segunda-feira, 25 de março de 2013

Uma Incômoda Amizade


Nem sempre temos a sorte de escolher os nossos próprios amigos, por mais íntimos que estes se tornem. Ao contrário, muitas vezes, nós é que somos escolhidos por estes.  E esta é uma estória de uma incomum amizade, destas que agente não consegue se livrar, por mais incômoda que esta seja.
         Nos últimos dias, mal Raimundo Nonato entrava em casa e sua atenção era chamada por um incômodo ruído que assemelhava-se ao zumbido provocado por um inseto ao bater as suas poderosas asas, como se este estivesse preso de algum modo e tentasse libertar-se. Por mais que ele procurasse a origem daquele barulho, vasculhando os limites de seu pequeno apartamento, ele não conseguia descobrir a fonte daquele aborrecimento. Mas como ele sempre chegava exausto, depois de passar o dia inteiro trabalhando montado sobre uma motocicleta, ele era motoboy, dava-se por vencido e ia dormir ouvindo aquele zumbido intermitente até cair no sono profundo.
         Na manhã seguinte, quando acordava, lá estava o zumbido novamente, aguardando-o para desejar-lhe bom dia. Aquilo o fazia ficar mal-humorado e estragava o seu dia. Sempre atrasado, entretanto, ele vestia-se e saía apressado para tomar o café-da-manhã na padaria.  Em seguida, partia para sua jornada de trabalho sobre a motocicleta, ziguezagueando ente os automóveis, vencendo os congestionamentos que ia encontrando pela frente. Durante o dia, enquanto trabalhava, ele esquecia aquele aborrecimento que se tornara aquele misterioso zumbido.
         Mas ao final do dia, quando Raimundo Nonato voltava cansado, lá estava o zumbido aguardando por ele em sua casa. Naquela noite, entretanto ele estava disposto a acabar com aquela aporrinhação, resolveu colocar a casa de pernas para o ar e não descansaria enquanto não encontrasse o responsável pelo maldito zumbido. Arrastou móveis e procurou por baixo e por trás destes. Fuçou armários, revirou gavetas, até debaixo do tapete procurou sem sucesso. Infeliz, resolveu ir dormir na casa da mãe que ficava duas ruas adiante da sua.
         Ao chegar à casa materna, mal se queixou do barulho para ela e, para seu desapontamento, percebeu que zumbido o havia ido junto. A mãe foi incisiva:
— Este zumbido é no ouvido!
— Será? – perguntou-se Raimundo Nonato aflito.
         No dia seguinte, não deu outra. Correu para ver o médico de ouvido. Foi o primeiro a ser atendido. O doutor Pereira tinha o olhar cansado e era um daqueles sujeitos que gostava de falar pelos cotovelos. Quando Raimundo Notado descreveu o seu zumbido, o médico lhe disse que isto poderia acontecer por diversas razões. Em seguida, começou a falar de sua recente viagem de passeio a Aracaju e de como aquela cidade era limpa e organizada. Contou como o povo sergipano era cortês e educado. Falou de suas bonitas praias e de como um Estado tão pobre estava em melhor situação que a Bahia. Aquela lenga-lenga não tinha mais fim e parecia que o doutor tinha esquecido o motivo que levava o paciente até seu consultório.
         Finalmente o doutor se deu por satisfeito com a sua preleção sobre Aracaju e pediu que Raimundo Nonato fosse sentar-se na cadeira de exame que era muito semelhante à do barbeiro. Em seguida, olhou para dentro do ouvido do rapaz com a ajuda de um aparelho apropriado para aquele procedimento. Entretanto, nem Raimundo Nonato esquentou o assento da cadeira e doutor deu a análise por concluída. O ouvido do rapaz era perfeito, nada havia de errado com ele.
         — Seu ouvido está ótimo! Você não ouve o zumbido quando está na rua porque o barulho exterior o camufla. Faça uma experiência, ligue a TV quando chegar em casa e note como seu zumbido desaparece.
         — Mas porque meu ouvido está zumbindo?
         — Como eu lhe disse, meu caro, tais zumbidos são um mistério. A causa pode ser qualquer coisa ou simplesmente nada. – sentenciou o doutor.
         — Mas o que faço, doutor? Este zumbido vai me deixar louco. Não tem um remédio?
         — Meu caro, o único remédio que posso lhe prescrever é o seguinte conselho: Faça do zumbido o seu amigo. – deu por encerrada a consulta.

