domingo, 11 de março de 2012

Lição de cidadania na Rua do Lajedo.

A minha rua aqui em Lençóis foi batizada com o simpático nome de Rua do Lajedo, um nome pouco comum que evoca à minha mente reminiscências de coisas rústicas como argila, olaria e objetos de cerâmica da cultura popular feitos no torno. Trata-se de uma rua estreita que começa uma casa acima da minha e se estende até um pedaço de riacho conhecido como Lava Pés e onde lavadeiras fazem o seu exaustivo trabalho. Um curto trecho desta rua foi recentemente pavimentado com blocos de granito, e por isso a sua superfície ainda é áspera, e muitos e muitos anos ainda se passarão até que o chão se torne liso e encerado, e as bordas de suas pedras levemente arredondadas pelo desgaste do vai e vêm de transeuntes. Depois de minha casa, a rua faz um joelho e quebra para o lado e aí o tal pavimento acaba, o chão é de terra e de rochas do próprio solo e sobre as quais duas fileiras de casas geminadas se estendem ao longo de cada lado da estreita e simpática rua.

As ruas de Lençóis são muito mais que simples vias de passagem, isto porque os moradores as utilizam como extensão de suas casas. É lá que a vida doméstica acontece a céu aberto, é onde se lava a roupa suja e o rapaz vai namorar a moça, no cair da noite, na porta de sua casa.

Em minha primeira manhã em Lençóis, abri as janelas da frente de casa para que o ar fresco e o sol invadissem a sala, e a primeira coisa que vi foi a vizinha da casa em frente, uma solícita senhora da boca desdentada, varrendo zelosamente não apenas a porta de sua casa mas, também, o pedaço de rua em frente. Achei curiosa aquela cena, pois venho de uma cidade onde as pessoas utilizam a rua para jogar o lixo. Mais tarde, voltei à janela e lá estava ela sentada ao meio fio com uma grande bacia entre as pernas, lavando a roupa suja. Enquanto esfregava vigorosamente cada peça, falava com seu pequeno neto, sentado logo a seu lado, lhe dizia, com um convincente argumento, para ir escovar os dentes ou, do contrário, ficaria banguela que nem ela. Ao terminar de lavar a roupa, pendurou-a num varal improvisado que atravessava a rua e o qual ela levantava com a ajuda de uma vara para que este não atrapalhasse a passagem. Então, a rua serve de área de serviço.

Na segunda-feira de carnaval pela manhã, eu me encontrava escrevendo, quando minha concentração foi distraída por vozes que vinham do lado de fora, em frente à minha casa. Interrompi o serviço, fui até a janela dar uma espiada e me surpreendi ao ver que minha vizinha recebia visitas, sentavam-se ao meio fio, proseavam animadamente. Fui me juntar a eles sentando-me nos degraus da minha porta. Participei da conversa por um tempinho como se fosse um amigo de longas datas e depois voltei ao trabalho. Quando veio a noite, percebi que depois da última novela, os vizinhos preferem ir para a porta de casa ficar conversando ao invés de ir assistir na TV um “reality show” que prima pelo mau gosto. De pé, à entrada de casa, duas casas à diante, um casal de jovens namorava à moda do tradicional “namoro de porta”. O pai da moça fica na sala, do lado de dentro, vigiando os movimentos das mãos do rapaz, que mão-boba é considerada uma falta grave aqui por estas bandas. Então, a rua serve, também, como sala de visitas.

No dia seguinte, ao convidar o sol a entrar em minha casa abrindo-lhe a janela, lá estava a dona Jandira, minha vizinha de frente, escovando os poucos dentes que lhe restam e varrendo a porta da rua ao mesmo tempo. Cumprimentamo-nos calorosamente com um bom dia, apesar de o dia estar meio nublado, como, aliás, em todas as manhãs cedo durante minha breve estadia em Lençóis. Elogiei o seu zelo por nossa rua e ela disse-me satisfeita que os moradores cuidavam da rua, razão pela qual não se viam mosquitos, baratas ou ratos pelas redondezas. À tarde, as crianças brincam animadamente na rua varrida, em segurança, para a despreocupação dos pais, outros ligam o som às alturas e sentam-se na porta de casa para ouvir música, ainda que de gosto discutível. Um rapaz, mais adiante, tem uma motocicleta e aproveita a tarde de feriado para dar um trato na máquina, na rua, em frende de casa.

