sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Roupa suja se lava em casa.

Uma coisa que sempre me maravilha é a diversidade cultural. Isto mesmo, os diferentes valores entre pessoas da mesma cultura ou de culturas diferentes e suas formas para resolver problemas do cotidiano, pelo mundo afora. No final, não existe esta ou aquela forma certa de se fazer uma coisa, e sim aquela que se adéqua à realidade e valores de cada pessoa ou cultura.

    Na quarta-feira de cinzas fui convidado por minha querida amiga Celina para almoçar em sua casa. Ela sabe o quanto gosto de ensopado de frango com cuscuz marroquino e quis me fazer este mimo. Era uma retribuição pelas vezes que a convidei para almoçar aqui em casa e cozinhei para ela. Quem nunca provou o cuscuz marroquino, vale a pena experimentar. Ele não é feito de farinha de milho como o cuscuz que comemos aqui pelo nordeste, é também um prato simples, mas feito de grãos de sêmola de trigo, também chamado de semolina.

    Durante o agradável almoço, feito por sua secretária Esmeralda, ela se queixou do filho. Um rapagão de quase 2 metros de altura, 25 anos de idade e cara de bobão. Mas, como logo descobri, de bobão, ele não tem nada. Está desempregado, ou melhor, quase nunca pegou no pesado. Quis saber o que ele tinha feito afinal, para deixá-la aborrecida. Contou que durante o carnaval ele tinha levado mulheres para casa. Não admitia que ele transformasse a casa em motel. Ouvi aquilo calado, afinal cada um sabe como põe ordem em sua própria casa. Nós brasileiros fazemos uma clara distinção entre a casa e a rua. Sobre isto o antropólogo Roberto DaMatta já escreveu a respeito. Ele diz que a nossa casa é como um templo sagrado onde mora a família, os filhos são educados e onde recebemos nossos amigos e parentes para comemoração de datas e tradições importantes da família. É nela que cultivamos hábitos saudáveis e dentro dos padrões morais de nossa sociedade, e blá, blá, blá. A rua é justamente o oposto, o lugar mundano e profano. Onde se vai à luta em busca do sustento da família. O lugar onde os excessos são permitidos e mesmo padrões morais podem ser postos de lado, ou melhor, deixados em casa. Em resumo, o garoto poderia comer na rua quem quisesse, mas talvez só pudesse levar para casa a namorada, previamente apresentada formalmente aos pais, por exemplo.

    Tal preocupação de minha amiga me fez lembrar de uma conversa que certa vez tive com uma colega de trabalho da Islândia, durante um jantar. A islandesa me mostrou orgulhosa uma foto de sua bela família. Estavam ela, o marido e a filha adolescente de 17 anos sentados num banco de jardim. A Islândia é conhecida pela beleza de suas mulheres, e a beleza de sua filha era uma prova disso. Ela contou que o marido era um jornalista e que a filha ainda estava no colégio, e que, no momento estava morando na casa do namorado. Declaração me surpreendeu por causa de sua jovem idade. Perguntei-lhe se era comum na Islândia, garotas adolescentes morarem sozinhas com o namorado. Ela me respondeu explicando que eles estavam morando juntos, mas na casa dos pais dele, uma vez que ele tinha a mesma idade que ela. Nem trabalhava ainda. Acrescentou que depois de dois meses, ela voltaria para casa com o namorado e ficariam uma temporada. Era sempre assim, eles passavam um tempo lá e outro cá.

    Para nós, brasileiros, este arranjo é impensável, disse-lhe. Os pais sequer admitem que o namorado entre no quarto da filha, e nas raras vezes que isto acontece, a porta tem de ficar aberta. Nos casos mais extremos, a filha e o namorado têm de assoviar e bater palmas freqüentemente para que os pais saibam que suas mãos e bocas não estejam engajadas em alguma atividade indecente! Admitir a filha adolescente morar com o namorado, seria o mesmo que deixá-la viver em pecado. Morar juntos, só depois de casados na igreja e com papel passado, como se diz. Enfim, ainda não aceitamos a idéia de nossas pequenas princesinhas já estarem transando. Contei-lhe que uma amiga estudante de advocacia, portanto uma mulher adulta, ao comunicar à mãe que tinha perdido a virgindade, esta fez um drama, deu um chilique, chorou, tomou calmante. Tornou um assunto íntimo em problema de família, convocando todos, irmãos, tios e avós, enfim, o circo todo, para uma reunião de família para tratar do assunto. A filha já estava estragada e ia ficar viciada em sexo! Os pais brasileiros preferem ignorar a vida sexual dos filhos, daí porque o negócio de motel é tão lucrativo e nunca para de crescer. Na maioria dos casos, financiados com as mesadas que os filhos recebem dos próprios pais! Já nos países nórdicos, o sexo não carrega a culpa do pecado que nos países católicos lhes é impingida.

    Provavelmente, com o intuito de remediar a impressão que me causara, minha colega islandesa acrescentou que havia uma coisa que ela não admitia do namorado. E eu, em minha mente maldosa e perniciosa, fiquei tentando imaginar o que seria ainda mais libertino que permitir a filha adolescente ser comida no quarto ao lado pelo insaciável namorado adolescente. Seria o uso de drogas em casa? Sexo selvagem? O barulho deixaria todos assustados em casa e na vizinhança? Orgia? Fiquei curioso. O que é? Perguntei.

    Então, ela me respondeu com uma ponta de orgulho e triunfo de uma dona de casa islandesa que está em pleno comando de seu lar e de seus direitos.

    - Eu não permito que ele deixe suas roupas sujas para eu lavar!


 

Rio Vermelho, 25 de fevereiro de 2009.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O homem do apito.