Rio Vermelho, 25 de março de 2013.

         

domingo, 10 de março de 2013

Pior Que Tosse de Cachorro

Outro dia, comentava satisfeito aqui em casa: este ano, a minha tosse não veio. Todo verão, tenho uma tosse esquisita, horrível mesmo, que vem, quase acaba comigo e depois some, só retornando no ano seguinte. Dois dias depois, não deu outra, comecei a tossir. Veio de forma discreta, como faz sempre, e foi evoluindo e se instalando, tomando a força de uma besta! Tossia o dia inteiro e, por vezes, era acometido de acessos violentos, curvando-me sobre o corpo, quase cuspindo fora os pulmões. Tudo, então, ficava escuro como num apagão e eu só enxergava flashes de luzes que piscavam como num curto-circuito. A voz ficava cansada e sumia por horas. Entretanto, nunca me ocorreu ir a um médico por causa dessa tosse besta.
            Uma querida amiga de São Paulo, a passeio em Salvador, veio me visitar. Ao testemunhar minha tosse, sugeriu-me um xarope fitoterápico milagroso, cujo nome passou-me num pedaço de papel. Corri até a farmácia, depois que foi embora, e comprei aquela maravilha curativa cuja fabricação era numa cidade da Bahia de nome sugestivo: Santo Antônio de Jesus. Entretanto, passados dois dias e de ter consumido todo o frasco, minha tosse continuava firme e forte.
Aquele meu estado enfermo começava a despertar a atenção e preocupação de amigos. Um amigo italiano, impressionado, veio trazer óleo de hortelã, que faria a tosse sumir. Colocou duas gotas na palma de minha mão e mandou que eu as friccionasse uma contra a outra e as levasse à minha boca em forma de concha, aspirando fundo. A sensação mentolada foi muito agradável e refrescante, mas aquela tosse dava demonstrações de que não desistiria de mim assim tão fácil. Um vizinho árabe, de quase noventa e meio cego, trouxe-me um unguento para passar na garganta. A sensação era agradavelmente gelada, muito interessante, mas, também, não funcionou. Duas amigas vieram me trazer mel, uma delas trouxe um pote enorme do produto colhido na Chapada Diamantina. Ajudaria a suavizar e limpar as vias aéreas, ela disse. Muito delicioso aquele mel, inclusive com um pedaço de pão, mas a tosse não foi embora. Mastigue uns pedaços de gengibre, sugeriu um. Aspire álcool, disse outro. Já tentou um chá de cascas de limão com alho, cravo, mel e canela? Não falha nunca! Pois é, comigo nada disso deu certo.
Certo dia, acordei mal. Hoje vou juntar-me ao Criador, pensei. Lá pelas tantas da tarde, me dei por vencido. Procurei na internet por um médico e, por ventura, encontrei um não muito longe aqui de casa. Depois de uma conversa sofrida, entrecortada por acessos de tosse e perda de voz, o atendente, do outro lado na linha, informou-me que a médica só teria horário no dia seguinte. Tarde demais, implorei, melhor chamar o padre agora. Impressionado, o rapaz disse: “se o senhor vier agora, será o próximo a ser atendido.”
O consultório ficava a apenas três quilômetros e meio de casa, fui a pé, andei rápido. De carro, jamais chegaria a tempo, por causa do interminável congestionamento das 15hs. O consultório ficava num prédio estalando de novo e muito chique, lembrei que não tinha perguntado o preço da consulta, estava na cara que iria doer no bolso. Subi até o quarto andar, ao entrar na sala de espera, me deparei com uma multidão, havia gente sentada e de pé. Ao me apresentar, o rapaz tomou os meus dados pessoais e me mandou direto ver a medica. Não me senti culpado de estar furando a fila, um moribundo tem lá as suas regalias!