Na minha Rua do Lajedo, raramente passa um automóvel e quando tal acontece, uma tartaruga consegue ser mais veloz que ele! Mas uma coisa me chamou a atenção depois da quarta-feira de cinzas, a casa da frente ficou o dia todo fechada. E o mesmo se sucedeu nos dias seguintes. Eu não ouvia mais o vozerio em frente de casa, e também percebi que a nossa frente não era mais varrida, as folhas secas e poeira se acumulavam. A dona Jandira estava fazendo falta. No sexto dia, cheguei a imaginar que ela tinha nos abandonado. Enquanto eu escovava os dentes, pela manhã cedo, olhava pela janela o estado que ficara a frente de nossa casa sem a minha zelosa vizinha, as folhas se acumulavam e a poeira, também, e pensava comigo mesmo, onde teria ido ela, nem me avisara. Fui até o quintal de casa e voltei com a vassoura para varrer a frente da rua.

Chapada Diamantina, 5 de março de 2012.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sobre a sabedoria de uma chapeleira da Chapada.

Meu encontro com a dona Edite se deu na forma de uma transação comercial, quando entrei em sua lojinha, situada no final da Rua da Baderna, próxima à igreja do Rosário, com o intuito de comprar um chapéu que me protegesse do sol abrasador da Chapada. Acontece que ela é a única artesã a fazer chapéus de palha aqui na acolhedora cidade de Lençóis.

Dona Edite é uma senhora idosa de voz firme e determinada, cujas mãos pequenas e ágeis trançam a palha do licuri enquanto proseia com a vizinha de porta, sentadas lado a lado em cadeiras sobre a estreita calçada em frente de casa. Ela faz isto diariamente à noite e quase no escuro porque as mãos, já habituadas ao labor, conhecem de cor o caminho, conta ela, e a claridade lhe ofusca as vistas. E é em sua pequena e humilde casinha de telha vã que funciona também a sua loja e o atelier. Chapéus, sacolas, abanadores, descansos para pratos e uma variedade de outros utensílios feitos de palha se espalham por paredes e estantes dando vida à pequena sala transformada em loja, e não há quem não se maravilhe com tanta coisa bonita e de bom gosto, produto de nossa arte popular. Pendurado numa parede, está um chapéu de aba tão grande quanto um sombreiro de praia que serve para acolher até toda uma família. Tem outro, de formato engraçado, cuja copa é tão longa quanto se pode imaginar e vai se afinando até chegar à extremidade e se curva para frente lembrando um quiabo. E dona Edite pensa em tudo, inventou um que é especial para maridos traídos, pois sua copa é dividida ao meio em duas, podendo acolher um belo par de chifres. O qual eu mais gosto é um cuja copa começa estreita na base e vai se expandindo até chegar ao final que é levemente curvo nas bordas e no topo, lembra um grande e comprido pinico.

Quando questionada como aprendeu o seu ofício, dona Edite responde orgulhosa que este é um dom que nasceu com ela e que nunca tomou curso para quilo, que seu pai foi artesão e antes dele foi o avô e aquela habilidade foi passada de pai para filho se observando no dia a dia, tal qual uma criança aprende a andar. Nas palavras simples de dona Edite e no seu modo de falar existe a sabedoria de uma mulher que trabalha de sol a sol, tirando de seu ofício o seu sustento e o de sua família, e foi tecendo artigos de palha que educou os filhos que agora são doutores diplomados, conta orgulhosa.

Certa noite, entrei em sua loja à procura de um chapéu de abas largas, e como os modelos disponíveis não eram do meu agrado, dona Edite, gentilmente, se ofereceu para me fazer um sob medida. Eu queria um que fosse igual ao de pescador, mas com as abas curvadas para baixo. “Eu vou fazer um assim do seu gosto, meu filho”, disse com candura. “Passe aqui qualquer dia desses que ele estará pronto”, prometeu com precisão.

No caminho de saída, observei no chão junto à janela uma enorme cesta cheia com sementes de olho-de-boi, cuja existência eu conhecia desde os tempos de moleque. Para quem nunca ouviu falar, seu formato é um pouco menor que uma moeda de 25 centavos, irregularmente arredondado e de coloração castanho escura. Agente fazia uma traquinagem, friccionando-a no chão esta tinha a propriedade de ficar tão quente que ao encostá-la de surpresa na pele da vítima, ela dava um pulo e um grito de susto. Uai! E este era o único uso que eu conhecia da semente de olho-de-boi. Dona Edite me ofereceu uma, ao que eu perguntei para o quê servia. “Isto é um remédio, meu filho. Ela afasta as coisas ruins, traz felicidade e saúde. Você a coloca no bolso, ou na bolsa, ou debaixo do travesseiro.” Fui até a cesta e escolhi a mais bonita, perguntando em seguida: “Colocando-a debaixo do travesseiro, ela atrai mulher?” Ao que ela deu um suspiro e balançando a cabeça, respondeu com a voz doce: “Assim, também, você já está querendo demais, não é, meu filho?”

Chapada Diamantina, 29 de fevereiro de 2012.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

E a igualdade caiu na folia!