Quem vem para estas bandas a passeio, desconhece que, na verdade, Salvador é uma piada. A estória de que aqui é a terra da felicidade é uma mera peça de publicidade enganatória (esta palavra não existe ainda, vamos ver se ela pega!), assim como aquela propaganda na qual um esportista fuma com satisfação um cigarro, para lhe convencer que fumar é saudável. Para quem aqui mora, Salvador é a terra do tormento. A cidade cresceu feito capim num jardim mal cuidado. Ela simplesmente inchou feito uma besta fera em seu pasto universal, sem nenhuma preocupação de planejá-la e ordená-la. Aqui tudo pode, basta ter cara de pau. Bairros ou áreas de bairros que deveriam ser estritamente residenciais foram invadidos pelo comércio, faculdades, bares, restaurantes e ambulantes desbragadamente, infernizando a vida de seus moradores. Tudo isso porque o IPTU desses estabelecimentos é muito mais lucrativo aos cofres públicos (e pessoais) do que o de uma simples residência. O resultado de tudo isso vai além da fronteira do trafego cronicamente congestionado ou da poluição sonora no meio residencial. A relação entre as pessoas torna-se conflituosa e até violenta.

    Só para ilustrar, na frente da casa de um amigo no Rio Vermelho, se instalou um bar que toca musica com o volume alto noite e dia há mais de três anos. Meu amigo já tentou recorrer ao bom senso do proprietário, mas foi sempre recebido a ponta pés. Queixou-se com os órgãos competentes, no caso a SUCOM, sem nenhum resultado. O santo deste bar é muito forte e chama-se indústria da cerveja, mas isso ai já é outra estória... Finalmente ele recorreu ao Ministério Público, que cobrou da SUCOM providencias. E sabe o que SUCOM disse? Não pode fazer nada porque o dito bar nem alvará possui! Acreditem! Vão dar um tempinho até que o bar se regularize para lhe fazer, então, uma visitinha. E o assunto morreu ai. Coisa de ficção.

    Meus problemas de vizinhança inconveniente não são menos diferentes. Tendo lidar com eles conversando amigavelmente com os responsáveis pelo estabelecimento e se não resolver, parto para a guerra! Cheguei aqui bem primeiro e não concordo que alguém tenha o seu lucrativo meio de vida às custas da desgraça alheia. Não me incomodo com que as pessoas trabalhem, desde que não me incomodem. Hoje em dia fala-se muito em 'qualidade de vida' – seja lá o que isto for - e eu quero uma dessas também!

    Minha estória não é sobre nenhum estabelecimento, mas sobre uma única pessoa. O homem do apito. Junto com o movimento dos bares e restaurantes nas redondezas, apareceu aquele personagem urbano e anônimo que você só o percebe quando ele lhe cobra por você estacionar seu carro em via pública. Ele aparece logo quando você chega e estaciona, e em seguida some. Quando você vai embora, ele reaparece sorridente cobrando-lhe por um serviço que não se pediu. Intimidado, o dono do automóvel entrega-lhe um dinheiro. Um falecido amigo meu sempre dizia a estes 'guardadores de carro' que se aproximavam, 'obrigado, mas eu já paguei o IPVA, e não devo mais nada'. Nunca deu um tostão e nunca fizeram mal algum a seu carro, até por que aquela carroça era de dar pena! Os 'guardadores de carro' só existem por que nossa compaixão os incentiva.

    Meu tormento começou há algumas semanas quando comecei a ouvir um apito irritante no inicio da noite e que se estendia noite a dentro pela madrugada. Aquilo começou a mexer com os meus nervos, era muito freqüente. Era um apito curto e estridente rasgando o silêncio da noite, um 'pri!'. Nunca tinha ouvido apitos antes por aqui, era só o que faltava. Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece. Como eu escrevo à noite, aquilo já estava interferindo em minha concentração. Depois de ouvir um apito eu já ficava esperando irritado para ouvir o próximo! Coisa de maluco mesmo. Fui até a porta investigar quem seria o inconveniente apitador. Era o mesmo homem que de dia lava carros na pracinha. Bem, ninguém podia negar que ele não era um homem trabalhador, trabalhava dia e noite! Eu nunca tinha trocado uma palavra antes com aquele cidadão e esta seria a primeira vez que me dirigia à sua pessoa. Aproximei-me e apresentei-me. Pedi-lhe educadamente que diminuísse o apito, pois já estava incomodando. Ele desculpou-se e, em seguida, eu fui embora. Continuou apitando mesmo assim!

    Os apitos continuaram, e eu sou um cara paciente e insistente. As chegadas e saídas de carros eram freqüentes. Um automóvel chegava e ele pri! Outro manobrava para sair e ele pri! Enquanto isto ele dava um priiiii! para se exercitar. Já tinha virado um cacoete! Mais uma vez fui até lá falar com ele. Fui mais uma vez educado, até porque ele tinha tamanho e força para me dobrar ao meio. A minha educação se justificava pelo fato de eu não ser péssimo em luta livre, do contrário, ele passaria a apitar pela bunda! Pedi-lhe que não apitasse mais, pois não havia necessidade e que outros guardadores de carro antes dele nunca tinham apitado. Havia pessoas que queriam dormir e o apito atrapalhava o sono. Falei até que ele deveria se sentir cansado de apitar a noite toda. Disse-lhe que ele já tinha adquirido o mal habito de apitar sem motivo e que nem ele percebia isto. Ele concordou com tudo e prometeu diminuir os apitos. O que eu queria mesmo é que ele parasse com aquilo. Desejei-lhe boa noite e voltei para casa. Ele deu as costas e continuou apitando mesmo assim a noite inteira.

    O que fazer com um cidadão que se sente o dono da rua e demonstra desprezo pelas pessoas? Vai à delegacia e faz uma queixa, sugeriu um amigo. A idéia me desagradou. Achei um exagero, e por entender que a polícia tem má reputação, mantenho-a longe de minha vida. Além do mais, o ambiente de submundo que uma delegacia simboliza para mim, é um tipo ambiente que procuro me manter à distância. Não é lugar para um menino de família. Dois dias depois, estava eu na delegacia.

