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Minhas freqüentes idas à mercearia deveriam contar como exercício físico, pois, vou a pé e volto carregando algum peso, embora insignificante. Quem sabe já nas Olimpíadas de 2016 a 'ida ao mercado com retorno pesado' já estará incluída entre as modalidades esportivas, e eu não estarei fazendo parte da equipe brasileira? Mesmo uma simples e trivial ida ao armazém pode se tornar numa experiência interessante, se levarmos em consideração o que vamos encontrado pelo caminho, e não é pouca coisa. Aqui no Rio Vermelho, há personagens curiosos que desafiam a nossa imaginação. Um deles, entretanto, tem chamado a minha atenção e curiosidade nos últimos anos. Trata-se de um rapaz saudável e bem apessoado e que tem por hábito sentar-se na murada do canteiro de plantas de uma esquina da Oswaldo Cruz, caminho para as minhas compras. Esta é uma das ruas mais movimentadas do Rio Vermelho, caminho obrigatório de milhares de automóveis e ônibus que vem de outros bairros ao longo das praias em direção ao centro. E se é tão movimentada, imagine como também é barulhenta. Não deixa de ser um local inusitado como a escolha para passar o tempo, levando-se em consideração as belas praias que existem por aqui, e que, certamente, merecem contemplação, embora eu concorde que gosto seja uma escolha pessoal. Fico imaginando o que haveria de tão bom em sentar-se ao sol numa esquina movimentada vendo os carros passarem. Talvez o rapaz seja um expert em transito e esteja estudando uma forma de desatar o nó que se transformou o Rio Vermelho. Ou quem sabe ele considere um tédio sentar-se na areia da praia e ficar olhando para o horizonte sem que nada de incomum aconteça. Não o culpo, também considero sacal passar mais que cinco minutos admirando mais esta Obra Divina. De qualquer forma, achei curioso aquele sujeito e seu hábito urbano. Pensei em aproximar-me para perguntar-lhe a razão de tanto interesse pelo movimento dos carros, mas temi que a resposta castrasse a minha imaginação, afinal o motivo poderia ser simples demais. Algo como preferir estar ali naquele lugar infernal ao invés de ficar em casa aborrecendo o juízo da patroa. Sempre que passo em direção ao mercado, lá está ele sentado na murada, solene em seu posto, na companhia de uma latinha de cerveja. Chamou-me a atenção que seu o cabelo está sempre aparado e aprumado. Veste-se como se estivesse em casa, porém com roupas sempre limpas.
Imagino se meu amigo observador fica admirado pela grande variedade de modelos de automóveis que desfila pela sua esquina diariamente. Já deve até ter percebido que a cor preta é a preferida de quem possui um Celta e que os carros vermelhos são uma raridade. Os novíssimos em folha já ultrapassaram em número os calhambeques, uma constatação maliciosa de que o número de pessoas endividadas multiplicou. Qual será o destino daquelas pessoas, ele deve se perguntar com freqüência. Algumas delas já devem ser velhos conhecidos, das tantas vezes que se encontram naquele mesmo lugar quase todo santo dia. Outras aparecem de vez em quando, mas nunca deixam de dar uma passadinha pelo local. Elas também já o perceberam. Cada uma vai dirigindo seu próprio automóvel ou sendo conduzida por alguém. Os ônibus também passam, e lotados. É tanta gente espremida lá dentro que quem está do lado de fora nem consegue distinguir seus rostos, voltados para o que se passa do lado de fora. Vão a caminho do trabalho, da escola ou enfrentar qualquer interminável fila de serviço público. A esta altura, meu crítico observador já deve ter notado a discrepância que é a solidão dos mais afortunados, em seus luxuosos automóveis falando ao celular, enquanto dezenas de trabalhadores viajam confinados no transporte público minguado feito gado transportado. Será que eles são mesmo indiferentes aos que aguardam por uma condução de pé nos pontos de ônibus ao longo do caminho, ou apenas receiam a aproximação com estranhos?
Outros pedestres que passam por aquela rua com a mesma freqüência, também já se acostumaram com a presença do rapaz da esquina, e, também o cumprimentam com um 'bom dia' mas, como eu, não ousam perturbá-lo com nenhuma pergunta indiscreta sobre sua atividade observatória. A vida em grandes cidades pode ser vazia e solitária, mesmo para aqueles que busquem preenchê-la de modo nem sempre produtivo. O ócio é a ocupação dos gênios, penso eu. Nenhuma grande obra ou pensamento foi desenvolvido durante as atividades de alguém muito ocupado. Trata-se de uma lei natural das coisas, uma espécie de equilíbrio dentro do universo, enquanto alguns trabalham muito, outros se ocupam em ver passar o tempo.