O doutor Ubirajara dos Prazeres, ou simplesmente Bira, como era chamado por sua amada esposa e amigos mais chegados, era um respeitável pai de família, sujeito pacato e de natureza dócil. Um funcionário público exemplar da Procuradoria da Dívida Ativa do Município de Salvador há mais de quinze anos. E casado com dona Elvira, uma mulher que gostava de dar ordens e acostumada a ser obedecida, não apenas pelos serviçais domésticos, mas também pelos filhos e pelo fiel e obediente esposo, cujo temor à mulher era uma mancha em seu currículo, pois os amigos não admitiam como o homem que trazia o pão para a casa, pudesse ser tão submisso à esposa.

No entanto, Elvira tinha um bom coração e, por isso, permitia que o marido encontrasse os amigos às sextas-feiras depois do expediente na repartição, para a tradicional cervejinha com o jogo de palitinhos. Mas ele que não se atrevesse a chegar bêbado em casa, pois, do contrário, iria passar a noite, de castigo, no desconfortável sofá da sala. E como parte ainda de sua benevolência e compaixão, dona Elvira deixava que o marido brincasse, em companhia da turma de amigos de longas datas, a segunda e terça-feira de carnaval no baile noturno do Clube dos Fantoches, localizado no Largo Dois de Julho. Apesar de sua natureza sossegada, existia no âmago de Bira um folião inveterado.

Era o ano da graça do Senhor de 1965 e os carnavais daquela época eram uma divertida brincadeira popular com fantasias de pierrôs e colombinas, serpentinas e confetes, pulados ao ritmo de românticas marchinhas carnavalescas que se repetiam ano após ano sem nem nunca envelhecerem, e nos quais pobres e ricos misturavam-se sem preconceitos pelas avenidas e bailes noturnos até o raiar do sol. E não o poderoso e milionário empreendimento comercial que existe nos dias hoje, no qual o duro é apenas um mero expectador frustrado. Naquele ano, Bira contava os dias para cair na folia vestindo a fantasia de pirata que ele mesmo confeccionara a partir de uma camisa de mangas compridas velha e um chapéu de palha pintado de preto com um lenço vermelho amarrado em volta. Sua maior despesa naquela brincadeira, fora o investimento numa mamadeira infantil, na qual o rum Montilla foi despejado cuidadosamente com o propósito de animar a folia com seus vapores etílicos. E quando a noite de segunda-feira chegou finalmente, Ubirajara transformou-se num pirata de mentirinha e foi andando lépido e fagueiro do bairro de Nazaré, onde residia, até o Clube dos Fantoches, numa bela noite estrelada que prometia muita alegria e diversão sadia.

Mal entrou no pátio do clube, foi dominado pelo frenesi provocado pelas marchinhas tocadas pela tradicional e famosa Banda do Maestro Tabajara e Companhia. O pacato Bira então se transformou num homem faceiro e divertido, proporcionalmente às vezes que levava a mamadeira vitaminada à boca. Juntou-se aos amigos queridos e caiu na folia noite adentro.

Naquele baile os homens se fantasiavam alegremente, mas não usavam máscaras porque não era permitido, ao contrário das mulheres cujo uso do disfarce era uma tradição, assim como também o da fantasia bem caprichada. No meio da tradicional brincadeira do trenzinho, Bira pôs as mãos na cintura de uma mulata do corpo roliço que ia passando e de lá não as desgrudou mais a noite inteira. Dançou com a moça música após música sem cansar e se dar conta do tempo que parecia infinito. Quem via os dois naquele estado divertido pensaria que ambos eram par de longas datas. A moça tinha um requebrado e trejeitos que enfeitiçaram como nunca o folião Ubirajara, cujo comportamento, até então, diga-se de passagem, foi a de um cavalheiro. Dançou agarradinho de rosto colado com um sorriso melado, pulou marchinhas feito um adolescente, fez gracejos com aquela moreninha da qual só pôde apenas ver os lábios grossos e gordurosos, pois, como todas as mulheres ali presentes, escondia a identidade por trás de uma máscara colorida e enfeitada. Bira era só alegria, nada da chatice de repartição pública ou de receber ordens da patroa em casa, aquela noite era só sua e iria aproveitá-la como se fosse a última, pois prazer assim só ocorria uma vez por ano. No final do baile, quando os primeiros raios de sol despontaram no horizonte da Baía de Todos os Santos com suas manchas alaranjadas, a magia do carnaval daquela noite começava a desvanecer-se. O sonho acabara. Na despedida, perdeu a compostura, talvez causada pelo excesso da bebida barata, roubando da moça, apesar de sua resistência, um ardente beijo naqueles lábios do pecado e um aperto de tirar o folego, seguidos da promessa de reencontrá-la algum dia, quem sabe em outros carnavais.

