próprias palavras do garoto, eram todas lindas! Nossa, ele nunca reparou como a música do E.T. fosse tão maravilhosa e a do Super-homem tão impressionante. A do Harry Potter ele não reconheceu a principio, mas depois a achou linda demais. Enquanto o garoto escutava encantado com tanta beleza, a música clássica ia cuidando de lavar de sua memória as lembranças ruins do filme do dia anterior, sim, porque a música clássica é uma das maiores invenções do ocidente e é a única expressão da criação humana capaz de nos transportar para algo próximo ao paraíso, caso este realmente existisse.
Ao final do concerto, o garoto estava feliz e o seu espirito em estado de contemplação. Anunciou decidido à mãe que queria ser um maestro quando crescesse, ao que ela lhe respondeu dizendo para ele aprender a tocar algum instrumento antes e lhe perguntou qual ele mais gostava e ele respondeu satisfeito e alegre: o violino!

Rio Vermelho, 19 de janeiro de 2013.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Pedido de Ano Novo

Não se sabe de onde ela vem ou para onde ela vai sob o sol inclemente das onze. Talvez poucos na rua tenham prestado atenção numa senhora passante, cuja idade bem poderia ser igual à de nossas mães ou avós. O fato é que ela é quase invisível em meio à paisagem urbana indiferente aos miseráveis e solitários. É inquietante ver uma idosa daquela idade exposta ao rigor do calor de verão.
         Da janela de onde a observo, também posso contemplar maravilhado as ondas do mar quebrando sobre as pedras e jogando espuma para o alto, ao lado da igreja de Santana, no Rio Vermelho, sob o sol infernal deste final de dezembro. Protegido pelo conforto do ar condicionado, sei que faz muito calor lá fora e não chove há meses, vejo a grama da praça logo em frente queimada e quase evaporando. O céu está límpido de causar aflição e com o ano novo quase batendo à porta, não há previsão de que cairá uma só gota de água para amainar a alta temperatura. É mais um ao que se vai, e quem dera chovesse um pouco para lavar a cidade do ano que termina e para receber o novo que logo logo se inicia.
         Mas a senhora a que me refiro, todos os dias passa em frente a esta janela. Trajando um vestido de cor desbotada e surrado pelo tempo, empurra um carrinho de supermercado sobre o asfalto escaldante, mas que não leva compras e nem alimentos para fazer o almoço, só bugigangas que ela vai coletando pelo caminho e adicionando ao seu rico tesouro. Vai apressada como se estivesse atrasada para chegar ao seu destino, onde não se sabe onde fica. Curiosamente, ela não está desacompanhada em sua solitária jornada. Logo à sua retaguarda, segue um cão mal tratado de pelo ralo cor de ferrugem que bem poderia ser igualmente invisível não fosse por chamar a atenção pela falta de uma pata traseira. Vai mancando logo atrás de sua dona tentando lhe acompanhar o passo apressado. Contudo, ela não olha para trás, é como se ignorasse a existência do bicho. Talvez este nem seja o seu cachorro, eles apenas se cruzaram certo dia e ela lhe fez um agrado, e como fosse raro este receber carinhos, por isso, elegeu a velha como sua dona, seguindo-a fielmente sob o sol implacável, apoiando-se nas três patas que lhe restam, em busca de mais um carinho.
         Eu só notei a existência da velha na terceira vez que a vi. Talvez não nem tivesse reparado nela se não houvesse atrás de si o cachorro que manca, foi a dupla inusitada que me capitou a atenção. Quem haveria de supor que uma velha tivesse tal fiel guardião.
         Eu não sou o tipo de pessoa que faz pedidos ou lista de mudanças para o ano novo, mas certamente, se fosse fazê-lo, pediria que aos idosos fosse-lhes dada uma vida mais digna e de reconhecimento pelo o que eles já representaram em sua juventude.
         Feliz 2013 a todos vocês, a quem dediquei com prazer o meu tempo e carinho para lhes escrever ao longo do ano. Desejo a todos vocês e suas famílias um ano de alegrias, realizações e paz no coração.

