quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A Bala da Felicidade

O Sr. Aurelino era conhecido pelo seu crônico mau humor e por sua falta de cortesia ao tratar os que entravam em sua mercearia. E esbouçar um sorriso aos que ele atendia ao balcão, isto, então, nem se fala. Resmungava ao respondê-los, às vezes tinha de repetir para ser entendido. Apesar deste seu azedume, a freguesia não deixava de ir comprar em sua loja, não porque os seus preços compensassem o tratamento rude, mas porque esta era a única das redondezas.

Nas últimas duas semanas, entretanto, algo inédito acontecia naquela sombria loja, motivando comentários impressionados e maldosos de sua fiel clientela. Ao entrar na mercearia de seu Aurelino, o freguês era saudado com um largo sorriso do proprietário e tratamentos corteses de “bom dia!” e “como tem passado?”.

Uns achavam que ele finalmente houvesse tomado vergonha na cara e frequentado um curso de boas maneiras para tratar o cliente. Outros comentavam que talvez ele estivesse tomando um desses remédios modernos que mudam a personalidade da pessoa e que fazem elas ficarem alegres o dia todo. Outros apostavam que ele tinha ganhado uma bela de uma herança. Ou que aquele seu repentino estado de bom humor era o resultado de ele ter batido com a cabeça numa queda. Mas nenhuma daquelas especulações explicava realmente o motivo da mudança de comportamento de seu Aurelino e nem por isso as pessoas deixavam de comentar e de fazer suposições, o que, aliás, é próprio do gênero humano.

Imaginem, o seu Aureliano agora ouvia música no rádio, assobiava, até cantarolava! A loja estava mais arrumada. Saltava aos olhos que o chão tinha sido lavado, as mercadorias espanadas e colocadas ordenadamente nas prateleiras. As teias de ranhas nos cantos tinham sumido finalmente. Talvez alguém tivesse encomendado um despacho para que ele se transformasse num cidadão simpático. E o feitiço tinha dado certo! Fosse o que fosse, todos estavam satisfeitos com tal mudança e felizes por saber que algo de bom estava provavelmente acontecendo em sua vida.

Certo dia, um velho veio até a loja. Depois dos tratamentos cordiais que agora o comerciante dispensava à freguesia, ele abriu a gaveta por trás do balcão para guardar o dinheiro e de lá tirou um pequeno objeto.

— Tome aqui uma bala para adoçar o seu dia. – ele disse ao tirar um comprimido da cartela em sua mão e passando-o ao freguês. Acrescentou: – Eu tomo um desses todos os dias e não falha nunca!

O velho retribuiu a gentileza com um sorriso de felicidade, parecia uma criança que tinha acabado de ganhar um doce. Ele jamais tinha visto um daqueles antes, mas certamente já ouvira falar dos poderes milagrosos do Viagra!


Rio Vermelho, 1 de janeiro de 2015.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Caixinha de Natal

