quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

O que foi que aconteceu com a festa de Iemanjá?

    Não sou saudosista e nem sempre acho que as coisas como eram feitas antigamente eram as melhores. Reconheço que há coisas que mudam para a melhor, e outras, infelizmente, nem tanto.

    Como morador antigo do Rio Vermelho, vim para cá em 1964, portanto, lá se vão 60 anos – há gente aqui há mais tempo que eu –, assisti a lenta transformação da festa de Iemanjá, que já foi escrita com ipsilone.

    Para quem desconhece, vai aqui um breve resumo de sua origem: tudo começou com uma oferenda dos pescadores do Rio Vermelho, rogando a Iemanjá que aquele ano de 1923 – há 100 anos! – não fosse de escassez de peixe como nos dois anos anteriores. Naquele ano, graças a Iemanjá, não faltou peixe para quem quis. Como era de se esperar, nos anos que se seguiram a oferenda foi renovada e a prosperidade continuada. E o ato devoto consolidou-se como uma festa popular no calendário soteropolitano.

    Eu recordo que largos, praças, vias à beira-mar e transversais do Rio Vermelho eram tomadas por comerciantes de bebida e comida que montavam seus bares nômades, lado a lado, sob barracas de telhado de lona e mesas e bancos de madeira feitos artesanalmente – havia também barraquinhas de tiro ao alvo e outros jogos e parquinho de diversão. Para que não se misturassem com os do vizinho, e não houvesse dúvida sobre qual pertence a quem, cada barraqueiro pintava os tampos de suas mesas e bancos com desenhos geométricos semelhantes que formavam uma composição visual rica ao serem empilhados, uns deitados sobre os outros, durante o dia – estas composições foram objetos de ensaios fotográficos de renomados fotógrafos sobre a cultura popular – antes da festa recomeçar. Sim, porque naqueles tempos, as comemorações à rainha do mar duravam até duas semanas. A parte profana da festa ficava a encargo desses comerciantes temporários, que podiam vender que bebida fosse e cerveja de qualquer marca.

    Havia um quê de improviso, de genuíno, espontaneidade e ingenuidade simplória na organização da festividade, que atraía devotos trazendo as suas oferendas a Iemanjá, foliões e curiosos de todos os bairros da cidade. O dinheiro para a produção da festa ficava por conta do arrecadado no comércio local, da doação de simpatizantes e na venda de camisetas alusivas aos festejos, cujos organizadores eram os pescadores da colônia de pesca do Rio Vermelho. A ajuda financeira da prefeitura era coisa incerta – e quando vinha, era minguada – e só era garantida mesmo em ano de eleição. Quantas foram as vezes que os pescadores penaram para conseguir essa ajuda.

    Algo que eu tenho gravado em minha memória é o perfume adocicado de uma flor branca chamada angélica, que era vendida às centenas ao longo das ruas para que fossem oferecidas a Iemanjá. Não existiam outras, estas eram como se fossem as oficiais para oferenda.

    Quando hoje vejo a superprodução que se tornou a festa de Iemanjá atraindo milhares de pessoas, de não haver espaço para andar, com seu patrocínio de marca de cerveja, a oferta inesgotável dessa marca de bebida à venda no número infinito de vendedores ambulantes com caixas de isopor – estes substituíram os antigos barraqueiros com seus banquinhos e mesas de madeiras coloridos –, suas centenas de festas privadas pagantes em bares e restaurantes, dezenas de palcos de espetáculos musicais para todos os gostos, vendedores de flores – as angélicas foram substituídas por rosas – e outros penduricalhos e o prefeito a jactar-se na mídia sobre os milhões que o município gastou na festança, me pergunto, onde foi parar Iemanjá no meio dessa sandice toda.   

  

       Rio Vermelho, 1 de fevereiro de 2024.

domingo, 7 de janeiro de 2024

E que venha mais um ano novo.

Outro dia uma amiga respondeu à minha mensagem natalina, pelo aplicativo, dizendo que ela estava bem e com muita saúde e resistência às pragas do mundo, e que os idosos da família já estavam se despedindo, mas que já vinha reabastecimento do outro lado, certamente uma alusão aos jovens da família e a outros que já estão a caminho. Esta transição entre o velho e o jovem é um clássico exemplo da repetição do ciclo da vida, que se renova a cada geração.

O inicio de um ano novo é semelhante a esta repetição, visto por quase todos como um recomeço, um novo ciclo que se reinicia e, por isso, aguardado com entusiasmo e esperança por acontecimentos venturosos.

E já no primeiro dia do ano, encontrei casualmente com a filha de um querido casal de amigos. Ela era uma menina a última vez que a vi, e agora é uma mulher feita, carregando uma barriga de seis meses. Os pais, que só vejo em suas peripécias através das redes sociais, estão de cabelos brancos e têm o privilégio de morarem na encantadora Chapada Diamantina. O pai veio da Alemanha há muitos anos e agora a filha é que mora lá. É a nova geração que faz o caminho de volta, como ela mesma disse.

A mensagem de minha amiga e o reencontro com a filha de meus amigos para mim trazem esse significado de renovação pessoal que o início de um novo ano apenas representa simbolicamente, embora, o que acontece realmente é que o dia 10 do primeiro mês do ano é apenas uma continuação no tempo do dia 31 do último mês do ano que passou. Sem nenhum romantismo, é só uma troca da folhinha velha pela nova, pendurada na parede. Se alguma coisa tiver que mudar de verdade, cabe a cada um de nós fazer esta mudança manualmente e não esperar pelo automático. Algumas pessoas aderem a uma lista de resoluções para o ano novo e merecem aplausos por conseguirem cumpri-la, mesmo que não totalmente, ao passo que outras apenas repetem a lista do ano passado, que é uma cópia idêntica à do ano anterior.

Para todos aqueles que têm me acompanhado neste blog ao longo dos anos, desejo de coração que realizem as suas listas, caso as tenham feito, e, para aqueles que não são tão sistemáticos, desejo o mesmo sucesso também. O meu melhor abraço para todos e feliz ano-novo.

 

Rio Vermelho, 2 de janeiro de 2024.

 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

O Papai Noel Sujo

Esse personagem é recorrente em minhas crônicas. Trata-se de um pedinte aqui do Rio Vermelho, possivelmente um morador de rua; mais um como, tantos outros que povoam as nossas cidades grandes, e vão aumentando em número e se proliferando, mas ainda assim continuam invisíveis aos olhos indiferentes do poder público.

O Rio Vermelho, por ser um bairro aprazível e muito frequentado por turistas, está cheio deles, quero dizer, de pedintes, talvez porque a prefeitura entenda que isso dá um sabor pitoresco à experiência de visitar a nossa cidade.

Como eu e você, o meu pedinte deve ter um nome, mas como nunca nos apresentamos formalmente, ignoro como se chama. Mas tenho observado como ele aborda transeuntes, os comensais dos bares ao ar livre e entra nos estabelecimentos, como na sorveteria em que me encontro escrevendo essa crônica neste exato momento, e pede algum dinheiro – não digo trocado, pois ele já tem uma tabela, começa por pedir uma nota graúda e vai reduzindo a sua ambição até, na maioria das vezes, sair de mão limpa. Como lhe é negado a esmola, com a desculpa de que a conta será paga com o cartão, ele se demonstra ágil de raciocínio, apesar de pobre, mas não é burro, e, num derradeiro apelo, pede então um sorvete, obviamente a ser pago no cartão. Pego de surpresa, o burguês rende-se à insistência e astúcia do pedinte, e fala à atendente do balcão para incluir mais um sorvete na conta.

O nosso pedinte é lembrado aqui na sorveteria não apenas por sua frequência ao estabelecimento – ele vem um dia sim e no outro também, pelo menos duas vezes – mas pela catinga que trás consigo quando adentra o estabelecimento. Ele exala o odor de quem não vê água com frequência, para não dizer quase nunca, aquele azedume suarento que nos provoca repulsa pelo semelhante menos afortunado. Talvez para se ver livre dele – e de seu fedor –, as pessoas sucumbem ao seu pedido.

Outro dia ele apareceu aqui na sorveteria carregando um grande saco plástico preto às costas, cheio de coisas dentro, provavelmente latinhas vazias para serem vendidas à reciclagem. Na cabeça, um chapéu de Papai Noel nos lembrava do tal espírito natalino que devemos ter nessa época do ano, seja lá o que isso seja, mas pelo menos uma vez por ano. Ao invés de sair distribuindo presentes, como se espera do Papai Noel, ele saiu pedindo aos clientes que estavam na sorveteria e, no final, saiu com as mãos tão vazias quanto quando aqui entrara, exceto pelo saco de lixo que carregava. Nem um sorvete ele conseguiu levar dessa vez, que espirito natalino é só para os parentes mais próximos, e olhe lá.

Feliz Natal a todos.


Rio Vermelho, 21 de dezembro de 2023.


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Nova forma de trabalho

Eu sou um daqueles milhares de usuários que todos os dias embarcam em transportes públicos. Já tive automóvel, mas não só o alto custo para manter esse conforto urbano, a falta de real necessidade de possuí-lo para desempenhar tarefas do meu cotidiano, como o aumento dos congestionamentos na cidade e a dificuldade para estacionanar, fizeram eu me tornar um sem-carro – fora as questões ambientais intrínsecas ao uso de automóvel. Ao pôr na balança as vantagens e desvantagens de ter um automóvel, confesso que me livrei de um problema a menos em minha vida. Eu sempre vi o carro como um eletrodoméstico, como um fogão, geladeira ou liquidificador, só me serve para que me leve de um lugar a outro, e de modo algum como um símbolo de status social ou forma de investimento. Por isso, sempre que preciso ir a algum lugar distante, pego um ônibus ou metrô, e se estou com pressa, a poucos passos de minha casa existe um ponto de taxi, que me poupa de esperar por transporte por aplicativo, que motorista de taxi, além de não se recusar a fazer qualquer viagem, conhece a cidade como a palma da própria mão.