Ao entrar no consultório, um lugar branco, asséptico e impessoal, uma jovem e bela mulher com a mesma descrição da sala, levantou-se de sua cadeira por de trás de uma mesa vazia, exceto por um monitor de computador e teclado, veio me cumprimentar. Vestia um desses jalecos grossos, longos e brancos como a neve. A pele não era menos branca e os cabelos longos, lisos e pretos contrastavam com o resto do cenário. Não usava maquiagem, joias ou qualquer adereço, não havia nela nenhum apelo sexual, ao contrário, parecia assexuada. Era muito formal e parecia desconfortável na presença de estranhos.
— Como tem passado, doutora? – estendi-lhe a mão.
— Muito bem. E o senhor?
— Não tão bem e é isto que me traz aqui. – respondi sentando-me na cadeira disponível.
— Conte-me o seu sofrimento. – ela pediu.
— Eu estou sofrendo de amor, doutora. Mas o que me traz aqui é essa tosse.
Enquanto eu descrevia a minha tosse, ela digitava e não tirava os olhos do monitor do computador. Eu não poderia dizer se ela estava atualizando o seu “feed de notícias” do Facebook, twintando sobre a minha consulta, ou pesquisando no Google um diagnóstico sobre os sintomas eu lhe descrevia com riqueza de detalhes literários. Talvez houvesse um médico de verdade do outro lado e ela fosse apenas uma intermediária. Depois de ela me fazer várias perguntas e eu de respondê-las, ela pediu-me que a acompanhasse na sala ao lado, para me examinar.
Sentei-me numa maca e, para minha surpresa, ela dispensou o tradicional “coloque a língua pra fora e diga A”. A medicina moderna deve ter banido este ultrapassado procedimento, pensei. Ao contrário, ela me mandou levantar a camisa, que preferi tirar, e foi auscultar meus pulmões pelas cotas, com a ajuda de um estetoscópio. Mandou tossir, respirar fundo, tossir de novo seguidamente. Fez isto minuciosamente e demoradamente que me preocupou. Examinado as costas, fez o mesmo pela frente. Pude ver de perto a sua pele perfeita e branca. Os olhos eram azuis e gélidos, quase sem expressão. Senti a maciez de sua pele quando me tocou, desejei aquela boneca de plástico.
— Pode vestir a camisa. – ela disse concluindo.
— Doutora, não vai querer examinar a minha próstata? – lancei-lhe um olhar languido.
— Isto é desnecessário. – respondeu surpresa.
— Mas eu faço questão! – insisti.
Ela deu as costas e voltou para a primeira sala e eu a segui logo atrás. De volta à minha cadeira, perguntei-lhe:
— Quantos dias ainda tenho, doutora?
— O senhor ainda vai viver até os cem! – sorriu pela primeira vez.
Em seguida, ela tentou dar um diagnóstico. Indicava que havia alguma coisa inflamada entre a minha cabeça e os meus ombros, mas não precisava ao certo do que se tratava. Chamou isto de uma traqueíte e depois de outra ite, enfim, voltou-se para o computador e foi digitando novamente e depois imprimiu. Era a receita.
— Mas que letra bela e legível. – eu brinquei, mas ela não achou graça.
Prescreveu-me umas gotinhas maravilhosas para fazer o nariz parar de escorrer, um poderoso antibiótico, também muito utilizado para curar dor de dente de elefante e outro comprimidozinho que, se não fosse tomado na dose e tempo certo, poderia trazer-me complicações no fígado, rins, visão ou me fazer andar de cadeira-de-roda pelo resto da vida.
— Eu lamento ter de lhe passar este remédio, mas para o seu caso, não tenho alternativa. – disse a doutora solenemente.
Despedi-me. “Obrigado, doutora. Espero não revê-la nunca mais.” Fui embora.
Voltei para casa andando, no caminho, passei na farmácia e comprei os medicamentos. Lá mesmo, já tomei o primeiro comprimido, seguindo ordens médicas. À noite, tomei mais uma dose e já sentia os efeitos da medicação, podia tossir sem ter a impressão de que a cabeça explodiria junto.
Em situações como esta é que agente descobre os amigos que tem, eu melhorei da tosse dias depois, graças ao carinho, zelo e solidariedade dos amigos que continuaram me telefonando para saber de minha saúde e me sugerindo remédios caseiros milagrosos e, provavelmente, também, por causa dos remédios prescritos pela doutora.