    Relatei o meu infortúnio e pedi orientação sobre o que fazer. Não queria prestar queixas e nem mandar prender ninguém. Não desejava nenhuma ação drástica. Expliquei que o senhor apitador era um trabalhador, e que seu único crime era abusar do apito. O oficial que me atendeu, me deu um papel com o telefone da delegacia. Pediu que eu ligasse para ele caso o apitador incomodasse depois das 22hs, lei do silêncio. Iriam até o local conversar com ele. Quando o apitador começou a dar seus apitos na noite daquele mesmo dia, fui até ele e contei que estivera na polícia e o que aconteceria caso continuasse apitando. Ele mal prestou atenção no que eu lhe dizia, pois os carros chegavam um após o outro e ele estava mais preocupado com eles do que comigo. Continuou apitando. Fiquei puto. Desejei que ele se engasgasse e morresse lentamente com aquele apito. Agora eu iria jogar pesado. Acabou-se o Cristiano ternura.

    Dois dias depois, voltei à delegacia e fiz uma queixa formal. Tenho sorte e infortúnio de morar no Rio Vermelho, onde se encontra de tudo, desde delegacia de polícia a apitadores! Ele seria intimado a comparecer perante o delegado em data e hora marcada. Eu deveria estar presente. Se antes disso nos entendêssemos, nem ele e nem eu teria de comparecer à audiência, me foi dito. Da minha parte, eu já considerava minhas tentativas esgotadas e não iria procurá-lo para dizer mais nada. Poucas horas depois, ele foi intimado sob forte sol, por um oficial de polícia, enquanto lavava um carro. Naquela noite ele não apitou e nem nas outras que se seguiram. Dois dias antes da data marcada para enfrentar o delegado, ele me procurou muito humildemente e coberto de desculpas. Houvera um equívoco. Era pai de família e homem de bem. Tinha duas filhas para sustentar e esposa. Queria estar em harmonia com todos. Disse que eu estava na minha razão. Ignorava que existisse uma lei do silêncio e que até apito era proibido. Prometeu não apitar mais. Eu lhe disse que lamentava de ter chegado ao ponto de recorrer à policia pois para mim ele era um homem até mais trabalhador que eu. Mas que ele deveria entender que tudo tem um limite. Apertamos as mãos e nos despedimos.

    Quase todos os dias o vejo pelas vizinhanças. Ele me acena e me cumprimenta respeitosamente. Como vai, seu Cristiano? E eu respondo amigavelmente. Como vai, seu Claudio? Não somos mais dois estranhos.    

Rio Vermelho, 17 de fevereiro de 2009.

    

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Negócio da China.

Quem nunca recebeu pelo menos uma única chamada da companhia telefônica propondo aquele negócio da China? Elas chamam a isto de 'pacote' e este vai lhe ser muito vantajoso, pois você fará uma tremenda de uma economia em seu bolso! O brasileiro é muito seduzido pela possibilidade de levar vantagem em alguma coisa e é ai que entra pelo cano. Ora, onde já se viu empresa telefônica preocupada com a nossa economia doméstica? Tudo não passa de uma tremenda de uma empulhação que só lhe trará aborrecimentos. Tenho amigos que andam arrancando os cabelos de arrependimento depois que se meteram numa fria destas. Levaram o caso aos tribunais. Apesar da briga já ter sido ganha na justiça, as operadoras agem como se estivessem acima da lei, não devolvem o dinheiro cobrado indevidamente, ignorando as sentenças judiciais contra elas. Afinal, elas bem sabem que no Brasil a justiça é uma piada.

    Nossa conta telefônica estava vindo altíssima, pois resistíamos às vantajosas e constantes ofertas de pacotes. Tínhamos que economizar nas ligações, só isso. Parecia conta de repartição publica em véspera de reeleição. Quando perguntei aqui em casa quem estava usando tanto o telefone, a surpresa foi geral. Alguns não sabiam o que era um telefone e pra que isto servia, ou outros desconheciam o fato de termos uma linha telefônica! Com a devida paciência, procurei a telefônica e mudei para um plano bem econômico que funciona assim, quando acabam os créditos, o telefone fica mudo, só recebe chamada. Antes pagávamos mais de R$300,00 em ligações e hoje só apenas R$51,00 e ainda sobram créditos no final do mês! Talvez eu estivesse de má vontade com o pessoal aqui de casa, talvez alguns desconhecessem mesmo a utilidade de um telefone, e outros mais distraídos não soubessem que tínhamos um. No final, a vilã era mesmo a operadora que nos cobrava por ligações nunca feitas. Vamos culpá-las por tudo! Tá fazendo muito calor hoje, a culpa é da telefônica!

    Outro dia minha mãe se queixou que a conta do mês viera muito alta. Mas como, se o preço do plano deveria ser o mesmo mensalmente, e nem a crise internacional, inflação ou corrida de reajuste de preços justificavam tal abusivo aumento? Analisei a dolorosa e verifiquei que nela estavam incluídos serviços de internet banda larga. Ora, de que serve uma conexão de internet para quem não tem computador? Como aquilo foi parar na conta? Teria de ligar para a operadora para reclamar. Só a idéia de ter de fazer isto já me causava arrepios, pois só quem já teve a infelicidade de ter de tentar falar com alguém de uma empresa dessas para resolver o que quer que seja, sabe a frustração que é. Ainda mais para reclamar da conta errada. Nunca se consegue falar com um ser humano e quando se consegue, é como se queixar da vida a um tomate. É como tentar falar com o surdo que só entende grego e ainda por cima é cego! Ou gritar inutilmente para o caixa eletrônico do banco que o recibo do pagamento não saiu. Ou tentar resolver um problema de conta com uma debilóide da telefônica! Fui dormir com aquela preocupação me martelando a cabeça. Meu Deus, tinha de ligar pra a telefônica... Meu Deus, tinha de ligar pra a telefônica... Mas será que eu tenho mesmo que ligar pra telefônica?

    No fatídico dia seguinte, fiz um pouco de ioga para me sentir zen para enfrentar as dificuldades que viriam adiante. Tomei um café reforçado, pois provavelmente iria passar a manhã inteira ao lado do telefone chamando o mesmo número, tentando ser atendido, e no final ouviria aquelas gravações de filme de ficção cientifica agradecendo minha chamada e pedindo que eu aguardasse enquanto me poria pra ouvir música de elevador. Eu vou compor musica de espera telefônica e serei um hit das paradas! O mais ouvido do Brasil! Ganharei um Globo de ouro só por ser o mais ouvido nas esperas telefônicas. Fosse bom ou ruim, teriam de me ouvir de qualquer jeito, eu iria descer ouvido abaixo dos clientes enraivecidos. Respirei fundo e fiz a primeira tentativa.