O inconveniente do transporte público não é a demora da viagem, quem se planeja, não chega atrasado, mas o entra e sai de vendedores ambulantes e pedintes. Esse pessoal fala alto para ser ouvido dentro do coletivo e quando descem do ônibus, já entra outro com a mesma falação interminável e repetitiva. Isso enche o recipiente, como diria o meu pai.

Já no metrô é outra coisa, uma voz feminina, de entonação corporativa, anuncia que atividades de vendedores ambulantes, pedintes, pregadores religiosos, de partidos, de sindicatos e até assaltantes profissionais são proibidas. Então viaja-se com mais tranquilidade, dá até para ler algumas páginas de um livro, sem ser perturbado pelo falatório.

Mas vivemos num país em que leis foram feitas para irem parar no cesto do lixo. Onde há uma proibição, é certo que haverá um infrator, alguém que vive segundo a crença de que leis foram feitas para não serem cumpridas. Não é à toa que estamos nessa zorra total.

Outro dia, lá ia eu num trem do metrô, na hora próxima do almoço, então é possível imaginar a aglomeração de gente de pé, porque os assentos estavam todos tomados – mas não era nem de longe o aperto que é num ônibus do BRT, nos empurrado como sinônimo de transporte de conforto, onde, na verdade, não há nem espaço para se soltar um pum. –, então eu ouvi um vozerio no vagão onde eu estava. Era uma senhora pedindo dinheiro. Ela tentava circular entre os passageiros de pé no vagão, o que não era uma tarefa fácil, uma vez que estava lotado. Então ela abria caminho falando assim:

— Com licença… Com licença… Por favor, deixa eu passar que eu estou trabalhando.

Aquela declaração me surpreendeu. Ora essa, desde quando pedir virou trabalho? Para uma população na margem da miséria, que não encontra vez nos programas de benefícios sociais do governo, pedir tem sido a única solução. Pessoas acordam todas as manhãs com o estômago vazio e vão para as ruas em busca de solidariedade, para não passarem fome. É claro que há aqueles que simplesmente preferem pedir a procurar por um trabalho de verdade, mesmo que seja de vendedor ambulante. Trabalho ou não, é inegável que pedir é uma atividade lucrativa, livre de impostos e despesas. Um pedinte obstinado consegue ganhar mais que um assalariado de carteira assinada, por hora de trabalho. Mas fica a questão, se todos nos tornamos pedintes, quem irá trabalhar para sustentar essa multidão? 

 

Rio Vermelho, 30 de outubro de 2023. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

As baleias do Rio Vermelho

Antes mesmo de Cabral errar o caminho e vir tomar posse dessas paragens, as baleias já cruzavam as praias do Rio Vermelho, que ainda não tinha essa rubra designação – graças ao empenho da Embasa, a empresa pública de saneamento sanitário, no entanto, deveria trocar o nome para Rio Escuro e Fedorento. Antigos moradores do bairro, contam, como se fosse a coisa mais trivial do mundo, ver baleias passar de lá para cá, sem anunciar o seu rumo. Os pescadores de praia já viram centenas e têm isso como um fato tão comum quanto a presença dos xaréus que pescam em dia que a maré está alta.

Eu nunca vi uma baleia em minha vida que não fosse na revista ou no cinema, mas dona Zulmira, a vendedora de água de coco instalada em frente ao Mirante da Paciência, já teve esse privilégio. Foi outro dia, ela me contou, olhou pro mar e lá estavam duas! Mergulhavam exibindo a enorme cauda e esguichavam água quando voltavam à superfície. Uma coisa linda de se ver, segundo suas palavras. No início, ficou impressionada com o tamanho dos peixes, mas depois caiu em si e concluiu que eram baleias. “Baleia não é peixe, é?, me perguntou, e eu não soube o que responder. Era uma tarde de dia de semana, com o sol fazendo um calor de lascar, por isso poucos testemunharam a visita inesperada dos cetáceos. De agora em diante, torce para ver outras, e até passou a se arriscar, trazendo o celular para gravá-las em vídeo, caso reapareçam, para mostrar aos netos. Espera que isso aconteça antes de os vagabundos levarem-lhe o cobiçado aparelho.

Já houve época em que a costa era abundante de peixes e baleias, assim como a Mata Atlântica chegava até a beira da praia, e os tupinambás que banhavam-se nessas águas, vez por outra tinham a grata satisfação de almoçar um europeu gorducho. Mas isso faz muito tempo, e hoje em dia a carne humana é imprópria para consumo, cheia que é de aditivos químicos.

Mas voltando às baleias do Rio Vermelho, o seu retorno à costa em maior frequência, motivou a prefeitura do município pôr uma horrenda representação pretensamente realística de uma cauda de baleia e declarar o mirante da Paciência um observatório do gigantesco e belo animal aquático. Como é necessária bastante paciência até que uma baleia (ou duas) dê o ar da graça, a prefeitura deveria também ter reposto os bancos de madeira que foram surrupiados do local, para que os curiosos aguardem sentados pelo aparecimento delas, uma vez que esperar de pé cansa! Fica aqui a sugestão.

 

Rio Vermelho, 11 de outubro de 2023.  


terça-feira, 29 de agosto de 2023

O pedinte pidão

Este é aquele mesmo meu conhecido pedinte que certa noite cruzou em meu caminho quatro vezes no Rio Vermelho e em todas elas me pediu um dinheiro, um senhor já idoso e que me chama de tio (Perdidos na noite, em 20 de dezembro de 2019). Ele inovou no hábito de pedir ao ter a sua própria tabela. Não apenas pede por algum trocado perdido no bolso, começa com um valor alto e vai reduzindo à medida que o abordado vai lhe negando o óbolo, até chegar aos parcos centavos; isso faz dele um insistente (mas ainda não recebe por Pix). Seu território de atuação não se restringe ao meu bairro, onde, por suas características praianas, parece ser um local aprazível ao trabalho de pedir e, por isso, a concorrência é grande aqui, já trombei com ele em locais distantes, até dentro de shopping center!

Eu disse que pedir é um trabalho, porque foi isso mesmo que ouvi alguém dizer claramente outro dia. Uma pedinte ia dentro de um vagão de metrô, que, apesar de ser um local proibido às práticas de pedir, vender e apregoar, nada impede que a pessoa faça isso até ser expulsa pelos seguranças ‒ só Deus sabe de que modo. Enquanto ela contava uma já manjada história triste de amolecer corações para angariar trocados, ela pedia para abrirem espaço para poder passar entre os viajantes do vagão lotado. “Por favor, deixa eu passar que eu estou trabalhando”, ela dizia, impaciente, enquanto ia recolhendo dinheiro.

Talvez você não acredite, faça as contas aí, pedir é mais profícuo que trabalhar. Em quinze minutos pedindo dentro de um coletivo, ganha-se mais que um assalariado em uma hora de trabalho de carteira assinada, livre de encargos e de um patrão biltre! Haja gente de bom coração para sustentar tantos pedintes.

Voltando ao meu conhecido pedinte, que já não me dirige a palavra, me ignora totalmente, pois nunca dou-lhe um centavo, uma vez que faço uso deles também. Faça aí as contas novamente; cruzo com ele num dia sim e no outro também, quanto que isso me custaria, levando em consideração que sou abordado uma dúzia de vezes diariamente por outros colegas dele de profissão? Deve ser por causa dessa miserável cara paxá que eu tenho. Pois bem, ele é habitué da mesma sorveteria em que costumo vir todas as tardes com o meu notebook para escrever textos como esse, um local refinado e agradável para trabalhar. Vai de cliente em cliente com a mesma lenga lenga e, no final, ganha mais que eu escrevendo, posso lhe assegurar.

Outro dia ele adentrou a sorveteria, as funcionárias o viram e torceram o nariz. É que o ambiente é fechado por causa do ar-refrigerado, e o odor que o senhor carrega consigo por falta de banho diário desbanca o aroma água-de-colônia do local e agride o olfato. Desta vez o seu alvo foi um homem alinhado, parecia um turista.

— O senhor me dá cinco reais?

— Eu não tenho – respondeu o turista, visivelmente interessado em seu sorvete.

— Dois reais? – insistiu o pedinte.

— Também não tenho.

— Cinquenta centavos?

— Eu não ando com dinheiro, rapaz – explicou o turista.

Já impaciente, o pedinte arriscou:

— Nem um sorvete?

Para minha surpresa, que assistia à cena curioso, o turista respondeu:

— Já um sorvete eu posso dar um jeito. Pede à moça do balcão, que eu pago no cartão.

— Tá fazendo calor – o pedinte se abanou.

Naquele mesmo dia, horas depois, como sempre fazia, ele retornou para uma nova rodada. Desta vez abordou uma moça, que se lambuzava de sorvete. Como sempre, ele começou a pedir seguindo a sua tabela de valores, e como a moça negou até qualquer tostão, ele arriscou novamente.

— Nem um sorvete?

A moça arregalou os olhos (o sorvete mais barato é de arregalar os olhos nessa sorveteria, razão pela qual raramente me dou ao luxo).