Do Clube dos Fantoches, desceu pela Contorno com a turma de amigos fazendo algazarra feito uns moleques, e foram até o Mercado Modelo para rebater a ressaca com o famoso mocotó de dona Lurdes, cozido magistralmente na apertada cozinha de seu modesto restaurante, em suas panelas sebentas. Lá pelas sete da manhã, ao chegar finalmente em casa vindo da esbornia, entrou nas pontas dos pés e deu de cara com outra, se não o seu algoz que o aguardava mal humorada.

― Até que fim chegou o pé-de-valsa! Então, dançaste com uma fulana de rosto coladinho a noite inteira, heim, filho da puta! – bradou Elvira.

― E como você sabe? – admitiu com coragem, ainda sob o efeito maléfico da bebedeira.

― Ela acabou de me contar. Você dançou foi com a empregada! – disse apontando em direção da cozinha.

Chapada Diamantina, 18 de fevereiro de 2012.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Um tímido de sorte.

A timidez e a insegurança que sempre afligiram J.R. mantinha-o distante das mulheres, razão pela qual ele era um homem triste e solitário. Ao se interessar por uma jovem, em busca do amor, a agradável sensação de gostar de alguém logo se transformava em frustração e amargura, pois lhe faltava coragem suficiente para aproximar-se da moça para cortejá-la com gentis palavras. Esta sua completa falta de habilidade para conquistar o sexo oposto, roubava-lhe a oportunidade de, pelo menos uma vez na vida, experimentar esta coisa de que tanto falam, que é amor.

Certo final de tarde de um bonito dia de verão, no caminho andando de todo dia para a padaria, J.R. passou em frente à agência de passagens do bairro e constatou encantado, ao olhar para o interior da loja através da vitrine, que trabalhava lá uma nova funcionária. Uma bela moça de formas curvilíneas no tronco e nos peitos, cuja pele era alva e os cabelos louros, destes que se vendem nas farmácias, em pó dentro de caixas. Vestia-se com roupas apertadas provocantes e era enfeitada com brincos e pulseiras cintilantes que alegremente lembravam uma árvore natalina fora da estação. Seu olhar era confiante e pelo jeito com mexia a boca sem parar, ele teve a impressão de que ela apreciava muito falar, embora de onde ele a contemplasse, lhe era impossível ouvir a sua voz, que ele a imaginava ser tão bela quanto a sua dona. J.R. logo se sentiu atraído por aquela jovem, pois, apesar de sua timidez e falta de autoconfiança, ele tinha uma tremenda queda por mulheres bonitas e parecia só se interessar por estas. Quem sabe se as suas pretensões fossem mais modestas, ele conseguisse conquistar o coração de uma jovem pobre de atributos físicos, uma vez que ele próprio não era nenhum príncipe.

Desde aquela memorável tarde, J.R. fazia questão de ele próprio ir comprar o pão de sua casa, além das outras vezes que inventava desculpa para passar em frente à loja de passagens só para ter a chance de admirar a bela moça. Às vezes ele parava em frente à vitrine fingindo estar lendo um cartaz de propaganda de pacotes de viagem, quando, na verdade, seus olhos não desviavam da jovem que ele comia com os olhos apaixonados. Não demorou muito, no entanto, ela percebeu que tinha um admirador que ficava lhe espiando com um olhar de peixe morto ou coisa parecida. No entanto, o acanhamento de J.R. era tal que ele nem mesmo jogava-lhe um sorriso ou aceno para marcar presença.

De início, a moça não lhe deu importância, afinal estava acostumada ao assédio masculino que, por sinal, lhe inchava de vaidade, mas como J.R. não ousava entrar na loja com desculpa alguma para lhe falar, aquele seu jeito insistente de ficar apenas olhando para ela começou a lhe dar nos nervos. Passou a irritar-se ao vê-lo do outro lado da vitrine, espionando-a sem dizer ou fazer coisa alguma. Até então, ela fingia não perceber nada, ignorava os seus olhares. Mas um dia perdeu a paciência e o encarou fazendo uma careta de dar medo e esbravejou ensandecida, mesmo sabendo que ele, do lado de fora da loja, jamais a escutaria. No entanto, aquele gesto hostil foi o suficiente para afugentar o medroso J.R., que resolveu não mais dirigir-lhe o olhar, tanto por receio, como por ter se dado conta de seu inconveniente comportamento.

J.R., no entanto, manteve a sua rotina diária de ir comprar o pão no final da tarde, mas não mais olhou em direção à loja de passagens e evitava passar em frente. No entanto, aquele seu sumiço não foi ignorado pela moça. Vez por outra ela desviava sua atenção do serviço para dar uma espiada para o lado de fora da vitrine sem, no entanto, encontrar mais os olhares do pobre J.R. Aquele súbito desaparecimento de seu admirador taciturno causou-lhe melancolia, pois, embora ela se incomodasse com o olhar de peixe morto do rapaz, passou a sentir falta daquela intromissão à sua privacidade, e procurava por seus olhos com ansiedade. Ela não conseguia mais se concentrar no trabalho porque ficava toda hora de olho no lado de fora da loja. Impaciente, ia até a porta da agência e olhava para os lados com a angústia de quem esperava o carteiro que demorava trazendo uma importante encomenda. Ela até tomou o cuidado de ir para o trabalho com roupas mais curtas e provocantes, caprichou no visual, mas nada disso serviu para atrair de volta o J.R. Que fim teria tido ele?