Outro dia eu fui em minha peregrinação em direção ao mercado, quando deparei com meu personagem em seu habitual posto de observação. Fazia semanas que eu não fazia isto, e foi como encontrar um velho conhecido. Era uma tarde, o que justificava a sombra em seu local preferido. Desta vez ele não estava só. Sentada numa cadeira de armar de metal ao seu lado, estava uma empertigada senhora de idade. Não tive dúvidas que aquela era a sua mãe. Seus cabelos já eram brancos feito algodão, e o seu corpo magro e frágil lembrava uma porcelana fina. Como toda velhinha, ela estava arrumada e perfumada para um passeio. Ao contrário de seu filho sentado ao seu lado, que assistia vigilante o movimento da rua, seu olhar era indiferente e abandonado, alheio a tudo aquilo. Não havia movimento ou expressão em seu rosto, apenas aquele olhar triste e senil. Os dois não trocavam palavra que fosse, nem olhar ou gesto que indicasse algum tipo de interação social, embora um observador atento não deixasse de perceber o laço que unia mãe e filho naquele momento de ternura e solidariedade.
Rio Vermelho, 25 de novembro de 2009.
Fazia tempo eu pensava aposentar minhas velhas sandálias para comprar um par novo e mais moderno. Embora estas ainda dessem conta do serviço, já estavam dando sinais de desgaste e cansaço, apesar de que elas ficam bem mais gostosas para usar, à medida que envelhecem. Porém, sua hora já havia chegado e o momento de dizer adeus era eminente. Troquei os sapatos e o tênis por este calçado tão democrático e popular que são as nossas companheiras, as sandálias de borracha, já faz tempo. Mas não pense que sou aquela figura excêntrica que sai por ai de terno e calçando sandálias! Nosso clima quente, também, pede mais por confortáveis sandálias do que por calçados fechados que só produzem aquele mau cheiro que só de imaginar torcemos o nariz e que costumamos chamar de chulé.
Já se foi o tempo em que as Havaianas só eram encontradas em gôndolas de supermercados ou nas prateleiras empoeiradas de mercearias de bairro. Tornaram-se peça de grife com suas próprias lojas chiques espalhas por onde quer que se possa abrir uma porta de comércio, são encontradas desde no armazém do bairro até em luxuosos shoppings centers. Foi numa dessas lojas que entrei para comprar um par de legítimas Havaianas, as que não soltam as tiras, como elas mesmo orgulhosamente anunciam, numa bela manhã de sábado, aqui perto de casa. Como era de se imaginar, as opções de modelos eram muitas. Felizmente, os modelos masculinos eram poucos e terminei me decidindo por um novo lançamento, um par de sandálias com o solado mais largo e design estiloso. Eram três vezes mais caras também, mas como as sandálias, para mim, são indispensáveis, valia a pena o investimento. Meus pés são largos e grandes como os de uma figura portinariana, por isso, eles se sentiram muito confortáveis no novo par de sandálias. Meu amigo Nando, cujo pé também é aloprado, simpatizou com minhas sandálias e foi correndo à mesma loja comprar um par. Minhas novas sandálias eram tão confortáveis e elegantes que até imaginei que um belo terno combinaria bem com elas!
Como tudo que é bom dura pouco, minha lua de mel com as novas sandálias não durou nem seis meses. Um belo dia, colhendo mato em meu jardim, a tira do pé esquerdo se partiu. Mas não são elas as que não soltam as tiras? Não fiz movimento brusco e nem aquilo foi o resultado de continuo abuso de suas capacidades físicas, visto que levo uma vida confortavelmente sedentária. Ela simplesmente partiu a tira. Aquilo foi uma fatalidade que poderia ter acontecido a qualquer um. Segundo o IBGE, um em cada um milhão brasileiros corre o risco de ter a tira de sua sandália Havaiana partida pelo menos uma vez na vida. Aquela foi a minha vez. A mesma estatística se aplica para felizes ganhadores da Mega-sena, mas, no meu caso, é sempre mais possível que eu vá perder uma sandália, ao contrário de me tornar um milionário!