— E nem um sorvete! Mas só faltava essa – ela respondeu, surpresa.

O pedinte resmungou alguma coisa que descrevia o seu desgosto e deu meia volta para ir embora. Aí é abusar da sorte, disse a mim mesmo.

 

 

Rio Vermelho, 29 de agosto de 2023.

       

 

 


quinta-feira, 27 de julho de 2023

Rápido como quem rouba

Nem bem se desbotava de minha memória a lembrança das semanas de arrastões desenfreados no Rio Vermelho, ocorreu um fato que reacendeu em mim o medo que é andar pelas ruas de Salvador, a qualquer hora do dia ou da noite.

Eu estava chegando cedo ao centro da cidade, numa hora em que as lojas ainda estavam fechadas, mas não faltavam mais que quinze minutos para que o comércio abrisse ao público. Ônibus em que eu ia virou no Politeama e vi pelo rabo do olho, no lado de fora do veículo, uma pessoa que corria feito uma bala. Aquilo me chamou a atenção e virei-me para o lado para observar melhor. Era uma corrida desesperada, que estava longe de ser um mero exercício físico matinal, coisa de atleta. Não demorei para tirar conclusões sobre que tanta pressa seria aquela.

O coletivo parou e desci no primeiro ponto do Politeama. Mal pus os pés na calçada, um vulto entrou pela porta em que eu saía; a porta dos fundos é usada para sair e não para entrar no ônibus. Era um jovem que não tina intenção alguma de pagar pela passagem, como fazem aqueles que entram pela saída do ônibus. Virei-me, já na calçada, e ele também, como se pretendesse sair do ônibus, embora a sua intenção fosse a de fazê-lo em outra parada. Ele fez uma expressão aliviada, soltou um “ufa” e revirou os olhos enquanto enfiava no cós da bermuda um grande aparelho celular que só agora eu percebia que tinha na mão. A porta do ônibus de fechou e me dei conta do que estava acontecendo.

Não demorou muito e veio correndo em minha direção uma jovem com a expressão de desespero estampada no rosto. Logo atrás dela corriam outros populares, provavelmente solidários a ela, ou meros curiosos em busca de assistir a uma confusão.

“Ele entrou no ônibus”, gritei para a vítima, a jovem.

Ela continuou correndo e seguiu o ônibus que parou a dois metros de onde partira, por causa do semáforo que fechou o trânsito. Bateu seguidas vezes na porta de saída do ônibus, que se abriu para que ela entrasse. Ao mesmo tempo que por uma das janelas do lado oposto, o jovem ladrão de celular pulava em fuga numa cena espetacular. Correu entre os carros e sumiu de nossas vistas. Dentro do ônibus ouvi gritos de regozijo; para evitar a perseguição da moça obstinada, o delinquente deixou para trás o celular.

Aquele foi só mais um percalço da vida de um ladrão. Ele deu a volta no quarteirão o voltou ao seu posto de tocaia, à espera da próxima vítima, fato que acontece um minuto sim e outro também na insegura Salvador. Já se foi o tempo em que esta era a terra da felicidade.

 

Rio Vermelho, 27 de julho de 2023.

 

 

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Se vai soltar, pra quê prender?

A faxineira veio me contar uma coisa dias a trás, no seu dia aqui em casa. Sempre tão bem humorada, Lindalva ‒ nome fictício para Lindalva ‒estava muito aborrecida. O marido, que faz consertos e arremedos em eletrodomésticos, tinha sido assaltado naquela fatídica manhã, a caminho da padaria.

Como é de se imaginar, só levaram-lhe o aparelho de celular o queridinho dos assaltantes da atualidade, já se foi o tempo em que levar uma correntinha de ouro era um bom negócio, um celular de configurações avançadas é liquidez imediata! ‒, com apenas três meses de uso e ainda sete prestações futuras para quitá-lo. Doloroso ter um bem tão necessário hoje em dia roubado, e ainda mais sacrificar-se para pagá-lo sem mais possuí-lo.

Quem já teve o celular roubado sabe muito bem a aporrinhação que é recuperar as informações contidas no antigo, trocar senhas desse e daquele aplicativo, reaver contatos profissionais e afetivos, chorar por todas as lindas fotos de pores do sol perdidas para sempre, enfim, um pesadelo. Em se tratando de um trabalhar autônomo como o marido da fictícia Lindalva, isso pode significar a sua ruina por algum tempo, uma vez que a sua empresa estava contida no miserável aparelhinho.

Na semana seguinte, ela me atualizou sobre a tragédia de seu consorte ‒ ela é a rainha do lar e proprietária da casa onde moram: inconformado, o marido foi se queixar com as autoridades locais. Eles moram lá para as bandas de Periperi, zona sob a jurisdição de uma facção do tráfico. Assaltos na região são proibidos pela tal facção ‒ não se rouba vizinho e ponto final ‒, por isso o aparelho foi devolvido em menos de 24 horas, com um pedido de desculpas. Não duvido que o assaltante tenha sido julgado na mesma hora e sentenciado no instante seguinte e a pena executada no mesmo fôlego. Melhor assim, o meio ambiente agradece a economia com papelada e burocracia.

Enquanto isso, no Rio Vermelho, onde os aluguéis são pela hora da morte e o IPTU doe no bolso como uma nevralgia dental num feriado prolongado, os assaltos foram autorizados pela facção que comanda o bairro. Fizeram um arrastão aqui semana passada. Cinco amigos já tiveram os seus celulares levados ‒ fora os casos que sei só de ouvir falar ‒, um deles está pagando simultaneamente as prestações de três aparelhos! A vendedora da loja de celular quando o vê adentrando a loja, o recebe com um largo sorriso de satisfação e braços abertos e a seguinte saudação: “Meu cliente favorito!”. Cada vez que vai embora, o coitado leva um aparelho mais caro e sofisticado. Estou torcendo para que este não levem antes de ele quitá-lo.

Uma senhora muito distinta e benfeitora aqui do bairro foi uma das vítimas desse bem sucedido arrastão. Levaram-lhe a Vuitton com celular e tudo dentro ‒ o assaltante mal sabia que a bolsa valia quarenta vezes mais que o caríssimo aparelho de celular. Tal é o apreço que ela merece de nossa comunidade, que a notícia se espalhou pelo bairro como fogo no mato seco. “Dona Menina foi assaltada!"

A polícia foi acionada e mostrou serviço. Em menos de duas horas a rica bolsa e o seu conteúdo foram devolvidos intactos à proprietária e o assaltante, um notório vagabundo aqui das redondezas do largo de Santana, onde se deu o incidente, preso em flagrante, foi parar na delegacia. O caso todo poderia ter sido dado por encerrado e uma demonstração da eficiência de nossa polícia celebrada. Mas infelizmente o trabalho da polícia parece um conto saído de um livro de Kafka; mais adiante explico melhor. Dois dias depois, quem foi visto serelepe no largo de Santana? Escondam suas bolsas e celulares!

Essa situação complexa é fácil de entender: a polícia tem a insensata tarefa de enxugar gelo no molhado. Isto porque, como se legisla em causa própria nesse país, as leis foram feitas para manter os bandidos fora da cadeia e suas vítimas aprisionadas na revolta pela injustiça e no medo.

 

 

Rio Vermelho, 19 de maio de 2023.

 

sábado, 4 de março de 2023

Morreu numa batucada de samba

Claudionor Paranhos, o Cacau do Alto da Alegria, era do tempo em que o folião amanhecia dormindo num banco de praça no Campo Grande, e não lhe roubavam a carteira enquanto dormia. Não é saudosismo, é só para mostrar como eram as coisas naqueles antigos carnavais.

Há muito Cacau não ia na avenida ou se ia era apenas para rir dos solitários foliões em suas fantasias engraçadas e inventivas ou para ver a saída dos pequenos blocos e suas músicas irreverentes, resquícios de um tempo ingênuo e sem ambições comerciais, quando a espontaneidade valia mais que o compromisso de se estar alegre durante todo o tempo no carnaval.

Mas do que ele gostava era do samba, aí ele batucava o ano inteiro, tocava o velho tamborim, companheiro de longas datas. Reunia-se com os camaradas nas tardes de sábado na varanda do bar do Jajá, e a roda de samba ia pela noite adentro. Mas não era um grande evento ou um que atraísse uma multidão, além do grupo da batucada e alguns que acompanhavam a música enquanto sambavam. Apesar de já ter chegado aos oitenta, e com a saúde que cambaleava, sua voz ainda era firme, e firme, também, era a sua batida no tamborim.

No sábado de carnaval, a turma reuniu-se, como de costume, e quem não quis ir para o circuito carnavalesco, fez a folia ali, no bar do Jajá. Dessa vez o público era bem maior, talvez umas cem pessoas, porque, afinal, era carnaval. Aquela agitação fez Cacau sentir-se em plena forma, todos estavam alegres, alguns já tinham bebido tanto que só acompanhavam o samba sentados.

A noite já ia alta, quando os efeitos das horas de batuque fez-se sentir no velho corpo de Cacau. Foi quando ele anunciou:

― Esta é a última!

Mas alguém lá no fundo do bar gritou:

― Nunca diga que é a última, que dá azar. Diga que é a penúltima.

Cacau bateu com a cabeça em concordância e respondeu com um sorriso cansado, embora não acreditasse em superstições. Em seguida começou a entoar um de seus sambas favoritos, sempre guardados para encerrar a sua participação na batucada. Ele puxou a cantoria e todos juntaram-se a ele.