Depois de muitos anos ausente do bairro do 2 de Julho, Fefeu voltou a frequentar o lugar onde nasceu e se criou, num sobrado na Rua do Sodré, próximo ao Beco do Mingau. Mas o retorno àquele lugar caótico e fedorento no centro da cidade, em nada tinha a ver com uma súbita necessidade de ele voltar às suas origens. O motivo era bem menos nobre que se imagina.
É que Fefeu redescobrira o amor nos braços e entre as pernas de Jandira, uma morena de curvas acentuadas e seios de se perder de paixão. Ela era vendedora na pequena loja onde ele costumava comprar a ração para o gato da esposa, cuja afeição desmesurada pelo felino substituíra a indiferença do marido. Nas idas frequentes ao estabelecimento comercial, o romance floresceu. Ela residia lá no 2 de julho.
Duas vezes por semana, então, Fefeu desviava-se do caminho para ir jogar dominó com os amigos para cumprir expediente no 2 de Julho, onde passava o resto da tarde no aconchego dos seios de Jandira. Em suas frequentes jornadas de paixão, ele nunca se descuidava de levar um doce para o filho de sua amada, um menino esperto de seis anos a quem prometera, caso ele não incomodasse enquanto a mamãe e o titio estivessem tendo uma “conversa de gente grande” enclausurados no quarto, um bonito brinquedo de presente de Natal.
Dois dias antes da véspera de Natal, ao chegar no 2 de julho, Fefeu lembrou-se da promessa ao garoto. Meteu a mão no bolso e tirou de lá uma nota de cinquenta que olhou com um pingo de desapontamento. Era tudo o que tinha, mas não ia decepcionar o garoto que provavelmente iria aprontar um fuzuê caso não ganhasse o tal brinquedo e, de lambuja, ainda iria ter de enfrentar o mal humor de Jandira que era capaz de negar os seus favores até que ele cumprisse a sua promessa. Estava decidido, ia comprar um brinquedo barato num bazar árabe que havia na Conceição da Praia, não muito distante dali.
Desviou do seu caminho para ir ver Jandira, que morava num apertado apartamento localizado na Rua do Areal de Cima, e foi para o comércio descendo a pé pela deserta Visconde de Mauá. Aquele contratempo certamente lhe subtrairia preciosa hora de prazer com a sua amada, mas ele contava ser depois recompensado em dobro por ela que certamente iria saber demonstrar o seu reconhecimento por sua atenção com o menino.
Quando já percorrera metade do caminho antes de alcançar a Ladeira da Preguiça, um vulto pulou inesperadamente à sua frente, sem que ele soubesse vindo de onde, de braços abertos, segurava numa das mãos um reluzente punhal.
— Fefeu! Ô, Fefeu! Você por aqui?
A cor sumira de sua face naturalmente lívida. De sua garganta saiu apenas um gemido.  Suas pernas começaram a tremer pelo efeito do susto. Quem era aquele negão enorme que sabia o seu nome?
— Ô, rapaz, não está me reconhecendo?  É Netinho. Quando a gente era moleque, a gente cansava de nadar lá na praia da Gamboa. Tá lembrado?
— Ah sim, claro. Netinho! – mesmo aliviado por ter encontrado um amigo de infância, suas pernas continuavam tremendo sem controle.
— Você voltou a morar no 2 de Julho? – Netinho perguntou com interesse.
— Nãaao, tô com uma nega que mora lá em cima...
— Ah, bom. E já se aposentou?
— Sim, este ano, graças a Deus. E Você está nessa vida, hein amigo?
— Pois é, rapaz, agente tem de se virar.... Olha, vou te dizer uma coisa: evite passar por estas bandas a esta hora, está muito perigoso andar por aqui.
— Sim, vou seguir o seu conselho. – disse Fefeu com um sorriso amarelo.
— Não vou levar nada seu, fique tranquilo. – escondeu a faca.
Fefeu suspirou aliviado embora suas pernas não parassem de tremer.
— Eu só vou te fazer um pedido que você não negara ao amigo. – disse Netinho abrindo um sorriso sedutor. – Contribua com a nossa caixinha de Natal.
Aquele inofensivo pedido soou como um banho de água fria em Fefeu. Logo quando ele já achava que ia escapar ileso daquela situação. Lembrou do menino abrindo um berreiro, a cara feia de Jandira lhe recriminando e, o pior de tudo, o jejum a que seria submetido. Só tinha aquele dinheiro. Entregou-o, a contragosto, ao amigo assaltante que ao ver a nota de cinquenta sorriu satisfeito.
— Tu sempre generoso. – disse ele. – Feliz Natal, amigo. Vá em paz.

Rio Vermelho, 24 de dezembro de 2014.