Gostei tanto daquele modelo que voltei à loja para comprar outro par. O mesmo vendedor da outra vez veio me atender com um sorriso nos dentes. Contei-lhe sobre a tira partida da sandália que me vendera e, sem fazer ouvido de mercador, como qualquer outro comerciante o faria, disse:
— Telefona para o atendimento ao cliente das Havaianas que eles te dão outra. — escreveu o número numa tira de papel e me entregou.
Nunca me passou pela cabeça reclamar por algo daquela natureza, sobretudo por causa do aborrecido interrogatório que imaginei ser submetido só por causa de um par de sandálias de borracha. Minha especialidade é reclamar pelo barulho e o mau cheiro da churrascaria aqui do bairro. O mais sensato seria, era esquecer o prejuízo, se é que houve algum, e simplesmente comprar um novo par. Mesmo assim, agi contrário à minhas elucubrações e, resolvi arriscar. Deixei a loja de mãos vazias, não levei as sandálias ainda daquela vez. Na segunda feira seguinte, telefonei para as Havaianas contando o meu drama. Para minha surpresa, não houve gravação alguma me pedindo para aguardar um instante, pois, minha ligação era muito importante para eles, ou aquele grande sucesso das paradas da categoria musica de espera, tão irritante aos ouvidos. Fui atendido na bucha. Lembrei que não estava ligando para a companhia telefônica ou para o Banco do Brasil. A moça foi muito educada e solicita e, depois de satisfazer-lhe a curiosidade feminina com algumas respostas sobre a minha pessoa e o par de sandálias, informou-me que eu receberia correspondência com instruções, despediu-se polidamente. Nunca vi nada tão simples. Ela nem sequer tentou por a culpa em mim pelo dano, eximindo seu patrão da responsabilidade, como faria qualquer gerente de banco bem treinado ou outro atendente de serviço de atendimento ao cliente. Ao contrário, tratou-me como pessoa honesta e com boas intenções, o que, aliás, eu sou e tenho. Senti-me justiçado. É tão comum pessoas se sentirem injustiçadas, mas desta vez ocorreu o justamente o contrário. Dias depois, recebi um envelope com as tais instruções. Fui até a agência do correio aqui perto de casa levando o pé de sandália avariado. Entreguei-lhes um cupom que veio junto com as instruções e recebi em troca uma embalagem para por a sandália. Assunto encerrado. Semanas depois, recebi em casa um novo par igualzinho ao que eu tinha comprado. As Havaianas tinham ganhado a minha admiração e fidelidade.
Tudo poderia ter passado como por um desses contratempos que acontecem na vida da gente, de vez em quando e, depois, caem no esquecimento. Não é que quase seis meses depois a dita cuja quebrou a tira de novo? Desta vez, resolvi não fazer mais nada a respeito. Nada de reclamar ao fabricante. Também não comprei sandálias novas, ao contrario, fiz uma combinação. Passei a usar o pé cuja tira estava intacta com o de outra sandália já aposentada. E tem gente que ainda diz que aposentados não servem mais para nada! Foi uma combinação estranha, algo fora dos padrões. Todos olhavam para os meus pés, curiosos com aquela dupla de sandálias incomum. Eu nunca chamara a atenção tanto para mim. Eu achei que estava bom, embora uma sandália fosse cor de marfim com tiras largas em duas tonalidades, azul marinho nas bordas e gelo ao centro e com o design sofisticado parecendo uma prancha. O outro pé era o de um modelo convencional, tinha as tiras pretas estreitas com solado estampado com um motivo praiano em azul e preto. Era uma combinação estapafúrdia e por isso mesmo achei que poderiam dar certo. Quem sabe eu estivesse inventando moda. Afinal, com tanta idiotice por ai virando moda, talvez a minha hora tivesse finalmente chegado. Nunca ninguém pensou em fazer aquilo antes. Seria a última moda do verão. Calçar sandálias com pés diferentes. Dizendo assim até parece coisa simples, mas é uma idéia meio subversiva, algo que mexe com a moral de pessoas acostumadas a ter tudo certinho. Era o caso de patentear aquele invento. Inventos como aquele são patenteáveis. Pode-se patentear de tudo, desde uma simples idéia até a coisa propriamente dita. Já tive outras grandes idéias, e algumas delas até foram roubadas. Por exemplo, os japoneses me passaram a perna com a minha invenção da câmera digital! Mas desta vez eu iria ser mais esperto e registrar logo a minha genial criação. Eu já podia até imaginar a minha idéia virando "case study" em doutorado de curso de marketing. Eu tendo a minha própria grife de sandálias descasadas. Posando os pés para foto de capas de revistas de moda. Bastaria comprar um monte de Havaianas de modelos diferentes e misturar tudo! Uma simples e obvia invenção mudando o curso de uma vida. Eu andava por ai chamando a atenção das pessoas para mim, com o meu invento literalmente a meus pés.