         Rio Vermelho, 31 de dezembro de 2012.

domingo, 25 de novembro de 2012

O príncipe da mamãe.*

Houve um tempo, não muito distante, em que o professor era tratado respeitosamente por seus discípulos por “senhor” – ou por “senhora” –, e acatávamos em silêncio a sábia reprimenda, estava no seu direito como educador, pois fazia parte de sua missão moldar a nossa formação. Não havia coisas como detector de metais no portão da escola e nem catracas que liberavam a nossa entrada mediante a verificação, através de um cartão de plástico com um chip, se a mensalidade já tinha sido depositada na conta bancária do dono do estabelecimento. Educação, então, era uma vocação, e não um comércio praticado por um dono de colégio semianalfabeto.

A diretora da escola onde estudei era uma espécie de santa viva e nascera para educar. Seu nome era majestoso como o de uma rainha, Maria Helena Neves da Rocha. Guardava na memória – não a do computador – o nome e sobrenome de seus quase dois mil alunos, assim como os de seus pais, e fazia ela mesma questão de entregar-nos pessoalmente os boletins, indo de sala em sala. Quando as notas eram ótimas, ela nos parabenizava pelo esforço, mas quando estas não eram lá aquelas maravilhas, não tinha nenhum pudor em dizer “suas notas estão medíocres, estude mais da próxima vez!” Ouvi isto uma única vez e quase morri de vergonha, nunca mais deixei que isto acontecesse. Dona Maria Helena era por todos nós respeitada e jamais elevava o tom de sua voz ou nos fazia ameaças, sabia falar com doçura com os estudantes, e por isso a admirávamos. O pai – ou mãe – ao assinar o boletim escolar aborrecia-se ao ver as notas baixas e esfregava-o na cara do filho, “Tá bonito isso?” Aluno era tratado como aluno e ponto final.

         Hoje em dia, não existem mais alunos, são todos clientes, e, como tal, vale sempre aquela máxima que diz que “todo cliente sempre tem razão”. O pai, quando recebe, por e-mail, o boletim do menino com notas vergonhosas, imprime-o e vai até a escola para esfregá-lo na cara do coitado do professor como se fosse responsabilidade deste fazer o filho aprender, “Tá bonito isso?” Por estas e por outras que professor vive com os nervos à flor da pele, aplacando o estresse à custa de tranquilizantes que mal pode comprá-los. Nem político safado e ladrão é vítima de tanto abuso verbal e psicológico como um professor na sala de aula hoje em dia e, no entanto, há pais que não deixam de falar em se construir um mundo melhor para os filhos, quando estes mal sabem que jamais haverá um mundo melhor se eles não criarem e educarem os seus para serem cidadãos dignos de viver neste mundo.

         A mãe insatisfeita com as fracas notas do filho foi tomar satisfação com a coordenadora e a encontrou em sua sala apertada com uma mesinha apenas e duas cadeiras para os visitantes. As paredes eram decoradas com fotos de alunos fazendo atividades.

         — Eu sou a mãe do príncipe. – anunciou com ares de nobreza.

         — Não me lembro de nenhum aluno com este sobrenome... – respondeu a coordenadora estudando aquela figura que mais parecia ter saído de dentro da coluna social da revista do Yacht Clube.

         — Como? A senhora não sabe quem é o meu príncipe! Ele é um garoto formidável, todo mundo gosta dele.

         — E qual é o nome dele?

         — Bruno.

         — Ah!

         — Já sabe de quem estou falando?

         — Ainda não. De qual série?

         — Ora, do segundo ano.

         — Hum... E qual dos 59 Brunos do segundo ano a senhora está se referindo?

       — Ora, do Bruno Lima de Carvalho! Então, já sabe quem é agora? – perguntou impaciente.