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Viciada Em Sexo

A mãe era louca de pedra. Desde o divorcio, há mais de oito anos, tomara aversão ao sexo oposto. “Homem não presta”, repetia às três filhas pequenas incutindo-lhes aquele medo irracional. “Fiquem distante deles que só causam sofrimento.”
A separação foi provocada pelas infidelidades do marido, um incorrigível mulherengo, a quem ela amava tanto a ponto de fingir-se de cega. No final, mesmo assumindo uma postura resignada, ele a trocou por outra a metade de sua idade. Certo dia, ele simplesmente arrumou as malas e saiu dizendo assim: “vou ali comprar cigarro e não volto mais.”
O fim do casamento arruinou a sua vida. Deixou o trabalho, passava o dia prostrada sobre a cama ou sentada indiferente em frente da televisão. Descuidou-se das filhas. Quando, finalmente, tomou novamente as rédeas de sua vida, parecia que tinha ficado com um parafuso a menos. Seu comportamento era de gente que não era boa da cabeça.
O tempo passou, as filhas se tornaram belas moças. Mais um motivo para que ela se preocupasse. Ordenou ao porteiro do prédio onde residiam que não deixasse homem algum subir durante a sua ausência, nem mesmo entregador de pizza! Vigiava as filhas com obsessão para que não se envolvessem com aquela raça masculina. E não passassem pelo mesmo sofrimento pelo qual passou.
Tanta preocupação assim era querer mudar a natureza das coisas. Ora, as moças eram jovens e estavam naquela idade de desejar estar com rapazes. Querer impedi-las, era como tentar apagar uma fagulha assoprando-a, o efeito pode ser o oposto. A faísca torna-se brasa e depois vira fogo. As moças ficaram mais curiosas sobre o assunto.
A mais linda de todas as três filhas, era também a mais nova. Ela era a mais comunicativa e a que mais fazia amizades, notadamente com os rapazes do bairro, a quem concedia os seus favores sem maiores cerimônias. Ela tinha o estranho hábito de anotar num caderninho de capa cor de rosa, o nome e a data do rapaz com quem ficou, acrescido de um breve comentário sobre suas impressões: grande demais, meio torto, pequenininho. E sobre as suas habilidades na arte do amor: apressado, lerdo, carinhoso, estilo lenhador.
Já a do meio, não era tão levada quanto a caçula, mas era exímia na arte da dissimulação. Gostava de colecionar garrafinhas de shampoos que levava dos motéis por onde passava. E quase sempre pedia dinheiro emprestado que jamais era devolvido.
A mais responsável era a mais velha, a única que levara a sério os estudos e que se formara na faculdade. Por este feito brilhante, era o orgulho da mãe.
Certo dia, no entanto, ao bisbilhotar a bolsa da mais velha, cuidado que costumava ter com as três filhas indistintamente, tomou um susto ao encontrar entre as páginas de sua agenda, uma cartela de anticoncepcional. Aquilo a deixou indignada. A pesar de todos os seus cuidados e recomendações, a filha já estava se perdendo na luxúria!
A menina, ao chegar em casa, tomou um susto ao abrir a porta e encontrar a família, tios, tias e agregados, todos reunidos.
— Ué, quem morreu? – ela quis saber assustada.
— Eu chamei seus tios porque queremos ter uma conversa séria com você. – a mãe falou sem rodeios.
— Que conversa, minha mãe? Que foi que eu fiz, agora?
— Esta manhã, espanando a poeira do quarto, deixei cair sua bolsa. Algumas coisas se espalharam pelo chão. O que isto estava fazendo em sua bolsa? – gritou a mãe agitando a cartela de comprimidos em sua mão.
A menina perdeu a cor da face. E antes que encontrasse uma boa resposta, a mãe vociferou. Estava descontrolada. Parecia que o mundo vinha abaixo.
— Vejam, só, ela já está no anticoncepcional! Era só o que me faltava, minha filha diplomada na faculdade já está fazendo sexo por aí. E nem namorado ela tem. Ai meu Deus, eu tanto que falei para as minhas filhas ficarem longe dos homens e justamente a mais velha, a mais responsável, a que devia dar o exemplo, já está fazendo sexo! Meu Deus, aonde foi que eu errei? Minha filha esta transando por aí. Ai meu Deus, ela já está estragada. Menina, você vai ficar viciada em sexo! Isso não tem fim, depois que começa, fica querendo toda hora, isso é uma coisa que não sai mais da cabeça, olha o que eu te digo! Meus irmãos, – disse voltando-se para os irmãos, irmãs, cunhadas e cunhados, o circo todo – me ajudem a colocar juízo na cabeça dessa moça, se não, ela vira uma perdida na vida!
Enquanto falava sem fazer pausa para recobrar o folego, agitava dramaticamente os braços. Os cabelos crespos e prateados se desprenderam caindo sobre os ombros, emprestando ao espetáculo a cena de uma mulher ensandecida.
— Ora, mamãe, não seja ridícula. Se a senhora perdeu o tesão pelos homens, o meu está apenas começando! – disse tomando de volta as suas pílulas.
Naquela mesma noite, a mãe se trancou no quarto passando a chave como sempre fazia. E tirou de uma brecha por detrás da pia do banheiro, um grande objeto cilíndrico emborrachado de aparência desgastada pelo uso frequente e ao qual recorria varias vezes ao dia para aplacar os seus momentos de fúria.

Rio Vermelho, 07 de dezembro de 2014.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Casal Moderninho

Amadeu chega em casa mais cedo e diz para Dulcinha na cozinha, ainda às voltas com a janta:

— Tive uma ideia brilhante para salvar o nosso casamento. – disse com contida excitação.

Acostumada a ouvir as ideias estapafúrdias do marido, ela responde sem tirar os olhos da panela.

— Ah, é? O Nosso casamento está em perigo? Não sabia.

— Você sabe, para agitar um pouco as coisas. – ele corrige-se.

— Ah, sim. – ela fica calada à espera de ouvir o resto.