Um dia achei que algo estava errado. Minha consciência de reclamador inveterado me dizia para não me acomodar, e que eu devia me queixar novamente às Havaianas, as que não soltam as tiras. Mandei-lhes um e-mail falando-lhes do ocorrido e dei o assunto por encerrado. Já tinha feito a minha parte. Eu não esperava uma reparação material. Imaginei que eles me responderiam de forma educada, lamentando o ocorrido e informando-me que eu estava desafiando as leis estatísticas, pois, ninguém no mundo jamais teve dois pares de sandálias Havaianas com as tiras partidas em espaço de tempo tão curto e, por isso, lamentavelmente, a troca não seria feita. Troca de uma troca estava fora de questão. Mas, para minha surpresa, dias depois recebi um telefonema das Havaianas, e o resto vocês já podem imaginar. Ganhei outro par de sandálias! Pode-se viver disso, mas para mim, já basta. As Havaianas já provaram que me levam a sério.
Rio Vermelho, 13 de outubro de 2009.
Em tempos em que consideração e respeito ao próximo não são mais valores apreendidos em casa, as novas gerações agem como se o mundo fosse uma temível selva na qual, cada indivíduo deve comportar-se como um ser individualista e destituído de qualquer espírito comunitário e solidário. É a lei do cada um por si. Tenho experimentado na pele esta triste realidade.
Esta semana recebi uma carta um tanto intimidadora de um estabelecimento barulhento aqui ao lado de casa. Em resumo, a tal carta avisava que eles não vão mais tolerar que eu vá até lá reclamar do barulho que eles fazem. Eles sentiram-se incomodados com minhas repetidas reclamações de que o barulho deles incomoda à mim, à minha família e a outros visinhos, alguns, pessoas idosas, residentes aqui há mais de 40 anos. Sentiram-se ofendidos, pois, em sua compreensão, seu alvará lhes dá total permissão para fazer de nossa vida um inferno e, por isso, devemos aturá-los a todo custo. Bonito, não? Mas como este é o país dos absurdos, junte-se este a todos os outros.
Meus contínuos apelos ao proprietário do estabelecimento, um jovem e inexperiente empresário, considera-se um ambientalista, vejam só, para que o barulho fosse eliminado, uma vez que seu empreendimento foi instalado numa área residencial, nunca foram atendidos. Ao contrário, a cada vez que pisava os pés por lá para fazer minhas queixas, ele me olhava com expressão e sorriso de desdém. Eu teria de aprender a conviver com a sua presença, ele informava. Barulho em área residencial não é o tipo de poluição que todo ambientalista deveria reprovar? Nem os apelos pela minha mãe idosa e doente fizeram diferença alguma. Afinal, quem está sofrendo é a mãe dos outros e não a dele.
Até há poucos tempo atrás, o estabelecimento se apresentava como um empreendimento ambiental, preocupado com a qualidade de vida em nosso planeta. Bem pomposo, não? Talvez eu entendera errado, a qualidade de vida a que ele se referia era, na verdade, a de seu proprietário, o ambientalista de carteirinha, e não um bem comum para todos. Coisa chata. Eu também me preocupo com o meio ambiente, com a qualidade de vida do ser humano como parte deste ambiente, sobretudo. Sou um humanista. Mas, como muitas vezes acontece com as grandes idéias, infelizmente, a vaca foi pro brejo. O tal papo ambiental do jovem e arrogante empresário não emplacou, ninguém comprou sua idéia. Para não ficar no prejuízo, o consciente ambientalista empresário, transformou o local em casa de shows e espetáculos. Rebatizou aquilo de espaço cultural. Engraçado, né? Eufemismo é uma ferramenta poderosa no mundo dos negócios. Fazem as coisas parecerem melhores do que elas realmente o são. O veterinário não praticou eutanásia em meu saudoso velho cão doente, apenas o colocou para dormir placidamente com uma injeção. Se como empreendimento ambiental este lugar ao lado de minha casa já incomodava, você pode imaginar o que aconteceu ao ser elevado à categoria de espaço cultural. Não há nada de errado em pessoas tentar ganhar a vida de algum modo, desde que o seu negócio não seja um estorvo para outros. É aquela velha frase que nos chama ao bom senso, a qual eu já ouvia nos tempos do Tereza de Lisieux, "o direito de um, termina onde começa o do outro", seja lá o que isto queira dizer.