Para a sua surpresa, certo dia, J.R. reapareceu. Passou apressado em frente da agência em direção à padaria. Ao vê-lo, foi assaltada de alegria e excitamento. E como ela já percebera que daquele mato não saía coelho, resolveu que já era hora de ela mesma fazer alguma coisa a respeito. Foi até a padaria encontrá-lo para tirar satisfações sobre o seu sumiço, e usando as artimanhas que são próprias do gênero feminino, provocou um encontro com ele na fila do caixa.

— Você sumiu de lá da loja, não foi? Desistiu de viajar, foi? – perguntou com um sorriso matreiro.

J.R. surpreendeu-se com a voz em suas costas e olhou para trás para confirmar se era com ele que falavam.

— Hã? – foi a melhor resposta que conseguiu articular, surpreendido ao ver a moça que tanto cobiçou com os olhos.

— Nós estamos com uma promoção quase de graça para o Resort da Praia do Forte, tudo incluído. É pra casal.

— É? – enrubesceu.

A moça percebeu a timidez do rapaz. Homem tímido lhe deixava louca de assanhada, que ela gostava de acabar com aquele acanhamento, de corromper o pobre tímido em safado.

— Pois passe lá na loja mais tarde, viu. Venha tomar um cafezinho comigo. Senti a sua falta esses dias, viu. Olha, eu estou louca pra ir à Paria do Forte nesse pacote, mas não encontro companhia...

O que seria do mundo se não houvesse moças bondosas e extrovertidas, dispostas a salvar de sua solidão, os tímidos e inseguros como o nosso amigo J.R., afinal, mulher que esperasse muito por uma ousada atitude de sua parte, certamente morreria na praia.

Salvador, 7 de fevereiro de 2012.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O lado high-tech da Chapada Diamantina

A Chapada é um desses paraísos ecológicos onde a natureza resiste intrépida aos avanços do homem, e o seu verde, a abundância de água e a sua flora maravilham os olhos até daqueles menos entusiastas pelas coisas da natureza. Tudo lá cheira a saudável e promissor, e é o lugar onde o homem urbano se comunga com suas origens e o faz se sentir um grão de areia no universo diante de tanta beleza natural. E, extrapolando os meus limites da racionalidade, se fosse eu um homem de fé, até arriscaria o palpite de que há o dedo de Alguém por detrás de tudo isso, que só o sobrenatural explicaria tanta exuberância.

No entanto, a pequena cidade de Lençóis, onde o homem pôs o dedo, e onde fiquei instalado, também padece daquele mal que eu pensava ser típico apenas de Salvador, onde impera a falta de bons modos e das boas práticas para o convívio social harmonioso. Os marmanjos nativos também andam de um lado para o outro levando na mão um aparelhinho eletrônico que, embora feito na China, parece só saber tocar pagode, e justamente o de pior qualidade, considerando-se que deve haver alguns exemplos primorosos desta tal forma de expressão musical erudita.

As pequenas geringonças tocam no mais alto volume possível, fazendo suas caixas bufarem de tanto esforço ao reproduzirem um barulho estridente e rouco de tanto gritar, como se estivessem a ponto de irem pelos ares, porque me parece que o uso do fone de ouvido foi definitivamente abolido, por ser considerado pelos seus usuários como uma prática antissocial. A ordem do momento desta moçada é compartilhar o seu gosto musical, goste você ou não de pagode. Não tenho nada contra o pagode ou qualquer outro estilo musical, desde que estes, ao serem tocados em espaços de uso comum e que não sejam em casas de espetáculos, não afetem a liberdade do outro e nem se tornem num caso de poluição sonora. Assim como os fumantes sofrem todo tipo de restrições, aos amantes de música deveria ser obrigado o uso dos fones de ouvido até debaixo do chuveiro.