    Fui atendido por um ser humano. Uma solícita atendente que logo me passou um número de protocolo. Tomei um susto. Nunca ouvira nada igual em toda minha vida, onde já se viu ser atendido logo de primeira? Me senti lesado. Roubaram o meu direito de ficar puto com a telefônica. Isso ainda vai parar no PROCON! A moça ouviu a minha queixa e prometeu tomar a devida providencia. Iria me telefonar em 72 horas para me dar uma satisfação, não sem antes tentar em me convencer que tínhamos mesmo solicitado o serviço.

    - Olha, senhorita, minha mãe não tem computador, de que lhe serviria a banda larga? Já é possível usar a banda larga sem o computador?

    - Senhor, disse a paciente e treinada atendente, consta aqui em nossos registros que foi o senhor Floriano que solicitou o serviço.

    - Ah! Sendo assim... Tem certeza?

    Por esta eu não esperava. Foi um golpe baixo. Fiquei surpreso, mas como tudo é possível nesta vida.

    - Está registrado aqui.

    - Olha, senhorita, - dei um pigarro - o senhor Floriano é meu pai e nunca se interessou por internet e muito menos agora. A última vez que o vi foi há nove anos, jazia num caixão! Mesmo assim, ele não pediria o serviço sem a autorização de minha mãe, nem em sessão espírita!

    Depois deste argumento a moça se calou. Deu-se por convencida. Dois dias depois, ligaram-me da telefônica informando que o serviço de internet fora cancelado.

Rio Vermelho, 8 de janeiro de 2009.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Um certo seu Pereira.


A casa ao lado, onde certa vez uma sinistra senhora transformara no mais barulhento canil já ouvido por estas paragens, fora muito tempo antes habitada pelo saudoso seu Pereira e sua numerosa família. A criadora de cães foi posteriormente banida das vizinhanças pelos incomodados, juntamente com seus mais de vinte bichos, mas isto já é outra estória. (Leia neste blog 'O diabo mora ao lado').

O seu Pereira era uma daquelas pessoas que, de vez em quando, temos a sorte de termos como vizinho. Um sujeito prestativo e muito cordial. Era corretor de imóveis por profissão e mesmo quando já tinha passado dos 60 quando para cá se mudara, nunca o vi um só dia faltar ao trabalho ou se queixar de doença, ou reclamar da vida. Tudo lhe parecia excelente. Ele era um camarada conversador e por conta de sua ocupação, sabia da vida de todo mundo, e não se incomodava em compartilhar o seu vasto conhecimento com agente. Os cabelos eram fartos, brancos e brilhantes e a circunferência de sua cintura parecia um barril de vinho, embora ele jamais pusesse uma única gota de álcool na boca. Seu Pereira era um homem muito católico de ir a missa todos os domingos e praticava sua crença ajudando as pessoas como podia e achava que era o certo. Houve um tempo em que ele e meu pai faziam caminhadas juntos até a Barra todas as manhãs. Coisa de safenados. Antes de sair de casa, o seu Pereira enchia os bolsos da bermuda com uns trocados com a decidida intenção de distribuí-los a quem ele achava que precisava e que ele encontrasse pelo meio do caminho. Parecia um político em véspera de eleição. Isto é pra você, dizia entregando uma nota ao surpreso agraciado. Ele era uma figura. Meu pai se impressionava com tamanha generosidade e um dia quis lhe pedir uns trocadinhos!

Seu Pereira não era apenas bem informado a cerca da vida alheia como também se preocupava genuinamente com as pessoas e com seus vizinhos. Houve um tempo em que eu trabalhava à noite 3 vezes por semana, bons tempos aquele!, e chegava em casa tarde da noite. Eu vinha em meu automóvel e dava uma paradinha em frente ao portão da garagem do outro lado da rua, saltava para abri-lo deixando o motor ligado. Durante toda esta operação, eu contava com a proteção do meu vizinho anjo da guarda, que aparecia em sua janela quando me ouvia chegar, para vigiar minha chegada e certificar-se que eu entraria em casa com segurança. Certa vez, ao sair do carro olhei para sua janela no segundo andar e lá estava ele em seu posto. Acenei-lhe com a mão e ele respondeu com um balanço de cabeça e mostrando-me discretamente que tinha nas mãos uma arma. Graças a Deus, nunca foi preciso usá-la.

Naquele tempo, as noites em minha rua eram silenciosas e a rua ficava completamente deserta ao cair da noite - muito diferente de hoje, infelizmente - iluminada apenas por dois postes que se revezavam em ter luz. Tenho certeza que era apenas uma única lâmpada para os dois postes que a COELBA trocava de um para o outro a cada reclamação, pois quando uma era trocada, a outra não acendia! Nossa rua era tranqüila e segura, apesar disso. Certa manhã, um homem bateu à nossa porta. Apresentou-se como o vigia noturno. Tinha o rosto marcado por cicatrizes, inclusive uma abaixo do nariz, indicando que tivera lábio lepurino, fazendo com que sua fala fosse fanhosa. Vieira para cobrar pelo serviço. Expliquei-lhe que jamais solicitara tal coisa e que, de qualquer forma, não estávamos interessados. Mesmo assim, vez por outra, passei o ver pelas redondezas à noite usando uma jaqueta preta onde se lia nas costas a palavra 'Segurança', escrita com letras bem grandes e brancas. Sua presença era nos lembrada constantemente com seu apito que quebrava o sossego da noite. Ele era insistente, todos os meses batia à nossa porta e ouvia a mesma recusa. Nossa rua era segura e nunca se ouvira estórias de roubos ou assaltos, de que serviria um vigia, então?