Este episódio me fez lembrar que não muito longe aqui de casa, precisamente na rua Jequié, funciona há anos, de modo discreto e despercebido, um bordel. Isso mesmo, um brega, ou casa de massagem, como se costuma dizer hoje em dia. É aquela estória do eufemismo que eu lhes contei há pouco. Um puteiro aqui perto? Eu nunca soube disso até recentemente, apesar de sempre ter passado em frente à tal casa sem nunca perceber nada de extraordinário ali. Mesmo depois de tomar conhecimento, e de tentar observar com um olhar mais crítico a sua movimentação, quando por lá passava ocasionalmente, não percebi nada de incomum. Contudo, coletando informações aqui e ali, na inocente intenção de, futuramente, escrever uma bela crônica a respeito, soube que as "meninas" que lá exercem o seu talento, são as de melhor qualidade que há, inclusive sendo algumas de nível universitário, como em Cuba! A clientela, também, não poderia ser outra senão uma de fino trato, homens do mais alto gabarito, inclusive alguns ilibados pais de família. Tudo nos conforme.
Pois bem, a ilustre casa de massagem coabita o mesmo logradouro que respeitáveis famílias de classe média e professoras aposentadas, ali existem duas, sem que uma incomode a outra. Convivem pacificamente. Nenhuma das famílias jamais se queixou da inusitada vizinha, até porque, muitas das práticas que ali dentro daquele estabelecimento tomam acontecimento, se perpetuam, da mesma forma, na intimidade do quarto do pai e da mãe, sem que, no entanto, haja troca de prazer por dinheiro, embora muitas esposas sonhem algum dia, serem compensadas por executar tal obrigação matrimonial. A mim também não incomoda que ali funcione uma casa do pecado. Já tive até um vizinho político, por que então, me ofenderia se prostitutas morassem aqui ao lado? O Rio Vermelho tem de tudo, mesmo.
Fico imaginando como a empresária proprietária da casa de massagem registraria o seu negócio, caso fosse obrigada pela Receita a pagar o imposto por seus serviços prestados. Centro Recreativo e Terapêutico Tia Simara Ltda. Ou Instituto Para o Estudo de Práticas Interpessoais S.A. E por que não, Espaço Cultural e de Lazer Sobrinhas da Tia Simara?
Rio Vermelho, 27 de setembro de 2009.
Outro dia, fiz para o almoço uma de minhas especialidades culinárias. Um suculento sanduiche de pão integral assado em meu forno, presunto com queijo, tomate e alface americana, aquela que parece um repolho e suas folhas são crocantes como o beijú. Não uso presunto de verdade, e sim aquilo que o fabricante orgulhosamente chama de "presunto de peito de peru light". Ele anuncia aos quatro cantos que é saudável, e eu faço as pazes com a minha consciência pois, estou finalmente cuidando de minha saúde. Depois de montar minha criação gastronomica, coloquei-a num prato sobre a janela que dá para o jardim, enquanto fui até a cozinha procurar por alguma bebida que combinasse com a iguaria. Ao voltar com o copo cheio de chá gelado, o sanduiche não estava mais lá. Simplesmente havia sumido como por um encanto. Só deixaram o prato e nada mais. Como só havia eu em casa, aquele súbito desaparecimento tomora o contorno de um caso de mistério. Eu poderia jurar a mim mesmo que eu havia feito um sanduiche e o colocado por alguns minutos sobre a janela. Dei a volta pela porta da sala até o jardim para ter uma melhor perspectiva daquele intrigante mistério e, quem sabe até, desvendá-lo. Não tive trabalho para matar a charada. Por um galho do nosso mirrado pé de pinha, um sagüi fugia levando o meu almoço!