Eu estava sentado na balaustrada em frente à rodoviária esperando o ônibus noturno que me traria de volta, a contragosto, para Salvador, quando passou um moleque miúdo de cerca de dez anos, de pele quase transparente e cabelos claros com as pontas tingidas de lilás e rosa tal qual eu tenho visto ultimamente, vestindo uma camisa do seu time de fé duas vezes maior que o seu tamanho e calças com os fundos na altura do tornozelo, uma figurinha, segurava a tal geringonça espalhafatosa colada ao ouvido. Ele caminhava devagar com a expressão compenetrada na música e vez por outra dava uma breve parada como se o ato de andar e ouvir ao mesmo tempo dificultasse a compreensão da letra. Tocava tão alto que eu cheguei a imaginar que o pagode fizera um estrago em sua audição. Gritei para ele com aquele meu humor sardônico que já me custou amigos porque eu perco a amizade, mas não uma boa piada “Aumenta o volume que o pessoal lá na praça também quer ouvir!” Ao que ele me lançou um olhar surpreso e depois de refletir um instante, me fez um sinal de agradecimento com o polegar direito e aumentou ainda mais o volume da coisa!

Rio Vermelho, 26 janeiro de 2012.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A Chapada é inesquecível, mas o nome de uma certa moradora, nem tanto.

Acabo de voltar da Chapada onde afoguei o calor miserável do dia em mergulhos nos caldeirões do Serrano cujas águas ferruginosas fazem ranger os dentes sob o sol a pino em pleno verão, uma delícia. E respirei natureza, muita natureza bebendo dela o seu sumo que me inspirou a elaborar o final de meu livro que “salvei” em minha cachola, só precisando convertê-lo em bytes no computador. E à noite dormi com o balanço da rede armada na varanda sentindo o sereno da floresta sob o brilho das estrelas que lá parecem brilhar com mais vida e generosidade. Trouxe de suvenir na bagagem apenas uma intermitente tosse de cachorro e uma infecção intestinal de me dar calafrios, e que ainda me farão, por alguns dias, recordar com saudades daquela semana de perfeita comunhão com a natureza.

Na Chapada, o ritmo de vida obedece às suas próprias convenções, que é a de não haver pressa alguma e aproveitar o momento. Por exemplo, no restaurante o garçom demora a aparecer para pegar o pedido, que demora a chegar à mesa e ao final come-se lentamente. E foi na hora do almoço que desci até a cidade à procura de um restaurante que oferecesse um tempero diferente. Subia a Rua das Pedras quando encontrei uma querida amiga de muitos anos que sempre me convida para ir a sua casa, no final da tarde, tomar um café com bolo de aipim que ela fará especialmente para mim, mas que ao chegar lá, o maridão já o devorou até as últimas migalhas. Mas o que me leva à sua casa mesmo é a prosa agradável, contento-me com a xícara do café colhido em seu quintal e com as fofocas e “causos” da cidade. Deu-me um abraço afetuoso e eu perguntei pela família. Enquanto nos queixávamos do calor cujo assunto é o favorito nas conversas de rua, superando as seguidas prisões do prefeito da cidade por improbidade administrativa, minha atenção foi distraída pela passagem de uma bela moça de corpo forte e saudável, dessas que se dizem que podem dar muitos filhos, usava um short de chita apertado que denunciava a redondeza das nadegas apoiada em dois pares de pernas grossas formidáveis. A moça devia fazer muitas trilhas pelo mato, pois tudo nela era músculo e saúde sem, no entanto, aparentar ser algum tipo de atleta. O cabelo preto era crespo e cheio amarrado para trás num coque. Minha amiga percebeu minha curiosidade e foi logo informando “ela está solteira há três meses”, ao que eu lhe perguntei “E cuma é o nome dela?” E foi neste momento que precisei pedir-lhe que me repetisse mais uma vez o nome da criatura, pois eu nunca ouvira nada semelhante antes nem aqui e nem em outro mundo.

Na Chapada encontra-se de todos os estilos de mulheres, desde a perua à bicho-grilo. E parece que o local também tem a propriedade de atrair pessoas cujos nomes são exóticos como se fosse próprio daquele fim-de-mundo acolher pessoas de nomes esdrúxulos. São combinações de nomes de astros com elementos da natureza ou nomes de alguma divindade indiana ou um vocabulário indígena. A alcunha daquela bela moça não se parecia com nada que eu já ouvira antes e cuja sonoridade tanto lembrava nome de personagem de revistinha em quadrinhos japonesa como nome de pomada milagrosa para combater fungo entre os dedos. Eu desisti de lhe pedir que repetisse mais uma vez o nome, pois a minha capacidade de memorizá-lo parecia limitada.

Minha amiga chamou pela moça que deu meia volta e veio sorridente ao nosso encontro e se apresentou com aquele nome incomum que não consigo fixar na memória. E logo fiquei sabendo que ela era a feliz proprietária de um restaurante ali perto, mas que naquele dia da semana, que não era feriado, não iria abrir as portas para o almoço porque ela achava que andava trabalhando muito ultimamente e isto estava afetando-lhe a sua qualidade de vida pois o que mais ela almejava era não ser escrava do trabalho e que felizmente a cidade dispunha de outros restaurante de modo que ninguém passaria fome por sua causa. Eu, por meu turno, pensei lá com os meus botões se a sua comida seria tão apetitosa quanto a sua pessoa. De qualquer forma, eu continuava sem lembrar seu nome e achei isto estranho de minha parte, pois tenho grande facilidade de lembrar nome de mulher bonita, mesmo aquelas que eu nunca tenha sido apresentado.