A história de amor entre Amadeu e Dulcinha resumia-se assim: iam fazer dez anos de casados. Mas para ele, já parecia aquela eternidade. O negócio é que eles ainda eram meninos quando se uniram em matrimonio, nem bem tinham completado o ensino médio. Namoravam desde os quinze e, sabe como são os adolescentes nesta idade, fazem sexo como se isto fosse sair de moda na semana seguinte. Resultado, por causa de um desleixo dos coelhinhos, Dulcinha começou a sentir uns enjoos e não deu outra, estava muito grávida.  Sua família, que era muito religiosa e conservadora, não admitiu outra solução que não o casamento.

Durante todos aqueles anos de casados, no entanto, sem ter tido a chance de conhecer outras mulheres, Amadeu alimentava um desejo secreto de sair por aí pegando todas as que lhe davam bola. E, diga-se de passagem, não eram poucas.  Ele se tornara um rapagão bonito que chamava a atenção por onde passava, um bom partido mesmo. As colegas do trabalho só faltavam se jogar para ele.

— Vamos abrir a nossa relação. — ele disse como se tivesse acabado de inventar a penicilina.

— Que doideira é essa, meu filho, o que é que tu estás me dizendo? – Dulcinha lhe lançou um olhar chocado.

— O negócio é o seguinte, você fica livre para sair por aí e conhecer outros homens. E eu também. Entendeu?

Desta vez Amadeu exagerou na dose. Dulcinha não acreditava no que acabava de ouvir. Todos os santos dias a mulherada na rua dava mole para ele, mas ele se continha. Era a maior tortura que um cristão podia ser submetido. Não havia santo alguma que aguentasse tanta tentação. Ele resistia a trair a esposa. Mas já era hora de ele por um fim a tanta repressão. Então ele veio com esta brilhante ideia, se liberasse a esposa para dar suas escapadinhas, ela podia fazer o mesmo sem ter dor de consciência. Por outro lado, ele sabia que seria fácil pegar a mulherada que vivia lhe atentando. Quanto à Dulcinha, ela era muito pudica para estas coisas e, além do mais, tinha virado um bucho. Depois que teve filho, ela se descuidou, engordou, emagreceu e voltou a engordar novamente. Parecia que tinha perdido toda a vaidade, nem se cuidava mais. Por isso mesmo Amadeu tinha a certeza de que nenhum homem em sã consciência ia quer alguma coisa com ela. Então, dificilmente ele levaria chifres. No frigir dos ovos, só ele se daria bem.

— Ah, eu não sei não. Isto não me parece certo. Casamento é uma coisa sagrada, meu filho. Não é pra brincar desse jeito, não. – ela disse desconfortável.

— E eu concordo com você, minha flor. O que eu estou tentando fazer aqui, é salvar o nosso casamento, entende? Agente quase nem transa mais!

— Ai Amadeu, deixa eu pensar isto direitinho. Me dá um tempo, tá? Vai tomar o seu banho, esfria esta cabeça enquanto eu termino de fazer o jantar. Vai, meu filho.

A princípio, Dulcinha até achou que não era uma má ideia. Ela só não conseguia se imaginar dormindo com outro homem que não fosse o seu marido. Ela tinha as suas fantasias, mas nunca esperou que algum dia pudesse pô-las em prática. Não voltaram a tocar no assunto por duas semanas, Dulcinha até achou que o marido tinha abandonado aquela ideia sem pé nem cabeça. No entanto, ele voltou a insistir.

— Faz o que tu queres, meu filho. Só não te arrependas depois, porque aí a Inês é morta, viu. – ela foi taxativa.

Feliz da vida, no dia seguinte, Amadeu foi à luta. E no dia seguinte e nos outros que se seguiram. Mas agora que se considerava um homem livre, as mulheres pareciam que tinham sumido. É que uma coisa era flertar com ele sem maiores consequências, e outra era se meter com homem casado, o que era de conhecimento de todas. Seu grande plano parecia que tinha ido por água abaixo.

Certa noite, no entanto, Amadeu chegou cansado em casa e depois da janta foi se deitar. Dulcinha fez diferente, se arrumou direitinho, pôs um vestido apertado com um decote de tirar o folego, ajeitou o cabelo e passou uma maquiagem. Ficou bonitinha.

— Eu vou dar uma saidinha com as meninas e já volto. Vá descansar, meu filho. – ela disse. As meninas a que ela se referia, eram as suas amigas.

E no meio da noite, Amadeu foi acordado com um incomum pedido de Dulcinha que acabara de voltar para casa.

— Meu filho, te levanta e vai deitar no sofá da sala.

— Que pedido é este mulher, não vês que estou dormindo? – ele disse ainda grogue de sono.