Tornou-se comum, nos últimos tempos, o aparecimento desses macaquinhos cinza rajado pelas vizinhanças do bairro em busca de alimento. Felizmente são eles, e não aqueles ursos pretos que invadem os quintais das casas nos subúrbios americanos, atrás de comida. A tia de um amigo, moradora das vizinhanças, se queixou que um cacho de bananas sumira de sua varanda. Bananas sempre estiveram associadas à macacos, mas nunca ouvi falar que eles também apreciassem sanduiche de presunto de peito de peru light.
Soa até simpático se falar de macaquinhos que nos visitam pela janela e roubam a nossa comida. A estória ganha contornos de uma fábula bucólica que acontece em plena zona urbana. Mas a verdade para isto estar acontecendo não tem nada de encantamento. É que puseram abaixo a moradia destes bichinhos e, em seu lugar, ergueram-se arranha-céus de luxo e gosto duvidoso. Sem lugar para morar e encontrar comida, eles aparecem aos bandos às nossas janelas roubando os nossos suculentos sanduiches de peito de peru light e cachos de bananas maduros comprados na barraca do crente alí no canal. Desde que a especulação imobiliária arrasou com o Horto Florestal e adjacências, os animais que tinham lá a sua moradia desde os tempos da Criação, passaram a procurar refúgio do lado de cá, invadindo o nosso espaço. Além dos delicados sagüis, tem aparecido por aqui jandaias, pica-paus e outros bichinhos do mato.
Não tenho nada contra animais deste tipo, e até preso a sua presença. Mas acho que eles devam habitar o seu lugar natural que é o meio do mato. Enfim, cada macaco em seu galho. É lá que eles estão mais seguros e aonde eles pertencem. Acho que se eu fosse morar no mato eu seria considerado um intruso e, com certeza, não me sairia tão bem lá como aqui no meio do concreto e dos automóveis. Não deixei de ficar me perguntando onde eles estariam se refugiando agora que o Horto e adjacências haviam sido invadidos pelas construtoras. Eles vêem até as nossas casas, pegam comida e depois vão para onde? Não tornei disto outro caso de mistério, como o desaparecimento do meu almoço mas fiquei com a puga atrás da orelha.
Foi outro dia ao visitar Pedrão, amigo de infância desde os tempos de escola, que tive a minha curiosidade plenamente satisfeita. Morador de sempre da rua Alagoinhas, teve sorte de ser vizinho do querido Jorge Amado. Era um final de tarde e ficamos na varanda de sua casa jogando conversa fora e tomando uma limada gelada. O sol já tinha desaparecido por detrás das casas e quando finalmente mergulhasse no oceano, deixaria tudo às escuras. Mas ainda era dia. Enquanto conversávamos, notei uma movimentação de sangüis andando pelos fios da rede elética como esquilibristas da morte se achegando para aquelas bandas.
- A esta hora eles vão todos para o jardim de Jorge Amado. – disse Pedro satisfazendo a minha curiosidade. – Os pica-paus, jandaias e outros pássaros também passam lá a noite.
Para quem nunca teve a satisfação de um dia entrar na casa de Jorge Amado, sua melhor descrição possível são as palavras conforto e simplicidade. Nada de luxo para quem já varreu o mundo afora e conheceu palácios suntuosos. A decoração da casa é despojada e não obedece nenhuma lógica estética dos profissionais da arte de arrumar os móveis. É composta de objetos de cultura popular de todas as partes do mundo e obras de arte presentedas por queridos amigos artistas. O telhado da casa é de telha-vã como só se vêem nas casas de fazenda antigas ou habitações simples do interior. Mas o que mais impressiona é o seu jardim, enorme. O jardim dos Amados é uma pequena reserva ecológica nas vizinhanças, com árvores de tudo quanto é tipo. Parece uma mata virgem e selvagem. Isto porque, Jorge sempre se opôs à podação de suas árvores, preferia deixá-las crecer e se expandir conformes os mandos da natureza. Não é à toa que seu jardim mais pareça uma porção da mata de onde os macaquinhos foram expulsos pelas construtoras, razão pela qual eles são atraídos para lá feito formigas em açucareiro. É neste jardim também onde as cinzas de Jorge e Zélia foram depositas, à sombra da velha mangueira onde costumavam namorar sentados de mãos dadas sobre um banco de alvenaria. Jorge Amado gostava de bichinhos, por isso, acho que não é mera concidencia que eles sejam atraídos pela hospitalidade que sempre foi uma caracteristica do número 33 da rua Alagoinhas.