Existem pessoas que são de uma maldade incompreensível. A voz fanhosa de 'nosso vigia' era motivo de freqüentes chacotas entre os porteiros de prédios das redondezas e outros vigias das ruas próximas. Diziam, também, que ele era um frouxo e que se um dia tivesse de enfrentar um assaltante, ele seria o primeiro a correr de medo. Para mim, tudo isso era conversa de quem não tinha o que fazer. Certa noite, ao chegar em casa, o encontrei sentado no meio-fio em frente à garagem, aos prantos. A cara estava arrebentada. Falou que bateram nele, mas não disse quem e nem por que. Ajudei a se levantar e dei-lhe algum dinheiro para ir para casa cuidar dos ferimentos. No dia seguinte, o seu Pereira veio me contar tudo. Assistira de longe um porteiro de um prédio lhe dar uma surra humilhante e por um motivo infantil. Coisa de moleque. Era uma coisa que não se faz com um pai de família, disse indignado. Uma injustiça fazer aquilo com um homem, humilhar daquele modo a sua masculinidade. Em outros tempos, correria até lá para defender o coitado. Já tinha lutado boxe em sua juventude e tinha os punhos ainda fortes. Mas aconteceu tudo muito rápido, não teve chance de fazer nada. Teve dó do moço, sobre quem já sabia tudo a respeito. Era pai de cinco filhos e morava longe. De dia era zelador de uma escola e à noite ganhava uns trocados como vigia noturno. Quando o apanhado conseguiu escapar de seu agressor, correu para estas bandas de cá e ao passar em frente à casa do seu Pereira que assistira a cena de sua janela, este lhe gritou de lá de cima com o intuito de levantar o seu moral, pelo vexame que passara. Não é que ele era mesmo um frouxo?! Queria consolá-lo de algum modo para que chegasse em casa e enfrentasse a sua família de cabeça erguida.

- Olha, seu Joaquim, eu vi o que aquele bando fez com o senhor – apanhara apenas de um! Olha seu Joaquim, eu sei do que o senhor é capaz! O senhor é um homem muito violento e perigoso, Sr. Joaquim! Já me contaram tudo a seu respeito. Não vá fazer nenhuma besteira, heim! Vá pra casa e esfrie a cabeça. Vingança não leva a nada. Pense em sua família!

O Sr. Joaquim ouvia tudo aos prantos, sentia-se como um menino assustado. Nunca fora tão insultado.

- Este seu choro é de raiva, dá pra perceber isso. Eu já passei por isso também. Não faça nenhuma besteira! Vai pra casa, com Deus!


Rio Vermelho, 15 de janeiro de 2009.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O rei da praia.