Terminei indo comer no mesmo lugar de sempre que é onde metade da população de Lençóis frequenta, inclusive a delegada e os forasteiros como eu, que é o Bode Grill, onde o cardápio oferece iguarias de dar água na boca como o ensopado de casca de jaca e a salada de palma, que é um tipo cacto da região muito usado para engorda do gado. No entanto, fui outras vezes até a porta do restaurante daquela bonita moça cujo nome me falha a lembrança e me pareceu que não havia um acordo entre o seu horário de funcionamento e a minha fome pois, sempre que eu aparecia ou este ainda não tinha aberto ou já tinha fechado, mas foi graças a isto que conheci outros estabelecimento de Lençóis os quais eu jamais havia posto os pés antes e a isto os concorrentes lhe são muito gratos.

Mas o mais incrível desta estória toda é que até a hora de fechar esta crônica eu não consiga me recordar o nome bizarro daquela moça, mas com certeza ela não se chamava Rumpelstiltskin.

Rio Vermelho, 17 de janeiro de 2012.

domingo, 8 de janeiro de 2012

As coisas simples da vida II ou minha coleção de geringonças engenhosas.

Como em todo verão, resolvi beber mais líquido na intenção de manter meu corpo bem hidratado para enfrentar as rigorosas temperaturas que tanto nos castigam, fazendo-nos derreter feito picolé. E para não ficar só na cerveja – água também serve para hidratar, mas não tem o mesmo gosto – resolvi tomar suco de frutas, mais precisamente o suco de laranja que é o qual eu mais aprecio.

Dei um pulo no mercado e comprei algumas caixas de sucos variados, mas ao prová-los descobri que eram intragáveis. Fiquei imaginando que aquilo só deve agradar ao paladar de quem jamais tomou suco algum de fruta fresca colhida no pé. Os sucos de polpa, também, não são muito diferentes, apesar do que dizem, não se comparam ao sabor do suco da fruta fresca. Não quero ser de um preciosismo, mas fico imaginando se estes sucos industrializados possuem realmente algum valor nutritivo.

Frustrado com as caixas e saquinhos congelados, resolvi eu mesmo fazer o meu próprio suco com frutas de verdade. Minha primeira providencia foi ir a campo comprar uma máquina de fazer suco e terminei adquirindo uma dessas últimas invenções que fazem suco de qualquer coisa, inclusive de frutas frescas. Custou uma pequena fortuna, dividida em tantas prestações que deixarei aos meus herdeiros a tarefa de liquidarem a fatura. E lá me pus a fazer experiências transformando em suco tudo que via pela frente. Asseguro-lhes, meus caros, que a combinação de suco de chuchu com jiló é ótima para provocar vômitos. Mas como minha preferência sempre foi o suco de laranja, comprei muitas delas na “barraca do crente”, nosso quitandeiro – já publiquei aqui uma crônica sobre a qualidade de suas filhas, e quando digo filhas não estou usando metáfora para me referir às suas frutas, que fique claro. – que lá, uma dúzia sai por menos de dois Reais. Era só descascá-las e colocá-las na máquina que aproveitava até os bagaços e o resultado era um suco de laranja encorpado, de cor viva e saudável e doce como o mel, sendo que esta última característica não advinha da propriedade da máquina e sim da qualidade da fruta. E passei a tomar suco de laranja no café da manhã, no almoço e no jantar, deixando a cerveja para os intervalos, nunca fui tão feliz com tão pouco.

No entanto, meu romance com aquela máquina extraordinária durou exatas duas semanas, pois devo admitir que era um pequeno martírio usar aquela geringonça. Cada vez que ia fazer um suco, eu tinha de encaixar variadas peças que se juntavam ao motor principal. Depois de ter o suco pronto, lá ia eu desmontar toda a parafernália e lavar peça por peça separadamente. A coisa dava tanto trabalho que roubava o prazer de se tomar um copo de suco de laranja, e me fez entender porque os sucos de caixa e polpas congeladas são tão populares. Desisti dos sucos e me concentrei na cerveja como única e prazerosa fonte de hidratação do corpo humano. Era só tirar uma lata estupidamente gelada do congelador e beber de gute-gute. Enfim, terminei depositando a dita máquina de fazer sucos no armário lá dos fundos entre a máquina de fazer hidromassagem nos pés e a de estimular o cérebro com ondas ultra magnéticas. Mais uma peça para o Museu da Inutilidade.