Rio Vermelho, 15 de setembro de 2009.
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Valeu!
Outro dia acordei disposto. Iria matar alguém. Não no sentido literal, fique claro. Lavei o rosto com sabão barato depois de me escovar. Ao pegar meus óculos, gentilmente com a ponta dos dedos, sobre a bancada da pia, o dito cujo se partiu ao meio. Naquele instante, o meu mundo, onde nada de extraordinário acontece, sofreu um pequeno abalo sísmico. Sou tão dependente de óculos, apesar de enxergar razoavelmente bem sem eles, que a idéia de passar um único dia sem eles me assustou. Tive o mesmo pânico que um astronauta fumante inveterado, voando na Columbia, teve ao descobrir que se esquecera de levar um pacote de cigarros para o fim de semana! É que tenho a natureza um tanto perfeccionista, e sem óculos, não consigo ver o mundo tão perfeito em toda a sua imperfeição.
Na noite anterior, eu tinha encontrado uma solução para desatar o nó em que se encontrava a trama do meu livro. Não via a hora de me sentar nesta cadeira para começar a escrever. Iria matar um personagem que se tornara um incomodo. Infelizmente, só na ficção é que é tão simples se livrar de alguém indesejado. Na vida real, é bem mais trabalhoso e arriscado. Meu personagem já tinha cumprido a sua missão, precisava sair de cena. Se ele tivesse um pouco mais de grana, pouparia sua vida, mando-o para uma viagem longa e sem retorno à Europa, como nas novelas. Embora os óculos quebrados fossem os de longe, não precisaria deles para escrever. Porém, não conseguiria pensar mais em outra coisa se não resolvesse aquele perrengue. É que tenho usado óculos quase a vida inteira. Eles caem bem com meu rosto. Acho até que já nasci de óculos, o que deve ter sido muito doloroso para minha pobre e querida mãe. De modo que, tive de rever minhas prioridades. Deixei para cometer o meu crime mais tarde. Fui procurar um par de óculos velho pelos armários da casa. Porém, o único que encontrei me fazia enxergar pior do que estar sem óculos. Como o Dr. Luciano, meu oftalmologista vitalício, só me atenderia na semana seguinte, como fui informado educadamente pela atendente ao telefone, conclui que esperar tanto, estava fora de questão. Peguei o par de óculos velhos e a ultima receita datada de dois anos atrás. O jeito era fazer um arranjo provisório, trocando as lentes da armação velha utilizando a receita antiga. Um par de lentes novas, embora desatualizado, não sairia por mais que um BigMac com fritas, calculei.
Calcei os meus chinelos e fui até uma das duas óticas aqui do bairro. A vendedora da primeira loja foi muito solicita. Contei-lhe o meu drama e minha urgência. Enfrentaríamos uma crise pior que a do Senado, caso eu não tivesse meus óculos logo, tentei impressioná-la, embora ela parecesse não ter a menor idéia do que eu falava. Feliz de quem é desinformado. Porém, ela tinha o cacoete de vendedora. Quis me empurrar uma armação nova, pois, como me explicou didaticamente, aquela velha que eu levara comigo corria o sério risco de partir ao ser manipulada no laboratório. Resolvi arriscar, afinal, duas armações partidas na mesma semana, seria muito azar! Não se preocupe, prefiro correr o risco, já ouvi a mesma estória antes e nunca nada aconteceu, disse à vendedora. Mas ela estava disposta a impedir que seu patrão ganhasse nem que fosse um único tostão naquela ensolarada manhã. Sua receita já perdeu a validade, insistiu. Nunca ouvi aquilo. Não quis argumentar. Resolvi não perder tempo ali e fui para a outra ótica.
A outra ótica funcionava mais adiante, numa casa onde outrora morou uma senhora que, em minha infância, despertou a minha imaginação inocente de criança. Eu morava numa rua próxima, na rua do Céu. Um nome tão poético para uma rua, mas que cometeram o desatino de, muitos anos depois, subtrair-lhe a dignidade ao rebatizá-la com o nome de um político. Sabe Deus se este merecia mesmo ir ou não para o céu! Pois bem, a dita senhora era uma mulher de pele branquinha, baixinha e gordinha feito uma bola de algodão. Nos meus primeiros anos de vida, eu nunca tinha visto ninguém assim tão gordo e redondo. Como podia ser. Fiquei fascinado. Todos os dias, pouco antes do almoço, ela passava pela esquina de minha rua em direção de sua casa. Eu corria até a esquina e sentava no batente de uma casa só para assistir aquela figura que parecia ter saído de um livro de estórias infantis passar compenetrada sem nem mesmo perceber que eu existia. Guardo aquela imagem em minha memória até hoje. Atendeu-me o próprio dono dá ótica. Um camarada simpático que usava na cabeça um chapeuzinho de pano que hoje anda muito na moda e que lhe conferia, juntamente com o brinco preso na orelha, ares de cantor de boleros.