Vou à praia raramente, apesar de morar em frente a uma a vida inteira. Mesmo assim, gosto de ver o mar, isto faz me sentir bem. Quando estou em cidades sem praia, fico desorientado. É como se minha bússola biológica, se é que ela existe, enguiçasse. O mar é para mim como uma imensa saída de emergência me chamando, porque ele é justamente o oposto deste lado de cá, urbano e caótico, no qual vivemos. Apenas contemplá-lo de vez enquanto, já está de bom tamanho para mim.
Certo domingo, o dia começou com um lindo sol de verão atentando-me para pegar uma praia. E por que não? Fazia tempos que eu não ia. Contudo, não gosto de ir a praias longes por causa do congestionamento. Elas são uma aporrinhação na ida e, certamente, um tormento na volta. Isto desvirtua minha idéia de lazer, que é a de que não haja nenhum estresse no processo. Chateações e aborrecimentos estão fora de questão, e não deveriam fazer parte de uma linda manhã de domingo como aquela.
Freqüentei algumas poucas vezes o Buracão, aqui perto de casa. Não gostei muito porque não sei nadar. A maré de lá puxa forte e quando as ondas quebram na praia com violência, dão um caldo em pessoas sem manha como eu. Acredite, já tomei caldos de beber água com areia e ser retorcido feito uma toalha encharcada! Certa vez, paguei um mico tomando um caldo daqueles, e terminei socorrido por uns pirralhos que brincavam ao meu lado pulando as ondas numa boa. Resolvi, então, procurar outra praia. Foi então que descobri a do Farol da Barra, onde as ondas são mais civilizadas e um completo analfabeto aquático como eu nunca passa vexame em frente de crianças.
Foi exatamente para onde fui naquela bela manhã de domingo. Caminhei pelo calçadão admirando a magnífica paisagem de biquínis deitados lá embaixo, até chegar à escada que leva à areia. É uma escada de alvenaria carcomida pelo tempo, e que à noite serve de mictório e trepadouro público aos freqüentadores do Farol. E é só isto que tira a poesia do momento. É provável que ela nunca tenha sido concertada porque talvez o Estado a considere algum tipo de ruína histórica que deva ser preservada como mais uma atração turística da cidade. Logo à minha frente, um desajeitado e solitário velhinho da cabeça toda branca tentava chegar até a areia descendo os degraus cuidadosamente. Ia se apoiando na parede lateral para não cair. Suas pernas já não eram tão firmes e por isso ele caminhava devagar, corpo curvado, escolhendo o melhor lugar para pisar naquela ruína. Debaixo do braço, carregava uma grande sacola de pano. Até eu, que tinha a metade de sua idade, precisei tomar cuidado para não rolar escada abaixo. Tenho carinho pelos velhinhos e por isso não vi problema algum em acompanhar o seu ritmo logo atrás. Fiquei atento para segura-lo pela gola da camisa a qualquer momento, caso desmoronasse. A descida levou uma eternidade mas finalmente pisamos com segurança na areia quente.
Ao pé da escada, um senhor sorridente desdentado com ares de um eunuco alugava cadeiras e guarda-sóis.
- Vai uma cadeira ai, patrão?
- Quero uma. Mas a coloque ao lado de uma mulher bem bonita e desacompanhada, viu? - brinquei.
Fui parar ao lado de uma bela morena, infelizmente com a mãe a tira-colo. A moça tinha os cabelos compridos soltos e um corpo escultural. Seios formidáveis. A mãe, ao contrário, era um prognóstico de como a filha estaria em 20 anos, gorda e cheia de celulite. Ambas foram simpáticas e receptivas à minha invasão. Sou geralmente tido como um cara agradável, aos olhos de outras pessoas igualmente agradáveis. Por outro lado, os antipáticos me acham um chato e inconveniente. Considero-me no meio termo, apenas tolerável. Conversamos sobre o que se espera em tais situações, quando estranhos tentam estabelecer alguma forma de convivência sociável. A mãe chamava-se Arlinda. A filha era Ana. Falamos, portanto, sobre o tempo e do como a praia do Farol é uma das melhores da cidade. Perdi de vista o velhinho da escada, mas não esqueci dele.
Ana era aspirante a advogada e estagiava numa ONG que prestava serviços legais de graça aos pobres. Muito bonito. Conversamos sobre as injustiças do Brasil, assunto era o que não faltava! Ganhei logo a simpatia da moça. De vez em quando eu esticava o pescoço para tentar saber como ia o velhinho. Onde já se viu deixar um senhor tão frágil ir à praia sozinho. Ele sumira na multidão de banhistas e guarda-sóis. O vendedor da água de coco passou. Comprei três, uma para mim e as outras para as meninas. Minha conversa com a filha ia bem melhor do que eu esperava. A mãe ficava ouvindo tudo desconfiada e parecia que não comia nada do que eu falava. A moça era um encanto. Mostrava-se à vontade comigo. O vendedor de toalhas passou. Comprei uma bonita canga para sentar na areia, da próxima vez. Meu gosto foi elogiado por mãe e filha. Mais um ponto para mim. Falamos sobre como se pode ganhar dinheiro trabalhando na praia. Logo em seguida, passou o rapaz do queijo qualho derretido com orégano, manda três! Falei para Ana de um lugar novo que inaugurara no Rio Vermelho e que estava na moda. Já ouvira falar e queria muito ir. Insinuei um convite. O convite propriamente dito, faria quando a mãe estivesse longe. Isso mesmo, sou um cara ardiloso! Lá veio o rapaz do espeto de camarão, quero três. O passeio já estava me saindo três vezes mais caro! Pelo visto, mãe e filha não tinham hábito de recusar nada. Um rapaz surgiu com um balde cheio de água e molhou nossos pés. Dei cinqüenta centavos. Ana foi dar um mergulho e foi aí que vacilei. Não fui. Preferi puxar o saco da mãe, não sei porque. Logo em seguida, chegou alegre uma outra filha que juntou-se a nós. Era tão bonita quanto a irmã, mais jovem. Ana exalava um certo ar libidinoso, já a irmã, não me inspirava em nada. Sentou-se ao meu lado, na cadeira de Ana. Também era conversadora. Então conversamos. Diferente da irmã, ela não era tão interessante mas falava pelos cotovelos. Não faço idéia sobre o que conversamos. Fiquei imaginando se ela devolveria a cadeira à irmã quando ela voltasse. Eu deveria ter ido junto com Ana.
Ana voltou. Estava mais bela ainda de cabelos molhados. Ao ver a irmã mais nova sentada ao meu lado conversando animada, percebi que algo de ruim mudara em sua expressão. Emudecera. Entrou água em meu barco pressenti. Ana não quis sentar e nem pediu sua cadeira de volta. Simplesmente ficou de pé mal humorada. Não entendi nada e nem era para entender. Aproximou-se da irmã recém chegada e pegou ao seu lado uma bolsa de palha da qual tirou um celular, aquele aparelhinho moderno para o qual algumas pessoas transferem todas as suas frustrações. Começou a ligar para pessoas. Havia um clima hostil velado entre as duas irmãs. Senti a tensão. Estava na cara que Ana não gostou de ver sua irmãzinha conversando comigo ou talvez ela não quisesse vê-la de jeito algum! Realmente eu deveria ter ido com Ana tomar aquele mergulho. O excesso da oferta me deixaria de mãos vazias, conclui. A menina do acarajé passou. Resolvi que não queria mais nada, temendo que a matemática fosse agora uma multiplicação por quatro. O alugador de cadeiras veio solicito trazer uma para Ana que se sentou ao lado da mãe e longe de mim. Ela continuava no celular de cara enfezada. A irmã desinteressou-se de nossa conversa e eu também. Ninguém falou mais nada. Agora eu é que iria dar um mergulho, precisava esfriar minha cabeça.
Ao pisar na água deliciosamente fria, tive uma visão surpreendentemente agradável. O velhinho, isto mesmo, aquele velhinho dos passos trêmulos da escada, flutuava lépido e fagueiro ao sabor das suaves ondas, com a ajuda de um salva-vidas amarrado ao pescoço. Sua expressão era a de pura felicidade e vitória. A julgar pela situação a qual eu me colocara, ele era me smo o grande vencedor do dia. O rei da praia. Não muito distante, em sua retaguarda, uma mulher jovem o observava feito um anjo da guarda.



Rio Vermelho, 16 de dezembro de 2008.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Moça de vestido de chita rendado.