         — Agora, claro que sei, sim! A senhora está se referindo à “Mãinhia”. – respondeu finalmente à coordenadora, lembrando-se do garoto acima do peso que vivia se empanturrando de batatas fritas de saquinho, balas e outras porcarias que ia deixando vestígios pelo caminho denunciando a sua passagem, e que era um pequeno mau caráter, mentiroso, cínico e dissimulado que sonhava um dia virar político, já tinha talento para tanto.

         — Mãinha? Mas que diabo de apelido horrível é este, porque vocês chamam o meu príncipe assim? – perguntou indignada.

         — É porque ele sempre diz coisas como “se eu tirar nota baixa no teste, mãinha vai me bater”, “se eu chegar assim em casa, mãinha vai me comer de porrada”, “se mãinha souber disso, ela vai me arrancar o couro.”

         — Ah, é? – perguntou, não mais parecendo tão nobre desta vez.

         A coordenadora a fitou em silêncio por alguns instantes como se estudasse aquela mulher sentada à sua frente e, em seguida, perguntou:

         — Eu estou curiosa, gostaria de entender melhor o seu Bruno. Diga-me, a senhora costuma dar surra no seu príncipe?

Rio vermelho, 29 de novembro de 2011.

*Estória me contada pelo amigo Gabriel Lopes Pontes.

sábado, 10 de novembro de 2012

Das desventuras de se ir ao concerto


Assistir um concerto de música clássica em Salvador, terra da música axé, requer concentração, obstinação e, sobretudo, nervos de aço. Uma tremenda contradição, considerando-se que concertos de música clássica deveriam ser eventos culturais de propriedades relaxantes que nos transportam para um mundo onírico de sensações auditivas. Digo isto com a experiência de quem não perde uma apresentação de nossa querida orquestra sinfônica, que completa 30 anos de existência no decorrente ano.

Ao escolher um assento para assistir o último concerto da Orquestra Sinfônica da Bahia, um dos raros programas culturais noturnos para o qual me animo a deixar o conforto de meu lar, apliquei uma técnica desenvolvida por mim mesmo, baseada em minhas desafortunadas experiências. É um evento de poltrona livre, isto é, os assentos não são demarcados, é preciso saber escolhê-los com sabedoria.

         Nunca me sento muito próximo a velhinhas. Uma só velhinha, é um ser inofensivo, um doce de pessoa como todas as velhinhas geralmente o são. Entretanto, um bando delas, sentadas lado a lado na fila logo à frente, à atrás ou ao lado, pode ser um pesadelo. Todos os seus pensamentos e emoções precisam ser verbalizados durante o espetáculo e, nesta idade, senhoras idosas desenvolvem o tom de voz dos contraltos, de modo que, mesmo sussurrando, elas são perfeitamente audíveis. “Ele teve ter menos que quarenta.”, cochichou, certa vez, uma para a coleguinha ao lado, em referência à idade de nosso jovem maestro. Outra disse: “Agora vai tocar o violino.” E, como num passe de mágica, realmente os violinos começaram a tocar harmoniosamente. Logo atrás de mim, uma delas sabia a música de cor e resolveu solfejá-la como se estivesse no banho. Outra tinha consigo uma dessas bolsinhas de mão que fazem um click toda vez que são abertas ou fechadas. Repetidas vezes, ela abria e fechava a sua bolsinha para tirar e colocar de volta uma latinha de pastilhas que fazia questão de chacoalhá-la antes de abri-la.  Portanto, evitem sentar-se muito próximo a estas senhoras.

         Indivíduos muito afeiçoados a seus celulares também devem ser evitados. Fique atento àqueles que antes de começar o concerto estão muito concentrados em seus brinquedinhos ao invés de estarem lendo o programa do concerto, por exemplo. Isto pode significar que eles não estão emocionalmente preparados para se separar de seus aparelhos por algum momento durante a sessão, e se a luz da tela o incomodar cada vez que o celular é verificado na angústia da espera por aquela mensagem muito importante, ou para saber se alguém telefonou, é melhor sentar-se bem longe destes cidadãos, pois é aporrinhação na certa!