Contei-lhe o meu pequeno drama. Mostrei-lhe o par de óculos quebrado e que, depois de analisá-lo, ele se incumbiu de dar um remendo que o agüentaria tudo junto por alguns dias. Disse-me, fazendo um misterio, que tinha uma cola especial. Não quis saber detalhes, era especial e pronto. Quanto à receita velha, não haveria problemas. Nada como falar com o proprietário. Desde quando receita antiga tinha validade? O ideal seria uma nova em folha, mas estava esta estava fora de questão. Mostrei-lhe os óculos velhos para o qual queria as lentes. Ao recebê-lo em suas mãos, fez uma expressão admirada.
- Mas que beleza de peça! – exclamou analisando-a.
Comprei aquela beleza no Rio de Janeiro há mais de quinze anos, no tempo das vacas gordas. Eu procurava pelas lojas de Ipanema, numa ensolarada manhã de sábado, uma armação para por novas lentes. E como não encontrasse nenhuma do meu agrado, já estava me dando por vencido quando vi na vitrine de uma lojinha prestes a fechar, esta armação que se distinguia de todas as outras que encontrei, justamente pelo desenho incomum, que camuflava a feiúra do meu rosto, tornado-o mais palatável. É esta! Exclamei comigo mesmo. Parecia de encomenda. Era muito leve e delicada, imitando a aparência de casco de tartaruga. Entrei na loja e fechei negócio. Era a única peça da loja. Não era à toa que a achei tão especial, custava mais que uma geladeira duplex com viva-voz e conexão com internet em banda larga! O estojo, também, era algo de chamar a atenção. Bonito e sofisticado, parecia que era feito de couro de animal em extinção, tal a sua qualidade. Enfim, um bichinho daqueles iria fazer seu papel na natureza, servindo de estojo para meus novos par de óculos. Acredito até que o valor alto da armação era devido àquele estojo, e que, na verdade, eu estava pagando caro por ele e a armação vinha como brinde!
- É uma Giorgio Armani – disse surpreso. - O design desta peça é muito bonito. É raro encontrar por aqui algo tão bonito.
- Não diga. – reagi surpreso.
- É feita de um material excelente. Vai durar a vida toda. A NASA o utiliza para fazer puxador de gaveta espacial. – acrescentou oculista cantor de boleros.
- Não diga.
- Ela está ressequida. Se o senhor me permitir, passarei um produto especial para hidratá-la. Deveria cuidar melhor dela, pois é uma relíquia.
- Não diga. – respondi tentando imaginar se o fabricante daquele produto especial era o mesmo que fazia a cola.
- Há muito tempo eu não via nada semelhante.
- Não diga. E por quanto vai ficar as lentes?
- Vai lhe custar exatamente o preço de um BigMac com fritas. – anunciou depois de consultar a tabela.
Um dia depois, recebia um telefonema. Os óculos estavam prontos e me esperando. Larguei o que fazia. Calcei os meus chinelos e rumei correndo até a loja. A armação parecia nova em folha, como se tivesse saído de fábrica.
- O senhor vai me prometer uma coisa, Sr. Cristiano. – falou o oculista colocando a peça cuidadosamente em minhas mãos - Vai cuidar muito bem dela. Daqui a seis meses, volte aqui para eu hidratá-la novamente.
- Pode ter certeza disso. – respondi satisfeito.
Coloquei-o na cara e voltei para casa, orgulhoso de possuir sobre o nariz uma relíquia do Giorgio Armani, uma vez que sair por aí pelo Rio Vermelho de chinelos e vestindo um de seus famosos paletós, estava fora de questão. Eu já estava pronto para voltar ao meu trabalho e eliminar com estilo o personagem de minha estória.
Rio Vermelho, 18 de julho de 2009.
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