— É que eu não quis ir pra um motel, não fica bem para uma mulher casada, você sabe.

— Mas o que é que está acontecendo? Eu não estou entendendo.

— Meu filho, tá lembrado, não? Agente abriu a relação. Foi ideia sua. Eu trouxe um rapaz e ele está impaciente. Imagine, ele adora gordinhas casadas. Anda meu filho que já está tarde. Leva o seu travesseiro junto pra você não acordar com o torcicolo.

A contragosto, Amadeu teve de aceitar aquela situação que só agora ele via o quanto ela era esdruxula. Levantou-se bufando de raiva e cedeu o seu lugar na cama para o convidado. No entanto, para não sucumbir de ciúmes ao ouvir os gemidos de luxúria de Dulcinha vindos de lá de dentro, foi encher a cara no boteco da esquina. Afogava as mágoas no copo repetindo aos prantos para si e para quem quisesse ouvi-lo “eu sou um corno, eu sou um corno manso.”

Rio Vermelho, 30 de outubro de 2014.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Desejo Incontrolável de Ser Mãe

Chegara aos 30 e queria ser mãe a todo custo. A maternidade semeava em seu corpo o desejo irrefreável de conceber. Era saudável, informou-lhe a doutora. Só tinha um obstante: precisava de um pai para a criança. E de um marido para ela. Tinha de ser de papel passado, ainda por cima. Jandira era uma mulher convencional neste aspecto. Nada de produção independente. Uma criança precisava de uma mãe. E de um pai. Antes de realizar o sonho da maternidade, precisava arranjar um marido.

O fato de ser a chefe do departamento de pessoal de uma grande empresa era uma situação vantajosa. Dezenas de homens que lá trabalhavam, poderiam ser os candidatos ideias para aquela empreitada. Bastava procurar na ficha dos solteiros, aquele cujo currículo enquadrava-se no cargo oferecido. Jandira era uma mulher obstinada.

Pesquisou na poeira de arquivos até encontrar um Eduardo Jorge. Locado no departamento de projetos no quinto andar, era cinco anos mais velho, economista e já fora promovido duas vezes em quatro anos de empresa. Não demoraria a se tornar o chefe do departamento. Era pontual, nunca faltava e era tido por seus superiores como um profissional ambicioso, trabalhador dedicado e criativo.

Jandira procurava por um marido e por um pai para a sua planejada cria como quem selecionava um candidato a uma vaga na empresa. Analisou o seu psicoteste, ficou satisfeita. Não era maluco. Só precisava saber se ainda continuava solteiro. Mas isto era fácil. Convoco-o a comparecer ao departamento para uma atualização de cadastro.

Depois de confirmar em sua ficha a condição de solteiro, Eduardo Jorge aceitou, primeiro surpreso e, em seguida, com um pingo de desconfiança, o convite de Jandira para que jantasse em seu apartamento que era um novinho em folha e no qual reservara para a futura criança o quarto ao lado do seu. Mandara pintá-lo de rosa, pois queria era uma menina.

Na noite combinada para o jantarzinho, a anfitriã preparou ela mesma um belo linguado assado ao molho de alcaparras na manteiga. Tomou um demorado banho de sais, passou creme hidratante pelo corpo inteiro para deixar a pele deliciosamente fresca e macia. Ficou mais temperada que o prato principal. Vestiu uma calcinha nova de rendinha e por cima jogou um vestido quase transparente. Pelo visto, Jandira planejava um jantarzão.

Ao chegar pontualmente no horário combinado, Jandira fez questão de mostrar a Eduardo Jorge o apartamento novo. Aqui é a sala, ali é a cozinha, aquele é o meu quarto e este ao lado do meu é o quarto do meu futuro bebê, não que eu esteja grávida ou coisa assim, mas estou planejando ter um filho em breve. Tanta informação assim, fez Eduardo Jorge dar um pulo para trás. Epa! Ele passou o resto da noite em alerta, como uma presa à espera do golpe de seu algoz.

Depois do delicioso jantar, Jandira serviu-se como sobremesa. Desconfiadíssimo, Eduardo Jorge, para não fazer uma desfeita à sua anfitriã comeu-la ali mesmo na sala, mas sem querer repetir o prato. Jandira, sem reparar na falta de apetite do rapaz, contou-lhe o seu plano de casar e ter um filho ainda naquele final de ano. Ao ouvir aquela confissão, o rapaz engoliu em seco e teve a incomoda sensação de que, de alguma forma, ela queria que ele fizesse parte daquela tramoia. Ele, entretanto, para não azedar a noite mais do que, para ele, já tinha se tornado indigesta, deixou para fazer qualquer comentário só antes de ir embora.