“Sei que vou morrer, não sei o dia

Levarei saudades de Maria

Sei que vou morrer, não sei a hora

Levarei saudades de Aurora

Eu quero morrer numa batucada de samba

Na cadência bonita do samba...”*

No segundo refrão, o tamborim parou. A música continuou, mas sem a voz grave e cansada de Cacau. Alguém que percebeu, perguntou em voz alta:

― Por que parou? E lançou o olhar para Cacau viu que ele estava calado, o pandeiro, silencioso, pousava sobre seu colo, a cabeça pendia levemente para frente e para o lado. O samba calou.

Aquele foi o último batuque de samba de Claudionor, seu coração parou de bater como as pancadas no velho tamborim, os dois silenciaram-se para sempre. Mas, para quem acredita em outra vida depois dessa, Cacau foi tamborilar em outras paragens.

 

Rio Vermelho, 02 de março de 2023.

 

*Na Cadência do Samba, de Ataulfo Alves

 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Morreu dormindo

 As redes sociais têm o um caráter meritório, e outros nem tanto assim... Divulgam-se comemorações de aniversários, casamentos, nascimentos e tantas outras conquistas que a vida proporciona. Outro dia, vi estampado no perfil de uma querida amiga a foto de seu irmão caçula – de 59 anos. Anunciava, com pesar, a sua partida dessa para melhor. Essa é outra utilidade das redes sociais, comunicar falecimentos de entes queridos.

Fiquei abalado com a notícia, não apenas por se tratar do irmão de uma amiga, mas também porque tínhamos sido muito amigos na época de nossa adolescência. Saíamos juntos, nos visitávamos, até acampamos certa vez em Itaparica, no tempo em que se armava uma barraca na praia sem temer visitas inoportunas. Mas quis o destino que nos separássemos quando entramos para a faculdade, cada um seguiu um rumo diferente na vida, e lá se vão mais de quarenta anos.

Em louvor às antigas recordações e ao velho camarada, fui ao Campo Santo homenageá-lo. O carnaval já batia à porta, e naquele sábado um desfile de um bloco de palhaços estava programado para sair naquela tarde em meu bairro. Os moradores estavam sitiados, mas mesmo assim fiz um esforço para chegar ao cemitério. A vida tem desses contrastes, enquanto num lado da cidade se celebrava a vida, no outro se reverenciava um morto. Eu podia não ter ido, dar a desculpa de que não gostava de ir a enterros, mas quem gosta? Muito menos o homenageado, que, sem dúvida, preferiria continuar andando sobre a terra, ao invés de repousar eternamente sob ela. Ir a um enterro, por mais doloroso que seja ‒ alguns dizem que é chato, e quem disse que era para ser divertido? ‒ faz parte dos rituais da vida, celebramos ali a vida e a morte, encaramos a única certeza de cada um de nós, o inexorável.

No velório, aquele silêncio e tristeza das cerimônias fúnebres. Familiares e amigos estavam desolados, como era de se esperar. Uns vieram de longe, outros interromperam um passeio para darem o último adeus. Dei abraços e condolências, perguntei a um dos irmãos o que acontecera, como morrera o antigo amigo. Ouvi deste que fora um caso de morte súbita, enquanto dormia placidamente em sua cama, simplesmente não acordou para um novo dia. Não estava doente, ninguém esperava por tal fatalidade. Mortes não anunciadas chocam pelo seu caráter repentino e são difíceis de serem assimiladas.

Certa vez ouvi de uma amiga que professa o espiritismo, que não há modo de morte mais digna que morrer dormindo. É uma raridade, uma espécie de merecimento que a poucos são concedidos. Não é para qualquer um. Os que ficam são os que sofrem, e para eles há o conforto de que o falecido não sofreu em sua passagem, morreu dormindo serenamente, o seu coração simplesmente parou de bater, mas antes deixou tantas coisas boas em nossos corações. Descanse em paz, Manuel.

 

Rio vermelho, 14 de fevereiro de 2023.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Uma história convincente

Numa dessas manhãs modorrentas em que eu ia no ônibus que me levaria ao centro da cidade, era um daqueles novos carros equipados com ar-condicionado que arrastam-se a vagarosos quarenta quilômetros e que fazem a viagem urbana parecer um agradável passeio turístico, tudo ia muito tranquilamente bem. Isto é, não havia pedintes e nem vendedores ambulantes importunando o silêncio do nosso passeio. Os passageiros, a maioria deles, eu suponho, seguiam de cabeça baixa, com os olhos fixos na tela dos seus celulares, já eu lia um livro. Assim que o ônibus prosseguiu a viagem, depois de ter parado num ponto para que passageiros descessem e outros tantos subissem, uma voz rimbombante quebrou a paz interna do transporte coletivo.

Os ônibus urbanos tornaram-se praças onde vendedores ambulantes embarcam por algum minutos, para oferecerem as suas mercadorias baratas e de qualidade duvidosa, assim como pedintes que, ao invés de tentarem vender alguma bugiganga, contam tristes e comoventes histórias, que nada devem às de Charles Dickens, com o intuito de angariarem alguma ajuda monetária. O pedinte que interrompeu o nosso sossego começou assim a sua ladainha, sua voz era potente como a de um orador no púlpito: “Senhores passageiros, desculpe por interromper o silêncio da viagem de vocês. Eu sou um ex-presidiário da penitenciária Lemos de Brito em Mata Escura...”

Até então, ninguém pareceu prestar atenção ao cidadão, até que o preâmbulo de sua biografia fez com que todos desgrudassem os olhos de seus celulares e o encarasse, de olhos bem abertos, por sinal. Eu, por minha vez, torci a boca e ouvi alguém soltar um gemido logo atrás de mim. Devo dizer que foi uma forma bem eloquente de começar um discurso. Suas palavras eram claras e amedrontavam pelo seu conteúdo. Então ele continuou: “Depois que cumpri a minha pena e paguei a minha dívida com a sociedade, não querendo voltar ao mundo do crime, tive a ideia de tirar uma “guia” de vendedor ambulante da prefeitura ...”

Aquela história me pareceu familiar, eu já a ouvira muitos meses antes, da mesma pessoa, durante uma viagem de ônibus como aquela. Até hoje esse rapaz não conseguiu tirar essa guia, pensei intrigado. Com histórias ou sem histórias, não há duvida de que estas pessoas precisam de dinheiro, a miséria neste país é muito maior do que o pessimismo com que se apregoa. Me pergunto se o destino dessa ajuda será mesmo para alimentar a criança que espera em casa ou para o remédio que lhe salvará a vida, se é que ela realmente existe. Já ouvi falar que o defeito do mentiroso é se empolgar demais com a sua mentira e torná-la numa história comprida. Entre os que vivem de apenas pedir dinheiro e os que para obtê-lo engendram uma história, eu fico com primeiros – ainda que, como escritor, eu seja um inventor de histórias. Já me falaram que o que importa não é se o outro falta com a verdade ou não, mas o gesto de generosidade de quem ouve, pois o universo devolve para a gente nossas ações praticadas, sejam elas boas ou ruins, e isso conta para quem dá e para quem recebe. Por isso devemos sempre fazer o bem. Talvez haja um fundo de verdade nesse pensamento altruísta, mas, para mim, sempre resta aquela pontinha de dúvida se estou sendo vítima de um golpe ou não. “Foi então que procurei jovens amigos para pedir-lhes emprestado o dinheiro da guia”, o pedinte continuou, “e eles se recusaram a me emprestar e me ofereceram, ao invés, um revólver para que eu fosse assaltar ônibus.”

Aquela história ficava mais cabeluda a cada nova frase. Senti o ônibus prender a respiração, os olhares se desviaram do pedinte, para evitar o contato visual, mas os ouvidos estavam atentos, esperando pelo derradeiro apelo. “Eu não quero voltar ao mundo do crime, o crime me deixou marcas pelo corpo, sofri vários atentados dentro do presídio e fora dele, tenho cicatrizes de facadas e tiros, como podem ver – disse, e levantou a blusa para ilustrar a sua horripilante história; se tinha mesmo cicatrizes, eu não saberia dizer, pois não me arrisquei a olhar – quase morri várias vezes. O crime não compensa. Tudo o que eu quero é trabalhar como qualquer cidadão honesto e levar para casa o dinheiro do leite dos meus filhos pequenos, que estão passando fome – ah!, esse detalhe não podia faltar. Pai, mãe, amigo, vocês têm aí sobrando em suas carteiras algum trocado para me ajudar a tirar uma guia?”

Ultimamente o sucesso de histórias tristes de crianças passando fome em casa, aguardando pelo alimento que o pai prometeu levar, ou de crianças com uma doença complicada, geralmente no sangue – que soa mais apelativo – que precisam de um medicamento que só a contribuição dos viajantes de ônibus poderá ajudar salvar a vida, e tantas outras, tem perdido a força, dada a sua similaridade e repetição, por isso as contribuições têm minguado. Mas a daquele pedinte era original, para não dizer aterrorizante! O medo espalhou-se mudamente entre a população do ônibus. Muitos enfiaram solicitamente a mão no bolso e choveu dinheiro. E há quem duvide do poder da palavra!

 

Salvador, 16 de janeiro de 2023.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Poupando para o cruzeiro marítimo

 Enquanto aguardam, de pé, na extensa fila para o bandeijão do Restaurante Popular, que fica em frente ao porto de Salvador e que serve almoço ao módico preço de um real apenas, os habitués do estabelecimento assistencial admiram um majestoso transatlântico aportado nas docas. É uma daquelas naves que só se vêm em folhetos de agência de viagem de turismo e que provocam sonhos acordados até no mais tarimbado viajante, de um dia pôr os pés naquela belezura.