Quando um certo dia, lá ia eu no ônibus a caminho do shopping center comprar uma nova geladeira, numa parada entrou um desses vendedores ambulantes eloquentes. Este não vendia balas e petiscos como passatempo da viagem, nem canetas importadas a preços camaradas e nem pomadas que servem para curar de tudo ou água mineral gelada que mata o calor, e sim uma pequena peça de plástico de cor alaranjada, semelhante a um funil e que ele espetava numa laranja da qual extraia o suco apenas espremendo-a. Fiquei encantado. Existiria coisa mais simples e genial neste mundo? Além de tirar o suco da laranja prometia fazer fisioterapia nas mãos. Não dava trabalho algum, pois não era necessário montar peças, não consumia eletricidade, era só enfiá-la na fruta e espremê-la, e, para limpá-la, era só jogar um pouco de água e pronto! Esta relíquia custava só dois míseros Reais, e comprei logo uma dúzia para presenteá-la aos parentes, vizinhos e amigos que uma invenção tão maravilhosa dessas deve ser compartilhada.

Salvador, 7 de janeiro de 2012.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Conto de Natal ou de como gentileza gera gentileza.

Hoje é Natal e acordei bem disposto. E como não nevava lá fora, resolvi dar uma longa caminhada para queimar as calorias adquiridas com os excessos da noite passada, tendo me empanturrado de peru, panettone, frutas importadas, vinho, sobremesas e outras gulodices natalinas. Este ano, o meu amigo M.M. presenteou-nos com um maravilhoso peru assado, embora eu desconfie que aquele bicho fosse, na verdade, um filhote de avestruz. Estava delicioso, no entanto, e, devido às suas proporções avantajadas, provaremos uma variedade infinita de receitas com sobras de peru nos próximos dias.

Então fui fazer a minha caminhada natalina sob o escaldante sol de verão e lá pelas tantas aproximou-se um rapaz bem apessoado montado numa motocicleta, sem o obrigatório capacete. Usava um desses óculos escuros modernosos que fazem a pessoa parecer um besouro de ficção científica.

— Bom dia, senhor. Feliz Natal! – ele disse.

Eu gosto muito da cordialidade entre pessoas que não se conhecem porque isto me faz eu me sentir como um cidadão que vive numa comunidade onde moram pessoas civilizadas.

— Bom dia. Feliz Natal! – respondi.

— Isto é um assalto. – disse educadamente apontando um revolver do tamanho de um canhão em minha direção.

Ser assaltado nunca foi o meu forte e, por isso, não sei como me comportar em tais situações.

— Jura? Em que posso ajudá-lo?

— Passa a carteira. – respondeu o assaltante educadamente.

— Eu não trago carteira comigo quando venho caminhar. Tudo que tenho são cinco míseros Reais para tomar uma água de coco e pegar o ônibus de volta.

— Só isto? – pareceu aborrecido.

Eu tinha no pulso um relógio novinho em folha que Papai Noel colocou em meu sapatinho que deixei na janela do quintal, e que me custou uma pequena fortuna cujas prestações restantes ficarão como herança para meus herdeiros. Ele tem de tudo que você possa imaginar, inclusive mostra as horas e a data.

— E este relógio aí? Deve ser bem caro.

— Nem tanto. – tentei enrolá-lo, mas ele era um connoisseur de grifes caras.

— É muita imprudência do senhor andar por aí com um relógio destes, não sabe que a cidade anda cheia de assaltantes?

— Realmente, ouvi falar... Só não esperava encontrar com um deles justamente no dia do Natal. Minha mãe bem que disse para eu não sair de relógio, mas como sou um cabeça dura, não lhe dei ouvidos.

— O senhor deveria seguir os conselhos das pessoas mais velhas, elas sabem o que dizem. Como não tem dinheiro, vou ser obrigado a levar o relógio.

— Eu entendo o que o senhor está dizendo. Realmente, é muito desagradável fazer as coisas por obrigação. – disse-lhe despedindo-me do relógio.

Ele me examinou de cima a baixo e fixou os olhos no par tênis seminovo que eu usava, especial para caminhar e que promete queimar calorias, melhorar a postura e endurecer o bumbum.

— Vou levar o tênis, também. – informou o assaltante.

— Mas até os tênis? – disse retirando-os, pois não queria provocar a sua susceptibilidade.

Depois de me depenar ele ainda foi gentil.

— O senhor deseja uma carona para algum lugar?

— Obrigado, mas não quero desviá-lo de seu caminho, além do mais o senhor deve ter muito serviço pela frente.

— Realmente estou um pouco abafado. Esta época do ano, eu sempre trabalho dobrado. Dá próxima vez, tenha mais cuidado e feliz ano novo!

— Vou seguir o seu conselho. Feliz ano novo.

Ainda bem que desta vez eu não saí com a intenção de fazer fotografias usando a minha Cannon profissional!


Rio Vermelho, 25 de dezembro de 2011.