Ao se despedir, no final da noite, Eduardo Jorge, informou-lhe que também tinha um plano. O de nunca se casar nem aqui e nem na China. Desejo-lhe boa sorte, ele disse encabulado. Você está indo muito bem em seu plano. No ritmo que você vai, irá varrer todo o quinto e o sexto andar num piscar de olhos!


Salvador, 14 de outubro de 2014.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Alma Gêmea Demais

Era tão louco por Aldalice a ponto de desejar devorar a sua carne até os ossos. Nunca se viu tamanha paixão. Chegava a ser quase uma obsessão. As amigas da moça morriam de inveja. Nossa, como eu queria ter um homem tão apaixonado por mim assim, suspiravam.
De fato, Heitor era um namorado como não se via igual. Fazia de tudo para surpreender a sua amada. Fazia-lhe as vontades, enchia-lhe de mimos. Certo dia, ao passar em frente à loja, viu na vitrine um frasco de Gordius Choice, o perfume preferido de Aldalice. Raríssimo de se encontrar. Não teve dúvida. Entrou e comprou o único frasco restante. Nem pestanejou ao pagar uma grana por ele.
À noite, aprontou-se todo e foi fazer uma surpresa à namorada. Ela o recebeu em casa como de costume. E como não disse nada, ele puxou assunto. Não está sentindo um cheiro familiar? Deu um sorriso meio sínico. Sim, você está usando um perfume parecido com o meu! Ao invés de presenteá-lo à Aldalice, Heitor preferiu usá-lo. E foi assim que tudo começou.
Certa noite, depois de fazerem amor, ele teve uma ideia divertida. Vestiu as roupas de baixo de Aldalice e aí fez uma imitação dela. Ficou tão parecida que os dois caíram na gargalhada. Depois voltaram a se amar. A brincadeira teve o efeito de um afrodisíaco em Heitor, Aldalice sentiu a sua pujança vitaminada.
Aquela brincadeira mexeu com Heitor. Ele gostou de sentir a macies do lingerie da namorada roçando a sua pele máscula. Porque não usavam o mesmo material para confeccionar cuecas, ele se perguntou. O rapaz sentiu uma comichão gostosa dentro daquelas delicadas peças íntimas. Era uma sensação indescritivelmente agradável usar calcinha e sutiã.
Uma noite, ele veio da casa de Aldalice com alguma coisa escondida no bolso da calça. Trancou-se no quarto e despiu-se. Vestiu uma calcinha e um sutiã roubados da namorada. Foi dormir daquele jeito. Na manhã seguinte, acordou sentindo-se estranhamente diferente. Alguma coisa tinha mudado.
Não satisfeito em usar apenas a calcinha e o sutiã da namorada, certa vez, ele trouxe para casa um de seus vestidos prediletos escondido em uma sacola de compras. Trancou-se logo no quarto para prova-lo diante do espelho. Caiu feito uma luva. Não é que Aldalice e Heitor vestiam o mesmo manequim!
Deixa de esquisitice, disse Aldalice quando Heitor mostrou-lhe a novidade. Estava usando o seu vestido e de quebra a calcinha e o sutiã. Onde já se viu um macho como você se vestir de mulher. Não é carnaval, meu filho, tire já esta fantasia, ela ordenou incomodada com o que acabara de presenciar.
Mas as esquisitices de Heitor não pararam por ali. Um dia ele foi encontrar a namorada para o almoço. Ela o esperava no restaurante combinado e quando o viu chegar, quase teve um chilique. Heitor chegou vestindo uma saia e uma blusa muito parecidas com as que ela usava para aquele encontro. Ele também usava bijuterias como ela, sapatos altos e uma Louis Vuitton paraguaia igualzinha à dela. Não deixou de passar o batom da mesma cor que Aldalice usava e uma leve maquiagem como a dela. Para completar, ele pôs uma peruca da mesma cor que o seu cabelo e com o corte semelhante.
Aquilo já tinha ido longe demais. Heitor tinha passado dos limites. Aldalice passou-lhe uma descompostura ali mesmo em público. E foi-se embora o proibindo de procura-la novamente. Não até que ele pusesse fim àquela maluquice. Onde já se viu namorar com ela mesma!

Rio vermelho, 6 de outubro de 2014.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

É no Que Dá, Namorado Frequentar a Casa de Judith.