— O cabra tem que ser um milionário para viajar num bicho desses – falou um idoso de barba rala e branca, suas roupas deveriam ter igualmente a sua idade.

— Milionário ou político ladrão – corrigiu outro, em uniforme de gari.

Os fregueses do Restaurante Popular variam do pedinte de rua ao bancário da agência do Banco do Brasil, que fica a uma quadra dali. Basta ter um real no bolso e disposição para enfrentar a extensa fila, para entrar e almoçar; que o lugar não faz distinção da situação econômica e social do comensal. Por um real apenas come-se um prato de comida, uma raridade em nossos dias, com direito a sobremesa e um copo de suco de fruta, a farinha é a vontade. Quem quiser um molho de pimenta de verdade, dona Mira improvisou uma cozinha em cima de um caixote velho de madeira, onde prepara e vende o tempero, ao lado da fila; custa cinquenta centavos o copinho e não falta quem não compre. Para repetir o prato, o comilão precisa entrar novamente no final da fila, do lado de fora do restaurante, e pagar novamente, claro.

— Pode-se dividir de doze vezes no cartão – disse uma velha, que ouvia a conversa, com interesse.

— Mesmo assim, deve ser uma fortuna – insistiu o velho.

— Eu já viajei num desses e, em março, já terei pago a viagem de oito dias que farei – disse a velha, falava com a convicção dos que não inventam.

— É? – disse o velho, desconfiado das palavras da velha.

 — Em março já é baixa estação, e os cruzeiros ficam mais baratos. É tão bom, a gente come de tudo, são cinco refeições por dia, e a gente fica nas baladas até as quatro da manhã! – disse a velha, toda animada com a expectativa do passeio.

Como podem ver, se vocês frequentarem o Restaurante Popular durante um ano, terão economizado o suficiente para fazerem um cruzeiro marítimo de oito dias e comer e dançar a vontade!

 

Rio Vermelho, 10 de janeiro de 2023.

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

No ônibus como na praça

    A praça pública, este lugar aberto onde os acontecimentos mundanos acontecem, o camelô comercializa, o pregador anuncia o fim do mundo, o poeta recita versos, o pedinte expõe as suas mazelas, mudou-se para dentro do ônibus, e viajar de coletivo como o baiano chama o meio urbano de transporte dentro da cidade soteropolitana, tornou-se um exercício de tolerância, e haja paciência! Quando desembarca um, sobe outro logo em seguida, continuamente ao longo da viagem.  

    Quem nunca teve o breve sossego do traslado urbano interrompido por uma voz altissonante, desculpando-se por incomodar e, em seguida, anunciar a venda de doces e salgados que irão ajudar a passar o tempo da viagem? Ou de uma pomada milagrosa com cheiro forte de cânfora capaz de aliviar o cansaço das pernas e o suplício do reumatismo? Por sinal, esta milagrosa porção se parece muito com outra que tira mancha de móveis e pisos, e se não for a mesma, é parente em primeiro grau da outra. Capinhas para guardar a identidade e, agora a carteira de vacinação também são oferecidas. Escovas de dente, fones de ouvido, cabos USB, meias, sabonetes de aroeira, balas de gengibre, raladores de verdura, coadores de café, canetas, palavras-cruzadas, a lista é infinita! Alguns carregam uma grande sacola com um verdadeiro bazar árabe dentro. Para quem nunca ouviu falar num bazar árabe, é uma loja de propriedade de um cidadão de origem do oriente médio, que vende todo tipo quinquilharia e miudeza.

    Entretanto, há aqueles que não vendem coisa alguma, mas pedem ajuda para o tratamento daquela filha de nove anos que está em casa acamada e que não fez ainda nenhuma refeição hoje e que padece de uma doença no sangue muito rara e complicada, que o SUS não trata. Obviamente o remédio custa muito caro e a filha não o toma há dois dias. Bem, essa doença não me parece ser tão rara assim, pois já ouvi o mesmo apelo uma dúzia de vezes e acredito que se trata de algum vírus que só ataca meninas. Já é hora das autoridades sanitárias fazerem algo a respeito!

    Não sei se já repararam na semelhança do discurso introdutório desses vendedores ambulantes e pedintes, o timbre de voz, a forma que pronunciam certas palavras. Parecem que frequentaram o mesmo Curso de Oratória para Ambulantes e Pedintes da Cidade de Salvador. Falam como se tivessem tido o mesmo mestre. Eu não estou aqui para pedir nada a ninguém, mas pedem. Não direi que tenho crianças em casa me esperando para que levem um pouco de comida para matar a fome, mas dizem. Sempre evocam o povo de Deus que viaja no coletivo. Buscam cumplicidade com o ouvinte ao cobrar dele resposta em uníssono ao cumprimento do bom dia, ou boa tarde, como nos programas de auditório. O tom é dramático e chantagioso, daqueles que tencionam dobrá-lo pelo apelo ao seu sentimento de culpa. Manipular sentimentos é uma arte, políticos em véspera de eleição que o digam!

    O mais criativo apelo que já ouvi foi de um cidadão apresentando-se como um extraterrestre era tão feio que apostaria as minhas tranças que era um mesmo! , podia estar abduzindo pessoas, mas estava ali pedindo humildemente, que não queria dinheiro, mas um pouco de combustível aeroespacial para seu disco-voador, para voltar para casa, mas, na impossibilidade de conseguir este, ele aceitaria algumas moedas!

 

Rio Vermelho, 5 de outubro de 2022.

 

domingo, 30 de janeiro de 2022

O ladrão

Eu nunca tinha visto um ladão cara a cara até semana passada... Bem, isso não é totalmente uma verdade, já fui assaltado por alguns, em tempos de eleição, ao pedirem o meu valioso voto.

Numa bela tarde de janeiro, estava eu caminhando nos arredores de minha casa quando ouvi uma gritaria vindo das cercanias. Imediatamente identifiquei a fonte daquela barulheira e fiquei surpreso. Das janelas e varandas da lateral de um edifício residencial nas proximidade, os moradores faziam algazarra. Eu olhei para o prédio e vi que todos olhavam em minha direção, não exatamente para mim, mas para o lado onde eu me encontrava. A primeira ideia que me veio à mente foi que o prédio pegava fogo e os moradores pediam por socorro. Entretanto, este pensamento se desfez ao não ver sinal de fumaça; mesmo assim, fiquei intrigado com aquela histeria.

Para que os leitores entendam a geografia do lugar e porque era fácil para mim ver toda a extensão lateral do prédio, explico que este é cercado por casas de um pavimento ou dois e a casa que estava de frente para mim era uma pré-fabricada de madeira, de telhado de telha de cerâmica gasta pelo tempo, desabitada há muitas décadas.

Então eu vi o motivo de tanta agitação. Comecei por ouvir ruídos vindos dessa casa, e no telhado surgiu um homem que corria agilmente como um calango sobre as telhas. Um ladrão! Usava apenas uma bermuda e uma camisa surrada, tão diferente daqueles que eu estava acostumado a ver, tão enfatiotados, de ternos e gravatas de grife, comprados às nossas custas. Olhei bem para o rosto do homem, para jamais esquecê-lo, vai que um dia em cruzo com ele na rua, não faço ideia do que eu faria. Era um homem forte e de cabelos grisalhos, de expressão confiante, porém amendrontado. Nunca tinha visto um gatuno de telhado antes, e aquele estava em plena ação! Talvez tivesse sido flagrado pelos moradores do prédio, arrombando uma das casas da vizinhança e daí aquela gritaria, que agora eu presumo que era “pega ladrão!”

Quando ele pulou do telhado para o chão, correu na direção em que eu estava e, ao passar por mim, gritei com ele o primeiro pensamento que me veio à cabeça, em tempos de pandemia:

— Coloca a máscara, ladrão!

 

 

Rio Vermelho, 28 de janeiro de 2022

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Estou de volta

Estive ausente nesses tempos de pandemia, mas longe de me juntar à horda dos vitimados, consegui chegar até aqui são e salvo, sem nunca dar um espirro. E antes que pergunte, sim, tomei todas as doses e tomarei tantas outras quanto forem inventadas. Não tenho medo de morrer, o ruim não é morrer, mas como se morre, e morrer feito um peixe fora d’água deve ser ruim pra caramba!

Quando a ficha finalmente caiu e me convenci de que a pandemia viera para valer, tomei todos os cuidados necessários depois de ler artigos a respeito, uma vez que a maior arma é a informação. Mantive distância das pessoas, passei a carregar no bolso um frasquinho de álcool em gel, até deixei de frequentar o vizinho, para a habitual cervejinha nas manhãs de sexta-feira e domingo. Mas o hábito de ler ao ar livre não abandonei, eu precisava me ater a algo para manter a minha sanidade mental, continuei saindo todos os finais de tarde e me sentava sozinho num banco de madeira em frente ao mar, no mirante da Paciência, ou no largo da Mariquita, ambos desertos; estabeleci um perímetro do qual não deveria me afastar e o único lugar onde encontraria mais gente circulando que me permiti ir foi ao mercado, nada de pegar transporte público, ônibus ou táxi, não saí do Rio Vermelho para nada durante um ano. Você está livre para me julgar um imprudente, mas é que tive o seguinte raciocínio: o fato de as pessoas terem ficado reclusas, tornou os lugares públicos quase desertos e isto fez eu me sentir seguro para sair, afinal não haveria gente para chegar perto de mim, até os ocasionais pedintes sumiram. Aí veio o lockdown.