Rio Vermelho, 10 de março de 2013.

domingo, 3 de março de 2013

A Dúvida Cruel


Fui dar minha caminhada na orla como faço diariamente, mas, neste sábado, troquei o final de tarde pela manhã, pois o dia era convidativo a tomar um saudável banho de sol logo bem cedo. Ao passar em frente à praia da Paciência, não resisti aos seus encantos para que eu fosse dar um mergulho, pois a água estava cristalina como a piscina de um clube grã-fino e serena como as águas do Caribe, além de que, totalmente deserta, exceto por um vulto que eu via de longe banhando-se tranquilamente. Dei por finalizada a caminhada e desci a escada que levava até a areia, e, depois de me desfazer de roupas e tênis, mergulhei na água que estava deliciosamente gelada.

         Não muito distante de onde eu estava, pude ver de perto o vulto o qual eu enxergara da balaustrada. Era uma senhora gorda e de expressão alegre que me cumprimentou com um jovial bom dia, ao que eu retribui com o mesmo entusiasmo. Perguntou-me se eu era morador do bairro e respondi-lhe que desde que eu usava fraudas. Ela disse também que sim e apontou-me onde morava, um prédio antigo erguido exatamente em frente à praia. Então eu lhe disse que ali morara uma antiga professora dos tempos do primário, ao que ela falou o seu nome, dizendo que a conhecia desde menina.

         Fulana de tal tinha sido minha professora dos meus 11 aos 15 anos e guardo dela boas recordações. Ela era, então, muito jovem, na flor da idade, uma dessas legítimas louras de farmácia com todos os seus atributos, muito atraente. Gostava de usar roupas justas com decotes que mal conseguiam conter os seios grandes, os quais eram legítimas criações da natureza, além de um punhado de brincos, colares e pulseiras coloridos que chacoalhavam harmoniosamente quando ela caminhava, pois o seu gracioso rebolado era como o de uma musa andando nas areias mornas da praia de Ipanema. Aquele seu jeito sensual chamava muito a atenção dos garotos da escola que agitavam-se quando ela passava pelo pátio e estes  expressavam a sua admiração de forma escondida por debaixo das calças, a ponto de causar-lhe dor e fazê-los andar de ladinho. Eu, também, a admirava muito e, em meus momentos de solidão e a abandono, tinha nela a minha fonte de inspiração...

         Como esta senhora parecia realmente ser uma antiga moradora do bairro, perguntei-lhe se conhecia Fulano de Tal, meu vizinho de sempre, ao que ela respondeu:

         — Lógico, muito meu amigo. – ela respondeu. Em seguida, acrescentou. – Ele morreu.

         — Realmente ele se foi. Que saudades que ele faz. – eu disse.

         — Sou muito amiga, também, de Fulaninho, seu filho.

         — Sim, Fulaninho...

         — Que coisa horrível, Fulano foi morrer justamente no dia do aniversário de Fulaninho. Isto traumatiza qualquer filho.

         — É verdade. – eu disse. – Mas ele vai superar isto, afinal ele é um homem de quase 70 anos.

         — Com tantos dias durante o ano, Fulano foi escolher morrer logo no dia do aniversário do filho! – ela disse com um pingo de indignação.

         — Infelizmente, nem sempre é possível se escolher o dia que se vai encontrar o Criador, não é mesmo?

         — Uma das coisas que Fulaninho mais gostava era fazer uma festa no dia do seu aniversário... Ele convidava todos os amigos, inclusive eu. Tinha tanta comida, bebida e música. Fulaninho sabia como dar uma festa... – ela disse meneando com a cabeça em tom de pesar.

         — Fazer o quê, né? – eu disse sem ter o que dizer.

         — Veja só, mas que situação: no dia que Fulano morreu, Fulaninho não sabia se comemorava o aniversário ou se enterrava o pai. – disse lamentando.

         — Realmente, está é uma dúvida cruel. – respondi perplexo.

Rio Vermelho, 3 de março de 2013.