E já se ia um ano e meio de namoro. Era daqueles das antigas, tipo namoro de porta. Arnaldo vinha toda noite ver Judith. Sentavam-se na mureta do portão de entrada em frente à casa. E ficavam lá namorando ao luar. O pai ficava de longe, lia o jornal na sala ao lado da janela. Para não ser indiscreto, vez por outra dava uma olhada para ver se os dois estavam se comportando. Só quando ele bebia uma cerveja no jantar, que Arnaldo, muito espertamente, fazia questão de ir comprar, é que ele baixava a guarda. Mal sentava para ler e caía num sono deslavado. Aí os dois pombinhos aproveitavam a oportunidade indo para um canto escuro ao lado da garagem. E entre beijos e abraços lascivos, se entregavam no maior esfrega.
Judith teria preferido que eles fossem se encontrar em outro lugar. Não gostava de envolver a família em seus namoros. Daria aos pais uma desculpa para sair todas as noites, como fizera de outras vezes. Mas Arnaldo foi taxativo, fazia questão de conhecer os pais e de informá-los de suas intenções. Ela achou aquilo um exagero. Pra quê isso, parece até pedido de casamento, ela argumentou desconfiada. Não, meu amor, eu não me sinto à vontade de comer uma moça de família como você, sem a benção dos pais, entendeu? Não que ele fosse lhes pedir autorização explicita para arquivar a moça. Mas apenas o fato de ele ser apresentado formalmente a eles, já sacramentava o seu consentimento.
Judith achou aquilo muito antiquado, mas atendeu ao pedido do rapaz. Levou-o para conhecer os pais. Mal sabia ela em que estava se metendo.
Arnaldo não apenas era um tipo sedutor, mas, também, um grandessíssimo de um bajulador. Logo de cara, ele tomou a liberdade de chamar a mãe de “sogrinha” e o pai de “sogrão”. Isto foi o suficiente para roubar o coração dos velhos que sonhavam ver a filha casada para lhe dar netos. E ele era de uma atenção com aqueles dois como Judith nunca vira igual entre os ex-namorados. Os pais de Judith logo se apaixonaram por Arnaldo. Ele se tornara o filho homem que nunca tiveram.
Sempre que chegava para a sessão de namoro, ele ia cumprimentá-los. Mas que rapaz educado, comentavam satisfeitos. Às quartas-feiras, ele vinha para o jantar e no domingo para o almoço. Ao final da refeição, e durante toda ela, ele não deixava de elogiar a delícia que era a comida da “sogrinha” que se enchia de felicidade, pois era raro ouvir elogios. Em retribuição, ela tomou nota dos pratos prediletos do genro querido para lhe agradar quando ele viesse. Só de ouvir aquela lenga-lenga, Judith ficava enjoada. Ela nem um ovo cozinhava. Para agradar a velha, Arnaldo lhe trazia Pastéis de Belém que ela gostava muito. Aqueles mimos deixavam Judith enciumada. Arnaldo nunca lembrava de trazer nada para ela, apesar de sua generosidade com ele, ao deixa-lo fazer coisas com ela que nenhum outro namorado teve a chance.
Em dia de futebol, Arnaldo só cumpria meio expediente com Judith. Depois, ia sentar ao lado do “sogrão” em frente à tv. Até torciam pelo mesmo time, quanta coincidência! Houve domingos que os dois foram juntos ao estádio assistir o jogo, deixando Judith a ver navios. Aquelas coisinhas estavam fazendo ela perder o interesse por Arnaldo.
Como tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Um dia Judith chamou Arnaldo para uma conversa longe de sua casa. E terminou o namoro. Não queria mais. Tinha se enjoado dele. E Arnaldo não insistiu. Foi-se embora magoado, nunca mais deu as caras na casa de Judith.
Como era de se esperar, logo os pais de Judith sentiram falta do rapaz. E ao serem informados do fim do namoro, não deu outra: ficaram inconformados, mais até que o próprio interessado. Como podia ser, um rapaz tão bom, um excelente partido! Aonde é que essa menina está com a cabeça? A semana toda foi aquele clima de velório em casa. A mãe choramingava pelos cantos. Viu o que você foi fazer à sua mãe?, o pai chantageava também inconsolado. Não falou mais com a própria filha, desde então. A pressão do velho bateu nas alturas e ele foi parar na emergência. A mãe era um chororô só. A filha ia matar o pai de decepção! Judith se encheu de culpa e remorso. Foi procurar Arnaldo. Viu, é nisso que dá namorado frequentar a minha casa, ela se recriminou.
Dois dias depois, o pai teve alta e voltou para casa. E advinha quem apareceu para jantar como nos velhos tempos? Judith ia ter de pensar em outra forma de se livrar de Arnaldo.