Resolvi deixar de ser teimoso, pelo menos por algum tempo, e me tranquei em casa. Li e escrevi bastante. Se ficar confinado em uma casa de 400m2 foi desagradável, imagine a tortura que deve ser ficar preso em uma cela de presídio. Isso me fez acreditar que o maior castigo para o homem – e por que não também para o animal? – é o tolhimento à sua liberdade. Aproveitei para mergulhar na leitura e escrever, li e escrevi bastante e, na mesma medida, os serviços de revisão textual começaram a escassear juntamente com o dinheiro, só não foi pior porque não me faltaram amigos nessa hora e a eles sou eternamente grato. Resolvi experimentar novos gêneros, escrevi um conto pandêmico, um livro com sete histórias de assombração e uma história de fantasia, comecei outras quatro histórias que espero algum dia terminar, talvez em na próxima pandemia!

Ao cabo de um mês dentro de casa, eu já sabia que aquilo não ia durar muito – a final, viver em família já não é uma coisa boa, e estar confinado a ela é um inferno –, então pus a cabeça para fora de casa, e depois o corpo inteiro. Desta vez o uso da máscara era obrigatório, então nunca saí de casa sem ter uma na cara, até fiquei bonito com ela, com um olhar misterioso. Já era abril e chovia bastante, eu sentava no mesmo banco no mirante em frente ao mar, enfrentando a ventania de um outono fora de época, depois que a chuva dava uma trégua, e observava o mar, cuja água revolta se tornara um breu cinzento juntamente com o céu, e me perguntava se ele tinha sido infectado pelo vírus maligno. Eu ia para aquele recanto não apenas para me de trair lendo, mas para também remoer a minha tristeza, não bastasse as milhares de vidas perdidas, de outras tantas acometidas do vírus e a caminho do mesmo inexorável fim, havia a indiferença e ignorância da autoridade máxima do país. Tivemos muitos governantes canalhas, como é próprio da natureza de nossos políticos, mas numa imaginei uma besta humana da magnitude que ora desgoverna o país.

Talvez a tristeza e a falta de rumo em que me encontrava me fizeram interromper o hábito de escrever histórias para o blog, afinal, a observação de pessoas, o motor principal que motiva a minha atividade literária, estava escondida dentro de casa, sabiamente se protegendo do inimigo invisível.

Pensando bem agora, buscando nos recônditos de minha memória algum momento sobre o qual eu devesse escrever algumas linhas, talvez eu esteja subestimando o meu olhar arguto e negligenciando algumas joias. Aguardem pelas próximas histórias.

 

Rio Vermelho, 04 de janeiro de 2022.

 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Que máscara danada!

 Um artigo de proteção transformou-se em peça de vestiário e veio juntar-se à composição de roupas que vestimos para sair de casa. A máscara, para alguns, um martírio, para outros, uma alegria. Minha sobrinha adora máscaras. Ao longo desses meses de pandemia, ela formou um guarda-roupa de opções, para combinar com as outras roupas. Fica numa alegria danada quando ganha uma de presente, parece até que lhe deram uma bolsa de grife chique.

 Além de sua utilidade protetora, a máscara também tem a função estética de esconder a feiura, e a social de nos ajudar a fingir que não reconhecemos aquele chato, ao cruzar acidentalmente com ele na rua. Entretanto, descobri que o uso da máscara também faz com que as pessoas nos tomem por outra.

Ao sair do mercado ontem, dei de cara com um cidadão que me cumprimentou efusivamente. Seu entusiasmo era tanto que parei para cumprimentá-lo também, embora eu não fizesse ideia de quem fosse. Então ele me contou que o pai falecera recentemente e que agora o taxi era só dele. Entendi então que ele fazia ponto em frente ao mercado, embora eu sempre leve minhas compras a pé. Percebendo minha apatia, ele perguntou:

— O senhor não está me reconhecendo, não é?

Tive, então, a presença de espírito de falar que a máscara escondia o rosto das pessoas, o que não deixava de ser uma verdade. No meu caso, eu usara a máscara como desculpa por não reconhecê-lo. Na verdade, eu nunca vi aquele camarada em minha vida. Mas a minha falta de conhecimento, ou lembrança, de quem era a sua pessoa, não o intimidou. Ele então começou a falar do tio recém-diagnosticado diabético e de como ele passara maus bocados com o remédio que o médico lhe prescrevera, pois não dormia a noite inteira, de tanto que ia ao banheiro fazer xixi. Para poupar a paciência dos caros leitores, pois, certamente, a minha não foi poupada, resumo que o prestimoso sobrinho foi até uma das farmácias do bairro, para pedir ao farmacêutico para substituir a medicação que estava fazendo o tio urinar feito um gambá — imagino eu, se alguém bebe feito um gambá, o mesmo animal deve mijar muito também —, e este, o farmacêutico, sugerira algo muito melhor. Ali bem perto havia um médium gabaritado que daria um passe no tio e ele ficaria curado do problema urinário. Dito e feito, o querido sobrinho levou o enfermo tio a esse lugar que, depois receber as oblações do sacerdote espírita, nunca mais deu uma mijada no meio da noite, reestabelecendo o seu bom sono — esses médiuns então acabando com a indústria farmacêutica! Antes que o taxista me fizesse ouvir outro drama familiar, aleguei estar atrasado para o almoço e me despedi, não sem antes expressar meus sentimentos pela perda de seu pai e desejar melhoras para o tio.

Nem bem eu me livrei de um chato, já fora das instalações do mercado, outro veio me cumprimentar. Que sorte eu estava tendo! Este me cumprimentou com o mesmo entusiasmo que o outro, porém eu também não fazia ideia de quem fosse. No entanto, este foi mais breve, perguntou por minha saúde e se eu estava me cuidando — nesses tempos de pandemia, o hábito de se falar sobre o tempo, quando não se tem nada melhor para falar a respeito, foi substituído pelas perguntas sobre a saúde e pelos cuidados pessoais para se proteger. Assegurei-lhe que estava me cuidando e que precisava ir urgente para casa, para passar álcool em gel nas mãos, e me despedi, sem, no entanto, deixar de ouvir recomendações para que eu me cuidasse.

Mas como eu disse, esse era o meu dia de sorte. Nem bem me despedi de um, apareceu outro em meu caminho! A máscara, que deveria também me proteger dos chatos, estava atraindo-os como formiga no mel. Por que, de uma hora para outra, gente que eu não fazia ideia de quem fosse me cumprimentava na rua e me parava para conversar? Cabe aqui explicar a minha ansiedade em chegar logo em casa: eu carregava ao ombro uma sacola pesada de compras, dessas de pano, ecologicamente corretas, e teria de caminhar dois quilômetros e meio para chegar ao meu destino.

Esse outro quase me deu um abraço, de tanta felicidade ao me ver. Disse que eu andava sumido, ao que prometi aparecer mais vezes; sabe deus onde! Falou mais alguma coisa que eu concordei também. Me perguntou outra, e eu respondi que estava me cuidando, sim. Ele estava com pressa e disse que não podia conversar mais, eu lamentei ter de interromper a tão agradável conversa e segui o meu caminho.

Para não ser mais confundido com ninguém, andei o resto do trajeto até em casa sem a bendita máscara!

 

  Rio Vermelho, 01 de outubro de 2020.  

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Papo canino

 Depois do doloroso rompimento após dois anos de namoro, ela não soube que destino dar ao buldogue que ganhara de presente — um cão tão feio e deselegante — quando completaram o primeiro ano. Ela até pensou em recusá-lo, mas a paixão que sentia pelo namorado e sua vontade de sempre agradá-lo a impediu de ser sincera. Agora ela se arrependia amargamente de não ter devolvido o animal quando o namorado lhe comunicara solenemente que tudo estava acabado entre eles. O sentimento de prudência a fez desistir da ideia, por receio de parecer mesquinha ou vingativa. Entretanto, toda vez que olhava para o cão feioso, se lembrava do ex-namorado, cuja pessoa, ela, magoada, tentava esquecer para sempre.

Apesar de sua feiura canina, de seu corpo atarracado e andar desajeitado, o cão era um animal doce e afetuoso, e ela decidiu mantê-lo, a despeito de suas reservas. Mas o que ela mais queria era arranjar um novo namorado para esquecer o outro que a deixara. Ela não sabia viver sem um homem, um homem era tão bom. Ela se sentia completada, quando estava amando.

Um dia ela resolveu levar o cão para passear, estava cheia de ficar em casa remoendo as lembranças de um amor que passou. Já era hora de virar a página, trocar o disco, partir para outro. Embonecou-se toda, pôs a coleira no cão e foi caminhar no calçadão entre a praia de Santana e a da Paciência. Era o primeiro dia de primavera, o fim de tarde estava esplendoroso e logo o sol ia sumir por traz dos coqueiros do morro da Sereia em uma hora.

Naquela tarde ela percebera que não fora a única a ter semelhante ideia. O calçadão fervilhava de ciclistas, skatistas, corredores e de gente saudável demais para praticar qualquer esporte, e, sim, claro, os habituais donos de cachorro e suas crias, alguns muito civilizados, atentos em recolher os dejetos de seus preciosos animais, e outros, nem tanto, afinal entendem que a rua é um lugar público que cada um faz o que quiser, e danem-se quem não gostar! Importante dizer que todos usavam máscaras para se protegerem do vírus maldito, até alguns cães.