         Crianças são geralmente pequenos seres chatos e inquietos por natureza, e que deveriam ficar em casa toda vez que vou ao concerto. Entretanto, há pais que entendem que elas devem ter um pouco de cultura e por isso as arrastam para um concerto de música clássica cuja programação tem duração de mais de duas horas, pobre coitadinhos. Ora, se para um adulto já não é tarefa fácil ficar duas horas sentados comportadamente, quem dirá para uma criança agitada. Alie-se a isto, o fato de a mãe ser uma neurótica e mandona que quer dominar a fera durante o espetáculo. Deu para ter uma ideia, né? Evito sentar próximo a pequerruchos, só de minhas lindas sobrinhas, quando as levo, pois estas são uns anjinhos. Neste concerto em particular, eu havia escolhido um assento no primeiro setor a poucas filas do palco, mas fui expulso de lá por um enxame de crianças que chegou inesperadamente não se sabe de onde. Eram alunos de uma escolinha indo ao seu primeiro concerto, que maravilha, meu coração palpitou.

         Se houver uma moça bonita e desacompanhada, certamente sentarei ao seu lado para lhe impressionar com a minha erudição – ou com a falta dela – durante os breves intervalos. E foi justamente isto que fiz, depois de sentar em quatro lugares diferentes, seguindo aquela minha técnica, antes de começar o espetáculo. Sentei-me finalmente na ponta de uma fila ao lado de uma bela e jovem morena.

         Cumprimentei-a com um largo sorriso ao sentar-me ao seu lado, ao que ela me correspondeu mostrando-me os seus perfeitos dentes. “O programa de hoje está ótimo.”, disse-lhe mostrando-lhe o programa daquela noite, percebi que ela não possuía um. “Nunca vim num concerto antes, é a minha primeira vez.”, disse ela humildemente, o que só a fez parecer mais bela. “Você vai gostar, é só entregar-se à musica.”, tranquilizei-a. “O concerto já começa.”, disse-lhe. Em seguida, os músicos estraram no palco ocupando os seus lugares e todos aplaudimos, como é de costume. Logo depois, veio o maestro, empertigado, novos aplausos e teve início o concerto, quando ele agitou a batuta no ar.

         Mal o concerto começara e a bela mocinha transformou-se numa bruxa, ao sacar de sua bolsa o seu Samsung Galaxy, cuja tela brilhava feito um farol de caminhão. Enviou um texto de mensagem que não demorou a ser respondido. Mais um instante, e lá se foi ela novamente enviando outra mensagem e recebendo a replica. Olhei em volta, a casa estava lotada e eu preso naquela armadilha. As trocas de mensagens não paravam, a conversa deveria estar mais interessante que o concerto. Lá pelas tantas, ela aproximou-se e perguntou sussurrando em meu ouvido se o concerto ainda demoraria muito, ao que respondi que não havia hora certa para acabar e que a palavra concerto derivava da expressão latina que queria dizer “não acaba nunca”, e que se ela tinha algum compromisso, melhor que se apresasse ou, do contrário, chegaria atrasada. Jamais se sente ao lado de uma mulher com cara de anjinho, nunca se sabe que modelo de aparelho celular ela carrega na bolsa!

Rio Vermelho, 8 de novembro de 2012.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Preguiça