Rio Vermelho, 20 de agosto de 2014.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Uma Manhã de Cão

Minha amiga Sarah H. me veio com um convite inesperado.  Queria que eu a acompanhasse em seu dia de visitas a clientes. Ela é representante comercial de um produto singular que promete livrar das mãos todo e qualquer tipo de germe contraído com o aperto de mão. Então, o cidadão aperta a mão de outro e, em seguida, esfrega o tal produto milagroso nas mãos que ficam esterilizadas para o aperto de mão seguinte. Coisa de louco! Vivemos em tempos que se pratica o germecídio a cada segundo. E o que é que eu entendo desta maravilha microbicida? Coisa nenhuma!
Ela apenas queria uma companhia para cumprir aquela obrigação profissional. Então eu pedi ao meu patrão para que me dispensasse do serviço naquela manhã, com a desculpa de que eu precisava fazer um passeio urgente. O uso da palavra urgente foi estratégico, pois esta causa impacto e convence sobre a gravidade do assunto. Não fosse o meu patrão e o seu funcionário a mesma pessoa, tal justificativa de ausência ao local de trabalho seria motivo de justa causa.
E lá fui eu acompanhar minha amiga Sarah H. em sua romaria. Eu meio que precisava mesmo de um passeio de carro para arejar as ideias. No horário combinado, ela estava na porta de casa em seu reluzente coreano. Caía uma chuva intermitente, mas não daquelas cuja água inunda as vias provocando o caos na vida das pessoas.
Havia caos sim. Mas este não fora causado pelas águas da chuva que caia. As ruas estavam inundadas por uma enxurrada de automóveis. O congestionamento começava na esquina da rua onde moro e se prolongava ao longo dos quase cento e cinquenta quilômetros percorridos naquela manhã.
Vamos combinar, Salvador virou um congestionamento só. Uma longa fila de carros estancados um atrás do outro, conduzidos por mal-humorados motoristas. E buzinam, como gostam de buzinar essa gente. É provável que este ato desesperado lhes dê vasão ao seu estresse, mas com certeza não tem o dom mágico de fazer o congestionamento sumir de sua frente. Isto me faz lembrar que certa vez eu tive uma ideia brilhante para uma invenção que me tornaria um milionário da noite para o dia. Era muito simples. Um headphone conectado diretamente à buzina do automóvel com o qual o motorista poderia buzinar à vontade diretamente em seus próprios ouvidos no volume do seu gosto, sem incomodar ninguém. Também não causaria poluição sonora. Mas os japoneses já devem ter passado a perna em mim novamente num de meus inventos, assim como o fizeram com a minha ideia da câmera digital e de comer de palitinhos.
Em nossa provinciana Salvador, usar o transporte público é coisa de gente feia e pobre. Quem tem carro faz questão de colocá-lo na rua para mostrar ao mundo como subiu de vida. Para o brasileiro, o carro não é apenas um meio de locomoção e sim uma demonstração de que as coisas estão dando certo para ele. É até irônico ver como o carro deixou de ser uma solução para virar o problema. Há, também, uma escassez de bom senso entre as pessoas. Quantas poderiam tranquilamente deixar o carro em casa e ir de transporte público, mas se rendem à vaidade e ao comodismo? Por isso, há mais carros que ruas em Salvador e o que sobra, certamente, são os congestionamentos.
Para fazer o seu trabalho, minha amiga Sarah H. precisa realmente de um automóvel. Mas o que dizer de minha vizinha que só vai à padaria, que fica localizada na rua de trás, dirigindo o seu carrinho? Ela dá tantas voltas para encontrar uma vaga para estacionar que termina encontrando uma justamente em frente à sua casa!
Eu confesso que gostei daquele passeio pelos congestionamentos de Salvador durante um dia de semana. Conheci caminhos e atalhos tortuosos cuja existência eu desconhecia. Vi como a cidade cresceu – e continua crescendo – e se modificou para melhor e para pior. Observei como o fato de o motorista ter uma carteira de habilitação não lhe dá habilidade para dirigir racionalmente e com bom-senso. Agradeci a Deus por jamais precisar dirigir em Salvador com os seus intermináveis congestionamentos. E ao final da manhã, sucumbi à exaustão por ter assistido passivamente sentado no banco do carona ao inferno que é sair de carro em nossa cidade.
Se algumas pessoas deixassem o carro na garagem para que aquelas que realmente precisam dele saíssem sem ter de enfrentar congestionamentos, o dia de todos seria bem melhor. Mas, pensando bem, talvez as pessoas estejam viciadas em um bom congestionamento!


Rio Vermelho, 21 de julho de 2014.