Sentado à balaustrada, havia um belo rapaz, que ao ver a moça caminhando com o seu buldogue, fez sinais insistentes, com uma expressão alegre, para que ela se aproximasse. A moça se sentiu lisonjeada, não esperava arranjar um paquera logo na primeira saída, e muito menos assim que parecia ser tão bonito — que a máscara, além de proteger do vírus, também tem a vantagem de esconder a feiura. — Embora os ensinamentos para que não desse ousadia a desconhecidos fosse uma orientação materna que sempre observara, seu coração despedaçado dizia-lhe para chegar próximo ao rapaz e deixar de lado aquele conselho  antiquado. O rapaz olhou para o cão com excitamento e perguntou à moça que se aproximava.

— Posso conversar com o seu cão?

O incomum pedido pegou de surpresa a moça. Se aquilo era uma cantada, era muito original, ela pensou. O rapaz nem esperou pela resposta. Abaixou-se e fez uma festa para o animal. O cão não fez a menor cerimônia, retribuiu as demonstrações de afeto do desconhecido com lambidas em seu rosto e balançou o rabo.

— E ai, meu velho, como está você? Passeando com a sua mãe? — o rapaz disse, num tom afetuoso.

A moça ficou pasma, o rapaz queria mesmo conversar com o cão! Mais chocada ainda ficou quando o ouviu referir-se a ela como mãe do animal. Aquele tipo de tratamento, embora muito comum entre proprietários de animais, não lhe agradou nem um pouco, sentiu-se uma aberração. Em um segundo, ela tomou antipatia pelo rapaz, confundi-la com uma cadela era demais. O rapaz justificou todo aquele seu entusiasmo, levantando a cabeça e olhando para a moça.

— Eu tive um igualzinho a ele. O pobrezinho morreu faz um ano — disse emocionado, com os olhos húmidos.

— Eu lamento a sua perda. — Ela esforçou-se para demonstrar empatia.

— Estou procurando outro igual, mas é tão difícil encontrar dessa raça — ele explicou.

— É mesmo? — ela disse pensativa. — Esse tem apenas um ano.

— Sim, eu percebi que ele ainda é um meninão. — Voltou-se para o cão. — Você não é um meninão? Você não é um meninão lindo? — disse o rapaz enquanto fazia cócegas no bicho, que se deitou de patas para cima, para, em seguida, receber afagos na barriga.

Quem dera ele fizesse o mesmo comigo, pensou a moça, enquanto lhe vinha à mente uma ideia.

— Você pode ficar com ele, se você quiser. Eu estava mesmo procurando alguém para adotá-lo, pois no lugar para onde vou me mudar não é permitido animais — ela disse, satisfeita com sua engenhosidade.

— Está falando sério?

— Estou sim. Acho que foi o destino que fez com que nos encontrássemos hoje. E vendo como você se afeiçoou a ele e parece que foi recíproco, fico mais tranquila por o estar dando à pessoa certa.

— Tem certeza que quer fazer isso? — perguntou o rapaz, incrédulo.

— Absoluta. E pode levá-lo para casa agora mesmo — disse a moça aliviada, por ter se livrado do cão e da última lembrança do seu antigo namorado.

 

Rio Vermelho, 22 de setembro de 2020.

      

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Gosto não se discute, e ponto final!

Como não possuo um cão para levar para passear no final da tarde, levo a mim mesmo. A grande vantagem disso é que não saio fazendo pipi em postes e as necessidades na calçada. Como podem ver, sou muito bem adestrado.
Eu gosto de animais, mas nunca me ocorreu possuir um. Quando muito, teria uma galinha (dos ovos de ouro, se possível), criada solta aqui no quintal de casa, para me dar ovos frescos, para o café da manhã. Eu não levo jeito para a coisa de ser dono de um bicho, não sei conversar com eles (e nem com plantas), e a ideia de ter certas obrigações, como ir comprar ração, banhá-lo, cortar as suas unhas, escová-lo, levá-lo ao veterinário, levá-lo para passear todos os dias (ouvi dizer que são duas vezes por dia, faça sol ou chuva!), catar suas pulgas e recolher seus excrementos (isso, sem falar em seus pelos, que se espalham e flutuam pela casa, caem no prato de comida, e os comemos sem saber, e do cheiro peculiar desses adoráveis animais, que faz a casa da gente cheirar a cachorro, ou gato), não me fazem eu me orgulhar de mim mesmo e aumentar a minha autoestima.
Já me falaram que ter um animal de estimação é uma benção, uma coisa tão boa, que ele é um amigo inseparável, que faz companhia, que é afetuoso, que é fiel, que são até melhores que que os seres humanos, são tantas as vantagens – porém, onde todos veem vantagens, eu só vejo desvantagens. Pode até ser que os outros estejam certos, às vezes eu me engano, mas prefiro procurar amizade entre os seres de minha própria espécie, os Homo sapiens. Não me levem a mal, não tenho nada contra os seres humanos, apesar de suas falhas. Mas, se no dia em que eu tiver que pôr uma coleira no meu amigo Elias Gurgel, um ser humano de primeira qualidade, para sair com ele e tiver de catar as porcarias que ele for fazendo pelo meio do caminho, eu corto as relações com ele, deleto-o das minhas redes sociais e bloqueio o número de celular dele! Como podem ver, sou muito tolerante, também!
Eu, sinceramente, acho que os felizes donos de pets tornaram-se reféns da indústria da ração e dos outros pindurucalhos (eu pensava que só juízes e autoridades tinham pindurucalhos) que acompanham a propriedade de um animalzinho de estimação. Não é para menos, é difícil resistir à beleza de um saco de ração. São tão bonitos, feitos para seduzir aquele consumidor que existe dentro de cada um de nós. Alguns deles possuem fotografias em suas embalagens que parecem que saíram de um daqueles livros de receitas culinárias com ilustrações deslumbrantes que fazem a nossa boca se encher de água. Nossa, como são caras essas rações! Nem eu me dou ao luxo de gastar tanto com comida. O que houve com esses animais, evoluíram e não comem mais restos de comida, como nos meus tempos de criança?
Pois bem, como eu ia falando, no final da tarde, gosto de sair para passear e, na falta de um cão amigo, levo comigo um livro amigo, com o qual me sento num banco de madeira do mirante da Paciência e me deleito com a leitura de alguns capítulos, tendo um infinito oceano como paisagem à minha frente. Entretanto, naquela tarde, eu estava um pouco aborrecido. Alguém estivera ali algumas horas antes e desopilara os intestinos próximo ao meu banco preferido. O cheiro era desagradavelmente característico. A prova do crime era uma daquelas bem moles e cremosas, nas quais uma película se forma em sua superfície, dado a impressão de estar dura por fora, quando, na verdade, está ainda fresca e mole por dentro, de modo que quando se pisa acidentalmente num deles... Bem, você imaginar a tragédia! Fiquei revoltado por aquele odor tirar a beleza do meu momento de leitura. Felizmente a máscara que cobria a boca e o nariz, atenuava meu sofrimento.
Não demorou muito, no entanto, e chegou ao mirante uma bela jovem que parecia ter se arrumado como uma princesa para também dar um passeio naquele final de tarde. Ela tinha uma aparência fresca de alguém que acabara de tomar um bom banho. Nos braços, ela trazia um daqueles cãezinhos esquisitos de madame, de pelos lisos longos a cobrir-lhe os olhos e com uma fita presa no alto da cabeça. Deveria ser uma cadela, concluí. Quem os observasse com atenção, juraria que pareciam irmãs gêmeas. A beleza da moça até me fez esquecer do infortúnio mal cheiroso ao meu lado. Mal a linda jovem colocou seu cãozinho no chão, para que este desfrutasse da diversão que era correr para lá e para cá ao longo do mirante, o animalzinho também sentiu o mesmo cheiro que eu sentira minutos antes e que tanto me desagradara, mas sua reação foi ao contrário da minha. Ele correu em direção ao excremento e enfiou nele o focinho, devorando a iguaria, com determinação. A dona veio correndo para impedi-lo, mas aí já era tarde demais. Com a cara lambuzada, o cachorrinho parecia estar feliz da vida e satisfeito, ao contrário da dona, que fazia uma careta indignada e enojada. O passeio acabou, disse ela ao seu fiel amigo, com um tom de voz afetuoso. Pegou o animal nos braços e foi embora. E eu assistia à cena com um sorriso de maldade, ao perceber a ironia que fora aquela cena: a dona do cãozinho gastava centenas de reais com a melhor e mais cara das rações, para alimentar o seu fiel amigo, quando tudo que o pequeno animal queria era um pouco de merda humana!

Rio vermelho, 31 de julho de 2020.



quarta-feira, 6 de maio de 2020

Não é carnaval, mas todos vão à rua mascarados.

Era cinco e quarenta da tarde quando pus a máscara e saí de casa; mas não era carnaval e nem eu ia praticar um assalto. Essa máscara é uma proteção contra o vírus que vem se espalhando entre as pessoas, mundo afora, prostrando milhares e ceifando a vida de outros tantos, sem distinção de idade, classe social, poder econômico, preferência política ou sexual, cor de pele ou crença religiosa, por tanto um germe letalmente democrático. As máscaras tornaram-se tão necessárias nos dias de hoje, quanto são os calçados para a proteção dos pés, quando vamos na rua. Meu destino era uma barraca de frutas e legumes na Vila Matos, cujo proprietário, seu Roque, a mantém com esmero; dá gosto de ver a mercadoria arrumada e selecionada para a escolha dos fregueses, porém, ninguém põe os pés lá dentro, se não estiver devidamente protegido com a máscara.