Meu pai nasceu e foi criado no fim do mundo. Numa fazenda no esquecido município de Cajapió, na baixada maranhense. A região pantanosa e de floresta amazônica, rica fauna e flora exuberante o impressionaram tanto e a tal ponto que estiveram presentes em sua pintura até final da vida. No fundo, meu pai jamais deixou de ser aquele menino do mato, contemplador das coisas da natureza. Quem já teve a oportunidade de ver um de seus quadros, sabe do que estou falando.
Eu pouco soube de sua família, além de que eram muitos os irmãos, e que talvez nem meu pai conhecesse a todos. O meu avô era algum tipo de fiscal sanitário e animal. Passava muito tempo fora de casa viajando pela região, visitando fazendas. A mãe ficava, cuidava da família numerosa e da fazenda. Meu avô foi-se cedo. Teve um dos dedos da mão estrangulado ao laçar um garrote. Semanas depois, morreu de gangrena. Ocasionalmente meu pai falava de sua gente com carinho ao recordar de alguma estória da família. Apesar disso, nunca foi muito apegando a eles. Foi morar em São Luis com uma tia quando era jovem e nunca mais retornou. Quando minha avó morreu, eu já passava dos 20 e me surpreendi por saber que ela sempre fora viva, apesar de eu nunca ter perguntado por ela ou qualquer outro membro da família de meu pai. Alguém ligou de São Luis para dar a notícia no meio da noite. Papai foi dormir calado com o choro preso na garganta. No dia seguinte, enviou dinheiro para ajudar no enterro. Nos dias que se seguiram, ele se lembrou de sua falecida mãe e de sua infância em Cajapió. Certa vez, o ouvi contar a seguinte estória ainda dos tempos de fazenda.
Naquele tempo, automóveis eram ainda uma raridade na região, ou melhor dizendo, o lugar era tão inóspito que quase não haviam estradas pavimentadas ou de barro para veículos motorizados de 4 rodas. Certa vez, ao cair da noite, meu pai selou um cavalo e vestiu sua melhor roupa e botas lustradas, e seguiu montado num animal até uma fazenda não muito distante, onde haveria uma festa. A noite de lua cheia iluminava a maior parte do caminho. Em alguns trechos, a mata se fechava quase impedindo a passagem de luz, ficando por conta do instinto do animal, a tarefa de acertar o caminho e de levar meu pai com segurança até seu destino final. A noite era tranqüila e só se ouvia o suave trote do cavalo quebrando o silêncio da floresta. Havia chovido muito na noite anterior, e por isso ainda era possível sentir o cheiro de terra molhada. Ao passar por uma modesta casa iluminada por lampião quase à beira da estrada, um velho pé-duro se despertou de sua preguiça e ensaiou alguns latidos mas sem se dar ao trabalho de sair do lugar. A dona de casa largou seus afazeres na cozinha e correu até a porta pra ver quem vinha, acompanhada de duas crianças catarrentas que se agarravam à bainha de sua saia.
Uma pessoa da cidade, pouco afeita a este tipo de aventura, poderia julgar meu pai um inconseqüente, fazendo uma jornada daquelas no meio da escuridão. Acredite que fazer isto era mais seguro que andar a pé numa calçada de cidade grande, hoje em dia. Esta era a realidade de quem morava em zonas rurais tão isoladas, enfrentar a floresta e os elementos da natureza eram coisas que se fazia todos os dias sem se dar conta de que estavam fazendo algum tipo de ato de bravura.
Quando meu pai se aproximou de seu destino, logo ouviu a banda trocando animada ao longe. Viu também a claridade da luz elétrica gerada pelo motor de querosene. Ao cruzar a soleira da fazenda, sentiu o cheiro de carne queimando no braseiro. A fome apertou-lhe no estomago. Cavalgou mais alguns metros e apeou debaixo de uma mangueira onde outros cavalos amarrados matavam a sede num grande bebedouro de madeira e comiam capim novo. O local cheirava a urina e estrume fresco. No pátio em frente à sede, a festa corria animada. Banda de música de um lado, mesa farta de comida do outro e no meio do caminho, todo mundo dançando agarradinho, mas respeitosamente. Meu pai pôs os olhos numa moça bonita arrumada com vestido de chita rendado, meio perdida no salão. Gesto de galanteio, seguido de convite para dançar, foi timidamente aceito. Dançaram a primeira música, em seguida a segunda e na terceira, os dois já se sentiam na intimidade. Ao final da música, meu pai puxou a moça pela mão e levou-a para tomar um refresco e comer qualquer coisa. Era a hora de levar uma conversa com ela, de saber a sua graça, quem era a sua família e por que bandas morava. Roubaria um beijo, se tivesse sorte. Naqueles tempos, não se comia tão fácil como nos dias de hoje. Nem bem começou com seu interrogatório, foi interrompido por um senhor de olhar grave. Era um tio.
- Floriano, vamos ali ter uma palavra? - interrompeu cerimonioso.
- Claro, tio. Eu já volto. - desculpou-se com a moça. Respeitava muito o tio.
Os dois homens se afastaram até próximo de uma cerca de madeira. A moça ficou aguardando.
- Como vão todos de casa? - quis saber.
- Bem. - respondeu monossilábico. Queria voltar logo para a moça.
- Fez boa viagem?
- Fiz, sim senhor.
- Tá gostando da festa?
- Tô sim. Tá animada.
- Reparei que você se interessou por aquela rapariga. - olhou em volta.
- Ela é muito bonita, tio.
- Ouça bem. Tenha muito cuidado com ela. Não lhe encoste um só dedo. - disse quase ameaçador.
- Mas por que isto, tio? - perguntou meu pai desapontado.
- Porque ela é sua irmã!


Rio Vermelho, 12 de dezembro de 2008.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ano novo, imposto velho.


Decidi fazer uma virada de ano diferente, para variar. Fui com minha sobrinha Isabela e sua filhinha Lua assistir à tão falada queima de fogos na Barra. A pequena de nove anos nunca tinha visto nada igual e me senti feliz em fazer parte deste momento único de sua jovem vida. O primeiro show de fogos é como o primeiro sutiã, nunca se esquece.


Depois da ceia, fomos enfrentar a jornada do Rio Vermelho até a Barra, são quase 8 quilômetros a pé. Eu bem que tinha prometido caminhar mais em 2007 e finalmente cumpria a minha promessa! Coloquei champanhe gelada na sacola ecologicamente correta e seguimos adiante. Eram quase dez quando saímos de casa e encontramos as ruas quase desertas até chegarmos ao Largo de Santana. Quisera eu que o Rio Vermelho fosse sempre assim, aquela atmosfera de cidade fantasma. Na praia, um grupo deixava oferendas a Iemanjá na esperança de ter pedidos atendidos. Pelo caminho, pessoas vestidas de branco surgiam de todas as partes, em direção ao mesmo destino. Só nossas blusas eram brancas. A alegria da festa era visível em cada rosto anônimo na rua. A queima de fogos do Farol da Barra tornou-se a grande pedida de final de ano. Não é à toa que o espetáculo atraia multidões, pessoas visitam Salvador só para assisti-lo. Lua tinha de ver esta maravilha.


Logo chegamos à praia da Paciência. Um esperto produtor teve a brilhante idéia de fechar a enseada e montar no local uma festa de fim de ano regada à areia e água do mar, ao preço módico de setenta reais por pessoa. Não sei porque não sou eu quem tem estas idéias engenhosas. Pelo visto, ganhar dinheiro fácil não é a minha praia! Pessoas faziam fila para entrar na festa. Seguimos adiante.