Ao aposentar-se depois de 35 anos de serviço público, prestados no Departamento de Assuntos Fiscais do Município, Josué jogou fora o terno cansado com o qual costumava ir todos os dias para a repartição e meteu-se numa bermuda surrada, camisa de meia e um par de chinelos velhos e confortáveis.  “Pronto, este vai ser o meu uniforme de agora em diante.”, disse com júbilo. Finalmente ele realizava o seu grande sonho de não trabalhar nunca mais.
            Quem não ficou muito satisfeita com aquela novidade foi dona Etelvina, sua severa e trabalhadora esposa, dona de casa exemplar, que não estava acostumada a ter o marido em casa o dia inteiro, exceto nos finais-de-semana e feriados. Ela se perguntava com o que o marido ia se ocupar de agora em diante. Tudo o que ela menos desejava no mundo era ter um homem desocupado pela casa lhe aporrinhando a paciência. “Meu Pai, o que é que esse homem vai ficar fazendo dentro de casa o dia inteiro, de agora em diante?”, ela se perguntava aflita e benzendo-se.
            Mas Josué já tinha muito bem em mente como pretendia preencher o seu precioso e ocioso tempo pelo resto da vida. Alugou um serviço de TV a cabo com o qual planejava passar o dia deitado no sofá da sala vendo filmes e seriados, acompanhado de uma garrafa após outra de cerveja geladinha. A vida não podia ser mais perfeita!
            Tão logo a TV foi instalada, ele começou pondo em prática o seu brilhante plano. Entretanto, ele parecia determinado a levá-lo muito a sério, pois o mundo bem poderia acabar à sua volta, que ele não moveria um único dedo sequer para salvá-lo, a menos que lhe levassem junto a TV e a cerveja ou o sofá. Sua rotina diária era um verdadeiro martírio, ele acordava cedo com o único objetivo de ter mais tempo para ficar sem fazer nada. Depois do café, ele lia a sessão inteira de esportes do jornal enquanto tomava o banho de sol sentado na cadeira da varanda, em seguida, pulava para o sofá para começar a sua maratona em frente à TV. E quando o sino da igreja do bairro dava a badalada das dez horas, ele abria religiosamente a sua primeira cerveja do dia e só fazia um intervalo para almoçar, seguido do cochilo em sua própria cama até as quatro da tarde. Depois do merecido descanso, ele voltava para frente da TV, para assistir a sessão da tarde e depois enveredava pela noite a dentro. Felizmente ele também cultivava o mesmo gosto de dona Etelvina pelas novelas, de modo que ele não se incomodava com que ela as assistisse sentada no sofá ao seu lado.
            Dona Etelvina dava um duro dentro de casa, varrendo, limpando, lavando, passando e cozinhando e ainda por cima fazendo a feira da semana e o supermercado, mas o Josué olhava aquilo tudo com um olhar de paisagem sem ao menos se oferecer para ir ali no armazém comprar tempero, que é o que se espera de um marido aposentado. Ele não se oferecia para ajudar em coisa alguma na casa, era como se ele houvesse jogado o seu senso de solidariedade no lixo juntamente com o seu velho terno de ir para o trabalho. Mesmo quando ela se aventurava a pedir-lhe um favor, ele sempre dava a mesma resposta “Depois eu faço.” O que inequivocamente significava o mesmo que dizer “não conte comigo.” Claro que dona Etelvina ficava furiosa com a falta de cooperação de Josué, “mas que homem inútil”, ela dizia para si mesma benzendo-se. “Meu filho, você deve ter alguma doença, pois eu nunca vi ninguém tão preguiçoso como você.”, ela sempre repetia todos os dias, ao que ele fazia uma expressão de desdém sem contestá-la.
Certo dia, não tolerando mais a preguiça do marido, dona Etelvina mandou-o ir se consultar com um médico para que este descobrisse o que havia de errado com o ele. Sob protestos, Josué acatou à ordem e foi ver o médico, embora tivesse certeza de que nada de errado havia com ele. Então, depois que o médico o examinou minuciosamente, ele concluiu o seu diagnóstico.
— Bem, Sr. Josué, acho que já descobrir qual o seu problema. – disse o médico com uma expressão grave.
— Pode dizer, doutor. – disse Josué, não demonstrando qualquer preocupação.
— O senhor tem preguiça! – informou o médico.
— Ah, sim! Mas o doutor poderia me dizer qual o nome científico para eu informar à minha esposa?

Rio Vermelho, 22 de outubro de 2012.