No caminho ao longo do largo passeio que margeia a praia, uma situação insólita não escapou à minha observação: um rapaz alto, forte e tatuado, com o porte de um verdadeiro gorila urbano, passeava, tendo à ponta de uma correia um desses pequenos cães de madame que nunca se sabe qual dos extremos é o rabo e qual é a cabeça. O jovem passou por dois pescadores bêbados, sentados na balaustrada, e um deles lançou um olhar humorado para o pequeno animal bizarro e exclamou alto assim:

— Um rottweiler! (para quem não sabe, é um cão violento capaz de enfrentar e abater um touro.)
E o outro rebateu com o mesmo humor:

— Sim. E eu sou o Michael Jackson! 

Continuei a caminho do meu destino e, já na praia da Paciência, parei para assistir a agonia do dia. O céu tem estado da cor de chumbo nas últimas semanas, exibindo nuvens pesadas que ameaçam uma tempestade de proporções bíblicas que nunca se precipita. Mas a paisagem não era só isso, o mar adquirira uma cor fétida e agitava-se nervoso para lá e para cá, quebrando ruidosamente nas pedras e espumando como um animal hidrófobo, enquanto o vento soprava forte, silvando através das rochas, soltando uma espécie de gemido assustador, compondo um cenário de filme apocalíptico. Será que o mar fora infectado pelo tal do coronavírus, me perguntei. E, por fim, o sol passou o dia escondido, e ninguém o viu sair de cena.

Enquanto fiz aquela breve pausa para admirar a paisagem caótica à minha frente, estacionou quase ao meu lado um cidadão que me tem tomado ultimamente como seu chapa, embora o meu tratamento em relação à sua pessoa não justifique tal intimidade. Em resumo, eu jamais lhe dei a ousadia. Ele é um tipo alto, acima do peso e anda desajeitado como um ganso. Acho que não regula bem da bola. Quando me vê sentado à balaustrada, apreciando a paisagem, ele se aproxima de mansinho e fica de pé, ao meu lado, e começa a murmurar uma conversa sem sentido, cujas palavras eu mal consigo ouvir. Então interrompo aquele meu momento de contemplação e me afasto dele com alguma desculpa, e aí ele vai aporrinhar outro cristão desafortunado. Vou para outro lugar da orla – espaço é o que não falta –, a alguns metros adiante, onde espero não ser incomodado novamente. Mas, como uma sombra, o cidadão me persegue, e não demora muito, lá está ele, novamente, sussurrando ao meu lado!  Aquilo parece uma ridícula corrida de gato e rato, até que vou embora para casa. Ainda que nem todos os loucos do Rio Vermelho sejam mansos, este me parece ser um tipo inofensivo, mas quando se trata de maluco, nunca se sabe, melhor manter distância (e não votar neles!).

Depois desse dia, nuca mais o vi. Confesso que percebi a sua ausência, mas não morri de saudades, podem ter certeza. Desde então, posso admirar sossegadamente a paisagem, sem temer a presença de um estranho resmungando incoerências ao meu lado. Mas algo me incomoda com este seu sumiço, e me pergunto, preocupado: será que ele foi atacado pelo maldito vírus?


Rio vermelho, 2 de maio de 2020.
  




quinta-feira, 23 de abril de 2020

Ardil em tempos de pandemia

Nos primeiros dias do tão chamado isolamento social, por conta da pandemia causada pelo novo corona vírus, quando a recomendação das autoridades da saúde era algo ainda incerto na compreensão das pessoas, talvez pelo fato do sugerido procedimento fosse uma novidade ainda desconhecida aos cidadãos e seu efeito benéfico ainda suspeitava dúvidas, eu fazia meio isolamento.

Por conta do “fique em casa”, o largo da Mariquita, à noite, de tão animado e movimentado, se tornara um deserto desolado de pessoas. Os bares resistiam abertos, mas um ou outro gato pingado se arriscava a sentar e pedir uma cerveja, talvez por medo de ser infectado ou de desobedecer às autoridades. O mesmo acontecia com a barraca da baiana do acarajé, suas longas filas, para pagar e receber o quitute, desapareceram, não se via mosca. A barraca do cachorro quente, essa nem de fala. Os casais de namorados, que sentavam-se nos bancos de madeira ao redor do pátio do largo, foram namorar dentro de casa, provavelmente, pois decerto não deixaram de praticar tal prazerosa atividade. As crianças, que tinham no largo um verdadeiro playground, onde corriam de um lado para o outro, assistidas pelos olhos atentos dos pais, agora estavam amarradas nos apartamentos. O único ponto positivo disso foi o fim da poluição sonora, promovida pela estridente música ao vivo dos bares e grupos musicais ambulantes. Por minha vez, eu levava o meu livro e sentava-me no mesmo banco de sempre, abaixo de uma potente luminária, tendo à minha retaguarda uma grande viatura da polícia, com um pelotão de meia dúzia de homens que guardavam pela minha segurança e a do local.

Pois bem, estava eu, solitário, entretido em minha leitura, quando fui interrompido por um rapaz bem apresentado – parecia que acabara de tomar banho e vestia-se com uma bermuda azul, folgada, que lhe cobria os joelhos e uma camiseta regata vermelha; se não estivesse de sandálias, o confundiria com um jogador de basquete. Foi logo falando:

— Roubaram minha motocicleta.
Do jeito aflito com que anunciou o ocorrido, achei que o roubo acabara de acontecer.

— Pede ajuda à polícia, eles estão logo ali — sugeri, pronto para voltar à minha leitura. Apesar de eu estar numa praça, não queria conversa com ninguém; como expliquei, meu isolamento pessoal era pela metade. Ir para a praça, para ler, tudo bem, mas sem ficar perto ou conversar com ninguém. Geralmente sou bastante sociável, até sorrio para desconhecidos e os cumprimento, como se morasse numa pequena cidadezinha do interior.

— Agora é tarde demais, isso aconteceu outro dia – ele suspirou.

— Ah... — disse e voltei o olhar para a página do livro.

— Posso me sentar aqui? — perguntou, já sentando.

— Pode, sim. Mas sente no outro banco, vamos manter a tal distância social. Não queremos pegar o vírus, não é mesmo?

O rapaz sentou-se no banco que lhe indiquei, mas não desistiu de puxar conversa. Eu já imaginava que ia ouvir mais sobre sua má sorte. E, como eu previra, continuou:

— Minha mãe é que tinha razão. Ela dizia para eu não trabalhar depois das 22h, mas eu fui teimoso.

— Então foi um assalto e levaram a sua motocicleta — resumi, sem tirar os olhos do livro.

No Campo Grande. Levaram o meu instrumento de trabalho, sou moto-taxi.

Ao ouvi-lo, achei aquela situação familiar e previ que ele tentaria me dar uma mordida. Para pintar a coisa com cores mais dramáticas, ele acrescentou:

— Então minha mãe me pôs para fora de casa. Trancou a porta e foi viajar.

Mas não ficou só nisso. Contou-me que a mãe era muito severa e essa era a maneira de castigá-lo, por ele não ter dado ouvidos a ela. Lembrei-me da minha mãe, tão humana, um doce de pessoa, como todas as mães deveriam ser.

— E você está na rua desde então? — aquela história começava a ficar sinistra, não combinava com a sua aparência asseada e as roupas limpas que vestia.

— Dormindo em banco de praça. — E logo em seguida, deu o movimento pelo qual eu já esperava: 

— Me arranje um dinheiro pra eu comprar um cachorro-quente.

— Não trago nada comigo, nem o celular. Só este livro. — E não trazia mesmo.

— Ainda não comi nada hoje — lamentou-se.

— Vai lá na barraca do cachorro-quente e conte sua história — sugeri. — Talvez eles lhe vendam fiado.

— É engraçado — ele argumentou. —, quando eu fazia ponto no centro, aparecia um monte de veado me oferecendo cem reais para eu comer eles. — Fez uma pose de Mister Universo, estufando o peito, mas faltava-lhe o porte de um Arnold Schwarzenegger. Não olhava para ele, mas percebi o gesto pelo rabo do olho. — E agora que eu preciso de dinheiro, não encontro nenhum!

— A vida tem dessas ironias — filosofei. — Mas também não lhe posso ser útil nem nesse quesito.

— Não tem nem dois reais?

— Como já disse, não trouxe dinheiro e nem o celular.

Ficamos em silêncio, daqueles que incomodam. Para mim, a conversa já tinha terminado. Eu não tirava os olhos do livro, era uma história muito interessante, a do livro. O rapaz se levantou e, me desejando boa noite, afastou-se. Por minha vez, desejei-lhe boa sorte em sua procura.

Não demorou muito e ele já estava sentado em outro banco, a duzentos metros. Ao seu lado havia outro incauto, talvez ele tenha mais sorte com esse, pensei. De onde eu estava, era impossível ouvi-los, mas podia jurar que ele recontava a sua trágica história e oferecia os seus favores por cem módicos reais – talvez até com um desconto promocional de pandemia. Enquanto o outro prestava atenção, compartilhava com o desventurado seu saco de pipocas. Provavelmente foi no momento que aquele falou que estava à procura de um veado generoso, que o outro se levantou e foi embora, deixando o mal logrado rapaz ficar com o saco de pipocas.
O diabo dessa pandemia não está fácil pra ninguém!

Rio vermelho, 20 de abril de 2020.