Chegamos a Ondina, metade do caminho. Havia muita gente na avenida ao longo da praia, interditada para automóveis. Algumas famílias improvisaram ceias na praça em frente ao Instituto de Reabilitação e o mar. Levaram cadeiras e mesas de armar que esbanjavam fartura e saúde. Quem tinha carro com o som potente, tratou de montar seu próprio trio-elétrico com o volume no mais alto grau, no estacionamento da praça em frente à calçada. Havia música para todos os gostos tocando ao mesmo tempo. Era uma verdadeira salada musical. O som alto doeu em meus tímpanos. Isto me fez lembrar porque evito as festas populares de Salvador. Apressamos o passo para fugir dali. Fico feliz de não ter como vizinho nenhum daqueles amantes de música. Bebia-se muito. A tal da lei do bafômetro, pelo visto, foi parar no chinelo. Torci para que os anjos da guarda levassem todos de volta para casa com segurança. Alguns gatos pingados dançavam animados. Outros falavam ao celular desejando boas entradas a amigos e parentes distantes. Uma moça falava aos berros no aparelhinho ‘minha tia eu já estou bêbada! minha tia eu já estou bêbada!’ Provavelmente não era invenção sua. Havia vendedores de bebida e churrasquinho de gato por todos os lados disputando a freguesia. Lembrei de uma amiga possuidora de mais de uma dúzia de felinos e que sempre se queixa da falta de grana, ela bem que poderia estar fazendo um dinheirinho extra naquela noite. O cenário em Ondina era de festa familiar. Como o pobre se diverte com tão pouco. Aposto que as festas chiques e pagas em hotéis a preço de ouro e a prestação não são tão animadas. Continuamos andando. Lua se queixava de dor nos pés. Quis tirar as sandálias e continuar descalça, mas foi sabiamente impedida pela mãe. Lembrei que provavelmente vinte anos antes Isabela faria a mesma coisa e ninguém conseguiria impedi-la. Irônico, não? Mãe e filha são tão novas, pareciam duas irmãs andando de mãos dadas.


A noite estava fresca e agradável. Chegamos à Barra quase esbaforidos uma hora antes da virada, juntamente com uma multidão. No caminho, passamos em frente ao Clube Espanhol onde Ivete Sangalo dava o seu famoso show. Lembro que vi um anúncio gigante colado na lateral de um prédio durante o ano inteiro. Era impossível não ouvi-la. Sua voz soava como a de alguém que tivesse corrido dois lances de escada para atender ao telefone. Achei aquilo medonho. Não deviam deixar a Ivete subir escadas correndo antes dos shows!


Eu, Isabela e Lua ficamos num ponto entre o Morro do Cristo e o Espanhol. Podíamos ver a balsa de onde os fogos seriam lançados. Perfeito. Sentamos na balaustrada em frente ao mar, era como estar num camarote. Enquanto esperávamos pelo grande momento, jogávamos conversa fora e assistíamos os passantes que queriam chegar até mais próximo ao Farol da Barra. A segunda atração da noite seria um show musical num palco montado no gramado em frente ao Farol, depois da queima de fogos. Não o incluímos em nossa programação. Um espetáculo apenas já era o bastante. Para ser franco, detesto shows de música. Raramente vou a algum. Fico ansioso quando eles se aproximam do final e o músico ainda canta um bis. Parece que aquilo não vai ter fim nunca. Detesto a parte do bis. O show ideal para mim é aquele que o cantor já começa cantando o bis e todos vamos embora logo depois da última música. A minha regra para ir a shows é a seguinte, nunca ir a shows cujas músicas sempre tocam nas rádios e programas musicais de TV. Para que pagar por algo que posso ouvir de graça no conforto de meu lar? A propósito, não tenho rádio e só assisto filmes e seriados. Ao nosso lado, havia uma simpática família, pai, mãe e dois meninos não maiores que seis anos. Em certo momento, fui surpreendido com mãe dando aula de boas maneiras ao menor, ensinado-lhe a fazer xixi em local público e justamente ao meu lado! Imaginei como ele seria o orgulho da mamãe quando virasse um adulto. Um casal logo à frente dava fim ao estoque de beijos do ano antes de chegar o novo carregamento de 2009. Parecia que tinha sobrado muito pois eles não paravam nunca. Boa forma de se despedir do ano velho. Um casal de velhinhos passou de mãos dadas, cada um com sua bengala. Faltavam só cinco minutos para a virada. Lua começou a preparar a garrafa de champanhe para ser aberta, tirando o papel laminado e quando fui ajudá-la com o lacrede arame, a rolha estourou longe! Todos riram em volta. Ainda bem, porque a champanhe deu um banho em quem estava por perto.


Para a alegria geral, o espetáculo começou. Durante os quinze minutos que se seguiram, o céu se transformou num gigantesco caleidoscópio de luzes, cores e magia. Ficamos hipnotizados. De todas as invenções humanas, não há algo que mais encante aos olhos que os fogos de artifício, ele nos retorna à nossa infância. Uma explosão e logo surgiu um enorme cogumelo brilhante rosa, seguido de outro dourado e de mais outro verde sobre o mar iluminado pelo colorido. Em seguida, uma flor cintilante desabrochou no céu. Outra explosão, e formou-se uma bola de chuviscos brilhantes que foi aumentando de tamanho e crescendo parecendo avançar e cair sobre nós. Difícil por em palavras tudo que assistimos embriagados com tanta beleza. Lua não piscava um só olho de tão maravilhada. Isabela ria feito uma criança. Até eu me senti criança de novo com todo aquele brilho de cores. A cada nova surpresa, ouvia-se os suspiros emocionados da platéia. Uma senhora alegre ao meu lado dava palminhas e pulinhos de contentamento.


- Está gostando, senhora?


- Isto é lindo!


- Aproveite bem pois estão queimando uma fortuna em impostos!


- É verdade. - disse pensativa.


- Ano que vem, o espetáculo será ainda maior, graças ao aumento de 150% do IPTU já proposto!


- Nem me fale! Não sei de onde vou tirar tanto dinheiro.


- Não pense nisso agora. Feliz ano novo!



Rio Vermelho, 1 de janeiro de 2009.